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       ROMANESCO

E RELAÇÕES HUMANAS

15/Março/1991 - É possível contar histórias sem dizer e para não dizer nada. Absolutamente nada. Acontece na maioria dos seriais da TV, feitos para esvaziar os cérebros, enquanto ocupam o espaço-tempo do consumidor, o distraem de actividades mais críticas, produtivas ou revolucionárias. Enquanto o alienam de modo que lhe fique uma única actividade vital: a de consumir, consumir e consumir.

Mas quando a «história» diz alguma coisa, ela fundamentalmente serve para formular, em termos reaccionários ou progressistas, estáticos ou dinâmicos, complexos ou simplistas, o mundo das relações humanas.

Portanto e se a chamada «ficção» interessa a uma concepção exigente da literatura, é apenas por aí: porque pode, de uma maneira ou de outra, dar um contributo ao conhecimento do homem, mais concretamente das relações humanas, quer as que existem no que têm de lamentável, criminoso, anárquico e anacrónico, quer as que poderiam existir num mundo diferente, a imaginar, a criar, a construir.

«Contar histórias» pode ter assim uma função muito importante no processo de emancipação humana, denunciando o racismo de certas relações ou o aspecto humanizante, prospectivo e revolucionário de outras.

Disse a palavra: «revolução». E vê-se como a «revolução cultural» tem, a esta luz, um significado claro, concreto, definido. O que fundamentalmente se jogava com as revoluções culturais conhecidas (passem-se elas na China ou na França) é um novo tipo de relacionar os homens entre si.

Verificado que a política e a Economia, mesmo quando revolucionárias, nunca são totalmente revolucionárias e não faziam só por si a revolução, veio a chamada «revolução cultural» que significa assim a revolução humana, a revolução moral ou a revolução no campo das relações humanas.

Assim considerado, vemos também que não é difícil classificar de revolucionário certo tipo de comportamento e de actuação que, à margem das sociedades organizadas, ensaia, tenta, pesquisa, pratica um novo tipo de relações -- principalmente jovens desiludidos com o mundo de alienação afectiva que herdaram e a que a abundância económica não responde ou compensa.

Esses jovens dissidentes tentam fundar a Nova Utopia que é apenas um mundo e um espaço onde o amor seja possível; onde o impossível seja possível. Quer dizer: as comunas «hippies» são, ao mesmo tempo, a prova do fracasso de uma política sem antropolítica e a prova de que a revolução complementar está feita por um dia, talvez próximo, a outra revolução dela se aproveitar e dela beneficiar, caminhando então as duas para o mesmo fim. Utopias...

Por tudo isto se vê como é precário todo o critério crítico que não arranque da verdadeira fonte e da verdadeira raiz, do que importa e que são as relações humanas.

Por isso se vê como às vezes um filme que aponta soluções «morais» (relativas a situações humanas) extremamente reaccionárias pode ser considerado um bom filme por críticos que julgam poder falar de vanguarda só em função ou da análise económica e de luta de classes (academismo de esquerda) ou de processos estilísticos e técnicas formais (academismo de direita).

Vanguarda é e só pode ser «revolução cultural», contra-cultura e só quando o fundamento das relações está posto em causa - em um filme, em um romance ou seja em que raio de história e de historieta for -- pode considerar-se algo mais do que um divertimento e uma diversão da indústria para (nos) adiar a Revolução.

Repare-se que essa formulação dos fundamentos pode ser crítica, agónica, apocalíptica e a maioria das histórias realistas são isso: a constatação, por vezes paroxística, de um horror, de uma abjecção, de uma violência concentracionária que é, ainda, aquela na qual mergulhamos e vivemos. Realista é isso: não pressupor mas verificar, não imaginar mas descrever mais ou menos estática ou mais ou menos criticamente a realidade dada.

Simplesmente e conforme insistiam alguns slogans de Maio 68 -- «Sede realistas, exigi o impossível», «a imaginação no poder» - a revolução cultural começa com a proposta do impossível, de uma nova utopia e o realismo deixou de ser uma verificação do dado passado - inerte, estático -- para ser um desafio ao futuro, aos factos e dados a construir, porque é o que a imaginação já começou a criar. Repare-se que a oposição posta aos contestatários vem, principalmente, desse horror à utopia, à imaginação, ao possível impossível, que caracteriza um realismo de via reduzida, realismo que é ainda o único critério, na melhor das hipóteses em curso, a comandar os críticos de filmes e os contadores de histórias que esses filmes contam.

Filmes, romances, novelas ou o raio que os parta.