1-4 <fromm-md-1-2> sexta-feira, 7 de Novembro de 2003

 

 

1-4 < 60-00-00-ls> leituras do afonso

<fromm-1> - inédito dos anos 60 – diário de um leitor distraído

1960 - Procurar saber o que o futuro nos reserva - se o fim, se o princípio - significa uma actividade muito menos ociosa do que pode parecer aos espíritos com muita urgência de salvar o mundo. Do futuro, da ideia que se faça do futuro, depende a nossa atitude para com o presente e a óptica com a qual interpretamos o passado. A história do que há-de ser determina mais decisivamente o que é do que a história do que já foi.

Um autor de antecipação (dita científica) tem em princípio que optar por uma destas duas atitudes: ou crê ou não crê no progresso. E daí parte a sua narrativa. Por isso as utopias que nos clássicos eram sempre cor-de-rosa ou optimistas, (1) dividem-se hoje conforme a filosofia da história perfilhada consciente ou inconscientemente pelo autor em optimistas e pessimistas: Júlio Verne e H.G.Wells pertenceriam ao estilo de utopia cor-de-rosa; Orwell e Aldous Huxley ao tipo de utopia negra.

FILÓSOFOS DA HISTÓRIA OU PROFETAS DO APOCALIPSE?

Os filósofos existenciais chegaram a conclusões que, anos mais tarde, alguns filósofos da história corroborariam.

Uns e outros deram ao nosso tempo uma tonalidade que nenhum outro conheceu. Os chamados "profetas do desespero" são confirmados não só pela história subsequente mas também pelos filósofos da história que nela baldadamente procuram um sentido sem o encontrar.

O pensador que se dedica a interrogar a história, a ensaiar hipóteses que tentem dar sentido à falta de sentido, a racionalizar o absurdo, a quebrar num ponto de menor resistência o círculo edipiano (circulo vicioso) da paz-guerra-paz, dos crimes-expiados-por-crimes-expiados-por-outros-crimes-expiados-por-outros-crimes e assim até ao infinito como nos trágicos gregos, - caracteriza-se por uma ambiguidade básica: querer e não querer dizer-nos a falta de sentido que tudo isso tem.

Claro que é esse querer e não querer, esse diz e não diz que faz o filósofo da história e a sua obra; e é claro que se esses filósofos começassem por onde geralmente terminam, concluindo aquilo que outros por intuição, já sabiam, (a paz não é paz mas apenas o intervalo fugaz da guerra perpétua, o compasso de espera em que os homens tomam fôlego para continuarem a faina de se entredevorarem), a sua obra não existia. E não existia porque toda a história ficaria de um só golpe explicada; e os filósofos também, porque o suicídio ou qualquer outra forma abreviada de "filosofia da história" os teria explicado e levado para a terra da eterna ou perpétua paz.

O filósofo que se recusa de tenra ou madura idade ao convívio com o absurdo é o único capaz de escrever obra vasta e viver vida longa.

MISTIFICAR A REALIDADE PARA NÃO ENLOUQUECER

Tudo está ou não está, portanto, em querer ou não querer percorrer a longa distância que vai dos factos consumados aos valores propostos, da História à filosofia da História. E enquanto o poeta, ao verificar os factos e sua intrínseca abjecção, não inventa mitos para colorir a podre realidade mas sabe viver (enquanto vive em clima de verdade que é clima muito inóspito), o teórico, filósofo ou humanista não dispensa, nem a sua consciência humanitarista o dispensa, de colorir a realidade, tapar a abjecção, anunciar o que podia ter sido (mas não foi ) e prenunciar o que há-de ser (mas que talvez não seja).

Mitificar a realidade é uma tentação grande demais e salvar os homens uma honra. E verificar os séculos de barbárie a que chama civilização o estímulo inevitável para propor outros tantos séculos à fé, á esperança e à caridade dos homens, actores e vitimas, espectadores e carrascos da eterna comédia.

Mesmo os mais lúcidos, os que partiram do impasse ou perplexidade existencial - da verdade, em suma - , acabam por não aguentar a atmosfera das alturas e optam por uma solução apaziguadora. Erostrate recolhe-se envergonhado e Sartre, convertido do século XX, deve ter renunciado há muito a esse triste personagem da sua galeria.

Filosofar sobre a História parece a única filosofia menos ociosa. Dela deriva directamente a nossa atitude quanto à acção e é de agir ou não agir que se trata hoje. Tratava-se ontem de interpretar o mundo; urge hoje transformá-lo.

