NIETSZCHE : ECCE HOMO
INÉDITOS E PUBLICADOS AC
EM 1952, 1961, 1980 E 1991
***
veja fotos do homem no site a seguir, entre os 14.203 sites referenciados pelo yahoo:
http://www.yenra.com/quotations/nietzsche.html
***
1-5 <nietzsche-md-1-5>
1-3 <nietzsche-3> notas de leitura -inéditos ac de 1961 - ensaios sobre a liberdade
TRÊS PÁGINAS
SOBRE NIETZSCHE
1961
- Aos profissionais da mentira nada é impossível o nenhum escritor está livre de que o usem, sabe-se lá para que fins. Diz-se então que «Nietzsche inspirou Hitler». Só há pouco tempo um estudioso veio documentar a inabilidade e falsidade da calúnia, tão rapidamente generalizada mas tão cedo e facilmente desmascarada. Sabe-se hoje que as obras de Nietzsche implicadas no processo do nacional-socialismo são parcial ou totalmente apócrifas. Talvez por isso as ditaduras orientais hodiernas não tenham olhado nunca sem ciúmes (leia-se o que Luckas, ciclista do pensamento marxista, escreve sobre Nietzsche, um dos que ele considera, aliás com razão, assaltantes da razão) o suposto inspirador das ditaduras ocidentais. Mas é ver também: não há católico, conservador ou avançado (à excepção, talvez, do Emanuel Mounier o, num outro plano, Régis Jolivet) que possa ouvir, sem espumar, o mesmo nome de Nietzsche.Já sabíamos que o espírito de Nietzsche não pode quadrar a nenhum carcereiro, por insusceptível de encarceramento; mas ficamos a saber que a internacional católica e a internacional comunista são os inimigos recíprocos ideais: se as vemos esfolarem-se reciprocamente, quanto ao poderio mundial, aliam-se, sem querer e possivelmente sem os seus mais lúcidos fiéis darem por isso, no ódio a Nietzsche.
Porque o que os separa de Nietzsche é, precisamente, o que os une: a velha lenda do amor fraternal, que redunda na retórica da fraternidade entre os socialistas e na retórica da santidade entre os católicos. Para os cristãos, a dor existe e deve existir, como penhor da aceitação ultra-terrena da pobre alma imortal que, quanto mais sofre na terra, mais goza nos céus; para os marxistas, a dor humana tem origem nas desigualdades económicas e a luta de classes as nivelará, preparando assim, aos homens, o paraíso sem dor cá na terra. Numa e noutra é sempre a felicidade que se promete, a troco da liberdade.
Não nos iludamos com a guerra acesa entre os dois concorrentes ao trono universal. A guerra podo travar-se, sim, mas enquanto não acharem modo de repartir a presa, com vantagem e gáudio para ambas as partes. Quando isso acontecer, o único inimigo provirá do anti-cristo, que acabou com o molho da «fraternidade entre os homens e o substituiu pelo amor que é liberdade.
Por causa do Nietzsche, falam os eruditos e críticos que se continuam alimentando dele, do "super-homem», como se falassem do homem macaco ou da mulher aranha.
Nietzsche, profeta que se sentia de uma nova religião anti-metafísica, apaixonado de tudo o que fosse irradiação de vida, não amava, no entanto, a vida pela vida.
Na vida, Nietzsche ama o abismo, a cumeada, a hora solar, o tempo da exigência, da dificuldade, da responsabilidade e da liberdade, da máxima tensão de si próprio sobre si próprio. Debalde se procurará em Nietzsche a apologia da boa mesa, da boa cama, da boa vida. Foi um dos primeiros, senão o primeiro, a denunciar os bem-pensantes e os bom-viventes. Debalde se procurará nele um sucessor de Epicuro, Baco ou Diógenes, um antecessor do senhor Aquilino Ribeiro (!!!).
Não se confunda (por amor à Confusão Maior) o espírito dionisíaco ou orgiástico, que tem um sentido rigoroso no contexto trágico onde Nietzsche o via, com as bacanais de Pitigrilli, Paulo de Koch e Guido de Verona.
Nietzsche defendia o ascetismo, sim, e por isso detestava o repouso, a cal-ma, a resignação, a esperança que ressumam de todo o cristianismo mal entendido, feito ópio para amortecer as almas, o que caracteriza até um cristianismo a que podemos chamar "socialista" e que quer fazer de Cristo o primeiro comunista da mundo.
