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11-10-1994

NÃO SE PODE SER PODEROSO GRATUITAMENTE

A BENEFÍCIO DE INVENTÁRIO

Como aquele freirinho do século XII, chamado Álvaro Pais, sabia da grande sabedoria e como já intuía, com o feeling místico dos freires, o que nem hoje os mais espertos percebem: que tudo se paga, tostão a tostão, neste mundo. E quanto mais pesada é a barca, mais pesado o castigo. Como ele, freirinho esperto, já sabia a arte literária do inventário e como ele enumerava, seguro, erudito, solícito, castigador e vingador, lambendo-se, os vários e notórios cabrões que a História conheceu, e vomitou. Fóra os que ele, freirinho matreiro, não enumera:

[ ver fotocópia junto]

Cabo, 9.7.1992

E o Bokassa? E o Hitler? E o Mussolini? E o Bush? E o Ronald Reagan? E o Dono do Mundo? E o Rei da Cucolândia? E o Dr. Mário Soares? E o Dr. Cavaco Silva? E o Alexandre Alves? E o Jardim? E o João Salgueiro? E o Miguel Cadilhe? E o Álvaro Barreto?

(...)

O Poder atrai e amplia a força do Karma. Quem acumula poder atrai sobre si as forças cósmicas e telúricas em turbilhão («la voragine»), fica à mercê dos raios ultravioletas como qualquer pobre diabo que cai na asneira de ir bronzer-se para a praia.

Tal como afirmava, sabendo o que dizia, o frei Álvaro Pais, no século XII, o pobre paga as custas de ser pobre e o Rico paga as custas de ser Rico, e o super-rico paga as custas do super-rico. Ninguém fica a dever na contabilidade da ordem cósmica, como ensinou, da sua cátedra de São Petersburgo, o franciscano avant la lettre que foi S. Francisco de Assis, santo muito depois de ser francisco.

Não se pode ser poderoso gratuitamente - esta é que é essa. Essa é que é esta! «Eles que esperem pela pancada» - dizia Frei Álvaro Pais, que de pancadas e pancadarias sabia alguma coisa, mais tarde exarada em acta pela Mesa do Santo Ofício e seus benefícios inquisitoriais.

Cabo, 8.7.1992