My life ->1953
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5658 caracteres <chave-50>1953-1955:
PRIMEIRAS NOTAS DE LEITURA
- No ano lectivo 1952-53, os inéditos sobre Poesia, Crítica, Criação, Deus, dão conta do inferno das palavras em que eu já, aos 20 anos, me achava. E nunca mais de lá saí. A crença nos livros, a boia dos livros ( escritores e filósofos), ilusão de que os livros darão um dia resposta às grandes questões do abismo humano.
É sincero o balanço que hoje faço dessas digressões dos anos 50, dessas leituras até às quatro e 5 horas da manhã, na base de café bem forte que me deixava os nervos num nó. As «patas de galinha» à volta dos olhos, vêm daí. Com que lucro? O de me rever hoje nessas dactilografias feitas em papel amarelaço.
O lucro de poder rememorar onde começam a brotar as minhas ideias fixas, as minhas obsessões, as minhas pomposamente chamadas intuições. A memória destes 20 anos não me lisonjeia nem envergonha - deixa-me um pouco menos do que indiferente. E sinto o dever quase cumprido: deixar arrumados os inéditos, para gozo dos meus netos e bisnetos, que certamente irão apreciar tudo o que seja património construído. Eu vejo isso pelo interesse com que a Cristina vê as malas de papelão dos anos 20 na Travessa da Queimada, uma casinha antiquária que ali há. O gosto do berloque antigo, tanto como dos lugares comuns na linguagem literária, pode ser que salve do anonimato estas folhas, nem agrestes nem geniais, do ano lectivo 1952-53, onde já (veja-se só a mania) inventariava autores pelo seu grau de «iniciação»
Provavelmente influído pelas críticas literárias do João Gaspar Simões, cuja leitura em tudo o que era jornal eu compartilhava, deslumbrados os dois, com o Carlos Alberto Jordão (hoje juiz e poeta), risquei muitos inéditos, cuidadosamente passados na Hermes Baby, primeira máquina de escrever que o meu pai me ofereceu, quando fiz 7 anos, notas de leitura todas muito pernósticas. O meu vezo conservador dá para ainda ter muitas destes títulos sobre os quais escrevi.
Por exemplo, alguns autores e livros desses anos 50 de intensa leitura:
Escusado será comentar o relativo gozo que me dá voltar hoje, 40 anos volvidos, à leitura desse livros, sem arrogância e com nostalgia. A memória já não é hoje assim tão emocionalmente importante como o sabor dos queques do Marcel Proust poderia levar a pensar, nem como antes da RA eu pensava, mas dá sempre algum gozo voltar ao que nos deu gozo aos vinte anos.
Sempre o naif me comoveu. Numa coisa essas «Notas de Leitura» (1952-54) são melhores do que tudo o que escrevi posteriormente sobre livros e arredores: não tinham o crítico como missionário e a crítica como missionação, aspecto dominante no tempo em que foi publicado o «Jornal de Crítica» (in «República») e que hoje me parece ser um dos aspectos mais execrandos, numa actividade execrável, já de si, que é a escrita pró público.
São dos meus 20 anos - e isso, confesso, orgulha-me - as obsessões em torno de noções que haviam de ser noções-chave, a de gestalpsicology de William James, por exemplo, e a de Parménides (os dois infinitos) e a do segredo da esfinge, especialmente esta, em duas amareladas páginas eternamente inéditas, enche-me de legítimo orgulho. Agora que a RA me levou, aos 60 anos, de regresso à Esfinge.
Há uma lista manuscrita de autores, com data de 1955, em que assinalo o que essencialmente via neles:
A mania epistolar e o vezo de escrever cartas a tudo quanto é gente, conhecido e desconhecido, parece bem assinalado, desde logo, em 1955, onde, no suicídio de Sebastião da Gama, eu lhe escrevia chamando-lhe irmão. Nenhum parvo quer ser parvo sozinho e eu terminava essa comovente missiva com estas palavras lancinantes: «Espero que a família não me troque as voltas. Oxalá não deiem por nada. Estou morto por te abraçar, ó Sebastião. Até breve. O teu irmão Afonso Cautela.»
Tão comovente como esta, só a missiva que escrevi, já na balbúrdia dos anos 80, ao Araújo Ferreira, suspeito também de se ter suicidado, ele que, acupunctor, sabia mexer nas energias e deve ter calcado (picado) o ponto da morte. Estava farto e, segundo testemunho da empregada doméstica, todo o dia andara, de um lado para o outro, rosnando aquela obcecação: «O que é que eu ando aqui a fazer?» É o que eu todo o dia rosno, mas não tenho empregada doméstica para testemunhar. ■