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JUSTIFICAÇÃO (POLÍTICA)

DO HUMOR NEGRO (*)

 

4-11-1969 - Se já muitos observadores, a principio renitentes, aceitam os autores do absurdo ou do irrisório, incluindo‑os no entanto sob a designação de vanguarda ‑ onde os colocam por comodidade de exposição... ‑,mais difícil é reconhecerem em Samuel Beckett ou Jean Genet, Pinter ou Artaud, Kafka ou Ionesco, sentido social nítido.

Em que medida podem os autores do absurdo ‑ humor negro ou irrisório, como se preferir ‑ ser autores de massas e até autores políticos?

Políticos, em sentido estrito, não o serão. Mas de massas creio que sim, porque o mundo de Samuel Beckett ‑ tomado como paradigma dos autores "infernais" ‑ é um mundo susceptível de ser compreendido e aceite por maiorias. Porque são as maiorias oprimidas que vivem as humilhações, o grotesco, o irrisório de Samuel Beckett e dos seus anti‑heróis. São maiorias os que sentem (ou pressentem) a sua alienação, o seu abandono, a sua inferioridade psíquica e orgânica. Mais mesmo do que uma situação económica de opressão, as figuras de Samuel Beckett vivem o aviltamento e a degradação resultantes dessa opressão ‑ por vezes hereditária. Envelhecem e apodrecem, julgando, no entanto (e aí surge o factor de ironia que torna humorística a situação trágica, que torna irrisório e risível o absurdo) alimentar altos ideais ao satis­fazer ou pretender satisfazer as comezinhas necessidades primárias.

O mundo de Beckett evidencia, até ao paroxismo, o relativismo de tudo. O espectador assiste às mesquinhas ambições das figuras e delas se ri ou compadece. Mas logo nelas pensa de outra ma­neira, quando lhe é sugerido que as suas próprias ambições se tor­nam também mesquinhas e risíveis se forem referidas a outro termo mais exigente da escala. E assim por diante.

Inserido no jogo das relações humanas o princípio da relati­vidade ‑ pressuposto pela morte de Deus ‑ tudo nos parecerá ridículo e irrisório. Nenhum dos nossos esforços terá significado e nenhum gesto mais consistência do que os movimentos larvares, mo­ribundos, frustrados das larvas humanas que são as personagens que vemos, no palco, desintegrar‑se supondo que vivem, ou chamando vida a essa desintegração. "Começa a morrer‑se, desde que se nasce." (Heresia cátara).

Em função disto, poderá acusar‑se Samuel Beckett e os autores do absurdo ou humor negro de se preocuparam demasiado com o Absoluto? De serem, portanto, metafísicos e nada dialécticos?

O Absoluto a que estes autores, directa ou indirectamente, se referenciam, fará deles os arautos de uma metafísica ou de uma difícil e futura dialéctica?

A verdade é que sem a experiência ‑ própria ou alheia ‑ do Absurdo (a que se pode dar o nome de relativo) e sua vivência – ao nível existencial ou da recriação artística ‑ não pode haver superação, nem problemática, nem dialéctica. Sem o ponto‑limite a que os autores do "humor‑negro" levam a existência humana, sem esse peso do trágico que ela comporta, não há projecto de acção criadora sincero. Sem a travessia do que pode considerar‑se o extremo do niilismo, não há optimismo com justa noção da realidade. Para que o optimismo não caia no primarismo idealista, é necessário o antecedente de que os autores do absurdo foram os mais lúcidos cronistas.

Faziam falta e são imprescindíveis à marcha dialéctica da História, esses autores do nada, abjeccionistas ou teóricos da frustração e da revolta. A revolta é condição sine qua non ‑ no plano psíquico ‑ da revolução, a via pela qual esta amadurece e se torna adulta. Se humaniza.

Eis a justificação política (ou trans‑politica?) para o que alguns observadores demasiado superficiais consideram a gratuita "decadência" do humor negro, do irrisório, do absurdo.

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(*) Este texto de Afonso deverá ter sido publicado no suplemento literário d’ «A Capital», quando era coordenado por Maria Teresa Horta e corresponde a uma fase em que as intuições fulcrais dos anos cruciais começavam a tomar forma, depois das experiências surrealista e existencial (que posso resumir na palavra abjeccionismo, antecedente directo da ideia ecológica) ♠