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NOTÍCIA BIOGRÁFICA DE MIGUEL SERRANO

SERRANO, MIGUEL DE JESUS ALBARDEIRO

[N. Moura, 1922 - m. Lisboa, 1996]

Viveu a infância e a juventude em Moura, onde nasceu, tendo completado o Curso Geral dos Liceus no Instituto Politécnico. Foi empregado de escritório de uma empresa de produtos farmacêuticos antes de ingressar no jornalismo profissional, com sucessivas passagens, desde 1953, pelas redacções de Diário Ilustrado, O Comércio do Porto, Diário de Notícias, República e O Diário, onde chegou a exercer funções de chefia e coordenação do Suplemento Cultural. Iniciou a sua actividade no Diário do Alentejo e em A Planície, mas os jornais não o desviaram do prazer da escrita no domínio da crónica e da narrativa de feição pessoalíssima e poética, onde se confunde uma visão lírica e nostálgica da vida com um profundo sentimento de humanidade e de compreensão pelo mundo à sua volta. Foi director da revista Vida Rural e, entre 1990 e 1993, exerceu funções como director-adjunto do Diário do Alentejo, em Beja, tendo sido director do quinzenário regional e cultural ABC, que se publicou em Algés até à data da sua morte. Colaborou nas revistas Ocidente, Vértice e Seara Nova, tendo também prefaciado vários livros de poesia. Foi traduzido para inglês, checo e galego.

Obras principais: Quadras do Meu Caminho, crónicas, 1953; O Sinal, contos, 1959; Noite Destruída e Procissão, narrativa, 1978; Escada Rolante, narrativa, 1989; Estátua Alada, contos, 1993; A Praia da Memória, contos, 1995.■

TRÊS TEXTOS DE AFONSO CAUTELA

SOBRE MIGUEL SERRANO

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<miguel-1> - autores em que me li -

IMORTALIDADE E POESIA

ENSAIO CRÍTICO SOBRE OS CONTARELOS

DE MIGUEL SERRANO(*)

Por AFONSO CAUTELA

(*) Publicado na revista «Ocidente», volume LVII, 1959

UM LIVRO SINGULAR

Quando um livro(1) foge a todas as explicações porque é, por si só, uma explicação - verifica-se, mais uma vez, a incapacidade da crítica, a nulidade de submeter a obra de arte à anatomia analítica, a intuição poética ao raciocínio dialéctico, o absoluto ao relativo. Perante uma arte de pura imaginação, a inteligência demite-se ou pede tréguas. Se não é poesia lírica, nem dramática, nem épica, se não é novelística nem ficção, como vamos classificar este livro? Como vamos explicá-lo? Onde incluir uma voz assim, depurada até ao essencial, sem elementos dialécticos e resistente, por isso, à análise dialéctica, num mundo de pessoas inteligentes, incapazes de ouvir o silêncio, de ler no vento, de falar com as pedras, de ver o invisível, de brincar com Jesus?

Ao ler estes contarelos de estilo isento, onde a palavra não pesa, onde a letra não mata o espírito porque o liberta, sentimos a mesma alegria que nos dão as histórias escritas por crianças. São estes contarelos, por isso, os mais insusceptíveis de perderem valor e vitalidade com o tempo e conforme o país ou língua onde forem lidos. Aproximam-se do espírito da música, que não depende de idiomas e pode ser entendida em qualquer tempo e em todos os lugares da terra. Para o espírito da música, aliás, para a expressão pura em vez da significação comprometida, para a forma em vez da representação, tende toda a arte. Abandonada a obsessão do «parecido» em pintura, do «entendível» em poesia, do «realista» em novelística e dramaturgia, do «folhetinesco» em cinema, a arte tende para a música..

O QUE TERÁ O ESPÍRITO COM A LETRA?

Um escritor é grande quando extrai de cada facto, de cada realidade, de cada palavra., as suas máximas e últimas virtualidades. Grande é, assim, sinónimo de denso. Se o valor de uma obra literária se medisse a metro ou a quilo, então a enciclopédia britânica seria uma das obras-primas universais.

Contudo, talvez hesitemos ainda em classificar de obra-prima um livro de poucas letras, só porque tem pouco mais de 100 páginas, a corpo 10, formato bolso. Para as nossas mentalidades de adultos inteligentes, aqui estará um livro de nada. Haverá mesmo quem diga: «Mas não ensina nada, mas não diz nada». Pois não, «não diz nada». E porque havia de dizer? O que terá a arte com o dizer coisas? O que terá a poesia com a sabedoria dos séculos e a ciência dos homens? O que terá o espírito criador com os milhões de volumes dos milhares de enciclopédias das centenas de bibliotecas? O que terá o espírito com a letra? E até o que terá o espírito da literatura (ou poesia) com a literatura? Que culpa temos nós dos romances realistas, e descritivos, e narrativos, e históricos? E da novelística à letra? E da novelística obrigada a mote? Será literatura para uso de literatos, mas não é poesia de poetas, a novelística documentária, folhetinesca, fotográfica, realista.

A LITERATURA COMO CRIAÇÃO DO MUNDO

Na literatura vamos procurar a que for poesia e só essa importa., a que, continuando a criação do mundo, sobre a existência degradada cria uma super-existência. Se a realidade é estática e a existência dinâmica, a super-existência só vale para o poeta na comunhão com tudo, dogma panteísta que podemos verificar, como índice comum, nos maiores poetas de sempre, no Camões da Canção X, como no Pascoaes da Elegia, como no Alberto Caeiro do Guardador. Continuando e aperfeiçoando o surrealismo, ou super-realismo, nós teríamos hoje que falar de um super-existencialismo.

UMA ONTOLOGIA PANTEÍSTA

Referidos a um ponto central de onde irradiam, os contarelos exprimem um pensamento panteísta, uma visão religiosa da vida e do universo, uma conquista da terra sobre o céu e do céu sobre a terra. A esta comunhão cósmica dos seres, e até do Ser com o Não-Ser ou de todos os termos dialecticamente opostos (vida e morte, dor e alegria, presença e saudade), se perguntássemos a Miguel Serrano que nome lhe daria, obteríamos uma única resposta: Amor. Mas dizer-se que 'O Sinal' é um livro de Amor não segue daí concluir-se que seja um livro sentimental. É um livro de Amor na acepção exigente e infinita em que um grande poeta é sempre um poeta do Amor e a grande poesia um mergulho no Cosmos por obra de Amor.