Esse mesmo é que Cristo atacou, esse que me parece a visão mais falsa que de Cristo se tem dado. As ideias cristãs de redenção, paraíso, imortalidade da alma, repouso eterno, beatitude, paz, pareciam-lhe estúpidas, restando saber se alguma ou algumas delas foram alguma vez defendidas por Cristo. Aos teólogos e filólogos, porém, não lhes convém mostrar a verdadeira face de Cristo. Uns e outros, detentores do poder e da instituição (a Santa Madre Instituição), raivosamente ocultam a outra face de Cristo: aquela que Nietzsche viria a desnudar, sendo ele essa face.
Hoje podemos ver que Cristo e Anti-Cristo são as duas faces do mesmo rosto: a liberdade. Cristo e Anti-Cristo não pregaram a felicidade, a bem-aventurança, o prazer, a paz, nem a fraternidade ou amor passivo Pregaram a dificuldade, a responsabilidade e, portanto, a liberdade.
O Anti-Cristo truculento e inspirador das atrocidades nazis é pura invenção de teólogos sem invenção; e o Cristo socialista é outra invenção de metafísicos sem emprego. A moral dos fracos (Sklaven moral) é para Nietzsche a moral piedosa, de sacristia, de jejum, de beatice, de amor passivo, de retórica do amor, do amor pequenino (do tamanho daquelas confusões contra que me insurjo em nome da Confusão Maior), do progresso messiânico e indefinido do senhor Marx, esse valentíssimo teólogo, esse arguto filólogo. Em Nietzsche se continuará a repor o problema do homem que se não rende à botica da felicidade. É o "eterno retorno" a Nietzsche, sempre que se tente formular a temível e eterna problemática da liberdade humana. A nossa covardia eternamente recorrerá a ele, enquanto sentirmos que estamos vivos.
Nietzsche não é pessimista, nem optimista. Nietzsche é trágico. A hora de Nietzsche é sempre a hora solar, a hora da aventura, do risco, do gratuito, da experiência que nos é dado viver para nunca mais se repetir. Nietzsche é optimista como o cisne que canta porque sabe que vai morrer. Como Beethoven quando escreve o coro final da nona que nunca ouvirá. Como a alegria da tragédia grega. O que são as tragédias de Ésquilo e Sófocles senão o maior poema à liberdade que jamais se escreveu? A vinheta que Nietzsche mandou desenhar para a primeira edição d' A Origem da Tragédia, representa o Prometeu, sim, mas desagrilhoado. A liberdade tem, no poeta trágico, o valor de experiência, de iniciação, de aprendizagem. É preciso lembrá-lo, hoje que se destituiu da sua hierarquia de valor absoluto, substituindo-a pelas muito cómodas e inúmeras liberdades relativas, em que falam todos os despotismos.
A liberdade não é relativa, é o único absoluto para onde se voltam todos quantos, não teólogos da esquerda, da direita ou do centro, não têm nenhuma mística celeste nem terrestre, os que espatifaram os organons e cuspiram nos óculos encardidos dos doutores filólogos, (da esquerda, da direita ou do centro). A liberdade é escolha ou renúncia. É preciso valorizar a liberdade como experiência plena, irredutível, como livro de uma só edição e que em poucos anos (os muitos que dura uma vida) se esgota sem possibilidade de o reeditar.
Qualquer humanismo optimista ou qualquer optimismo humanista exclui o espírito trágico, que não é esperança nem desespero mas liberdade incarnada. Falar de esperança é tão ridículo como falar de desespero. Falar de optimismo é tão ridículo como falar de pessimismo. O que sabemos nós do futuro, para dele esperar ou desesperar seja o que for.
+
1-2 < 91-08-17-ls> leituras do afonso <nietzsche-4-ls>
CARTAS DE UMA AMIZADE (*)
[(**) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «A Capital», Leituras de Verão», 17-8-1991 ]
O aproveitamento póstumo dos inéditos de Nietzsche, a que sua irmã deu o nome, mesmo quando não concedeu a cumplicidade, continua a discutir-se como uma história interminável, uma telenovela de muitos capítulos, um dos mais intrincados enigmas policiais do nosso tempo. Poirot já se pôs no encalce.
