encontros e desencontros
com o meu amigo romeu de melo
textos de ac em 1959, 1990, 1992 e 2005
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<romeu-mg-1-5> merge de 5 files expressamente feito para este site «o gato das letras», inclui o mais recente texto que dediquei ao meu amigo romeu de melo no blog «o gato das letras»
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1-2 4828 caracteres <romeu-5><ficionar> a transpor os fariseus da razão – memórias sem memória
CARTA DE AFONSO CAUTELA A ROMEU DE MELO
CARTA DE UM SUB-HOMEM
A UM HOMEM COM A MANIA DE SUPER-HOMEM
8/3/1992 - [Esta carta traduz fundamentalmente o meu mal-estar, o meu nervosismo, face à tese predilecta do Romeu de Melo sobre os «grandes homens», tese ou teoria que o dominou completamente e que ele sentia aplicada a si próprio, dada a Alta estima em que se tinha: sentindo eu por mim próprio exactamente o contrário - uma pouca ou nenhuma estima, os meus confrontos com o Romeu de Melo tinham sempre rasgos e dramatismo existenciais
[Esta carta tem hipóteses de ser transposta como carta de um homem de contradições a um ideólogo - «fariseu» - da Razão: uma forma de enfrentar o Racionalismo e seu regime policial, escapulindo pelas frinchas da brincadeira
[Esta carta, eventualmente a transpor em ficção, é um tanto híbrida quanto a tais potencialidades ficcionáveis, com linhas muito concretas de diário-ele-mesmo e outras perfeitamente integráveis em uma grelha de ficção; como carta a Romeu de Melo, a ironia é por vezes um tanto pesada e só pode compreender-se pelo à vontade que existia entre nós dois, herança do tempo em que fomos colegas de carteira na escola]
Porto, 4/8/1959 - Romeu com Julieta: Regista: sou socrático e não
aristotélico. Aristóteles produziu abortos. Sócrates provocou partos. Entre um
aborto e a Maiêutica vai um espaço que não consinto [??] seja omitido.
Queres melhor parto do que esta carta que as poucas palavras da minha te provocaram? Continuo polémico e tu peripatético, continuo heurístico e tu analítico. Dedicaste 5 folhas (10 páginas!) a uma meia página minha. Ai a fecundidade das hipóteses, da polémica! Sempre fui um provocador. Não consta isso de Aristóteles. Pelo princípio da identidade também não morro de amores (ao contrário do que afirmas mas logo a seguir infirmas, surpreendendo várias contradições no meu curto texto - e tu, sim, neste ponto, em aristotélica contradiçãozinha...).
Eu jogo às palavras, tu jogas às ideias. Onde o perigo maior, a traição mais grave? Tu, o estatístico, segues a Análise - porque cais assim tão facilmente na contradição? [ era o tempo em que eu, sob a influência de Chestov, defendia encarniçadamente o direito à contradição como um direito fundamental do Homem] Gosto, com efeito, de marchar em declive - «no talvegue de sombra», diz algures uma página de um diário proibido.
Mas, embora a conhecesse, desconhecia a fórmula, pelo que se prova que a existência precede a essência - claro! meu mefistofélico-metafísico- essencialista! O Parténon continua a empurrar com eles para a tumba, a embalsamar criaturas vivas (que podiam viver), a enterrar a imaginação.[ este ódio ao panhelenismo era mesmo a sério e tinha carradas de «razão» nele] O Parténon - panteão dos célebres mortos-vivos, deuses e subdeuses do Olimpo contemporâneo, da hedionda mitologia contemporânea.
Não demonstro nada, não quero demonstrar nada - ou achas-me com cara de demonstração? Receito-te rodelinhas de limão com açúcar para curar a tua aguda pneumonia de metafísico-matemático, cujo lodo, cujo sangue menstrual vem invariavelmente a superfície.
Psicanalise-se o Einstein: vê-lo-eis aflitíssimo, nas noites altas, com alguma crise ou desvio de hormonas... Os grandes nadas dos grandes homens, meu Caro Grande Homem. Por baixo, igualam-se todos. E daí é que é vê-los. O resto é a paisagem necessária para os sizudos da Academia verem e promoverem o autor no cadeirão vago. Lá os verei a todos. Antes destilarás tu e os teus manos de leite o ódiozinho ao «Mórbus», que por sinal já se não chama «Mórbus». Só para desnortear os menininhos de calção à maruja, já se não chama «Sânscrito». Chama-se agora «Prova de Fogo», até nova ordem...
