1-2 terça-feira, 10 de Dezembro de 2002 - <61-09-20-ls-fi> 5176 caracteres <kafka><ficcoes>

KAFKA VISTO

POR UM PSIQUIATRA PORTUGUÊS

TODOS OS CUIDADOS SÃO POUCOS

COM A VIDA ÍNTIMA DE KAFKA

Tavira, 20/Setembro/1961 - Kafka foi celibatário, um incorrigível celibatário.

«Sísifo também era solteiro» defende-se ele em determinado passo do seu Diário. E se a explicação desses misantropos está na sua misoginia, a de Kafka não teve outra origem. Não passou de um Misógino com medo às mulheres e sem coragem de se assumir; todos os casamentos se lhe frustraram e não há sinal de ligações femininas, regulares ou esporádicas, no seu «Diário» (1910-1923).

A explicação dessa (de Kafka) e outras vozes do Fracasso (Fernando Pessoa, Sá Carneiro, Samuel Beckett) é sempre e apenas erótica, ou antes, a ausência de vida erótica.

«Faz amor e acabam-se os problemas - eis a fórmula que na minha opinião de psiquiatra devia ser receitada a esses doentes, ensinada a todos os infelizes que se arrastam na vida sem saber o melhor que a vida tem. É a formula para Misantropos e outros desmancha-prazeres que não conseguem encontrar piada alguma neste mundo de dois sexos.

Não se sabe, aliás, até onde foi Kafka nesse campo. O pudibundo do seu amigo Max Brod («odioso Max Brod» assim o classifica Georges Bataille) se alguma coisa houvesse, tê-la-ia retirado cuidadosamente, a avaliar pelo que declara no Pósfácio aos «Diários» que compilou, datado de Telavive (de onde havia de ser?), 1950: «Omiti anotações que me pareciam demasiado íntimas».

Omitir anotações demasiado «íntimas» na compilação de um diário não se deve confundir com «censura prévia». Quando se trata de coisas tão desagradáveis (tanto mais desagradáveis quanto mais agradáveis) à moral corrente (que afinal decide sempre com a Igreja nestas encruzilhadas póstumas) de facto todos os cuidados são poucos

A filosofia ultra-niilista de Franz Kafka tem uma origem precisa indiscutível: a vida erótica frustrada, a sua falta de relações normais com mulheres e (não se sabe ao certo) a provável ausência de relações sexuais em geral. O «medo, a vergonha e a tristeza» impediram-no, possivelmente, de procurar esta última solução, que seria também a única saída para o Nada onde viveu e morreu. depois do Nada, só o Amor. E Kafka teve medo do sexo.

Mandam os bons costumes respeitar o biografado e não entrar em pormenores da sua vida erótica, quando há suspeitas de perversão. Se ele na obra nada deixou transparecer, deverá o biógrafo guardar religioso silêncio. Opondo a sociedade, ou os órgãos representantes da sociedade, uma interdição tão feroz, é possível que o biógrafo, ainda que queira, não encontra documentos nem vestígios comprovativos. Apenas indirectamente é possível saber o que houve, sem falar já do que o biografado tenha feito e escrito no sentido de despistar futuras e póstumas pesquisas, ou até de se despistar a si próprio.

Nos casos de abstinência sexual, aquilo a que o biógrafo de boa vontade poderá chamar «castidade» ou «sublimação dos instintos», o mais que se pode afirmar é que não constem dos hábitos do biografado relações sexuais, quer com o mesmo quer com o sexo oposto. Isto não autoriza nem desautoriza a suspeita de inversão, que pode ser aliás puramente psíquica. Se não consta que tivesse práticas homossexuais, sabe-se todavia que as relações com mulheres, ou não existiram ou se frustraram. Além disso, quantas formas há de desviar factos para o poço sem fundo de equívocos tais como « amizade fraterna», «companheirismo», «camaraderie» e mesmo «amor platónico».

Regra geral, o diagnóstico é muito reservado e cifra-se nestes termos vagos: o vazio da obra do escritor X dever-se-ia ao facto de não haver mulheres na sua vida... A sua desgraça foi não poder fornicar. O não poder com F, entende-se em dois sentidos: por incapacidade do Sujeito analisado e pelas proibições postas ao amor ilícito ( de ordem legal, moral, etc). Ele talvez pudesse amar, tinha era medo. A sua solidão talvez não tivesse uma origem patogénia, incurável, irremediável. Simplesmente, o medo à condenação pública, o medo de infringir a moral e encarar as represálias, a auto-censura instalada, o «refoulement» de tendências pecaminosas e impulsos vergonhosos, a má língua pública, podem muito, podem tudo.

Não há dúvida que há um paralelismo muito evidente entre a vida sexual frustrada de alguns escritores e a atmosfera de Fracasso que a sua obra respira. Kafka, Kierkegaard, Proust, Fernando Pessoa, Sá Carneiro são casos bem conhecidos de abstenção sexual e simultaneamente consciências de uma frustração na consciência contemporânea.

Para o escritor, o problema de práticas de inversão põe-se com a acuidade que não se pões a outros artistas e ao homem comum. Escritor é, por fatalidade, o que publica, o que se torna público. Terá que fazer uso da sua experiência humana no que escreve. E publicar, tornar público práticas e vestígios de práticas tão inconvenientes e tão odiadas pela sociedade normal, é cair em desgraça. Aqui principia todo o processo de «refoulement» observado pelo psicanalista, de autocensura aos impulsos do instinto e da vontade, e no caso de «cair no mal», a lista dos remorsos, receios, a preocupação de ocultar as práticas viciosas, ou de não reincidir nelas.