Sempre que nos deparamos com um texto atribuído a Nietzsche, além das obras que publicou em vida, temos que primeiro passar por cima do cadáver da irmã e dar o necessário desconto.
À Guimarães Editores se deve o notável serviço prestado à cultura portuguesa com a tradução e divulgação das obras de Nietzsche, uma das apostas mais certeiras do nosso mundo editorial e à qual deram qualificada colaboração os nomes prestigiados de José Marinho, Álvaro Ribeiro, Delfim Santos. Em tal contexto de credibilidade deve ler-se, embora com desconfiança, esta correspondência trocada entre o filósofo e o compositor e agora apresentada ao público português por Delfim Santos Filho.
É uma forma interessante e perturbadora de entrar no universo paradoxal do filósofo, que durante tantos anos rendeu um culto cego ao compositor. É uma espécie de visita guiada aos escombros dessa amizade e uma oportunidade de percorrer de novo os itinerários de um esquizofrénico, que não enlouqueceu quando oficialmente lhe foi colado o rótulo mas que, felizmente para nós, geriu desde sempre a loucura como a maneira mais expedita de lutar contra o niilismo e o vazio maníaco-depressivo, o outro lado da estupidez da sensatez institucionalizada.
As cartas são constantemente interrompidas pelas considerações biográficas da irmã, Elisabeth Foerster-Nietzsche, que na apresentação afirma:
«Este livro termina com a interrupção da correspondência entre Wagner e o meu irmão. Todas as observações e opiniões posteriores, escritas depois da quebra da sua amizade, devem ser procuradas noutros locais. Neste livro comemorativo, desejo pôr em evidência apenas os mais afectuosos laços de intimidade, os quais, embora escritos com alguma melancolia, não revelam, pelo menos, dissonâncias desagradáveis de qualquer das partes.»
Não é difícil acreditar em Elisabeth e na sua boa-fé. Ainda que suscite dúvidas, o seu contributo à memória de Nietzsche terá sido, apesar de tudo, menos prejudicial do que a deturpação a que tem procedido um exército de críticos e catedráticos em filosofia, apostados em vampirizar o mártir de Engandine até à última gota - o sangue deste crucificado anti-Cristo.
----
(*) «Correspondência com Wagner», Nietzsche, comentários de Elisabeth Foerster-Nietzsche, introdução de Delfim Santos Filho, Ed. Guimarães
(**) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «A Capital», Leituras de Verão», 17-8-1991
+
<vattimo>3922 caracteres
[16-8-1980 ]
ABORDAGEM POR ESTIBORDO(*)
(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «A Capital», coluna «Leituras de Verão», em Agosto de 1980
Gianni Vattimo, um estudioso italiano da filosofia que os alunos portugueses têm introduzido paulatinamente no nosso mercado livreiro, estava predestinado, pela delicadeza do toque, a «introduzir Nietzsche»(*) na cabeça das novas gerações, essas que nunca leram Luckacs, o tal que acusava o filósofo do Alto Engandine de ter inspirado as atrocidades nazis.
Afinal, viria a provar-se mais tarde e muito recentemente, que não era Nietzsche mas Heidegger quem se banqueteava com os botifarras nazis. Ironias do destino, que se espera venha a dar-nos outras surpresas tão interessantes como esta que, à boca de cena, nos permite ver reabilitado um filósofo dos mais malditos e amaldiçoados de toda a cultura ocidental.
Divulgador «soft» (como diria António Guerreiro) do pensamento filosófico moderno, o publicista Gianni Vattimo procede com grande habilidade à desmontagem do bicho, evitando picar-se nos espinhos: com a desenvoltura de quem dá uma lição na Faculdade de Letras de Lisboa, Vattimo tenta a abordagem do filósofo do «bem e do mal» por estibordo, procurando não evidenciar as heresias do profeta mas sem distorcer a personalidade iconoclasta desse que é o maior destruidor de mitos da cultura ocidental.
Pensador desconfortável, portanto, verdadeiro deserto para hedonistas e outros economistas, praticante do karma yoga, completamente expulso da história da filosofia e outros lugares selectos, por não ter deixado inteira uma só das suas ilusões e quimeras, o espanto expressa-se apenas nesta pergunta: porque teima a filosofia em se apropriar de quem a contestou e subverteu?
