IRENE LISBOA:

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1-3<irene-1> revisão em 4-2-2002 - mais documentos no grande dossiê Aème «Os Mortos»– os mortos da minha vida

POÉTICA E DIALÉCTICA

Hipóteses sobre a obra de Irene Lisboa: «Uma Mão Cheia de Nada, Outra de Coisa Nenhuma»

por Afonso Cautela

«Nunca a arte mais perfeita produziu obra de tanta simplicidade» - Wagner

Natal de 1955 - Creio que não existe literatura sem raiz lírica; não é literatura a novelística documental, planfletária, folhetinesca, fotográfica, realista e naturalista. Na literatura vamos procurar a superação, a primitiva inocência que corresponde ao real verdadeiro, a transcendência que nos inclui no seio do mistério, a simplicidade, ou para dizer tudo, a poesia.

Perante uma literatura de puro imaginativo, de purificação dos dados sensoriais por uma simpatizante comunhão com o universo, já não podemos aplicar-lhe a nominação de Belo, mas a de Sublime. Nem crítica de costumes, nem análise psicológica, nem efabulação e trama de personagens individuados, nem teses de combate. É o Reino Poético não por oposição mas por superação ao Dialéctico.

Quando se fala de arte pura, de arte pela arte, é esta que vemos e não outra; a arte actual, embora a medo, tende para o espírito da música. Não queremos com isto repor aquela ingenuidade do Afonso Lopes Vieira que dizia ser a poesia mais para ouvir do que para ler; não é da analogia auditiva que falamos, mas da essência comum à grande música de sempre e à literatura cujo advento esperamos: o mergulho no Cosmos por obra de Amor.

Goza a música da prerrogativa de ter sido a primeira arte a dispensar o teor descritivo. Expressão pura em vez de significação comprometida. Forma em vez de representação. Sabe-se que é essa, a expressão pura, a tendência de toda a arte moderna. Abandonada a obsessão do «parecido» em pintura, do «entendível» em poesia, do «realista» em novelística e dramaturgia, do «folhetinesco» em cinema, falta a síntese de todos esses caminhos; ela não tardaria a surgir.

E surgiu. É o livro de Irene Lisboa uma ilha no meio do oceano. Os comentários que ouvimos e lemos, denunciam uma santa ignorância da sua génese. Falco deita a primeira rede ao oceano que os monstros da novelística não deixam visitar por fadas. Falco tem poucos e dispersos aliados: a poesia popular anónima e as composições infantis de crianças (porque há composições de crianças, a maioria, que não são infantis, por indústria e (educação) dos adultos civilizados, que percebem tudo de tudo mas não percebem nada de nada). Por isso Falco crisma, com medo dos críticos, de historietas as suas sagas sublimes, além de que o titulo já a resguardava bastante: Uma Mão Cheia de Nada...Por isso houve quem dissesse : «Mas o livro não ensina nada...», «Mas o livro não diz coisa nenhuma...» Pois não, não cita coisa nenhuma. E porque havia de dizer?

Não foi por acaso que José Régio descobriu Falco, José Régio profetizou assim o aparecimento deste livro:

«Enchestes os vossos livros de letras; as letras mataram o Espírito! Viveis soterrados em fórmulas. Negastes a Deus, para vos adorardes a vós próprios. Mas o vosso trono é da madeira podre, e a vossa divindade não dura mais que um dia ! Morrei par uma vez, mortos! e ressuscitai! O Livro que vos trago está em branco, porque só pode ser cheio em Espírito e Verdade. Nada mais vos tenho a dizer por hoje».

(A Salvação do Mundo, páginas 301/302).

Falco realizou a profecia: o livro está em branco. Eis o Evangelho. Que muitos mais surjam e que da literatura se possa dizer que transcendeu a nossa terrenal e abúlica condição; que seja super-vivência e não existência (onde se metem os existencialistas?); que seja profecia e não fotografia, comunhão e não desagregamento, Amor e não Ódio.

De toda a novelística naturalizante, radicada num pensamento realista que vem do pai Aristóteles, se poderia dizer o que Wagner dizia da música espectacular, da ópera, que ele aliás cultivou largamente:

«Só a pode fazer nascer (à meditação) a música onde a vista perde o domínio, os olhos cessam de ver os objectos com a intensidade habitual; muito pelo contrário, sendo nós impressionados superficialmente pela música, mais agitados que penetrados por ela, procuramos imperiosamente ver, mas de modo algum pensar» (Do livro Beethoven, página 76 da tradução portuguesa).

A ópera é para a música o que a novelística bem-pensante (Huxley), crítica (Lewis ou Sartre), socializante, apologética (mística ou sofistica), é para a Poesia, para o Espírito da Literatura. E é o livro do Espírito que nós andamos a descobrir.

