<90-03-15-dl> diário de um leitor – inédito de 1990
LITERATURA NO ESTÔMAGO
15/3/1990 - A literatura como actividade de risco foi uma proposta dos surrealistas, nomeadamente de Michel Leiris, que, a propósito de André Gide, comparou o escritor ao toureiro que enfrenta um desembolado...
A julgar pela "kunderização" das ficções em voga, contar histórias é que é bom ( para adormecer meninos ou espantar papalvos) e esse risco fica para depois dos "best sellers" ou das noitadas que a Patrícia Highsmith nos faz passar agarrados às suas crueldades. Nenhuma crueldade se compara, no entanto, a ter que dormir com ela.
E pensar que Raimundo Lull publicou (só) 256 livros, com 27 mil páginas, e não há uma linha dele traduzida para o bendito português.
Assim vamos de literatura, pois, ora no estômago, ora no sexo, ora no traseiro, mas sempre em função do comestível e da defesa do consumidor.
Risco, alto risco, foi chão que deu uvas e Gide perdeu o seu tempo a inventar o "acto gratuito" como o máximo da ética possível a um ser humano rodeado de chacais, eunucos e macacos amestrados por todos os lados.♠