1-2 - 4531 caracteres<elass> <livros> <manifest> grelha aberta terça-feira, 3 de dezembro de 2002-escritoras portuguesas quase esquecidas: Manuela Porto, Ester de Lemos

OS DESCOLONIZADOS DA LITERATURA

O CASO DAS MULHERES ESCRITORAS

[31-5-1992 ] - Um fenómeno não pára de nos surpreender, de nos emocionar: o advento, para a maioridade literária, daqueles povos e daquelas criaturas que tradicional e secularmente se supunham sem meios nem méritos criadores. Os países latino-americanos, no primeiro caso, as escritoras portuguesas, no segundo -- são, para já e sem nos alargarmos agora para outros horizontes, exemplos da maior representatividade.

As escritoras portuguesas, há apenas uma dezena de anos que impuseram a sua presença: Irene Lisboa seria a tímida afirmação de um génio que não soube defender-se a tempo das cóleras circundantes; depois, nomes como o de Maria Archer (a sua obra é o retrato mais completo da média e alta burguesia lisboetas), Etelvina Lopes de Almeida, Sophia de Mello Breyner Andresen, Matilde Rosa Araújo, Manuela de Azevedo, Cidália de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Maria Isabel Barreno, Fernanda Botelho, Maria Velho da Costa, Maria Judite de Carvalho, Natália Correia, Maria Rosa Colaço, Luísa Dacosta, Maria da Graça Freire, Natércia Freire, Lília da Fonseca, Adelaide Félix, Ana Hatherly, Maria Teresa Horta, Luisa Neto Jorge, Agustina Bessa Luís, Maria Lamas, Maria Alberta Menères, Isabel da Nóbrega, Judith Navarro, Luísa Manoel de Vilhena, Marta de Lima, Alice Sampaio (*), asseguram não só a superioridade definitiva das escritoras sobre o naipe masculino das letras de ficção portuguesas, como nos revelaram uma nova escala de estilos ou «modos de ver o mundo».

Por isto ou por aquilo, a obra destes «autores» é diferente, é melhor, é mais vivida e sofrida e autêntica. Parece que a emancipação de uma minoria até então considerada perseguida ou diminuída (povo ou grupo «rácico») deixa marcas que a literatura, depois, quando não é meramente literária, transforma e prolonga em vigor existencial.

Mas, ao falar-se do exemplo português, poderia pensar-se que é da condição nacional que advém o fenómeno recente da emancipação feminina. Que dizer, no entanto, quando num meio há muito emancipado, surgem ainda casos maiores como Simone de Beauvoir, Violette Leduc, Albertine Sarrasin?

Quase todas páginas de confissão, de interioridade e desespero existencial, pertencem elas a um «terceiro mundo» espiritual, que ainda está por catalogar entre os críticos europeus mas que já se afirma independente e paralelamente ao Terceiro Mundo. É um facto, antes de como facto ser conhecido e reconhecido.

Albertine Sarrasin teve lugar na língua francesa, por um acaso. Ela vem do exílio que, maior pelas fronteiras geográficas, se define pelas fronteiras da vida. «Exilada» ela, «bastarda» Violette Leduc, chegam à literatura pelo canal de onde os escritores literatos (a maioria!) fogem.

Fazendo companhia a Jean Genet ou Antonin Artaud, Albertine Sarrasin pagou com juros a anterioridade, tudo quanto escreveu. E tudo -- incluindo breve fama -- o que ganhou com quanto escreveu. Motivo pelo qual fica fora dos cânones e é maior do que tudo quanto se narrou dentro deles.

Miguel Angel Astúrias foi «ofendido» com a atribuição do Prémio Nobel. Porta-voz de um Terceiro Mundo onde a Fome é de sentido plural (há várias fomes e fomes de tudo!) e se subdivide em todas as formas possíveis, equipara-se a Albertine Sarrazin na grande pátria das independências recentemente conquistadas.

Também o romance deixou de ser campo para privilegiados e nele se ouvem, agora, as vozes daqueles que não tinham até agora direito à palavra. Da ruína e da submissão nasce uma literatura que, embora individual ou individualista na aparência e nos processos, fala implicitamente de um grupo mais vasto: a humanidade humilhada que toma consciência e conta de si através da literatura.

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(*) Correndo embora os riscos de lapso involuntário e de injusta omissão inerentes a listas de nomes próprios, como esta, pareceu-me útil, mesmo assim, incluí-la (embora a prudência aconselhasse o contrário) como pobre contributo a um dicionário de escritoras portuguesas contemporâneas, que alguém mais abalizado poderá e deverá fazer um dia. Hão-de certamente faltar, nesta enumeração, muitos nomes que importa não esquecer, mas deixo ao cuidado do leitor completar essa lista com todos os nomes que conheça e dela estejam ausentes. Só essa condição me encoraja a tornar público o que, incompleto e provisório, não pretende ser um balanço de modo nenhum definitivo da literatura feminina portuguesa.

+ ESCRITORAS A DESENCANTAR

Alice Sampaio

Hélia Correia

Maria Teresa Vale (poesia)

Luísa Ducla Soares

Luísa Dacosta

Teresa Salema

Wanda Ramos

Etelvina Lopes de Almeida,

Sophia de Mello Breyner Andresen,

Matilde Rosa Araújo,

Manuela de Azevedo,

Cidália de Brito,

Fiama Hasse Pais Brandão,

Maria Isabel Barreno,

Fernanda Botelho,

Maria Velho da Costa,

Maria Judite de Carvalho,

Natália Correia,

Maria Rosa Colaço,

Luísa Dacosta,

Maria da Graça Freire,

Natércia Freire,

Lília da Fonseca,

Adelaide Félix,

Ana Hatherly,

Maria Teresa Horta,

Luisa Neto Jorge,

Agustina Bessa Luís,

Maria Lamas,

Maria Alberta Menères,

Isabel da Nóbrega,

Judith Navarro,

Luísa Manoel de Vilhena,

Marta de Lima,

Alice Sampaio

Patricia Joyce

Graça Pina de Morais

Ana de Sá

Wanda Ramos

Olga Gonçalves

Teresa Rita Lopes

Ana Teresa Pereira

Filomena Cabral