LUGAR AOS MEUS AUTORES :
TEXTOS (INÉDITOS E PUBLICADOS)
DE AFONSO CAUTELA
SOBRE ANTÓNIO SÉRGIO (1963, 1966 E 1991)
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1-8 <sergio-md-1-8> sexta-feira, 7 de Novembro de 2003 -
sergio - livros
SÉRGIO PRECURSOR DAS TECNOLOGIAS APROPRIADAS
[ 18-6-1991]
O interesse multinacional pela alfabetização como factor de crescimento económico, chegou a uma fase de retórica e demagogia, de acordo aliás com o espírito iluminista dos que derrubaram o «ancien régime» sem terem construído nem apresentado alternativas qualitativamente diferentes.
Alfabetizar, na perspectiva das instâncias nacionais e internacionais, dominadas pela ideologia do crescimento económico, é abrir um número crescente de cérebros à ideologia dominante, totalitária à esquerda e à direita.
Alfabetizar, no entanto, tem outra perspectiva, não totalitária e portanto democrática.
Se a alfabetização for vista no quadro das «tecnologias apropriadas» ou «alternativas», não só perde o seu exclusivismo retórico e demagógico como assume a verdadeira dimensão que deve ter de instrumento democrático para emancipar as pessoas.
Mas nessa caso, a alfabetização não é instrumento do Poder e factor de crescimento industrial mas um instrumento para o desenvolvimento humano dos povos.
E nesse caso, alfabetizar é tão importante como criar e multiplicar cooperativas, outra «tecnologia apropriada» ainda não consciencializada como tal.
As «tecnologias apropriadas» (TA's) serão, de facto, panaceia universal, no seu conjunto, na sua diversidade complementar, na sua maleabilidade à escala humana («small is beautiful»), na sua dupla função de criar humanidade e desenvolver liberdade.
Só nesse quadro de fundo a alfabetização tem sentido.
O «self-government» a que António Sérgio consagrou anos de estudo e um livrinho magistral, não é mais nem menos do que esse quadro de «tecnologias apropriadas», que não se ficam pela alfabetização «tout court» mas se estendem a toda a aprendizagem prática das práticas que libertam as pessoas do sistema opressivo e repressivo
Alfabetizar, sim, se isso significa criar independência do alfabetizado relativamente ao sistema e não a sua reintoxicação pelos habituais meios a isso consagrados.
A Utopia da república Cooperativa, de que alguns pretensos realistas acusaram o «idealista» António Sérgio, serve de termo comparativo à pretensa actual utopia da República Ecológica das Tecnologias Apropriadas ao desenvolvimento.
Quando se quer condenar o cooperativismo, afirma-se que ele não vem resolver todos os problemas da sociedade.
Da mesma maneira, quando se quer condenar as energias renováveis -- solar, eólico, ondomotriz, biogás, etc -- a acusação que se lhe dirige é que «não vão resolver o problema energético».
É típico do raciocínio totalitário, contrário ao pensamento de Sérgio, pensar em termos de soluções totais e concentracionárias, do tipo das que Eichmann preconizou.
É típico do raciocínio totalitário preconizar sistemas totais (religiosos) que resolvem tudo.
O cooperativismo é historicamente exemplar e significativo: mostra como as caricaturas que dele construíram os detractores foram, até certa altura, reflexo do pânico que essa «tecnologia libertadora» provocou em todos os burocratas, ideólogos, opressores e exploradores, acabando por ser, essas caricaturas, um dos obstáculos ao desenvolvimento das práticas cooperativistas.
Mas um dia António Sérgio falou claro, esclareceu, e do cooperativismo foram afastadas as suas caricaturas.
Outro tanto irá acontecer a dezenas de outras tecnologias libertadoras, como as energias renováveis, sobre as quais os técnicos se continuam afadigando a desenhar as mais grotescas caricaturas. Até quando?
Toda a gente pôde perceber, com António Sérgio e depois de António Sérgio, que o cooperativismo por ele preconizado não vem só por si soluciona tudo, como qualquer panaceia totalitária pretende mas vem, como qualquer tecnologia apropriadas, contribuir para desalienar, criar liberdade, reforçar autonomia, humanidade, autosuficiência, enfim, as qualidades que constituem o «desenvolvimento» humano das pessoas, único desideratum a que António Sérgio consagrou a sua vida e o seu pensamento.
