<contar-0><contar-1>3533 caracteres <contar-1>
A ARTE DE CONTAR
A MAGIA DO CONTO
Lisboa, 16/6/1992
Dois exemplos servem para demonstrar o que pretendo mostrar: a dependência em que a mente está (a minha mente, pelo menos) do estrato profundo (do) inconsciente (colectivo): a história antiga da Sopa-de-Pedra e a história antiga do Agarra-que-é-Ladrão.
Vejo como a Sopa-de-Pedra é um dos meus actuais arquétipos: se analisar de perto o Barroco como estilo que privilegio para meu uso diário, é essa Sopa-de-Pedra, tudo lá pra dentro. Mas não é a palavra Biodiversidade, também, esse arquétipo da Sopa-de-Pedra? E a minha velha mania dos Glossários, dos inventários, dos dicionários? A minha velha mania de incluir o mundo nesta folha de papel? E mesmo a unidade da diversidade que me obceca e/ou que julguei inventar com a palavra Holística?... E a própria obessão holística, a mandala no centro da mandala, não é ainda a velha e mítica Sopa-de-Pedra?
Mas não contarão todos os contos ditos tradicionais, um fundo arquetípico que faz a sua Magia? Não virá a magia do conto moderno, como género literário pouco rentável, desse facto de haver no conto, sempre, uma «ideia» e por, dessa ideia, regra geral inédita, regra geral arquetípica, irradiar toda a mandala da imaginação?
O exemplo do Agarra-que-é-Ladrão reforça esta minha intuição: a maior parte das situações da Abjecção contemporânea copiam esse arquétipo, esse Mito, esse Símbolo da Perversão. Agarra-que-é-ladrão domina o discurso dominante que - na ECO 92 ou no campo da Saúde Pública - proclama, com o maior e mais deslavado dos desplantes, a destruição planetária a que impavidamente assistimos, como se fôssemos nós e não eles - promotores da Destruição e promotores de Conferências - os primeiros e últimos responsáveis por aquilo que relatam em extensos relatórios, pelas desgraças que inventariam sadomasoquisticamente.
«Agarra-que-é-ladrão» - grita no meio da confusão o ladrão que acaba de cometer o furto, certo de que a Polícia agora irá no sentido contrário...
GRELHA susceptível de aplicar em ficções AC é esta: Numerar situações arquetípicas, ou mesmo apenas típicas e/ou simbólicas e recriar, em histórias ficcionadas da Abjecção, cada um desses esquemas numerados. Sopa-de-Pedra fica com o Número Arquétipo 1, Agarra-que-é-Ladrão com o número Arquétipo 2, etc.
Ainda bem que arquivei na minha Livroteca + pessoal um cabedal de contos tradicionais susceptíveis de me fornecer arquétipos para histórias contemporâneas da abjecção contemporânea. Ainda bem que me deixei guiar pela minha intuição...
+
1035 caracteres<contar-2>
Lisboa, 19/6/1992
[diário - eu-escritor]
CONTAR E CONTAR COMIGO
Consola-me ter que verificar um facto: não serei o primeiro escritor a ficar inédito. O próprio Jorge Luís Borges (que me desculpe a imodéstia), não será nunca um escritor de massas como nunca conseguiu ser um Prémio Nobel. Há uma farinha que tem de ser dada às massas e os livros de Borges não são propriamente farinha peneirada. Impossível rentabilizar Borges. Que me sirva então de consolo!
*
Nunca se escreveu tanto e tão bem ficção. Mas a questão, para mim, é precisamente essa: se quero sobressair no oceano da literatura contemporânea (e todos querem) terei que escrever muito e mal. Mas como, como escrever mal senão imitando os cordeis, os Kitsch, os naif, os richebourg, os veuzit, os almeida garrett, os jorge ohnet, os a. da silva gaio, os alexandre dumas, os t. trilby, os ponson du terrail, os goethe, os henrique perez escrich, os ferreira de castro, os arnaldo gama, os júlio dantas, os paul bourget, os bernard kellerman, os louis bromfield, (...)?♠