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A INDÚSTRIA DO LIVRO
E O RESPECTIVO CONSUMIDOR (*)
15-7-1989 - Cerca de 37 mil títulos disponíveis no mercado, encontram-se metidos no computador que a APEL tem à disposição do visitante para consulta na Feira do Livro.
À direita de quem entra na Feira do Livro, pelo lado do Marquês de Pombal, ergue-se o pavilhão, imponente, do Instituto Português do Livro e da Leitura.
No sentido de promover, exactamente, o gosto pelo livro e pela leitura, alberga-se lá dentro uma bateria de computadores, a que se entregam com afã as crianças que os pais ali deixaram, enquanto buscam nos pavilhões o livro do dia.
Esta promiscuidade do computador onde o livro devia reinar sem concorrências pós-modernistas, é exemplificativa do poder que tem a indústria mesmo que outra indústria se perfile para lhe fazer frente.
Conforme se sabe, na Alemanha Federal, aos quinze anos, um de cada quatro rapazes possui um computador. Nas raparigas, a proporção é de uma para trinta.
"Esta diferença de interesses - acrescenta a notícia - leva a que algumas firmas, que trabalham na área da informática, estejam , neste momento, a tentar estimular as raparigas através de bolsas de estudo e outros incentivos."
Valha-nos isso, que bolsas de estudo sempre são mais estimulantes do que as "bolsas de pobreza" a que se refere sempre, nas idas e vindas, o nosso Primeiro-Ministro, enquanto o nosso Presidente da República prefere antes falar em "manchas", as "manchas de pobreza" que ainda maculam o rosto da Pátria.
SEM CITAR NOMES PRÓPRIOS
Sem citar nomes próprios nunca serás ninguém na cultura, mas citando por citar, sem habilidade, vê-se logo o truque e não convence.
Se se trata, por exemplo, de "pós-modernismo", na Arquitectura, na Antropologia, na Sociologia, na Pintura ou na Literatura, é melhor não esquecer Walter Benjamin.
Umberto Ecco já foi chão que deu uvas, ainda que outros italianos possam agora estar na berra como Aldo Gargani, Franco Rella, Gianni Vattimo.
A propósito, Blanchot, Karl Popper, Lipovetsky, ainda estão na voga, mas E.F. Schumacher continua sem compradores e Ivan Illich, na Sá da Costa, não conseguiu vender os 2000 exemplares da 1ª edição.
A Relógio d’Água apresenta a 380$00, o que parece preço de saldo, uma das obras mais interessantes publicadas noa anos 80 em Portugal: um estudo arqueológico dos mundos estranhos, por Seomara da Veiga Ferreira, " As Aparições em Portugal dos séculos XIX a XX", prejudicada, face ao marketing, por uma capa obviamente infeliz e sem sentido, um "kitsch" de Nossa Senhora de Fátima.
Mas - pergunta-se - será que as boas intenções da cultura humanista, clássica, literária, não se pulverizam ao contacto de uma imprensa, onde se publicitam todas as formas de sucesso rápido, sem que nenhuma dessas formas passe, evidentemente, pela cultura mas tendo todas elas passagem obrigatória pela barbárie das novíssimas tecnologias?
O que eu vejo apoiado pelo Fundo Social Europeu e pelo Ministério do Emprego é um curso de "autómatos programáveis, automação em edifícios inteligentes, avaliação de impactos ambientais" e outras tramelices mais.
Porque há-de o jovem candidato a "autómato programável" queimar as pestanas com Deleuze, com Alain Benoit, com Manuel Maria Carrilho, com Miguel Serras Pereira, com Boaventura Sousa Santos, com Ernesto Sampaio, com Agostinho da Silva, com Moisés Espirito Santo, com Eduardo Lourenço, com Roland Barthes, com E.M. Cioran, enfim, com a nata do pensamento, se tem tão "boas perspectivas de emprego após o curso" e se, entre as regalias " reguladas por contrato de formação" se incluem subsídios de formação e de transportes?
Mais vale ser "autómato programável" um dia, do que leitor de Agostinho da Silva toda a vida.
GENÉTICA APLICADA À BIOTECNOLOGIA
E o que tem a ver, por exemplo, com o pensamento, a cultura, o timbre mental de alguém, a não ser por contraste brutal, um curso de mestrado em "engenharia bioquímica, engenharia enzimática, tecnologia de fermentadores, genética aplicada à Biotecnologia" e outros primores!
A prolixidade de Alan B1oom e as tortuosidades do seu estilo (transcritas para a tradução portuguesa, segundo tudo indica...) não conseguem pôr água nesta fervura. Apelar aos clássicos em tão pastosa prosa, e tão prolixa, tão prolixa, inutiliza a força do apelo, ainda que os americanos tivessem feito dele um best-seller.
Ou, talvez por isso, Alan Bloom se torne ainda mais suspeito.
Está na moda discutir (ou fingir que se discute) a moda, mas logo a moda pode passar e lá ficam por ler, por comprar, por folhear, alguns títulos que já estavam engatilhados na minha lista a conselho do Dr. Beja Santos: Gillo Dorfles, "A Moda da Moda" , "Oscilações do Gosto" , "Psicologia do Vestir" ou, aspirando mais alto, Marc-Alain Descamps.