A este respeito e como se sabe, ele teve a intuição que lhe permitiu, no magma incandescente do que chamou o «dionisismo», tactear um pouco da realidade que toda a filosofia ocidental falsificou e, com a ajuda dos deuses e dos Vattimo, continua falsificando. Ao que vem, portanto, a reabilitação do herege?
Embora com luvas e munido das necessárias pinças, Vattimo realiza a obrigação didáctica de apresentar Nietzsche em via reduzida e como leitura aconselhável a menores. No fundo, é uma forma possível e suportável de suportar um ser humano, «demasiado humano» como foi Nietzsche, os equívocos e mistérios de um cérebro tantas vezes considerado doente e aberrante pelas maiores sumidades médicas.
Baldados que foram os esforços para meter disciplinadamente este Frederico em qualquer das histórias de que História se alimenta - a da Literatura, a da Filosofia, a da Teologia, a da Psicologia e a da Paleontologia - só resta um caminho honesto ao divulgador: confessar que o homem dos bigodes farfalhudos, o lendário louco que beijava na rua o cavalo chicoteado por um magarefe mal disposto, o inversor e subversor de todas as marchas e ordens, continua a ser consumível embora não seja catalogável em nenhuma disciplina universitária que diploma pessoas para a vida.
Dá-lo assim avulso, desligado do contexto onde fazia faísca, é a forma de introduzir Nietszche nos círculos elegantes da moda, o que - diga-se - Vattimo faz na perfeição. Poderá então saber-se o «como» e alguns «porquê» que determinaram uma das mais inquietantes aventuras intelectuais do Ocidente, pouco dado a voos de grande altitude. Ainda hoje em digestão lenta por um sistema que já provou, em todas as circunstâncias, ter uma capacidade infinita para deglutir o que o contesta, Nietszche colocado de novo nos circuitos da moda, e desta vez nos círculos da moda universitária, faz pensar na fartura. E se Vattimo não traz, com seus sequazes e capatazes, alguma na manga.
Não tendo Nietzsche, nem uma só linha a ver com o que oficialmente se entende por instituição filosófica, há que desconfiar e perguntar, afinal, ao que vêm tantos comentadores e divulgadores.
--------
(*) « Introdução a Nietzsche», de Gianni Vattimo, Editorial Presença
+
1-2 - <52-08-20-ej> <nietzsche-5-ej> escritos da juventude - cadernos de um aprendiz
ASSIM FALAVA ZARATUSTRA,
em 20 de Agosto de 1952
Um outro profeta que anuncia a vinda dum novo deus. E usa dos mesmos grosseiros processos que o antigo usava. Complicada simbologia prestando-se a interpretações muito diversas de cada pessoa que lê; assim qualquer pessoa pode supor maravilhas onde o autor não pôs mais do que palavras.
Nietzsche, para derrubar os deuses anteriores a ele, cria um ainda mais imperfeito, na própria concepção. Nem ele procura coerência. Blasfema e com isso se acha capaz de impor uma nova religião e de mostrar às inteligências um novo deus.
Poesia ou filosofia? Poesia será, pois a filosofia exige requisitos que nem de longe ali se satisfazem. Por exemplo: uma linguagem inflexível e recta.
Mas saudemos o esforço, o entusiasmo e até a coragem dum grande pensamento que se revoltou contra crenças tradicionais, hábitos mantidos e até contra o próprio espírito na sua casa sem janelas. Tal tentativa só podia ter um fim como de facto teve: o rompimento da consciência individual em alguém cujo último sustentáculo era a consciência.
Nietzsche nunca se teria conformado com essa escravidão do humano ser à consciência. Lembra a poesia de José Régio no que esta tem de revolta, de procura de emancipação. Mas distancia-se dela pela falta de submissão, de lúcida e exacta visão das limitações implacáveis, da identificação do deus que procura com o deus tradicional. Nunca eu podia ter a pretensão de reduzir a termos lógicos o que por si nunca é lógico, nem coerente, nem meridiano.
Por isso disse que o livro de Nietzsche é poesia. Na grandeza do seu grito Nietzsche deixa-se vencer e nem repara que conduz a sua prédica com acentos de Novo Testamento, com expressões da Bíblia Antiga, com o próprio desejo da vinda dum deus e seu império.