Mas a pergunta fundamental continua: será possível agir em verdade? Será possível agir fora das mitologias organizadas? Se é um facto que fomos "atirados" e uma vez atirados não há outra coisa a fazer senão engrenar no movimento histórico, se não há outra saída nem outra solução e para isso é necessário cegar e ensurdecer à verdade - a da voz subterrânea – porque a verdade é apolítica ou anti-política, então o dilema permanece.

Se os que se suicidam deixam de ter voto ou opinião na matéria, ficam em campo apenas os outros, os da esperança encomendada, os profissionais da graça, os que cantam o progresso em todos os tons, os industriais do futuro, políticos, humanistas, filósofos, pacifistas & etc Ora necessário é que as vozes subterrâneas não deixem de se ouvir e de marcar na noite o risco luminoso, embora saibamos que os outros é que ficam cá para acreditar no progresso, fazer progressos, agir, andar, viver, existir, participar alegremente na comédia.

A QUEM SERVE O MITO DO FUTURO?

O futuro é a ideia representativa por excelência do hiato ou cisão aberta pelo pensamento abstracto na unidade original. Uma vez que o homem não se auto-satisfaz nem auto-resolve individualmente, essa solução projecta-se no tempo. O tempo "abre-se". O tempo começa a contar. O presente ou instante divide-se em passado e futuro. Começa a história.

Abrindo a cisão entre o que há e o que irá haver, o pensamento abstracto cria a ideia de tempo, cria a ideia de futuro, cria a política e a necessidade da política que é a arte de resolver em sociedade os problemas individualmente insolúveis; se se autobastasse, o homem não necessitava de tempo, não necessitava de política, não necessitava de futuro.

Corolário disto - da política - é a moral: resultante da cisão ser-e-dever-ser, para o homem atingir o que há-de ter, prescreve-lhe a política o que há-de ser, principalmente, através dos sistemas de tabus, o que não há-de ser). A missão da política e da moral conjugadas é assim, baseando-se ambas na ideia de futuro, prometer e adiar, prometer e adiar, prometer e adiar sempre.

A ideia de futuro e o seu aproveitamento táctico representam por isso o papel protagonista na tragicomédia da Civilização.

Um dos mais recentes humanismos - o existencialista – (***) procurou até certo ponto reabilitar a "filosofia do instante". Mas enquanto filosofia e enquanto humanismo o intento existencialista é duplamente contraditório.

Para haver filosofia não pode haver instante porque tem de haver tempo e consciência do tempo, porque nenhum humanismo pode conceber-se e existir sem a ideia de futuro e porque ou o existencialismo não é um humanismo ( e nesse caso talvez possibilite a vivência do instante) ou é um humanismo e nega por isso o instante.

Além disso, enquanto humanismo que se preza ficou muito bem escrito no papel. A transposição do papel para a vida, da teoria para a prática, da ideia para a realidade, cria novamente a necessidade de "abrir" o tempo e nega assim a filosofia do instante, enfim, nega-se...

Glosada em todos os tons, aproveitada para todos os fins, ao serviço de todos os opressores, a ideia de futuro(**) desempenha um papel primacial na história da Civilização. Uma coisa que não existe, pela qual os homens lutam por pensar que existe e que só pensando que existe os homens ganham alento para combater por ela, a ideia "futuro" seria a mola real da História que, por paradoxo, trata exactamente do passado e nunca do futuro. Mas, bem vistos, passado e futuro identificam-se.

História é a consumação passada do presente que em nome do futuro os homens vão suportando por imposição de outros homens. A História é o presente ampliado à escala do desespero ou desesperação dos homens sobre o pano ou música de fundo do futuro. Quem monopoliza um, monopoliza os três; quem domina o presente, domina o passado e (a ideia de) o futuro; quem domina o passado domina o presente e (a ideia de) o futuro; quem domina (a ideia de) o futuro domina o passado e o presente: isto é, domina a História.

O HOMEM ENCERRADO NO «EU»

O futuro é sempre funcional e serve o presente. O que se fará amanhã justifica e legitima o que se vai ou não vai fazendo hoje; em nome do futuro vão as ideologias assegurando um bom presente (a si próprias); em nome da felicidade futura, vão-se justificando e desculpando as infelicidades presentes impostas aos homens.