Cooperativismo é, entre muitas outras, uma prática, uma técnica, uma maneira democrática de fazer política. É da diversidade de práticas, de técnicas, de antropolíticas que nasce a democracia, a única democracia que não é nem retórica nem demagógica mas real.
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<sérgio-1> encontros - autores onde ele se leu – os grandes esquecidos
OS OITENTA ANOS
DE ANTÓNIO SÉRGIO (*)
Não conheço outro escritor, mestre de pensamento e de acção, que tanto tivesse ensinado os leitores a dispensá-lo mas que tão indispensável se torne, e para toda a vida, e por muito que dele nos queiramos libertar , ou exactamente porque dele nos libertamos.
Não sei se isto aconteceu a todos os leitores de António Sérgio, a quantos, na juventude, sofregamente o leram e descobriram e adoptaram como mestre querido e insubstituível, a quantos para quem a sua obra se tornou uma presença viva, activa, constante, inapagável, ainda quando mais longe dela e dele ou contra ela e ele pensassem estar.
Por mim falo, porém, e sei o que lhe devo, o que reconhecidamente e muitas vezes contra vontade não posso nele nem dele evitar: o seu magistério de libertador e disciplinador intelectual. Posso rebelar-me (e tantas vezes isso acontece!) contra o que de racionalismo ou vício da racionalidade haja em António Sérgio e de que me tenha deixado a indelével marca, mas tenho de reconhecer que a racionalidade é uma inevitabilidade intrínseca e paralela à inevitabilidade da acção; e que, não sendo tudo, não esgotando o homem, tem o indispensável lugar que Sérgio lhe conferiu como estruturadora da acção.
Poucos ou nenhuns dos que hoje perfilham uma linha progressiva de acção política puderam ignorar o pensamento e o exemplo de Sérgio. Ele é e continuará a ser, em qualquer circunstância, ponto de partida para tudo o que se queira fazer de sério e de sólido, de raciocinado e de planificado. A sua obra aguarda ser posta à prova, mas é já, e em si mesma, prática, porque a sua acção, antes de mais nada, foi pedagógica, foi de pedagogia cívica e pedagogia geral, aquilo a que Sérgio chama, com predilecção, demopedia.
Coadjuvar a sugestão do Diário de Lisboa para que se publique a obra completa de António Sérgio, é um desejo comum a todos os que o leram e estudaram, que o possuem, disperso, nas estantes, mas que aguardam a hora feliz, a feliz circunstância, de a poderem ter na íntegra, de poderem ver, completa, a obra, em tantos aspectos ainda inédita, de António Sérgio.
Verifica-se com o autor dos Ensaios o que se dá com todos os homens de pensamento independente: esse pensamento é fundamentalmente polémico, dialéctico, dialogal, irónico (irónico em acepção socrática). Sem doutrina prévia instituída, sem dogmas de escola e preconceitos de seita, sem comitiva de apologetas e apaniguados, António Sérgio, como todo o livre pensador e franco atirador, ver-se-ia obrigado quase sempre a definir-se por resposta contra a hostilidade ambiente
Numa cultura, numa sociedade e numa circunstância que acima de tudo preza o monólogo (cultura de monólogo e monóculo!), António Sérgio aparece como um dos raros espíritos capazes de pensar e de obrigar a pensar, capaz de discutir, capaz de contrastar e controverter ideias.
Numa sociedade e num período onde a literatura fez desenfreada carreira e os literatos fortuna, António Sérgio aparece como o pensador «do que mais importa». Não há uma única página, nesta obra, que se possa considerar supérflua ou adiável. Todas são urgentes e, caso curioso, todas mantêm a mesma actualidade da hora em que foram escritas. Circunstancial, como ele próprio a considerou algumas vezes, a obra sergiana nunca se limitou à circunstância, nunca se sumiu com ela, e perdurou, e perdura, e perdurará. Orientada para os problemas nacionais, o seu alcance, o seu interesse, o seu significado é sempre transnacional. Tão fundamentalmente ligada a um tempo e espaço concretos, a obra sergiana vive o viverá independentemente do espaço e do tempo em que foi escrita e em que for lida.