O HOMEM É IMORTAL

A vida e a morte não são, para Miguel Serrano, estados opostos ou sequer diferentes. São o mesmo universo, a mesma unidade, o mesmo centro de luz. A morte é para ele uma ressurreição contínua, a natureza um cíclico desdobrar de integrações e reintegrações. As coisas ficam connosco, nós ficamos nas coisas. O homem não morre porque se prolonga em tudo e tudo se prolonga nele: a partir daí, é imortal. Não se morre, não há outro mundo, transmigramo-nos para os rios, as aves, as flores e assim nos perpetuamos.

O menino «morto» transmigra-se em estrela: «Jesus tinha ido buscar-lhe o mano, tão pequenino que cabia numa caixa de sapatos, e fazer dele uma estrela muito grande, muito brilhante.» Ou apenas «está ali no fundo» (página 29) «alegre porque tinha visto o fundo da poça e já era igual às ervas, às pedras, ao céu.» Lucindinha não morre, acontece apenas «naquele quarto escurinho como uma aflição», «um abraço, um limite, um longo passo para a grande viagem.» O canito não morre, «de olhos fechados, já não tinha cor na noite longa, confundia-se com as lágrimas do Joaquim, com o vento, as árvores, as crianças.» O avô não morreu, continua-se no neto pela semelhança física «Mirava-me ao espelho. Não estava lá eu. Não. Eu não era aquele mas sim o avô.»

«Alma e corpo unidas pelo mesmo sinal» é como finda o contarelo que deu o título ao livro: O Sinal. Francisco fala-nos entre a terra e o céu, sem pertencer a um nem a outra, simultaneamente humano e divino, natural e sobrenatural, imanente e transcendente. A menina tem a boneca doente e não sabemos quem morre, quem está doente: se a menina, se a boneca; confundem-se: «Está doente como a sua boneca, porque lhe quer muito, porque se parece com ela». Parecemo-nos com o que amamos e não pode existir a Morte desde que exista o Amor. A menina queria muito à boneca, adoece só porque a boneca está doente. Mas embora nós saibamos que a boneca morreu, ela não pode morrer porque o Amor é que salva. A saudade é uma metamorfose do Amor e vemos por isso o papel que representa no panteísmo de Miguel Serrano:

«Adeus! Adeus! Adeus! Eram os rios, os montes, o luar, as árvores a beijarem aquele vulto pequenino que já mal se via».

Miguel Serrano não acredita só na imortalidade da alma. Acredita, acima de tudo, na imortalidade do homem.

A CIVILIZAÇÃO DO AMOR

A ciência, usurpando cada vez maiores zonas do humano social, a este circunscreveu o homem, deixando em descrédito e pondo a ridículo, pelo golpe positivista, a metafísica tradicional. Ela merecia-o. Usara secularmente um instrumento - a razão -, que pertencia à ciência e esta, não consentindo ninguém dentro doa seus umbrais de déspota, fez muito bem em vassourá-la... Mas o homem é que continuava metafísico, tão ou mais repugnado do que os espíritos positivistas, com as arlequinadas da metafísica sistemática.

Foi então que o artista se apercebeu de que a sua missão (à medida que a imagem obtida por meios mecânicos degradava a arte realista) estava em substituir, no coração do homem, a necessidade de transcendente que os metafísicos profissionais já não satisfaziam. Se contava desde sempre com a aversão do homem positivista, ela recrudesceu ao investir-se da missão de mediador com a divindade. Quando a metafísica oficial e canónica, dogmática e oracular caiu em descrédito, a arte, sempre pronta a sintonizar os mais profundos movimentos da alma humana, substituía no «animal metafísico» que é o homem a necessidade de criar formas evoluídas de sensibilidade para o inefável. A ciência julgara matar o que a arte ressuscitava. Substituindo a lógica dos sistemas, a sistemática das filosofias, a didáctica das dialécticas, a arte instaurava sobre a civilização técnica e racionalista, a civilização do Amor.

Por tudo quanto dissemos, já se compreendeu que poeta, em nosso entender, é o poeta do sublime, do transcendente, do maravilhoso e do mistério, e é esse poeta que vamos encontrar no criador dos contarelos, profeta de uma civilização do Amor.

A CRIANÇA, ARQUÉTIPO DO HOMEM

N’ O Sinal são as crianças tudo, do que vivem ao que dizem, do que dizem ao que significam, do que significam ao que simbolizam. Não andam ali a proferir criancices. Encarnam mitos, personificam alegorias. Mas se a criança é ali tudo, protagonista e personagem, homem e deus, salta à vista que não poderemos incluir O Sinal na designação frívola de «literatura infantil», não porque os contarelos sejam insusceptíveis de chegar ao coração das crianças (que estarão certamente mais aptas para os sentir do que os adultos) mas porque a «literatura infantil» nos evoca imediatamente o preconceito de «escrever para crianças». E Miguel Serrano não escreve para crianças, como não escreve para nenhuns adultos em particular: visa o que há de permanente e universal no homem, adulto ou criança, branco ou negro, católico ou budista. Tem possibilidades de chegar ao coração de todos, por isso mesmo que, visando o permanente e o universal, não visa o efémero e o particular.

CADA CONTARELO, UM MITO

Se cada um dos contarelos como disse e veremos a seguir, personifica um mito ou uma alegoria, pode dizer-se que, no conjunto, são todos eles o mito da infância como «paraíso perdido». Em todos eles comparecem crianças e através delas é que o autor nos dá o mundo dos adultos. A criança como os animais situa-se mais próximo da natureza. Esta reconquista das origens, da primitividade, da infância perdida, do estado natural ou de graça, é hoje heróica e representa o Paraíso no Inferno. Só a criança, que é, no mais rigoroso sentido do termo, a heroína destes contarelos, o consegue, só ela é capaz de falar com O Copo de Cristal, de brincar com Jesus (O Sinal), de vender pureza às costas de um burrinho (Estranha Mercadoria), de «ver a lua com uma cara triste, de «abraçar o céu, o rio, o luar» (Para que Serve Isto, Mãe?), de «correr mundo, ouvir rumorejar as serpentes, enfrentar as setas envenenadas dos índios, ser um valente, um valentão maior que um castelo» (Fuga).

