1-2 - <imaginação-3 > <70-05-28-ls> leituras do afonso - terça-feira, 29 de Abril de 2003- novo word

CAMPO GENERALIZADO

IMAGINAÇÃO = DIALÉCTICA

28-5-1970

Há campos do comportamento onde não é difícil aceitar a imaginação como sua raiz: considera-se, tradicional e limitadamente, que a imaginação é atributo, mais ou menos, de poetas, de artistas, de escritores (em sentido estrito de ficcionistas), às vezes de místicos ou de filósofos (e os de muita ou apenas alguma imaginação adregam logo de ser suspeitos, e a ficar proibidos de figurar nas catálogos dos respectivos professores do ramo). Sempre, em tais campos, com seu quê depreciativo.

Onde difícil se torna aceitar a imaginação como raiz e motor é na ciência na acção prática e política, na pedagogia, na vida quotidiana, enfim, nas sectores além das artes e das letras. E, no entanto, a imaginação parece aí tanto ou mais legítima, tanto ou mais necessária. Só se não dá por ela, só se faz tudo por não dar por ela.

Nas ciências humanas, por exemplo, pouco se avança sem um certo visionarismo de princípio, sujeito embora e posteriormente às correcções do juízo racional. Só que, na maioria das vezes, em nome do racional se exerce discricionariamente a tirania escolástica e dogmática de qualquer irracionalidade remastigada.

Quer dizer: não existe mesmo actividade racional e raciocinante - caso seja mesma actividade - que verdadeiramente mereça o nome de criadora, sem imaginação. O resto, digamos 80 % do que se escreve (ousemos esta percentagem e que faça os descontas quem tiver números estatísticos) é ruminação, directa ou disfarçada, de criações anteriores. Repete, pasticha, reproduz, reconstitui, copia.

Se alguma coisa se propõe, nestas páginas despretensiosas mas ambiciosas, é o primado da imaginação e o conhecimento das leis que governam a criação nos diversos ramos da cultura, por quem e onde quer que se exerça uma actividade de análise crítica.

IMAGINAR NÃO É FÁCIL

28/Maio/1970

Só a imaginação salva do desespero. Só na utopia (temperada embora por todo o bom senso do mundo!) a crítica de uma abjecção estabelecida reencontra o termo sequente e consequente. Só no futuro pode fazer, de novo, finca-pé aquele que apenas na revolta encontrara caminho.

Por isso a imaginação é revolucionária, é mesmo a virtude revolucionária por excelência. E, como tal, nada fácil. E não pode, não deve confundir-se com quimerismo sentimental, com fantasia arbitrária, com devaneios líricos ou oníricos.

Por isso o lirismo da literatura portuguesa não garante em nada (antes pelo contrário) o nosso génio imaginativo, poético, criador.

"Sonhar é fácil" - diz, na linha desse convencimento lírico que significa abdicação e desistência, um senso comum estereotipado.

Ora, "sonhar", depois de conhecer e reconhecer toda a extensão da realidade e sua horrenda face, não é reproduzi-la nem é fuga dela nem escapismo melodramático e foto-novelesco: "sonhar" é a mais difícil das tarefas que se propõe ao desiludido, ao céptico, ao pirrónico e candidato a suicida.

Na difícil imaginação e só nela - na recriação total da realidade, a partir da sua destruição crítica -, na imagem antecipada, no projecto planeado, no por fazer, reencontra de novo a esperança o desesperado, e o suicida a vontade para continuar vivendo. Quer dizer, imaginando e re-criando a vida, transformando o mundo.§