Nas próprias polémicas em que se viu envolvido, da parte de António Sérgio os textos não perderam vigor e valor. Para inglória nossa (portugueses) e honra sua, dir-se-ia que tais polémicas teriam hoje que decorrer exactamente coma decorreram ontem. E que, se outro Sérgio surgisse, muitos anti-Sérgios haveria ainda que lhe dessem o mote inspirador de tantas páginas inesquecíveis e inigualáveis, de estóica lucidez, de sereno humor e sarcasmo, de peleja fraternal.
Teremos de reconhecer hoje fundamentalmente incipiente, desonesto, vulnerável, tudo ou quase tudo o que se opôs à razão sergiana, invariavelmente conduzida pela dúvida metódica e libertadora: porque quase sempre contra um espírito crítico e ensaístico se usou uma retórica incapaz de dialogar; contra uma consciência extremamente dúctil e problemática se eriçaram os sistemas fechados, intolerantes, dogmáticos; contra as ideias claras que foram sempre as suas se tentou lançar o nevoeiro de ideias turvas .Mas sempre assim acontece, quando, no meio dos espíritos das trevas, de século em século, ou de era em era, aparece um espírito da luz.
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no suplemento literário do diário «Jornal de Notícias» (Porto), em 3/10/1963
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<sérgio-2> sc
BREVE ANTOLOGIA
DE ANTÓNIO SÉRGIO
ABUNDÂNCIA E PODER DE COMPRA
"Estamos muitíssimo longe de ter realizado esse tal excesso, - que é coisa possível, mas não ainda existente. O que existe agora não é a sobreprodução, mas sim o subconsumo. A produção parece sobejar agora, porque há milhões e milhões de pessoas que não têm o poder de compra suficiente para comprar o de que precisam, segundo as suas necessidades. Por enquanto, o excesso é em relação ao poder de compra, e só em relação ao poder de compra: não é em relação às necessidades. Em relação às necessidades, produz-se muito menos do que se poderia e do que se deveria produzir. Não se produz a mais, por enquanto, em relação às necessidades da humanidade, como afirma o sr. Damas Esteves: muito longe disso! Produz-se a mais, unicamente, em relação ao poder de compra da maioria. E como os processos da técnica moderna, que permitiriam realizar a verdadeira abundância (a qual seria, repito, a abundância em relação às necessidades humanas, e não em relação ao poder de compra), como os processos da técnica moderna, ia eu dizendo, dispensam cada vez mais a intervenção do homem, - o uso larguíssimo de tais processos iria aumentar cada vez mais o número de indivíduos desempregados, e por isso destituídos do poder de compra: e de aí o facto de nos ser impossível o alcançarmos desde já a verdadeira abundância, não porque a técnica o não permita, mas por aquela exigência do poder de compra e da busca do lucro que lhe está ligada: o problema dominante, ao que me quer parecer, e que é o que está no âmago dos meus artigos."
«Uns reparos de biologista e uma fantasia hidropónica» , in jornal «O Diabo», 9/Setembro/1939
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O TRÁGICO
"É que o trágico reside no conflito interior, e o palco da tragédia é a consciência humana. Enquanto a guerra for só de homem para homem, não diremos a rigor que a tragédia exista: a tragédia inicia-se com a interiorização do combate, ao nível da pessoa e da consciência ética, - entre dois sentimentos que a realidade externa nos não deixa conciliar e satisfazer a um tempo, ou entre um sentimento e um ideal moral, ou entre dois deveres que se não coadunam."