Onde a emancipação total? A eterna prisão: o espírito humano que nunca permite se saia de si e dos termos em que ele equacionou o problema humano.
Mas mesmo que tal quiséssemos conseguir (a emancipação do espírito de si mesmo) não era com uma oração inflamada, imprecações e símbolos que o conseguiríamos mas na procura das raízes da inteligência lá onde elas provavelmente se encontram: na história. A intervenção do real e até do actual no emaranhado da simbologia poética, mostra bem as falhas inevitáveis que a grande ambição tinha de originar, dada a sua própria impossibilidade lógica; a loucura de Nietzsche é a maior e mais trágica e mais bela explicação de como Nietzsche percebeu isso muito bem e mediu a sua fraqueza.
Da impotência ao desespero e do desespero à loucura foi um passo. Que dizer do nebuloso conceito de massas que Nietzsche nos apresenta chamando-lhe os nomes mais diversos mas todos desprezivos?
Só isto: ele sentia qualquer coisa que, mais do que tudo lhe entravava o caminho; ele sentia qualquer coisa a acusá-lo surdamente de tanta ambição; ele sentia qualquer coisa a pesar-lhe na alma desmentindo cada grito com que a si mesmo se procurava convencer.
E a essa qualquer coisa chamou rebanho, populaça e muitos nomes mais. E como se compreende que um homem que se quer superior venha rojar-se perante o rebanho, a contar os seus anelos e desânimos e ambições?
Dessa paradoxal posição também Nietzsche dá conta e a expressa em diversas passagens. Uma vez mais se verifica a inapreciável vantagem de possuir o maior domínio da língua. Quando se tem muito que dizer, corre-se o risco de estragar tudo se não o soubermos expressar. Até certo ponto, isso me parece que aconteceu a Nietzsche.
Ou será da tradução? Afinal a visão do "ubermensh" não contraria, antes afirma, a lei biológica da evolução. A única atitude inteligente diante de Zaratustra não será considerá-lo como uma espantosa profecia perante a qual nos resta somente esperar, dispostos a presenciar grandes acontecimentos?
A todo o momento clama "Meus irmãos". Mas esses irmãos não passam dele próprio, desdobrado por imperiosa necessidade de expressão. O Super-Homem não tem irmãos. O egoísmo parece-me que um dia me convenci de que o egoísmo era a mola real da vida. E Nietzsche diz que sim, que é.
Eis uma afinidade para mim bastante honrosa. Se um dia o mundo se contorcer em gigantesca revolução de povos, não terá chegado a altura do Super-Homem, o advento duma época Nova, a saída do actual beco sem saída?
*
O rompimento da razão é suspeito seja em que caso for: E se o não admitimos na religião, porque o havemos de admitir na filosofia de Nietzsche, que afinal não passa duma outra religião, mais imperfeita e sem os séculos a escorarem-lhe o assento.
Zaratustra é um poema. Por isso mesmo, outras consequências mais não se lhe podem pedir que as de contemplação e sugestão. Em Zaratustra, muitas ideias novas surgem. Mas antes que a essas ideias sejam dados foros de cidade, necessário é que passem da categoria de ideias poéticas para a de ideias filosóficas.
Não se pode chamar vaidoso ao «Ecce-Homo». Nietzsche não entendeu a vaidade como até ele se entendera.
+
<nietzsche-1> notas de leitura - encontros imediatos
SER O QUE SE É
"Subjectivo" diz, numa palavra, o que Nietzsche dizia nestas: "Escrevo os meus livros com o meu sangue" e o seu comentador Baranger por estoutras: "Toda a filosofia é apenas um reflexo da personalidade do filósofo que a concebe."
Baranger diz ainda no livro em questão, "La Pensée de Nietzsche":
"Para ele (Nietzsche) a vida e o pensamento se entreconfundem, se condicionam reciprocamente. Examiná-los separadamente seria um contrasenso. A sua filosofia é a história de uma lenta formação pessoal, dum progresso constante para uma sinceridade cada vez maior; as suas obras, os degraus que marcam o desenrolar de uma aventura interior.