«Não tinha sinal nenhum, mas, coisa estranha, eu sinto que ele existe mesmo sem se ver» é uma frase do contarelo-poema que dá o nome ao livro. Mesmo o que não se vê, se vê. Mesmo o que não existe, existe. Num mundo de aparências, são os cegos quem vê a verdade (Luz Mais Alta) e são cegos os que a julgam ver. Só a grande luz interior ilumina o mundo: «com essas gotas de noite foi uma estrela muito grande que te ficou a servir de alma» - diz a mãe para o filho cego, em Luz Mais Alta, síntese das sínteses, Édipo numa criança.

Luz Mais Alta é um contarelo-chave, uma das muitas chaves que n’ O Sinal se desvendam para o desconhecido, um dos mitos que ali se corporificam.

Em Pão e Presunto é a alegoria da Pobreza: a alegria de ser pobre, de viver uma vida sem história, de ter um bocado de pão e presunto que é toda a riqueza quando não se tem mais nada. Todo o livro, aliás, é um hino à Pobreza, não só à pobreza de ser pobre mas à branca imagem da Irmã Pobreza, à última depuração do nosso labirinto moral, à purificação da vida de tudo o que a mata (o supérfluo, o acidental, o berloque doirado, a chinesisse apendicular), enfim, o regresso à vida nua, verdadeira, pobre de atavios mas rica do essencial.

O homem, carregado de riquezas, industriais, arquitectónicas, culturais, históricas, asfixiado sob toneladas de inutilidades, sofre porque não respira, não ama, não vive. Nu, reduzido à sua condição natural, ao seu absoluto, reencontra-se: «O menino tinha a alma tão leve como a carga do burrinho» e o burrinho carregava pureza, essa «estranha mercadoria» de que ninguém lhe queria «comprar um grama sequer, porque, regra geral, as pessoas só fazem negócio com aquilo que palpam e miram muito bem. Esta «estranha mercadoria» alegoriza a pureza da pobreza de alma, enquanto «pão e presunto» alegoriza a pobreza do corpo: em ambos, a alegria de ser pobre.

Em Prometeu, encontramos o eterno mito da Perfeição (e porque não o mito do Idealista, do Visionário, do Predestinado, do Dom Quixote?) : o título já expressa a existência desse mito o nada precisamos de acrescentar.

No herói d' O Outro, que outro filho pródigo não é esse menino que parte de casa, talvez sem regressar? Sempre a criança capaz de encarnar os mitos, sempre a criança conhecendo (a única que conhece) a «alma silenciosa das coisas». Repare-se na sobreposição de três planos narrativos deste contarelo : em primeiro plano, as realidades primárias ou prosaicas, os livros da escola, a «luxuosa mesa de estudo», as «janelas fechadas». Mas numa escapadela aos fastidiosos livros da escola, o menino mergulha na leitura de um livro de contos e passa a primeiro plano uma outra ordem de realidades: as realidades da imaginação, a verosimilhança do conto que o menino lê, a tal ponto que nele se sente espelhado, sendo para ele mais real do que as «realidades primárias ou prosaicas» de há pouco. Depois passa a primeiro plano a terceira ordem de realidades: as realidades oníricas, a partida do menino, a expectativa dos pais que a pressentiam, e não podiam impedir. Finalmente, a repetição, em primeiro plano, das realidades primárias: o menino que regressa, pela voz do pai que o chama, à prosa...

(1 ) O sinal, contarelos de Miguel Serrano, Colecção «Convívio» nº1

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(*) Publicado na revista «Ocidente», volume LVII, 1959

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1-3<miguel-3-ac-ms>

«SÓ HÁ MEMÓRIA DO QUE VIVEMOS E SÓ VIVEMOS O QUE AMAMOS.»(*)

(*) Esta entrevista de Afonso Cautela com Miguel Serrano, indubitavelmente cinco estrelas, foi publicada no jornal «A Capital», 18/8/1989

Com o seu novo livro de ficção, «A Escada Rolante» - quatro narrativas poéticas editadas por Livros Horizonte, na colecção Encontro -, o escritor e jornalista Miguel Serrano reaviva e polémica fascinante sobre «a linguagem como arma das classes sociais oprimidas». É ou não - poderá perguntar-se - a linguagem, nomeadamente o calão, a oralidade marginal, o palavrão típico de um determinado grupo, uma "arma de classe", a única forma desse grupo se "vingar" do despotismo que as classes poderosas sobre ele exercem?

Claro que o autor de «A Escada Rolante» não está nada interessado nesta questão nem em saber se provoca ou não provoca polémicas daquelas em que os intelectuais se deleitam. Ele faz gala em gozar com os intelectuais, dos quais sempre se disse e quis arredado.

No seu inato espontaneísmo, Miguel Serrano limita-se a recriar magistralmente esse discurso marginal dos submundos da pobreza, desse «lumpen-proletariado» que ele conheceu como as suas mãos e ao qual se honra de ter pertencido.

Nada interessado nas especulações «intelectualistas» que o vigor do seu estilo pode vir a provocar, declara muito simplesmente:

«Há coisas que parecem calão, mas são apenas formas "analfabetas" de usar a linguagem. Esses plebeísmos, esses palavrões em que fala, eram a linguagem de uma determinada juventude, aquela que está no livro, os rapazes dos bairros pobres de Moura, que andavam descalços, que eram proibidos de entrar no jardim, que iam ao cinema ver o Tom Mix. Eu era, entre eles, o que sabia ler, o por isso ia ler-lhes as legendas. Eles pagavam-me o lugar da geral mas às tantas estavam a pedir explicações em voz alta e isso incomodava os senhores do balcão. O rebuliço contado no «Tom Mix e a malta da geral" tem a ver exactamente com uma situação dessas...

«DE MANHÃ, ESCREVO, À NOITE LEIO»

Há trinta anos no jornalismo diário, Miguel Serrano começou no «Diário Ilustrado», esteve vários anos no «República», depois no «O Comércio do Porto» e trabalha actualmente no «O Diário», onde coordena o suplemento Cultural.

Diz que sabe organizar-se para não deixar morrer em si a «chama» literária: «De manhã, escrevo para mim, à tarde estou no jornal e à noite leio».

Já houve tempo em que o jornalismo esmagava completamente a iniciativa poética, mas agora sente-se mais reconciliado consigo mesmo, as circunstâncias e a escrita. Apesar de tudo, há já quem respeite, no trabalho, o modo de ser peculiar ao escritor e o seu bioritmo.