A Paixão de Pedro o Cru: Mera emotividade ou tragédia humana?, in jornal «O Diabo» , 9/Março/1940
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AO APRENDIZ DE FILÓSOFO
Em pontos de especulação filosófica, quisera eu confessar ao pensador aprendiz que duvido de que a vulgarização seja coisa fácil. Em suma: pergunto-me se a maioria das conferências públicas e dos artigos de vulgarização sobre tais matérias e, sobretudo, de vulgarização das doutrinas dos grandes fílósofos, possuem um efectivo valor cultural, ou se apresentam, pelo contrário, lamentáveis efeitos de descultivação. Querendo resumir-se doutrinas dos mestres, não as tornamos às vezes caricaturais? Supondo que pedieis a um competentíssimo músico que procurasse assobiar-vos por alguns minutos o resumo de uma sinfonia de Beethoven: que sairia de aí? Ou ao mais talentoso dos arquitectos que tentasse uma reconstrução desta nossa sala, de maneira tal que nos fizesse dela, neste mesmo espaço, um resumo do convento da Batalha: seria possível? Pois creio que o mesmo sucede aos filósofos, a meu ver, excedem na riqueza da ordenação harmónica as mais densas sinfonias de um Beethoven, ou a fábrica complexa de uma catedral.
Mas não é só a deformação o que eu temo aí: pior que o facto da deformação das doutrinas é talvez o vício de orientação pedagógica a que obedece a feitura de tais resumos. Vou-me explicar.
Os adeptos de um filósofo - ou de uma dada escola - tendem a pregar as conclusões das doutrinas como se fossem dogmas de uma nova fé. Ora, quem se fica em difundir as conclusões de um filósofo, não cairá naquele erro da instrução mnemónica - naquele erro famoso da instrução mecânica, da instrução dogmática, da instrução passiva, - que todos condenamos na instrução escolar? Pois a simples divulgação das conclusões dos filósofos será obra de rendimento cultural autêntico? Não creio; quanto a mim, suponho que só é faina de valor pedagógico a que reproduza o trabalho criador do espírito de onde podem sair as conclusões dos filósofos. Ora dizei-me: quem conhece apenas os mostradores dos relógios percebe alguma coisa de relojoaria efectiva? Quem só vê os portos a que os navios chegam, sabe por esse facto o que é ser marinheiro? A pessoa a quem dessem enunciados de teoremas, mas nenhuma palavra das demonstrações respectivas, receber ia de facto uma iniciação matemática? Quem ousaria afirmá-lo? Pois bem: não sucederá o mesmo no que respeita aos filósofos? Eu julgo que na filosofia o que merece interesse é o mecanismo interior que faz andar os ponteiros, - aquela arte subtil da navegação filosófica, que nos leva aos portos ou conclusões das doutrinas. A exposição que se empreende sobre um filósofo, camaradas e amigos, quisera eu que fosse explicativa e crítica. A filosofia é a actividade de elucidação das ideias, e os homens que vulgarizam um doutrina filosófica não deveriam explicar menos do que o próprio autor: deveriam, pelo contrário, explicar ainda mais. Quando não, cairão no vício da pregação dogmática. Inculcar dogmaticamente uma conclusão científica, ou inculcar dogmaticamente um verdadeiro dogma, - sob o ponto de vista da educação do espírito são dois procedimentos perfeitamente iguais. Porém, ao passo que o ensino dogmático dos dogmas é um método coerente com a matéria ensinada, o ensino dogmático das ideias científicas é um método contraditório com a noção de ciência, e por isso mesmo absurdo.
Aos filósofos aprendizes que me estão ouvindo talvez lhes pareça que vem pouco a propósito este pequenino intróito sobre a divulgação filosófica. Pois eu cuido que não. E porquê? Porque tenho que justificar-me ante aqueles que me escutam de lhes não dar um resumo das concepções de Descartes; e depois, porque devo colocar-vos numa disposição de espírito condicente com o filósofo que comemoramos hoje, o qual filósofo é, como bem sabeis, o homem da "dúvida metódica". Apresentar o mostrador de qualquer doutrina (em vez dos mecanismos que lhe dizem respeito) parece-me sempre uma orientação errada; mas erradíssima, principalmente, sempre que se trate de falar de Descartes, o qual começa por exigir de nós a atitude da dúvida metódica. Menos, portanto, que nos demais assuntos, se admitiria no de hoje a abreviação dogmática.
