1-3 sexta-feira, 21 de Novembro de 2003<lidel1-md-ls-at-ce> - mein kampf 1998

BIOLOGIA DA CÉLULA E NEUROSE DE ACUMULAÇÃO

OU A LÓGICA DE DOMÍNIO DA CIÊNCIA MODERNA

«O rei vai nu!» - gritou a criancinha quando passava o cortejo real

25/ Novembro/1998 - Publicado em Outubro de 1997, pela Lidel, e dirigido por Carlos Azevedo, do Laboratório de Biologia Celular, do Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar, a obra colectiva «Biologia Celular», já se encontra, neste momento, às 19.30 do dia 24 de Novembro de 1998, irremediavelmente desactualizada.

Já deveria estar cá fora uma nova obra colectiva de 37 autores que abordassem os 37 novos aspectos investigativos sobre a «membrana celular», segundo capítulo dos 35 capítulos desta obra colectiva.

Mas outra obra, obrigatoriamente colaborada por 37 especialistas, já deveria, neste momento, estar publicada para tratar os novos descobrimentos feitos na «especialização da membrana celular», matéria do terceiro capítulo desta obra que tem 35.

E assim sucessivamente. Exige-se, já, uma obra colectiva de 37 personalidades para cada uma das novas subdivisões em que as 37 divisões de agora irão ser subdivididas: matriz extra-celular, membranas basais, transporte transmembranar, ciclo celular, organização estrutural do núcleo, cromatina e cromossomas, replicação do DNA, expressão dos genes, nucléolo e transcrição dos r RNA's, citoesqueleto, microtúbulos, mitocôndrias, vesículas e vacúolos na endocitose, ribossomas, retículo endoplasmático, biosíntese de proteínas, complexo de golgi, lisossomas, peroxissomas, cílios e flagelos, espermatzóide, óvulo e fertilização, pigmentação melânica, substâncias de reserva, mitose, meiose, neurónio, contracção muscular, macrófago, imunofisiologia do linfócito, célula neoplásica, célula vegetal, célula procariótica, sem esquecer que tudo isto são capítulos da dita obra e que a dita obra é apenas sobre «Biologia Celular».

Ficam de fora, portanto, algumas outras ninharias biológicas, cada uma, uma ciência, a saber e por ordem alfabética:

De todas estas ciências biológicas espera-se, com urgência, uma obra colectiva para cada uma delas, onde 37 especialistas tratem de trinta e sete subdivisões que de cada uma dessas ciências já hoje de certeza se obtiveram.

Porque não esqueçamos: a ciência anda à velocidade da luz e os novos descobrimentos feitos, todos os dias, em todas estas ciências e suas subdivisões, sucedem-se em cadeia ininterrupta.

O citoesqueleto, a membrana, o vírus, enfim, cada subdivisão é um mundo que deve ser analisado até ao cagagésimo de milímetro. A tendência para dividir, subdividir e subsubdividir é irreversível e define o progresso das ciências.

Não há outra maneira de avaliar a massa molecular deste livro que não seja a estatística. Ininteligível da primeira à ultima linha, só a estatística o pode definir:

Amanhã de manhã certamente que esse número (de capítulos e de especialistas) terá duplicado, depois de amanhã terá triplicado, depois de depois de amanhã terá quadriplicado.

O obsceno e absurdo - o absurdo obsceno ou o obsceno absurdo - não é este livro, é que este livro já esteja irremediavelmente desactualizado, porra!

O que é inadmissível em ciência.

Ou seja: é impossível haver hoje (de manhã, às 11.30 minutos) um só autor que domine os 37 capítulos do conhecimento científico da célula.

Por isso o Prof. Carlos de Azevedo (brincas!) achou conveniente convidar 37 mânfios para o fazer.

Desta obscenidade chamada progresso das ciências conheço duas vítimas :

Por mim, sou o único a gozar com o espectáculo, embora confesse que a pornografia não é muito do meu agrado.

E, já agora, aproveito para comparar este bem elaborado manual de meditação transcendental sobre a célula com alguns livros irremediavelmente desactualizados e que ainda caí na asneira de ir comprar ao alfarrabista, pensando que servissem: por acaso o discurso ainda é legível e compreensível a uma inteligência média.

Impossível. Não servem a um curso universitário. Para um curso universitário é preciso que o discurso fale bengalês, que é língua exótica em que falam estes 37 especialistas em apreço.

Nesse remotos antepassados - os livros de biologia que eu pensava que servissem - ainda a bota ligava com a perdigota e ainda a ciência biológica primava por dizer coisas coerentes sobre a coerência do fenómeno vida.

À medida que se recua no tempo, os manuais e tratados aumentam de coerência. E o equilíbrio mental do discurso também. Chegando ao livro de Ciências Naturais da 3ª classe, tudo parecia coisas vivas e de gente viva. Até parecia que as ciências naturais eram uma coisa gira . Pelo menos havia o tal equilíbrio entre vida e ciência, equilíbrio que de todo desapareceu desta obra-prima de especialidade biológica que é o livro da Lidel repartido por 37 autores, para cada um dos 37 capítulos, partes, sub partes, divisões e subdivisões em que a célula deve ser analisada.

Perante este espectáculo de pura pornografia e perante este caso típico de neurose de acumulação, agravada em psicose delirante, torna-se evidente que a convergência holística das ciências - que um curso de Naturologia em princípio visa - é uma batalha perdida.

Comparando o grau de especialização a que chegou a biologia da célula, com o grau de especialização da Bioquímica, é inegável que a Bioquímica ainda não progrediu tanto e mantém por isso alguma coerência mental interna.

Mas já avança bastante para o delirium tremens da subdivisão, delírio em que se encontra muito contente a Farmacognosia.

Se só com a biologia celular, a reunificação holística já era uma batalha perdida, o que não será se multiplicarmos a psicose acumulativa da biologia com a neurose acumulativa da bioquímica, com a neurose acumulativa da farmacognosia, com a neurose acumulativa da botânica, com a neurose acumulativa da anatomia.

O resultado desta acumulação de acumulações só pode ser um: ecléticos especialistas em Holística que deverão fazer a síntese (impossível) de todas estas neuroses e acumulações.

Ou seja: a ciência universitária, exclusivamente interessada no seu prestígio e nos seus prémios Nobel, empenha-se, neste momento, em produzir monstros em cadeia quando era suposto produzir:

- bons e bem preparados seres humanos capazes de ajudar os seres humanos a livrar-se de todas as doenças de acumulação, ou seja, do cancro.

Perante o excesso de todos os excessos, a epistemologia talvez tenha que rever o seu estatuto de consciência crítica das ciências.

Também ela foi excedida pela lógica do especialismo, pela psicose da subdivisão, pela neurose acumulativa, pelo delirium tremens do particularismo.

E não poderá ser a instância suprema capaz de pôr ordem nesta bagunça, no caos dos conhecimentos particulares.

Criticar a ciência e os cientistas já não chega. É preciso prendê-los a todos e dar-lhes uma grandessíssima carga de porrada.♥♥♥