Apesar disso, publicar, para ele, ainda é uma operação difícil, um parto doloroso. Referindo-se ao livro «A Escada Rolante» , afirma :

"Esperou cinco anos para ser editado...»

Em 1978, na editorial Caminho, apareceu «A Noite Destruída», narrativa relativamente curta onde, apesar de muitas limitações, já se anunciava a força tempestuosa deste seu novo livro, «sem limitações de qualquer espécie», como ele concorda.

A sua perspectiva como autor, agora, é a de ficar numa justa reforma profissional, pondo finalmente em ordem, sem dispersões jornalísticas, os projectos literários sempre adiados, restituindo à luz do dia aqueles textos que forem ficando, avulsos, na inviolável gaveta dos sonhos, fechada à chave pelas urgências da vida e do trabalho.

«É a hora de fazer «aquilo de que gosto», quer dizer, escrever, quer dizer, ir ao reservatório inesgotával da memória e rebuscar nele a vida, como este meu último livro claramente revela.»

Sobre o que é a memória em literatura, tem uma concepção peculiar e intransigente:

«Só vivemos aquilo que amamos. O que não amamos é-nos imposto e por isso esquecemos. Talvez me pergunte se também amamos o sofrimento, porque o vivemos. E eu dir-lhe-ei que sim, que é especialmente o sofrimento aquilo que amamos, e por muito estranho que isso lhe pareça, amar é sofrer.» E acrescenta, como se ainda falasse do mesmo assunto: «A natureza já sabia tudo antes, tudo quanto existe, está nela.»

INDISCIPLINMADO E POUCO EDUCADO

Definindo este seu novo conjunto de «narrativas poéticas», Miguel Serrano explica:

«É um livro feito de memórias antiquíssimas e de memórias antigas, as primeiras são as que trazemos no primeiro berro, logo que nascemos, as segundas as que vamos fixando pela vida fora.»

Reconhecendo-se um escritor «indisciplinado», acima da tudo pouco «educado», incapaz de seguir regras canónicas e de escrever romances da muitas páginas, assume essa fatalidade de ser um «cronista do instante», o que justifica assim:

"Não sei fazer obras muito elaboradas. A gente não prolonga o sonho até onde quer. O imaginário chega onde chega e depois é o vazio.»

Desculpando-se com o vício do jornalista, que vive de escrever «flashes», constantemente acabados e recomeçados, acrescenta:

«A chama arde depressa e a gente tem que arder nessa chama e isso é um instante Quando "fabrico" escrevo narrativas de mais páginas é certo, mas não tem a mesma criatividade, a mesma emoção.»

MÚSICA, FÁBRICA DE EMOÇÕES

Adepto da «inspiração», em que sinceramente acredita, Miguel Serrano fala da sua técnica mais usada, a metáfora, em termos de intuicionista nato, em termos de um espontaneísmo que a crítica académica e erudita certamente lhe não perdoará:

«A verdadeira metáfora é aquela que surge espontaneamente, se voltar atrás - sai asneira. Se é de laboratório, a metáfora não serve de nada. Tem muito a ver com a música, com o sentir momentâneo. Ou é ou não é, e quando não é só há que deitar fora.

Adiantando que «a música é para mim uma fábrica de emoções», Miguel Serrano deixa implícito o nome da Romain Rolland, seu autor de cabeceira e em particular o «Jean-Christophe», último romântico, ou o génio da música em suposto retrato de Beethoven.

No entanto, tão cedo não repetirá a experiência mais musical da sua carreira de escritor, «O Sinal» (1958), onde há, segundo confessa, uma «ternura excessiva» que as pessoas não compreendem e aceitam cada vez menos. Há para aí, como diz, «uma certa crítica que me aterroriza», deixando implícito o uniforme de polícia que essa crítica usa.

Não esconde a rotura com um «cinismo» latente nas novas vagas das novas gerações, cinismo a que jamais conseguiu aderir. Mas resguarda-se de publicar os seus textos reais «líricos» ou lançando apenas os que mitigam esse lirismo com uma feroz agudeza satírica.

Vê-se que o assunto o magoa, até porque divaga numa direcção mais abstracta:

«Hoje, o imaginário infantil não é a estrada, aquilo que o escuro guarda, o voo dos pássaros, a árvore que cresce para o sol; hoje, o imaginário é o ecrã, o computador. Os meninos da cidade pensam que as árvores dão leite, mas nem assim as ensinam a estimá-las. As árvores...»

Mas, sabendo-se um impenitente lírico e , portanto, fora desta época de cínicos, ele encontra-se preparado para as críticas que certamente irão surgir ao seu livro, especialmente à intencionalidade (ideológica) e ao voluntarismo das suas narrativas, ao pão-pão, queijo-queijo das suas alusões.

Hermetismo é coisa que não há nos contos poéticos de Miguel Serrano, servindo nele a metáfora para descobrir e não para encobrir o real. Em todo o caso e prevendo o que irão dizer alguns senhores mais severos, antecipa-se à jogada:

"Poderá dizer-se que o livro está carregado de ideologia. Então é porque a ideologia está colada à vida. Não fui eu quem inventou os factos, tinham sido inventados há muito tempo. De resto, todo o ser humano é inventado pelos factos e pelas circunstâncias que o rodeiam.

«A imaginação, sim, é verdade, é uma das chaves que dá profundidade às realidades, justamente pela maneira como penetra no vazio e no longínquo. É depois esse vazio e esse longínquo que as palavras, em última análise, significam.

"Estou a falar numa cosmologia do sonho e na impossibilidade de escaparmos ao ser. Estamos sempre à mercê do absoluto de um sentido, sem lhe tocarmos.»

PORQUÊ

Sem medo que o classifiquem de «metafísico», ele toca o essencial de si e da sua obra, quando comenta como quem divaga:

«Foi bom, diz o velho do livro, tivemos tanta gente a quem amar! Tanta gente a quem amar e há guerras, ódios... Que desperdício...»

Por isso, como diz, «a todas as coisas que me viram existir, farei sempre a mesma pergunta, mesmo sabendo que a resposta é inútil: «Porquê?»

«A partir de uma certa idade, mesmo, é uma pergunta que todos nós faremos...»

*

[A foto de Miguel Serrano que ilustrou esta entrevista, tinha a seguinte legenda:

Escritor e jornalista, Miguel Serrano resumiu para «A Capital» o que significa no seu novo livro, a memória e como ele a entende: «Só há memória daquilo que gostamos, só gostamos daquilo que se vive e só se vive quando amamos.» É este silogismo que está demonstrado em «A Escada Rolante».]