In «Cartesianismo Ideal e Cartesianismo Real, 1937
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A NATUREZA SUPERIOR DO HOMEM
Me oiça, meu jovem Amigo. Começo propositalmente por lhe falar "brasileiro", e dir-lhe-ei que não trago o menor intuito de dar voto no assunto desta nossa prática - o problema da "língua brasileira" - onde só os brasileiros têm o direito de intervir. Não voto, por consequência, e não me arrogo um átomo de pretensão pessoal a intervir no curso dos acontecimentos, no proceder futuro de qualquer brasileiro. Limito-me a expor desinteressadamente - filosoficamente, criticamente, - uma certa maneira de encarar o assunto: a maneira do pedagogo e do humanista, em oposição à outra... E que nome lhe daremos, à outra maneira? Servir-nos-á o nome de naturalista?... Esta palavra "naturalista" creio eu que padece de um defeito grave, no presente caso: o de que parece implicar a concepção absurda de que o homem não faz parte da natureza. Mas poderemos usá-la, apesar desse contra, se convencionarmos que entendemos por natural ao tratarmos do homem, aquilo que neste é sobretudo fisiológico, inconsciente, não proposital, comportamento automático; em suma: aquilo que em nós outros não é só humano, característico do homem, exclusivo do homem, definidor do homem, e o superior do homem. Ou da Personalidade, ou da Pessoa, se lhe agrada mais. Porque o certo é que existe em nosso ser anímico uma tendência superior para a continuidade e a estrutura, para o querer consciente, para a unidade pessoal, para a ordenação interna, — pendor de carácter propriamente humano a que é moda agora não conceder relevo, mas que não deixa por isso de ser um facto. E sucede que esse esforço de se construir a si mesmo é que eleva um homem ao Universal e Eterno. Chamemos a isto o propriamente humano, ou seja a natureza superior do homem; e chamemos ao resto o natural do homem, ou a natureza inferior do mesmo homem. Tudo natureza, mas a diversos níveis: o infra-humano, - e o propriamente humano, universal e cósmico.
Vou pois falar-lhe como cidadão do mundo, que desejaria ser: como universalista; como humanista. Não sei ainda se o meu querido Amigo se considera sempre como brasileiro; de mim lhe digo que intelectualmente me não encaro nunca como português. Não deixa de ser certo que vou passando a vida a querer servir o povo de Portugal; mas tudo se explica se reflexionarmos que a Pátria, em meu fraco entender, não é uma divindade ou uma abstracção grandiosa, mas o conjunto dos homens do meu país, ou seja a parte da população do globo que encontro mais próxima de mim próprio - e à qual, por isso mesmo, me é menos difícil o fazer um bem. Ora, creio coisa benéfica para esta grei portuguesa o impregnar-se de qualidades universalistas, e cuido que duas coisas a impulsionam a tal: por um lado, a própria obra que realizou na História, descobrindo a Terra e aproximando os homens, trabalhando de colaboração com muita gente estranha e cruzando-se com as raças que no caminho achou; e por outro, aquela "plasticidade" dos meus conterrâneos, de que Gilberto Freyre nos falou algures: "aquele seu jeitão - único, maravilhoso, - para transigir, adaptar-se, criar condições novas e especiais de vida"... Mas ainda que me iluda neste meu conceito, e que não penda para humanista o português em geral, o certo é que para humanista me sinto eu fadado, por constituição inata do meu próprio intelecto. Sou politicamente cidadão português; sou-o para os eurocratas e administradores do mundo, e consoante o direito internacional vigente; em espírito, todavia, não sou mais português do que brasileiro, não sou mais português do que grego antigo. E reporto-me neste lance ao antigo heleno, porque me estou recordando de dois pensamentos. Um, de Plutarco: Hellénica kai philánthropa, escreveu ele: grega e humana; o outro, de Sinésio: «ser verdadeiramente grego" (ditamou ele algures) "é saber conversar com os homens". Grego e humano, português e humano, brasileiro e humano, e buscando a graça da conversação com os homens... Conversar com os homens! Quisera eu que brasileiros e portugueses conversassem sempre de maneira perfeita num idioma escrito que lhes fosse comum... E caímos no problema, como se está a ver...