Sem ordem nenhuma, abandonei o encargo de ler os jovens prodígios e de falar deles. E talvez poucas vezes mais me voltarão a ver escrever em jornais. [?????] Agora a «matança dos inocentinhos» far-se-á por livro. Aí o terás, antes de Outubro. Anota os títulos dos seguintes: «História, Futuro, Modernidade» (ensaio); «Greve geral» - diário ( 1955-1959). Ainda hei-de ver muita gente com a trompa crítica [?????] assestada e muito assustados, desbaratando o inimigo. «Impingir tiradas» - isso também é literalmente contigo. [ até que enfim tenho razão] Meia folha (minha) contra 10 páginas (tuas) - acho que não é impingir, é ser impingido.
Centenas de folhas (do «AK» aos «Quatro ventos»), que eu li com largo prazer, aliás, contra a meia dúzia que leste minhas - será impingir-te tiradas? Ou não haverá aí uma outra, leve, contradiçãozinha? Sobre isso de felicidade, hás-de informar-me se é bicho que morda, se é flor que se cheire, se é fruto que se coma ou mulher que... Não conheço animal, nada nem ninguém com esse nome.
Deixa as folhas da estatística em férias (ou envia-as ao Margarido, que deve necessitar delas quando for submetido à «Prova de Fogo»). Sigo para Lisboa esta quinta feira, onde ficarei na Rua Teixeira de Pascoaes, 3-3º Esq, Lisboa 5, telefone 71 02 47. Caso subas à capital para conduzir teu carro triunfal ao Coliseu, avisa e receberei, como óbulo dos deuses, as licorosas lições de estatística que fizeres então o subido favor de me emprestar mas não dar (à escolha). Até sempre, até nunca, até pouco mais ou menos anteontem, teu socrático Afonso Cautela.
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1-2<fariseus> quarta-feira, 25 de Setembro de 2002 – encontrei um alibi para este trabalho de racionalizar o número de files no computador, cheio de repetições até ao tecto – afinal, só queria deixar a casa um pouco mais arrumada para fazer o meu CD - testamento a cristina e carlos filipe – mesmo com dente partido, coragem afonso – que a decadência te sirva para alguma coisa
4061 caracteres - 2 páginas - <fariseus> - merge doc de um único file wri do mesmo nome <fariseus> - «cartas de 1959» «ecos da capoeira» - «antecedentes do novo paradigma»
3798 caracteres < fariseus><ineditos>
# CARTA DE UM CRÍTICO (POLEMISTA) ÀS SUAS VÍTIMAS
# CARTA DE UM INCIVIL BICHO DO MATO SOBRE OS HORRORES DA DIALÉCTICA E DA POLÉMICA
# CARTAS DE UM POLEMISTA ARREPENDIDO
# INTUIÇÕES ac *****
[ 25/8/1959 - Romeu de Melo: Ao brilho e atitude da tua alocução, responderia eu com o sol menor do silêncio, resposta para o que resposta não tem. Comodismo, facilidade, dirás tu. E com certeza que sim - comodismo, facilidade. Porque a controvérsia (que estimo como recurso e mal necessário) cansa.
A dialéctica divide o coração dos homens - já o disse e dizendo-o, sobreponho, por preferência afectiva, a poesia à dialéctica, a poesia à didáctica. Antes e acima de ensinar, de discutir - está o criar. Só isso decide os impasses antinómicos da história. Só na criação somos a unidade reconquistada. Ao nível pedagógico, preconizo e pratico a discussão. Ao nível ontológico, dispenso-a.
E respondo com o silêncio à algazarra científica dos que se aproveitam do meu vezo polémico para verter - ou [a] ciência, ou [as] águas sujas, ou bílis, ou fezes. Há momentos de repouso activo, como o de agora, em que a provocação de cartas como a tua deixam apenas o prolongamento do tal sabor a sangue. A ironia, quando não chega para a libertação moral (para catarse) só deixa sulcos de esterilidade. E a superior ironia é uma forma de construção, de sintaxe criadora - não se deixa filtrar pelos canículos da análise morfológica, da radiografia microscópica, da anatomia, que, por definição, só se exerce sobre corpos mortos ou que ela se encarrega de matar.
Estou a servir-me da dialéctica, sei disso, mas não me sirvo dela como finalidade suprema - apenas como um recurso mediano e médio ou intermédio, quer dizer, como meio para outro fim. Para ti já vejo que a dialéctica ascende a fim dos fins, a ontologia, a nómeno. Satisfaz isso o teu temperamento. Pelo princípio das vocações ou biótipos vocacionais - respeitemo-nos mutuamente. E vou dizer-te que não respondo com trinta às tuas dez folhas. Não me interessa responder ou ter razão. Dou-te a razão toda. E reclamo para mim - em vez da razão, atributo de fidalguia - atributos menos nobres, mais plebeus, mais sangue, mais coração e menos cérebro, mais energia arterial e menos energia cinética ou muscular. Somos diferentes - e essa a primeira condição para outras condições. Com a calma que não tenho (e dou) e com a calma que tens (mas não dás). Explica-se agora que a poesia seja para mim o refúgio (um refúgio ardente e activo) a regra, o monastério a que jurei [ ??? ] fidelidade.