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1-2<miguel-4-sc-ac-ms>

MEMÓRIA DE UMA VILA ALENTEJANA

O MUNDO MÁGICO DA INFÂNCIA(*)

(*) Este texto de Afonso Cautela, indubitavelmente 5 estrelas, foi publicado no jornal «A Capital», «Livros na Mão» , 17/8/1989

Dominando a metáfora e o plebeísmo, como raros escritores de língua portuguesa

o terão conseguido fazer, Miguel Serrano está à vontade para escrever o que lhe apetece, sem obedecer a regras de estilo ou de retórica, mesmo e principalmente aquilo que os polícias da crítica literária lhe poderiam censurar.

Sem complexos e com bastante coragem intelectual (sem falar no talento, evidentemente, pois esse é óbvio), esta memória mágica da infância percorre todos os registos do mais puro lirismo à sátira mais truculenta e feroz

Miguel Serrano indigna-se e enternece-se numa alternância de amor e ódio que é a cadência da sua respiração literária. Os poderosos de todo o cariz são esmagados pela sua deliciosa verrina e os humildes sistematicamente exaltados. Diria mesmo que os humildes e pobres, os humilhados e ofendidos estão, na concepção metafisica de Miguel Serrano, bebida claramente em Dostoievsky e Raul Brandão, messianicamente predestinados para um destino redentor (que só pode ser em outro mundo...).

Tudo somado, faz (já se sabe) engulhos aos mandarins da ordem literária, quer a nefelibata quer a pró-proletária . Com 65 anos, Miguel Serrano assume-se, com esta «A Escada Rolante», nos seus delírios lúcidos, na sua sinceridade incontrolável, qualidade esta que, se lhe tem retardado a notoriedade no nosso pequenino meio literário, é de certeza a que lhe garantirá a imortalidade na galeria dos nossos grandes escritores.

Sem que o mediatismo da expressão literária o impeça de se afirmar humano, demasiado humano, e sempre que necessariamente na primeira pessoa, um descarado «eu», o artístico surge nele como um exorcismo de todas as forças líricas e trágicas que abismam a condição humana, a qual emerge deste livro, como já acontecia em outras obras do autor, com aquele «sentido que é a falta de sentido que tudo isto tem».

Depois, e sem nenhum respeito pelos géneros literários, irreverente para com todos os poderes, incluindo o poder literato, ele constrói uma narrativa poética que podia, embrionariamente, ter sido um conto, uma novela, um romance, sem chegar a ser nada disso e sendo afinal tudo isso...

Porque tudo isso lá está, em «A Escada Rolante», mas principalmente o gozo imenso de escrever fora dos academismos e neo-academismos em vigor, incluindo os modernos, fazendo do plebeísmo e do calão uma quase categoria literária subversiva de todas as regras estabelecidas.

O que lá está é o gozo de passar em revista, deixando-os vivos para sempre, a galeria imortal dos mortos que foram o teatro da sua infância, recriada pelo filtro mágico da imaginação, colorido «caleidoscópio de museu».

Miguel Serrano não precisa de negar que o seu livro é autobiográfico. Quando calha, assume esse handicap sem medo e com os nomes próprios, porque a autobiografia nele, é a plenitude da imaginação criadora. O sofrimento que tudo transfigura , em riso ou em lágrimas, faz com que não se consiga desligar, em Miguel Serrano, o escritor do homem que ali está. «Ecce Homo».

Chora-se e ri-se com ele, o seu teatro de marionetas tem a sedução do deslumbramento e os seus arrebatamentos líricos jamais são piegas, os seus palavrões jamais são grosseiros, ou quando o são, salvam-se do ridículo, talvez porque rondem o patético que é, como se sabe, o registo por onde só os alpinistas da escrita chegam.

*

Com Miguel Serrano, sentia-me eu no direito de ser sectário. Seu amigo desde 1956, fizemos o jornal «A Planície» durante os anos loucos em que aquele quinzenário de Moura foi o jornal preferido das elites literárias urbanas... Mas tenho a consciência segura de que, ao ajuizar sobre este seu novo livro, sobre este «memorial de uma infância (in)feliz», sobre este prodígio de figuras vivas e/ou enternecedoramente caricatas, não há qualquer favor pessoal ou abuso de subjectividade da minha parte nestes encomiásticos elogios. É que é mesmo verdade.

Qualquer analista honesto que não esteja enfeudado a maçonarias, mafias e capelinhas que tudo lo mandam no arraial literário português, irá (tenho a certeza) reconhecer neste livro um dos mais belos e impetuosos da literatura portuguesa recente. Só os eunucos, os tais de que Zeca Afonso cantou o estribilho, terão receios e respeitos humanos.

Aliás, não é Miguel Serrano o autor de «O Sinal», livro de contarelos de que só temos paralelo comparável - pela linha de cumeada - nos de Irene Lisboa, Miguel Torga e António Botto?

A geração de «A Planície» existe, afinal, e resiste, não foi invenção do Afonso Cautela. A mais recente prosa poética de Maria Rosa Colaço e Eduardo Olímpio confirma uma geração mal aceite pela vigente crítica universitária, mas que

o tempo irá seleccionar, decantando, e situar no lugar justo.

[ a foto que ilustrou este artigo, trazia a seguinte legenda

«A Escada Rolante» de Miguel Serrano, claramente alude ao sobe e desce das classes sociais, mas descobrindo em todos, pobres e ricos, a sua mais profunda humanidade]■

DOIS TEXTOS DE MIGUEL SERRANO

SOBRE AFONSO CAUTELA

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1-5 –< miguel-5><69-10-05-ac-ms> entrevista testamento

5-10-1979

[a crise na revista «vida mundial»]

RESPOSTAS A ALGUMAS PERGUNTAS

FEITAS PELO MEU AMIGO MIGUEL SERRANO

- Desde quando deixaste de trabalhar na redacção da "Vida Mundial"?

- Desde o dia 1 de Setembro de l969, data em que tomou posse o novo chefe de redacção, que ia substituir-me.

- Desde quando deixaste de colaborar na "Vida Mundial"?

- Desde o dia 1 de Outubro de 1969, uma vez que, desfeita no dia anterior a equipa redactorial, o novo chefe de redacção iria certamente refazer com novos elementos, não só a equipa de redactores mas também a de colaboradores.