FLUÊNCIA E ESTRUTURA
3. Ora vejamos. Partamos de uma verdade de Pero Grulho, lembrando que em tudo quanto é possível pensar há dois aspectos complementares e unidos: o aspecto da diversidade e o da estabilidade; o aspecto da fluência e o da estrutura. Repare o meu amigo neste seu gatinho. Já não é hoje o que há dez anos era.
Cresceu primeiro, e envelheceu depois: eis o elemento de diversidade e de fluxo. E no entanto, continua a ser gato; é distinto do cão e do camondongo, do macaco-aranho e da capivara. Eis aí a face complementar daquela, a face da unidade e da permanência. A estrutura, no gato, será sempre a do gato, - sem embargo das modificações que se nele operam: e é tão natural e objectiva como o próprio fluxo. E o mesmo ocorre no que concerne ao homem - na vida fisiológica e na vida psíquica, na sua civilização e na sua língua. Como disse atrás, as doutrinas psicológicas que estão hoje em moda acentuam o elemento de dispersão e de fluxo, que nos coloca próximos da animalidade pura, - do menos consciente e do natural, no sentido estreito de tal palavra, que combinámos dar-lhe no presente caso. A esse pendor natural da psique para a extrema variabilidade ou para a fluência (desagregação e incoerência que caracterizam o sonho) opõe-se a reacção propriamente humana da vontade consciente e da unidade do espírito, que constitui a Personalidade e a verdadeira Pessoa, e que define o homem perfeitamente acordado. Ao que julgo, o desprezo a que a moda tem lançado o Querer (por outras palavras: o pendor dos psicólogos do nosso tempo a esquecer o factor de estruturação construtiva, o factor de Inteireza no ser humano) é dos maiores erros do nosso tempo, e das suas mais graves contradições. Com efeito, ao passo que nos desinteressamos na maioria dos casos da ordem consciente e da organização racional, - na Economia, pelo contrário, só se pensa em "dirigir" e em "planificar" as coisas, em fugir à inconsciência do laissez faire, em antepor uma ordem propriamente humana ao regime naturalista do liberalismo económico. Expulso dos domínios da acção crematística, o laissez faire, laissez passer invadiu a Psicologia e a Moral. Nestas circunstâncias, há desajustamento, parece-me a mim, entre as aspirações em voga na Economia Política e a atitude que tomamos em tudo mais.
Apraz-me utilizar para este meu discurso umas tantas palavras de um escritor brasileiro. Aludindo ao fim para que tende a cultura , escreveu ele o seguinte: "este fim é o domínio da natureza pelo homem, o aproveitamento do meio inerte pela actividade criadora, a sujeição gradual do mundo à organização voluntária, elaborada pela razão e pela moral". E um outro afirmou: "os factos, nas coisas da vida, dependem em grande parte da consciência, da razão e da vontade". Ao lermos o trecho daquele primeiro, advirtamos que a «natureza» que o homem domina - quando ele é culto e civilizado - não é só a natureza que está fora do homem, senão que a "natureza" do próprio homem no sentido estreito dessa palavra, - e que nesta dominação sobre o natural do homem consiste a forma superior da cultura.
Ora sucede que na actividade da expressão linguística (como não poderia deixar de ser) topamos também aqueles dois aspectos: o aspecto da variedade e o da unidade, o aspecto da fluência e o da estrutura. Variam as línguas, sem dúvida alguma; mas mantêm-se idênticas em certo grau; e é na medida em que se mantêm idênticas que servem principalmente o seu mesmo fim: a comunicação espiritual entre os seres humanos. Se eu modificar muito o nosso idioma comum, deixaremos os dois de nos entender.