A ideia "futuro", indústria já florescente no fim do século XIX , ainda não está mas devia estar incluída, ao lado do automóvel, do disco, dos canhões e dos altos fornos, entre as grandes indústrias deste século. Mas não deve nem pode tardar.

Fundados na ideia "futuro" há séculos que os construtores de civilização trabalham como se estivessem empenhados em ultrapassar a própria sombra.

Cientistas e pedagogos, técnicos e políticos, filósofos e autores de éticas humanistas, trabalham incansavelmente para exasperar até ao paroxismo a noção de individuação ou individualidade, do eu ou consciência. O trânsito recíproco do homem-espécie para o homem-indivíduo e deste outra vez para aquele faz surgir, além da ideia "futuro", o ideal.

Que vem a ser o ideal? Ideal é aquilo que ainda não é. É, sim, mas no futuro, apenas no futuro, sempre no futuro. Ora como o futuro também nunca é porque sempre há-de ou vai ser... o homem-.espécie ainda não é o homem-indivíduo e o homem-indivíduo ainda não é o homem-espécie.

Mas com isto não é a humanidade que sofre. Sofre, sim, o indivíduo, dilacerado, cindido, aberto em dois seres irreais, fantasmáticos, tanto mais dilacerado quanto mais civilizado.

E isto porque, ao mesmo tempo que se desenvolve no homem civilizado a consciência do eu individual e das suas limitações como e enquanto indivíduo (nada podendo individualmente e tudo esperando da organização social em que vive) aumentam nele as exigências proporcionalmente a essa consciência que por sua vez é também proporcional ao grau de civilização.

Sublinhe-se a tese de Erich Fromm: (***)"o homem, quanto mais liberdade adquire na acepção de emergir da união original com os outros homens e com a Natureza, tornando-se cada vez mais um "indivíduo", não tem outra alternativa que não a de unir-se ao mundo na espontaneidade do amor e do trabalho produtivo, ou de procurar uma espécie de segurança por meio de vínculos com o mundo, que lhe destruam a liberdade e a integridade do seu eu individual."

Ao mesmo tempo que se acentua este "processo de individuação", ao mesmo tempo que o indivíduo toma consciência crescente que além de espécie é indivíduo, aumenta o hiato entre o que é individualmente, hoje, e aquilo que em imagem se vê como espécie e no futuro.

MAIS PERTO DAS ESTRELAS, MAIS LONGE DE SI PRÓPRIO

Sendo a tendência do homem civilizado a de ter, fazer e poder cada vez mais do que individualmente hoje tem, faz e pode, porque diante dele está sempre uma ideia de futuro que o acicata, sofre um duplo desfasamento em relação a si próprio:

1) a consciência de que é um indivíduo dá-lhe também consciência maior da sua impotência e solidão;

2) a noção ou ideia de um futuro aguçam nele essa noção de impotência e humilhação, pois é, pode, faz e tem sempre menos do que em imagem ou ideia abstracta as políticas lho representam, através dos ideais.

Dizem-lhe humanismos e humanistas que o "homem é um infinito e conquistará o Cosmos" mas ele, ele indivíduo, sabe que nem a si próprio se pode por enquanto conquistar e que de si próprio está cada vez mais longe quanto mais perto das galáxias está o Homem.

Coincidem, chocando-se, a noção de individualidade e identidade cada vez mais aguda com uma sociedade que cada vez mais agudamente contraria essa individuação ou individualidade.

Este choque, de que resulta o agravamento da noção de impotência, fraqueza, inanidade e sem-sentido da existência individual, aproveitam-no os regimes políticos que conhecem bem a necessidade de amparar os indivíduos, de neutralizar o choque entre indivíduo e socialização maciça, de preencher o vazio, o hiato, o abismo entre o que ele tem e há-de ter, entre o que é e deve ser, não com factos, realidades ou vivências, mas com mitos, sempre com mitos mas principalmente com o mito do futuro de que são variantes cantadas em vários tons a Civilização, o Progresso, a História, etc

Do futuro se faz o absoluto que falta, com todas as consequências de se tomar por absoluto a mais fugidia, inexistente e relativa das coisas.

Colocando no futuro o que não pode ter solução aqui e agora, os regimes criam a base de toda e qualquer mística, a base de toda a mitologia necessária á vida dos homens para não enlouquecerem e à vida das instituições para não perecerem na sua missão intérmina de explorar o presente em nome do Futuro, os homens em nome do Homem.