- Estás solidário com os 11 elementos que pediram a sua demissão de redactores, estagiários e colaboradores da "Vida Mundial" ?

- Estive sempre solidário com a equipa que deu vida à "Vida Mundial" , até ao momento em que, por imperativa necessidade dos factos e acontecimentos, fui afastado dessa equipa.

- Porque não subscreveste a carta do pedido de demissão?

- Não podia subscrever uma carta assinada por elementos de uma redacção à qual já não pertencia e por cujos problemas deixei, portanto, de ser e me sentir responsável.

- Mas não falando da atitude conjunta que já não te competia tomar, estavas ou não solidário, moralmente, com os elementos que pediram a demissão?

- Moralmente, estou solidário com todas as pessoas do mundo, em todas as circunstâncias da história, que tomam atitudes de acordo com a sua consciência.

Estava, estou e estarei solidário moralmente com eles, portanto, naquilo em que agiram por coerência moral e não em atitudes tomadas apenas por medo das aparências.

- Concordas com o teor de carta do pedido de demissão?

- É-me impossível subscrever um texto com o qual não esteja integralmente, linha a linha, palavra a palavras de acordo: quer dizer, subscrever um texto que não tenha sido escrito por mim e pela totalidade do qual me responsabilizo e respondo.

Por todas as reivindicações justas dessa carta, já eu me tinha batido, enquanto chefe de redacção, dentro do que podia, do que me competia e do que o maior ou menor espírito de equipa dos elementos me permitia,

Uma vez afastado do cargo - facto que se afigurou, como de facto era, necessário e indispensável, e até para alguns desejável, era à redacção que competia fazer chegar a quem de direito e da maneira que entendesse a melhor, o apelo para a solução dos seus problemas.

Como leitor da "Vida Mundial" , e amigo pessoal de tantos que ajudaram a fazê-la, apenas lamento que essa maneira tivesse sido um pedido colectivo de demissão.

 

-Qual era a orientação da "Vida Mundial" ?

- Não sei.

Era, no entanto e com certeza, a orientação resultante de todos os factores conjugados que a tornavam possível: empresa, director, departamentos, tipografia, paginação, revisão, redactores, colaboradores. Uma revista que não tem à priori uma filiação política partidária, limita-se a reflectir a personalidade dos que nela trabalham.

Ora na "Vida Mundial" trabalhavam pessoas de todas as formações filosóficas e de todos os credos políticos. Nunca podia ser voluntária mas involuntária a orientação predominante que, por mil acasos vários, a revista pudesse vir a revestir.

- Nesta e em outras crises da "Vida Mundial" agiste sempre de acordo com a tua consciência?

- Como todas as pessoas que se prezam, é evidente que agi sempre de acordo com a minha consciência, tanto como, com certeza, aqueles meus camaradas quando tomaram a atitude que resolveram tomar.

E é claro que há sempre um preço a pagar, quando se age de acorde com a nossa consciência. Eles pagam o seu preço, eu pagarei o meu.

- Porque continuas a trabalhar na empresa a que pertence a "Vida Mundial"?

- Porque, como todas as pessoas que nesta terra não vivem dos rendimentos ou da vagabundagem, em alguma empresa hei-de trabalhar.

Porque foi exactamente essa empresa e nenhuma outra que tornou possível, em Portugal, una revista como a "Vida Mundial", a qual, com todos os defeitos e qualidades, erros e alegrias, justiças e injustiças, preencheu ao que parece uma lacuna no panorama da Imprensa portuguesa e à qual, como se viu, muitos dos que nela trabalhavam votavam um grande amor, sentindo-se totalmente identificados no trabalho feito.

Porque na empresa onde trabalho, iniciativas como a "Vida Mundial" com todas as qualidades mas talvez não com os seus erros, continuam a ser possíveis.

Ora é afinal por isso que todas as pessoas de bem deste País se batem: uns de uma maneira, outros de outra, é afinal por essa parcela de liberdade e de verdade que todos (acusados ou perseguidos hoje, compreendidos e aceites amanhã) nos batemos.

- Porque se tornou indispensável o teu afastamento de chefe de redacção?

- Porque sendo a nossa base de trabalho a máxima autonomia dos redactores em relação ao chefe de redacção, que agia portanto muito menos (ou nada) como chefe do que como camarada que está encarregado de coordenar o trabalho de todos - provou-se de que essa autonomia, exigindo em contrapartida um sentido constante das responsabilidades, se tornava cada vez mais difícil para todos de manter e merecer.

De facto, a falta de hábito dos portugueses na prática da liberdade, impede que experiências tão interessantes e em certos aspectos tão positivas como a que se tentou na redacção da "Vida Mundial" , tenham continuidade e vida longa.

De certo modo, quando perdemos uma parcela da liberdade a que nos sentimos com direito, quase sempre, voluntária ou involuntariamente, fomos nós a contribuir, com a nossa ainda exígua preparação cívica, para a perder.

Essas e outras circunstâncias também conhecidas de todos, deram-me sempre a convicção de que o ciclo da "Vida Mundial", nos moldes em que estava a processar-se, teria uma vida limitada e mesmo curta. Nenhum de nós ainda estava preparado para isso,

Essa interessante experiência de autonomia democrática, tentada na "Vida Mundial", por desejo expresso do director, que apostou sempre na juventude e na sua capacidade de fazer bem as coisas, se em parte falhou (no fundo talvez por inexperiência dos seus próprios protagonistas ) não quer dizer que não se tente outra vez.

Estou mesmo convencido de que a melhor lição da "Vida Mundial" , nesta sua atribulada fase, esteve nisso: em ser uma experiência democrática que todos vivemos de alma e coração mas que, como todas as experiências democráticas de alma e coração neste País, esperam ainda o dia de poderem sair vitoriosas.

- Quando foste afastado de chefe de redacção, houve uma tentativa da redacção para apresentar contigo um pedido colectivo de demissão?

- Dois ou três elementos levantaram essa hipótese mas logo foi posta de parte, por absurda, porque a maioria a não entendia viável nem desejável e porque, acima de tudo, eu nunca consentiria nela, faria tudo para a impedir, pois, além de todas as outras razões, teria então e nesse caso a pesar-me para sempre na consciência o desemprego de 11 ou 12 pessoas.