Ora bem. Continuemos a falar como Pero Grulho, e digamos des’tarte: em matéria linguística, em todos os povos civilizados do mundo se notam sempre as feições seguintes: em primeiro lugar, a existência de línguas populares faladas (ou por outra: de umas tantas variedades de uma mesma língua, ou de uns tantos dialectos de uma mesma língua, que são modos de dizer a mesma coisa) e de uma língua escrita dos homens cultos; em segundo, que o aspecto do transeunte, da variação, do flexível, é aquele que domina nas línguas faladas, e que na língua escrita, pelo contrário, domina o aspecto da fixidez. »
In «Em Torno do Problema da Língua Brasileira», 1937
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<sérgio-3> sc
ANTÓNIO SÉRGIO
– PORTA-VOZ DAS «PEDRAS VIVAS» (*)
De Junho a Setembro de 1953, publicou António Sérgio no jornal «República» uma série de artigos que depois reuniu em volume com o título Cartas do Terceiro Homem e o sub-título «Porta-Voz das «Pedras Vivas» do «País Real».
SÉRGIO - PEDAGOGO
Nessas «Cartas do Terceiro Homem», ainda e sempre benevolente, ainda e sempre fraternal, resume António Sérgio o seu pensamento, não de economista mas de pedagogo interessado nos problemas económicos e sociais da grei; afinador de intelectos, como ele próprio se classifica, o que nessas cartas mais uma vez sobressai é a intrépida lucidez, a vivacidade crítica, a independência das ideias e dos juízos, tudo o que no autor de os «Ensaios» fica e permanece, mesmo para os que venham mais tarde a repudiar algumas dos suas posições.
Esta ideia fundamental da sua pregação - a emancipação das inteligências e a realização individual do aprendiz que com ele aprende a pensar e a dispensá-lo - faz da obra sergiana uma imensa propedêutica, onde todos as caminhos da liberdade se cruzam. António Sérgio é sempre o que consente aos outros que sejam , o seu lugar é sempre o lugar que sempre deixa vago a quem dele se abeira; por isso estará também na infinidade de caminhos que os seus aprendizes puderem, depois dele, livremente escolher e desbravar.
Nenhum outro escritor ensinou tanto os leitores a dispensá-lo mas também nenhum outro se torna, com o tempo, tão indispensável a quem o leu um dia, por muito que dele queira libertar-se ou exactamente porque dele se liberta.
SÉRGIO – DOUTRINADOR COOPERATIVISTA
No que respeita às soluções cooperativistas propostas, é lícito duvidar delas e da sua exequibilidade total mas não é licito censurar-lhe a morosa e tardia consecução. A «demopedia» cooperativista de Sérgio, ainda que fosse a utopia que alguns lhe censuram (e ninguém terá coragem de classificar de utopia uma realidade que pode ,em alguns países, apresentar-se como força estatística muito significativa) não se mostra de modo nenhum menos infundamentada pela prática e pela teoria do que tantas outras doutrinas económicas.
Este seu livro - «Cartas do Terceiro Homem» - é um dos que melhor expressam o seu pensamento e a sua atitude de intransigente idealismo, face aos realismos oportunistas da política que ele sempre repudiou, considerando-se não «um especialista da economia ou da política, mas uma espécie (digamos) de afinador de intelectos». Terceiro homem entende-se assim o que, entre os extremismos, radica as convicções democráticas numa progressiva libertação das massas através da prática cooperativista, «pacífica e fraterna».
A boa fé de tal doutrina desculpa-lhe a possível candura. O franciscanismo confere-lhe ainda hoje uma beleza intemporal que ignora as violentas contradições da realidade histórica e os violentos «empurrões» que essa realidade dá nos indivíduos.
SÉRGIO-POLEMISTA
Escritor polémico, António Sérgio aparece como um dos raros espíritos capazes de pensar e obrigar a pensar, capaz de discutir, capaz de contrastar e controverter ideias.
Verificou-se assim com o autor de os «Ensaios» o que se dá sempre com todo o homem independente, de pensamento independente: fundamentalmente polémico, dialogal, irónico (na acepção socrática), dialéctico, sem doutrina prévia instituída, sem dogmas de escola e preconceitos de seita, sem comitiva de apologetas e apaniguados, interrogador e problemático - António Sérgio, como todo o livre-pensador, como todo o franco-atirador, ver-se-ia obrigada a definir-se por resposta contra a hostilidade ambiente. Ver-se-ia obrigado, constantemente, à polémica, que galhardamente e com nobreza soube manter.