Fora da lei - escolhi a lei religiosa da poesia. Só os restos de uma cobra peçonhenta - a dialéctica - que mesmo depois de cortada em postas, ainda rabeia - me obrigam a retrotrair esse juramento e a pensar numa prosa de burros para burros - não digo, repara, pérolas a porcos. À insaciável mania da purificação, [ > puritanismo?], à ganga de que não fujo mas combato, à novidade em que se transforma cada hábito, ao tédio (conjugal ou vital) que se transforma em dor, ao horário civil, ao calendário civil e de tudo o que é civil para os seres incivis como eu - só isso, essa soma que dá errada, essa maçã bichosa que o Adão não morderia - me deixa e não deixa seguir e me obriga a responder. Cura de altitude [ > Nietzsche] - eis o que posso do coração aconselhar a quem chegou aos vinte e cinco anos sem estar morto. São as raízes do céu que o incivil procura, a única lei que o homem pode aceitar sem corar de medo, nojo, pudor ou náusea.
A lei - sem tábuas, inscrita no perfil fungível [ >>>] deste papel e desta tinta. Adeus e não contes em mim um camarada civil, às ordens, venerador e obrigado, apenas o bicho do mato que procura, debaixo da terra [ «A Voz Subterrânea», Dostoiewsky], as estruturas metálicas da cidade de Deus [ Santo Agostinho] . A lei do Céu será a lei da Terra. Afonso. Lisboa, numa água-furtada (quem a furtou não sei, nem tenho nada com isso) aos 25 dias que marca a agenda desflorável da minha secretária de madeira - Ano de 1959 .
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1-2 <90-12-02-ie-na> partidos<diário>-4657 caracteres
«CIDADÃOS
PELO AMBIENTE»2/Dezembro/1990
Instrumentalizar as ideias ecologistas e servir-se de plataformas que alguns ecologistas e ambientalistas de boa fé tiveram o trabalho de criar, parece ser uma das notas dominantes a extrair do encontro realizado no sábado, sob o título «Cidadãos pelo Ambiente».
Partiu-se muita pedra, as comunicações escritas - Romeu de Melo, João Reis Gomes, José Carlos Costa Marques, Viriato Marques, Gonçalo Ribeiro Telles-----
Os dados estão lançados: os produtores de ideias na causa ecologista continuam em forma e alguns, como Delgado Domingos, José Carlos Marques e Romeu de Melo - que não esteve presente mas mandou um texto - nunca se mostraram tão firmes.
O que irá sair, no próximo futuro deste encontro de forças, é completamente imprevisível: não só porque a crise do Golfo pode baralhar totalmente os dados de um minuto para o outro, mas também porque a situação a Leste não está segura e pode virar do avesso. É assim prematuro tudo o que se avançar como projecto no próximo futuro.
No mês de Março, em que se prevê uma próxima reunião denominada «forum», pode já não haver história e todos os problemas ecológicos ficarem resolvidos com uma hecatombe total. Alguns como o José Carlos Marques, riram-se deste «apocalipse que está aí» mas, na verdade, foi um riso amarelo.
Ninguém acredita que a «loucura» do imperialismo ocidental, agora sem o reforço do imperialismo soviético, leve a humanidade ao holocausto por causa do petróleo. Mas a verdade é que ninguém consegue traçar outro horizonte para os próximos dias.
Sobre a imensa lavagem ao cérebro que está a ser feita à escala planetária para «habituar» as famílias americanas à ideia de uma chacina maciça dos seus filhos, houve apenas ecos indirectos nesta reunião.
Dissidentes de vários partidos em derrocada interna, apareceram a «oferecer-se» e como há falta de mão-de-obra entre os amigos do Ambiente, devendo ter emprego garantido, muito em breve, no novo partido de cidadãos pelo ambiente que se desenha no horizonte.
Como disse António Eloy, assessor do vereador Luís Coimbra na Câmara Municipal de Lisboa, as próximas eleições legislativas são as últimas em que se poderá formar um partido apenas com 5 mil assinaturas.