Promovidas por alguns elementos da redacção fizeram-se (ao que creio) reuniões no sentido - isso sim e isso é que é importante frisar para propor um elemento da redacção para a sub-chefia, assente que estava o novo chefe.

E aí, como certamente todos estarão prontos a testemunhar, é que houve, ao que posso saber, alguns elementos que se salientaram nas diligências efectuadas junto do novo chefe de redacção, não só para fazer valer as reivindicações mais antigas dos redactores mas principalmente essa mais recente e urgente da sub-chefia para um deles.

- Independentemente das razões que possam ter sido, pois, as dos outros, terás tu também razões, embora diferentes, para já não estar na "Vida Mundial" ?

- Também tenho razões para já não estar na "Vida Mundial" (como de facto já não estava, antes mesmo da demissão colectiva dos 11) e até bem mais fortes, mais antigas, mais dolorosas e mais complexas do que as dos 11 elementos que se demitiram.

Simplesmente porque o meu caso era diferente e a minha situação à data da demissão deles completamente distinta, não me competia alinhar nos processos, nas vias, nas formas de afastamento que eles escolhessem: uns porque não tinham outra saída e a vida, na redacção, se lhes tornara de facto desagradável, outros porque...

E, no entanto, mesmo para a maioria dos que possuíam, de facto, razões fortes de afastamento parece-me que a razão política é importante mas não decisiva.

A revista, teve, como todas as revistas desta empresa e de outras empresas, vários desvios para várias bandas e por várias vezes (como não podia deixar de ser e é humanamente inevitável, especialmente se vigorava um estatuto de autonomia democrática na redacção, como de facto vigorava) e nem por isso as pessoas se viram, logo, compelidas à demissão, individual ou colectiva.

Se cada empregado que está descontente com os patrões, optasse pela demissão, quantos desempregos por demissão haveria por dia em Portugal?

O que fundamentalmente pesou numa decisão que trazia prejuízos para todos, foi a perda de uma liberdade e de uma organização nos processos de feitura da revista que apesar de tudo, e mesmo com muitas reivindicações por satisfazer, lhes fazia relativamente feliz e digna a sua vida na revista e no seu trabalho.

Perdida essa liberdade e essa organização, afastado um chefe de redacção que apesar de tão abominado por alguns dos elementos, procurava facilitar a vida a todos, até com riscos da sua própria segurança, - com a chegada de um chefe de redacção "a sério" as pessoas começaram a ver, ao longo desse mês, que não podiam trabalhar.

Uns porque foram de facto feridos na sua dignidade pessoal e profissional.

Outros porque foram obrigados a actuar com métodos, num esquema e num ritmo a que não estavam habituados.

Mas repare-se que essa razão - a perda da liberdade e organização que desfrutavam - também não pesou como decisória para todos: porque havia alguns, segundo posso saber, já reintegrados no ritmo de trabalho e que até, bendizendo a minha ausência, congratulando-se com ela, se preparavam para se ajeitar, com comodidade e segurança, sob a nova ordem de coisas.

Dizer-se que quem não foi pressurosamente assinar aquela carta - cujas razões eram de facto reais e fortes apenas para metade ou menos de metade dos que a assinaram - aquela carta cheia de inexactidões e de injustiças para com o director, sem apontar, concretamente e no fim de contas, as mais urgentes razões de descontentamento, - é politicamente um malvado, como já alguns democratas me têm vindo dizer, eis a especulação a que o caso se tem prestado mas em que pessoas honestas, esclarecidas, informadas, justas, não podem nem devem colaborar,

Sou, politicamente, tão bom ou tão mau como os 11 elementos que assinaram a carta. E, pelos vistos, nem preciso de invocar outros créditos além de uma revista que, durante mais de dois anos ajudei a fazer, a vários níveis de responsabilidade, como o elemento da redacção que maior período de tempo nela permaneceu, e para a qual levei a maioria dos redactores e colaboradores que agora se encontravam a dar-lhe feição.

Até por isso me parece, para lá de contraditória, grotesca a acusação de que a revista sofreu grave "desvio ideológico". Só uma demagogia de esquerda, tão censurável e tão criminosa como as demagogias de direita, pode perfilhar uma tal falácia.

A revista foi apenas honesta e aberta, a todos os sectores - coisa, ao que parece, também inédita neste País de grupos fechados.

Reunindo uma maioria de jovens que, além de jovens, eram pessoas tecnicamente capazes nos respectivos misteres, tomou inevitavelmente um carácter de revista de ideias, de crítica, quase de pensamento. Ora nada disto significa que uma revista tenha filiação partidária. Até porque, onde estão os partidos e a possibilidade de órgãos de imprensa que se tornem seus porta-vozes?

Se a "Vida Mundial" tinha uma orientação, era essa: uma revista intelectualmente honesta, aberta, digna, entusiástica, feita com amor .

Repito: sou politicamente tão bom ou tão mau como os 11 elementos que assinaram a carta. Mas - eles serão os primeiros a confirmar esta minha afirmação - pelo facto de a não ter assinado, não melhorei nem piorei politicamente.

Naquilo em que entendia dever segui-los, assim fiz, mas em função da situação bem diferente que já era a minha, segundo processos que entendi serem os adequados para não cometer injustiças com ninguém.

A verdade é esta: o facto de estar moralmente solidário com eles não me obrigava a ir (como eles foram) contra pessoas e coisas que, no meio deste imbróglio todo, até estavam inocentes. Aí é que ficaria mal com a minha consciência: se tivesse cometido injustiças e acusado inocentes.

Em consciência como certamente foi a opção colectiva dos 11 demissionários . ■

+

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[Porto, 1960 ]

"ESPAÇO MORTAL"

POR AFONSO CAUTELA

(*) Este texto de Miguel Serrano, digitalizado sexta-feira, 21 de Maio de 2004, encontra-se em dactilmanuscrito no espólio de AC

Não faço crítica a este livro de poemas de Afonso Cautela. Nem a este nem a qualquer outro. E o motivo é simples: falta de autoridade. Procuro apenas entendê-lo. Todas as inteligências mais ou menos esclarecidas, todas as inteligências mais ou menos preocupadas e para quem a exegese literária não é apenas operação da bisturi ou compromisso do publicidade, poderiam fazer, pelo menos, outro tanto.

Já vimos fazer crítica literária reduzindo a observação e de estudo ao nome do autor, à bibliografia, se esta existe, a umas quantas linhas dispersas ou a meia dúzia de versos. Crítica pelo cheiro, pelo faro, diz-se depois. E isto sem dó nem piedade, sem o mínimo respeito pelo autor, pelo público leitor, etc.