Mas como a moda dá a volta e volta todos os anos, pode ser que pró ano... eu já consiga estar na moda no que respeita aos livros sobre moda.
Ortega y Gasset , um autor que eu julgara definitivamente na prateleira do marketing editorial, devido ao "vitalismo" e desde que se assimilara com o "racismo" nacional-socialista, eis que volta a estar em voga, começando a ser publicado, inclusive, na URSS.
E eu, que já jogara fora as edições de que ainda tinha dele na minha estante, lá terei que fazer encomenda da novidade ao Círculo de Leitores:
A desproporção abissal entre o tempo que a engrenagem nos deixa disponível para dedicar à leitura e a literatura que todo os dias as exigências do mercado fazem crescer, em torno de nós, até ao céu, eis a questão que os académicos da cultura nunca colocam, ainda que seja a questão central.
Por exemplo: quando irei ter tempo para ler um só dos 70 milhões de exemplares que José Saramago já tem vendido dos seus best-sellers?
E os outros, todos os outros best-sellers, não terão igualmente direito a ser lidos e eu a lê-los?
Digam-me lá, então, se a cultura tem ou não a ver com a luta de classes e se alguém, esfolado de manhã à noite,- democraticamente esfolado, - não tem ainda o dever de ser culto e de andar a par de todas as modas e de todos os best-sellers?
II
Corolário da velocidade, em matéria de mercado cultural, é a proliferação do lixo. O que cada dia se produz, cada dia se consome e cada dia se deita (as cascas) fora.
Na sua necessidade de produção em série, a indústria cultural (livro, filme, vídeo-clip, quadro, disco, compact) obriga-se à mesma proliferação diluviana ou cancerígena que se verifica nas outras indústrias.
Avaliam-se em 2500 os títulos editados actualmente em Portugal e no computador da Feira do Livro encontram-se referenciados 37 mil títulos disponíveis em todas as editoras em actividade no mercado português do livro.
Se o afã da escolha já se coloca em relação a 2500 títulos, que se dirá dos trinta e sete mil?
E se, ao livro , juntarmos o disco, o filme, o vídeo-clip, a peça em cena, o concerto, a noite televisiva, será que a chamada "indústria cultural" existe para um consumidor real ou para um mítico consumidor?
Em qualquer destas actividades, se se fizer um colóquio sobre a "política do sector", só se ouvem queixas e lamentações. O Estado não faz, o Estado devia fazer, a Comunicação Social não corresponde, o Consumidor é um sorna.
Solicita-se a atenção (até para os colóquios se exige público), reivindica-se o interesse do consumidor que tem de se desdobrar, não o esqueçamos, em telespectador, em espectador de cinema, em auditor de concertos, em ouvinte da rádio, em leitor de livros (mas também de diários e semanários, não o esqueçamos), em suma, em consumidor de cultura, de toda a cultura que a indústria produz e que aí está no mercado para ser consumida, queira o consumidor ou não queira, irra!
Os meios com vocação reprodutora (jornais, por exemplo) apelam, entretanto, para o consumo dos produtos que se vão produzindo, não só no mercado português mas nos outros mercados, considerados (alguns) os que ditam a moda e a lei.
Não saber o que manda vir o último "Magazine Littéraire" é pecado mortal para qualquer consumidor de cultura.
Não tratar por tu os nomes hoje na berra - Lipovetsky, Baudrillard, Lyotard - , ou os que estiveram ontem - Lacan, Deleuze, etc. - , ou os que estiveram anteontem, - é falta imperdoável e revela um mau consumidor de cultura, pouco actualizado, pouco informado, pouco lido.
Mas os centros de decisão que decretam a moda cultural do dia, são vários, além de Paris, pelo que o consumidor tem que estar atento ao que vem de Nova Iorque, Milão, Madrid, Barcelona.
O consumidor deve estar atento e ler tudo o que se publica em cada um dos centros indicados, fazendo assinatura anual das principais revistas culturais que aí aparecem.
E quantas línguas, além da indígena, não tem o consumidor de cultura, hoje, que dominar para não fazer figura de provinciano?
E quantas centenas de palavras do vocabulário técnico, desde "sintagma" a "semiologia", não tem ele que conhecer, na ponta da língua, para não fazer figura de parvo?
SOMOS TODOS UNS HIPÓCRITAS?
Felizmente que temos, entre nós, intelectuais que nos facilitam, em comprimidos, este acesso às grandes novidades da moda literária, da moda filmica, da moda-vestuário, da moda filosófica, da moda-canção, da moda-ideologia.
Mas será suficiente? Será que cabe tudo num hebdomadário para um consumidor lhe confiar assim a sua cultura?
Será que nos chega a cultura mastigada por Eduardo Prado Coelho, o maior devorador de cultura universitária que se conhece'' que humanitariamente nos devolve depois, tudo o que comeu, em artigos, de fino recorte literário?
Mais: será que podemos, até ao fim desta grande farra, levar a cultura a sério?
Será que lemos mesmo todos os best-sellers que ajudamos a fazer - ou será que somos todos uns hipócritas?
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(*) Este texto de Afonso Cautela, aparentemente conjuntural mas realmente de fundo, terá sido um Crónica do Planeta Terra falhada ou apenas auto-censurada, com a boa desculpa da extensão...♠