É preciso ser o que se é, quer dizer, encontrar-se a si mesmo por uma confrontação constante do seu pensamento e da sua experiência exterior. O pensamento não tem valor enquanto se não liga à vida, comporta riscos e implica uma acção. Nada mais afastado de Nietzsche que o "homem teórico", que o pensador puro. As suas obras exprimem as suas afeições, as suas admirações, a sua solidão; as etapas da sua vida, as suas amizades, as suas rupturas, as suas viagens, são condicionadas pela urgência de um pensamento que se procura através dos acidentes e dos acasos de uma história individual. Ele recusa-se a manter relações com um amigo porque este amigo se não mostrou bastante grande para responder ao ideal que ele tinha feito dele, abandonou uma situação honrosa e lucrativa para poder exercer em liberdade plena o seu pensamento, abandona o país porque é essencial para ele encontrar num outro as paisagens e a luz de acordo com o seu meio íntimo.
A sua filosofia apresenta pois um carácter muito peculiar: é uma experiência, jamais uma teoria.
O nietzscheísmo não é , de modo nenhum, um sistema. A filosofia não pretende mais a objectividade, está ligada de uma maneira indissolúvel ao indivíduo num momento dado da sua história. É pois natural que aceite as contradições: só um espectador puro, separado de uma vez para sempre das necessidades e das contradições da vida pode edificar um sistema plenamente coerente. Nietzsche contradiz-se e não somente nas teses mas nos juízos, e não apenas de um período para outro da sua vida mas dentro do mesmo período, no decurso do mesmo livro.
Afonso Cautela
*
SUBLINHADOS DE NIETZSCHE
Por todos os lados, o espantoso abre as fauces. Há que manter a coragem, o valor, e, para isso, quanto se necessita de contar bons amigos! A solidão é desconsoladora.
*
O nosso destino é a solidão espiritual e, às vezes, uma conversa com os que estão de acordo connosco.
*
Pois dificilmente encontrarás quem tenha passado por mais conversões e tenha amado mais, nos outros, o neofitismo apaixonado.
*
Seja esta época uma dura aprendizagem, necessária para poder, depois, ensinar.
*
Não sou, por exemplo, um lobis-homem, um monstro moral; sou, bem pelo contrário, uma natureza oposta àquela espécie de homens que até agora se louvaram como virtuosos.
*
Pois o gelo nos cerca nas cumeadas, lá onde a solidão é indizível. Mas como repousam tranquilas todas as coisas na luz! Como se respira livremente! Quantas coisas aparecem abaixo de nós. A filosofia, como eu até agora a compreendi e a vivi, é o viver voluntariamente no meio do gelo e sobre as altas montanhas, procurar tudo quanto é estranho e problemático na existência, tudo quanto foi até agora condenado pela moral. Através de larga experiência, que pela peregrinação nos domínios interditos alcancei, aprendi a olhar as causas por virtude das quais até agora se moralizou e idealizou de modo muito diverso do que convinha: a história oculta dos filósofos, a psicologia dos grandes nomes da filosofia iluminou-se para mim. Quanta verdade pode um espírito suportar, quanta pode arriscar? Tal foi sempre o meu critério de valores. O erro (a crença do ideal) não é cegueira, o erro é cobardia.
*
Agora vou sozinho. Oh! Meus discípulos: Também vós ides, sozinhos! Assim o quero.
+
sábado, 6 de Agosto de 2005
Dando preferência aos meus mais antigos companheiros de jornada, o nome de Frederico Nietzsche aparece entre os primeiros, com Fialho, com Fritz Khan, com Wanda Wassilewska, pois todos esses li na minha casa de Ferreira do Alentejo e a ela os meus verdes anos ficaram ligados.
As leituras de Nietzsche eram matéria de rija discussão com o meu amigo Joaquim Lúcio Duro, que também o tinha como autor de cabeceira.
Alguns livros desse tempo foram-se perdendo, mas outros persistem tão vibrantes como então. É o caso de Nietzsche, um caso obsessivo que nunca deixou de me emocionar mesmo nas traduções «gauche» da Guimarães ou talvez por isso. E pelos prefácios de José Marinho e Álvaro Ribeiro que, tenho a certeza, viciaram muita gente no solitário de Engandine.
Se tivesse que eleger 3 títulos entre os que ainda guardo na minha biblioteca do Gato, seriam, talvez, A Origem da Tragédia, as cartas inéditas e , claro, o Ecce Homo.
+
<nietzsche-2>
BIBLIOTECA DO GATO
8 Livros de Nietzsche ainda existentes em Fevereiro de 2002 :