Também já vimos retalhar alguns livros depois do se terem posto ao serviço da lâmina, três ou quatro palavras chave. Ou por bitola e receita única, etc. Por bonitos olhos, por amizades, por conveniência, por retribuição de vaidade lisonjeada. Há de tudo um pouco, às vezes, até de muito sinceridade, felizmente.

Estamos certos que se outro procedimento fosse possível, nesta corrida para a glória de um busto na praga pública, não seriam apenas "Espaço Mortal" e o seu autor a serem compreendidos, muitos outros o seriam, sem necessidade de resistirem, com a abdicação ao silêncio que se faz em redor deles mesmos.

Silêncio benéfico, diga-se. Pedia-se, no entanto, um bocadinho de sinceridade, de compreensão, de justiça, para que tudo estivesse mais certo e a casa melhor arrumada.

Seria óptimo que outros mais responsáveis, mais esclarecidos e de maior saber o fizessem. Era excelente para todos, mas sobretudo para uma juventude muitas vezes humilhada e algumas incompreendida.

Há em "Espaço Mortal", julgamos, para além da subjectividade poética necessária, um predomínio de sinceridade objectiva, de pés fincados no tempo presente, quase ingénuo, se atendermos às actuais circunstâncias e a tudo aquilo que apontamos no início deste escrito; uma sinceridade que toca muitas vezes para além da epiderme. Algo que sobreleva o que há de transfigurado no próprio mistério da criação poética. É evidente que tudo isto em vocábulos e fórmulas que revoltaram muitos, indignaram alguns, sem que os muitas e os alguns procurassem atender a essa sinceridade e à necessidade desse tom e forma de ser sincero.

"Oh! catedráticos das alfurjas

pontífices sem templo

carbonários das ruas e das almas

atacai de frente, peito natural,

que o de couro é menos nobre

e mais medieval...»

Confunde-se depressa tudo. Toma-se a nuvem por Juno e vice-versa. Há logo quem se julgue atingido, como há também algumas vezes quem vislumbre imediatamente um concorrente perigoso, que se torna necessário pôr fora de combate. E, no entanto, às vezes, bastava um pouco de vontade. Mútua, já se deixa ver. Bastava talvez responder com diálogo ao diálogo que se pede e se oferece mas não se dá. Prove-se a razão e o erro, mas não se tombe no humor grosseiro, na injúria, na acusação fácil, etc.

O autoritarismo arreliador de «magister dixit» empregado por AC. pode ter sido a causa, pois é certo e sabido que, por sua vez, nenhum magister dixit gosta de arredar um passo do caminho andado. Enfrentando-se o caso de AC., tal como o foi, era evidente que «Espaço Mortal» tinha de aparecer assim generosamente sincero, audaciosamente orgulhoso e também com muito pano para mangas onde se pode retalhar à vontade. Era inevitável! No entanto apetece-nos aconselhar AC que agradeça aos inimigos que tornaram possível este livro. Afinal quando se esperava o «De Profundis», surge um hossana vibrante. Acontece muitas vezes assim!...

AC, para nós, é um arquétipo e um processo, embora ele, como todos nós, façamos parte daquele mundo de Camus «onde só as pedras estão inocentes».

Se acima de polémicas de circunstância puséssemos o que podem representar ou o que poderiam representar todos os AC espalhados pelo país, temos a certeza de que a nossa força mental e cultural – mesmo humanística – seria maior, evidentemente que sem desfavor para o muito que ela é hoje de independente e válida. Não é este o facto que está em causa.

«É no labor seguro e combatente

de uma teia

que a liberdade cria asas

e resiste.»

«As folhas só quando tombam, amarelas, sabem que pertenceram à mesma árvore.»

É por isto mesmo que ouso pedir o olvido do empachamento , a ciência da terminologia cabalística, a praga, o objecto de confusão. Peço-o por este livro tão válido na narração poética de raízes líricas como na luta.

«O Poeta sabe que moderno, o verdadeiro moderno tem de ser tão acessível, como o mais acessível dos clássicos», foi isto que o autor de «Espaço Mortal» afirmou numa entrevista concedida a um jornal diário, na qual precisava , mais ou menos assim, o seu livro: « o ser humano mortal no tempo mas imobilizado no espaço e como ser social cantonado numa moral que não lhe serve.»

A ligar toda a poesia, aparentemente de revolta, de «Espaço Mortal» há uma palavra enorme que enche todo o livro: amor.

«Obrigado, irmão, pela raiz

que em ti nasceu de tudo.»

O amor está lá, não apenas como instrumento poético, não apenas como veículo lírico, mas como carne, sangue e alma. Com olhos abertos, escancarados para o mundo da fascinação e da solidão povoada, para um mundo onde os homens continuam a alimentar-se de uma moral estranha ao seu paladar. Poeta no íntimo, poeta na sensibilidade, AC é também quando julga enfrentar os homens com a mesma coragem e sonho com que D. Quixote enfrentou os moínhos, poeta da fascinação , da revitalização, da luta contra o amorfismo da existência. Poeta de um lirismo potente que não pretende deitar abaixo as comportas do tempo para realização do homem, mas que pretende que este se realiza na dimensão tempo espaço para além de uma visão lírica.

Talvez por isto e talvez «pour cause», «Espaço Mortal» limita-se apenas a traduzir ou reflectir ideias e sentimentos carregadas de tensão subjectiva – mandava a poesia que assim funcionassem – até ao extravasamento.

«Muito carácter

E civilidade

Se o sémen perderam

É já da idade

Arnica na ferida »

AC torna-se lírico, potencialmente lírico e na melhor raiz da nossa poesia, quando viaja através da sua juventude, da sua solidão, quando fala com os seus entes queridos:

«Escuta, avozinha, preciso de ti. A noite afoga-se lentamente nos teus olhos, avozinha. É como se fosses a minha apaixonada. Não nos casámos , não, a gente ama-se e sonha noite alta... Dá-me a cor verde do arco-íris, não tenho nada.»

Seja qual for o crédito literário que queiram dar a este livro, um aspecto haverá que ninguém lhe poderá negar – o da sua sinceridade e coragem. É esta, entre outras, a sua maior força e a sua «paradoxal» originalidade.

Miguel Serrano

Porto, 1960 ■