OPORTUNIDADE DE UMA INICIATIVA
Agora que a Associação de Alunos do Instituto Superior Técnico promove um ciclo de conferências sobre António Sérgio - «República» presta homenagem também ao grande mestre e pensador, ao escritor e pedagogo que tanto tempo honrou este jornal com a sua colaboração e relembra uma sugestão lançada há tempo para que se publicasse a Obra Completa de António Sérgio, sugestão apoiada por tantos e tantos que hoje se debruçam sabre essa obra, a estudam, meditam, discutem.
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal diário «República», (Lisboa) em 12/3/1966
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<sérgio-4>
ANTÓNIO SÉRGIO
(1883-1969)
A «Enciclopédia Universal», edição CD-Rom da Texto Editora, escreve sobre António Sérgio as seguintes palavras, que transcrevemos com a devida vénia:
Ensaísta e pensador português, natural de Damão. Iniciou a sua carreira na marinha, que viria a abandonar após a implantação da república. Colaborador das revistas A Águia e Vida Portuguesa, pertenceu ao grupo da Renascença Portuguesa, que abandonou em 1913 por dissidências com a doutrina de Teixeira de Pascoaes, cujas potencialidades de intervenção e renovação da vida portuguesa considerava ineficazes. Fundou depois as revistas Pela Grei (1918) e Seara Nova (1921), e pertenceu ao grupo que, em 1924, lançou a revista Lusitânia. Foi ainda ministro da instrução (1923), cargo que ocupou durante um período breve, e fundador do Instituto Português de Oncologia.
Exilou-se, por motivos políticos, após a revolução de 28 de Maio de 1926, tendo sido destituído do cargo que ocupava na Biblioteca Nacional. Regressou mais tarde a Portugal, prosseguindo o seu trabalho de ensaísta e conferencista. Foi chefe de redacção da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
António Sérgio participou nas polémicas fundamentais do seu tempo. Entre outras posições assumidas, manifestou-se contra o saudosismo (enquanto programa para o país), contra o culto do mito sebastiânico e contra a aceitação, sem crítica prévia, de certas correntes filosóficas, crendo sempre na necessidade de fazer intervir, activa e dinamicamente, o espírito humano na relação com o mundo. Daí o seu esforço de acção pedagógica e o seu racionalismo, e daí o programa de reforma das mentalidades que se propôs, e que passava, por exemplo, pelo trabalho de adaptação escolar de textos clássicos, pela prefaciação e tradução de vários autores e pela sua luta por uma educação cívica que conduzisse a uma intervenção consciente e democrática por parte dos cidadãos.
Longe de se limitar a problemas culturais, dedicou-se igualmente à análise de questões históricas, políticas e económicas, defendendo, por exemplo, uma economia de base cooperativa para o país. Equacionando os vários aspectos da vida de Portugal (económico, histórico, político, literário), confrontou-se abertamente com outros pensadores da época, suscitando, por vezes, viva reacção.
Grande vulto do pensamento português do século XX, e nome fundamental da geração da república, iniciou em 1920 a edição dos seus Ensaios. Entre as suas obras mais significativas, contam-se
Bosquejo da História de Portugal (1923), O Desejado (1924), O Seiscentismo
(1926), Cartesianismo Ideal e Cartesianismo Real (1937), Antero de Quental e António Vieira (1948), Cartas do Terceiro Homem (1953-1957) e Democracia (1947).
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<sérgio-5>
SÉRGIO, ANTÓNIO
(ENSAÍSTA PORTUGUÊS)
«Ao evocar, porém, a impressão característica que do Pascoaes me ficou, o que sobretudo avulta no meu painel interno é uma espécie de cenário setentrional de névoas
— com florestas espectralizadas pelo valor das brumas, com horizontes esfumaçados onde um triste sol desfalece, com uivos de ventanias pelas solidões nocturnas; em suma: um mundo que é uma alma onde sobrevoa o medo, torva emanação do sombrio. O Pascoaes, por isso, é talvez o mais romântico de todos os escritores portugueses na
modalidade mais nórdica que o alto romantismo assumiu, e o maximamente nocturno de todos eles.»
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http://www.inscoop.pt/■