Depois, a Democracia fecha para obras. Com o encontro de sábado, ficou claro que o Ambiente continua a ser uma boa porta de entrada para as mais variadas posições partidárias se infiltrarem no processo de reorganização a que, após a queda do muro, se está a verificar no nosso País. O Ambiente leva a tudo e os organizadores deste Encontro abrem a porta para quem quiser passar. O Prof. Delgado Domingos facilitou uma sala no Instituto Superior Técnico para que houvesse uma simulação de debate.
Gonçalo Ribeiro Teles, que está cada vez mais lúcido, deu o tom na parte da manhã: os dados foram lançados, sem lugar a dúvidas, quando aquele ex-líder do Partido Popular Monárquico analisou a crise na base dos modelos de desenvolvimento que se encontram em colapso, a Leste e a Oeste.
Foi mais longe: a questão é de paradigma e o cientismo, o positivismo, o economicismo, são responsáveis pela situação de colapso. Só há um caminho de saída, como ele deixou claro: o renascimento rural associado à construção de uma sociedade paralela e de «tecnologias apropriadas». Se o sistema vigente deixar, o que não tem sido o caso, nem parece que venha a ser.
Na parte da tarde, acentuou-se a «transição». Firmes nas suas posições já conhecidas, Delgado Domingos, José Carlos Marques e Viriato Marques expuseram «projectos de vida» que seriam viáveis, se toda a gente ali estivesse de «boa fé». Como não é o caso, em reuniões deste género, ditas abrangentes e pluralistas, logo depois do intervalo tudo fica claro.
À parte a intervenção de Carlos Antunes, ex-PCP e ex-PRP, que, além de boa fé, se mostrou também realista e lúcido - a crise ecológica ainda agora começou - à parte a intervenção calma, europeia e sincera, o resto da tarde foi um regresso súbito ao esplendor dos anos 75 e 76. Como hoje seria demasiado escandaloso ( e inútil) uma apologia do Nuclear, o tema dos adubos serviu para separar campos e mostrar quem esta(va) ali de boa fé e quem foi ali de má fé.
Pivô de uma plataforma democrática para os ecologistas dialogarem, Luís Tavares, que também presidiu aos trabalhos, tem agora a tarefa de saber como vai digerir os «sapos vivos» que ali, aos saltos, se manifestaram em quantidade assaz numerosa.
No previsto Forum de Março, se a situação de Leste não mudar do avesso, como se prevê, é provável que surjam ainda em maior número os aproveitadores de todas as situações.
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domingo, 24 de Julho de 2005
ROMEU DE MELO, FICCIONISTA E FILÓSOFO:
A VIDA É A OBRA
Por estranho que pareça (ou talvez não) mas se quiser encontrar na Net o nome do filósofo e meu amigo Romeu de Melo, devo ir aos sites de ficção científica que o Yahoo search me propõe.
Não é tão estranho assim, porque ele escreveu e publicou, além de ensaios filosóficos, magníficas narrativas de ficção científica, de que se destaca «A Buzina» e «AK».
Guardo 9 títulos na Biblioteca do Gato, secção Lugar aos Amigos, que é o lugar do coração:
Decepcionante mesmo, para mim, foi a busca de uma simples nota biográfica. Nem Yahoo, nem Google, nem Vercial - «a maior base de dados da literatura portuguesa» - conseguiram responder à minha pesquisa.
Retiro daqui uma lição, uma ilacção. Vou deixar o meu nome e biografia na Net, para algum observador marciano um dia encontrar vestígios meus da minha passagem pelo planeta terra, ao menos as duas datas: nascimento e óbito.
O que nem sequer encontro para o Romeu, que também não fez nada por isso, pois não há a mínima sinopse biográfica nos seus 7 livros que guardo.
Quando somos assim apagados da memória colectiva, não devemos queixar-nos de ninguém, nem sequer de nós próprios. Temos o anonimato que merecemos e possivelmente que queremos.
Talvez ele nos queira dizer que a sua vida é a sua obra e essa, sim, figura exaustivamente em todos os seus livros.
Recordo-me que o entrevistei para «O Século Ilustrado» - 15/Abril/1972 - e se conseguisse o texto talvez o digitalizasse.
Apesar de tudo, tenho alguns files no meu
porta-arquivos
onde cito o Romeu de Melo, meu amigo e guru de filosofia.
A homenagem possível ao meu amigo.
Vou arquivar no
porta-arquivos
do Yahoo um zip de 7 files, o dossiê hoje possível sobre o Romeu.
Sites na Net com referência a Romeu de Melo, coordenador de duas antologias de ficção científica:
http://www.scite.pro.br/tudo/fic.php?_algunsdosmelhorescontosdeficcaocientifica http://www.scite.pro.br/tudo/fic.php?_algunsdosmelhorescontosdeficcaocientifica2 http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/03/00/T1116899737/3