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(*) O homem civilizado, sendo o homem da espera, da esperança ou esperação, é também o homem do exaspero e desespero. E desespero tanto maior, quanto maior - pela ampliação da consciência individual do eu - é o abismo cavado entre o presente que vive (que lhe permitem viver) e o futuro que lhe prometem.

Não há nem pode haver desespero no mágico, no yogi, na criança, em todos os entes onde o pensamento não operou cisão, o tempo não entra em conflito porque é unidimensional e o ser se confunde no existir, o pensar no agir.

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(** ) A ideia ou abstracção "futuro" e as várias ideias ou imagens que, conforme as conveniências, importa dar do futuro.

(***) In O Medo à Liberdade (Escape From Freedom), de Erich Fromm, trad Otávio Alves Velho, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1960 (1ª edição brasileira), página 29

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<fromm-1> notas de leitura

A PSICANÁLISE DE ERICH FROMM (*)

[(*) Este texto foi publicado na revista «Ocidente» (Lisboa) , nº 327, Setembro de 1965 ]

Sem valores ou pseudo-valores, sem ideais que mobilizem a vontade, sem molas ou mitos que impulsionem a acção, as sociedades não podem viver.

Erich Fromm, na linha de todos os moralistas, verifica a falência geral de valores e propõe que se adoptem outros. Estes, por sua vez, hão-de ser negados e substituídos. A arte de viver não se aprende, a felicidade existe apenas nos folhetins (ou nos livros de lorde Bertrand Russell) e os sistemas de moral fizeram-se para encher papel e para os seus autores dormirem ao pé, de consciência enfim apaziguada.

Entre o niilismo e a hipocrisia, o homem ocidental não tem saída, e é sempre comovedor ver os esforços dos intelectuais, filósofos e mais gente de bem, encarregados de imaginar a «grandeza» dos homens sobre a sua abjecção. Sem saída, talvez sem solução, o animal civilizado limita-se a cum-prir o absurdo histórico da maneira mais cómoda e com a maior soma de prazeres físicos.

Erich Fromm retoma, neste ensaio editado pela Minotauro,(**) o rochedo de Sísifo. Para a subida, enfeitou-se de bons mestres: Buda, Lao Tse, Platão, Espinosa, Stirner, Nietzsche. Leu os moralistas de todas as épocas, aprendeu os seus conselhos, abstraiu das existências concretas (as únicas onde a moral se decide e, mais cedo ou mais tarde, malogra) e, à luz da psicanálise, propõe mais um sistema ético, mais um humanismo onde se afirma a esperança nos homens e nos valores. Pretende indicar aos leitores uma ciência aplicada da arte de viver. Repete a lição e repetir-se-á, com certeza, a sua inanidade.

O psicanalista iria encontrar abundante matéria-prima na sociedade fabril dos grandes urbes capitalistas. Muitos fariam carreira e fortuna, abrindo clínica e psicanalisando pessoas da alta ou média burguesia. Outros escreveriam livros e o seu nome seria célebre em todo o mundo: Karen Horney e Erich Fromm, cujos livros falam às multidões e dão o sustento teórico de que o cidadão médio americano carece depois de ver ou ler Tennessee Williams, são dois desses nomes.

Erich Fromm, além da sedução própria de todos os moralistas (que prometem a felicidade a toda a gente) possui mesmo um estilo vivo e cativante, claro, didacticamente acessível, que o recomenda a largos públicos. Ele e os da sua escola contribuíram na América do Norte para corrigir, com uma perspectiva social, o individualismo puramente biológico de Freud. A escola americana da psicanálise, conseguiu juntar o útil ao agradável e remoçou os dogmas da ortodoxia inicial.

O mais filósofo de todos eles - Erich Fromm - procurou para as teorias científicas um suporte filosófico, uma audaciosa síntese de todos os humanismos clássicos e contemporâneos, incluindo o marxista. Desafiaria os monismos rígidos que, mesmo em nome da dialéctica, se mostram por vezes tão pouco dialécticos. Resta saber até que ponto essa síntese, idealmente desejável, se concretizará numa futura praxis. Por enquanto a voz dos niilistas continua a ter muita razão e a dar dores de cabeça aos autores de sistemas morais.

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(*) Este texto foi publicado na revista «Ocidente» (Lisboa) , nº 327, Setembro de 1965

(**) «Ética e psicanálise» - ensaio de Erich Fromm - tradução de João José Esteves da Silva - Editorial Minotauro - Lisboa -1966■