A contemporaneidade e afinidade de ideias de Wagner e Nietzsche (dissidente daquele a partir da altura em que aquele abjurou Diónisos e se converteu a Apolo...) explica a coincidência de muitos pontos deste seu livrinho, em boa hora vertido para português, e a não menos fundamental A Origem da Tragédia, inesgotável programa duma estética idealista, onde a Poesia é descoberta embora os nossos estetas ainda a não tenham... descoberto.

Para Wagner a música é «a anunciação da essência das coisas» (pagina 42).

Abatem-se os dualismos ontológicos e lógicos, para existir a pura recriação das essências. Só para quem vê o Cosmos dividido em dois, o material e o imaterial, o físico e o psíquico, o do sujeito e o do objecto, só para quem se obstina em conceber tudo à imagem e semelhança dos dados do senso-comum, não entende a excepção duma arte assim comunicativa e comunicante, razão e essência de tudo.

Falco, mais perfeita que os melhores dos poetas líricos, que bem vistos não passam de uns lamuriosos choradores de mágoas sentimentais, distancia-se do lirismo vigente porque não desdobra o eu do não-eu, de modo a hiperexaltar aquele. Assim substitui por comunhão o que era conflito no mais realismo, incapaz de visionar a Unidade dentro da Multiplicidade, a Transcendência na Imanência, o Espírito na Letra.

São quase todas as historietas narradas em eu, sem que o eu lembre alguma vez a pessoa existente da autora. O eu que fala pela sua voz é o eu das crianças, das aves, da agulha, do sol, da flor da murta.. Daí a inserção quase contínua no absurdo; a narrativa decorre em terra de ninguém, a terra que por hoje ainda é só das crianças que o são, dos músicos geniais, de alguns poetas e desta narradora sublime:

Não está aí o mundo partido em dois, dia-partido, é um só, poético, puro, essente. É ele que fala nessa primeira pessoa do singular, a matriz que tanto deu as gerações de pássaros e flores, como as linhagens de trovadores e poetas desde que o mundo é mundo. Falco - intermediário do outro-mundo, entre o Sonho e a Razão, a Inocência e a Aparência, cheia esta de intercepções, de ilustrativos, inclusivamente os que desadornam o livro e que mais o prejudicam do que enriquecem, na opinião dos espíritos mais musicais (ou poéticos) do que plásticos (ou dialécticos).

Não é um mundo fechado o que assim reconquistou o Paraíso, porque é um mundo de Amor. De exclusão e inimizade é o do que pelas aparências e acidências, pela pormenorização esterilizante, (esse monumento «realístico» que são As Vinhas da Ira!) pelo romanesco com desculpa de estar com atenção ao social orgânico, ao verídico, desintegra tudo num mar de ácido sulfúrico.

O mundo, não é a três dimensões, caríssimos dialécticos (históricos ou a-históricos) nem se reduz ao gástrico, aos mecanismos de produção e às ambiguidades do capital; nem ao existencial, corroente e desesperador, de melenas na testa.

Se a acção padagógica fosse o que já devia ser ( e nós lutamos para que o seja), se em lugar de os homens se digladiarem num jogo de interesses, estudassem pedagogia, um livro como o de Falco podia fazer à humanidade melhor bem do que mil programas de regulamento económico.

A Salvação do Mundo não será, como se infere da obra de José Régio, obra política, isto é, dialéctica; será obra de pedagogia, isto é, poética.

Nada fareis, senhores inteligentes, sem esta lição de amor que a humanidade, depois de milhares de anos terem rolado sobre Sócrates e Cristo, começa a soletrar na boca de mestres que o Mestre renovam, jograis de Deus que são, no Espírito e nunca na Letra dos Evangelhos.

Natal de 1955

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In «A Planície», quinzenário de Moura, suplemento «Ângulo das Artes e das Letras», 15/2/1957

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1-2 <irene-2> notas de leitura - releituras mágicas - domingo, 18 de Maio de 2003- novo word - domingo, 18 de Maio de 2003

A TEMÁTICA DA INFÂNCIA (*)

(*) Com o pseudónimo A. Césamo, este texto de Afonso Cautela (Moura, Dezembro de 1955) foi publicado no suplemento literário do «Diário Ilustrado», em 24/1/1959 e na revista «A Cooperação», com o título « Irene Lisboa, Poeta do Sublime»

Escolher a temática da infância não significa, nem de longe, a infância reconquistada. O adulto que rememora a sua vida infantil aborda-a num ângulo adulto, e não infantil. Há que distinguir por isso entre a literatura para crianças, literatura infantil (ou de crianças), literatura de infância perdida (ou a do adulto que rememora como adulto a sua vida de criança) e, finalmente, literatura da infância reconquistada ou recriada (a do adulto que recria a sua infância como criança).

Nesta última devemos ainda separar a que utiliza uma temática infantil da que utiliza apenas, digamos, a metodologia infantil de penetrar nas essências, e que constitui a forma mais madura e perfeita da literatura que à volta do mito da infância se tem produzido e, felizmente, continua a produzir, a maior parte das vezes com total desconhecimento de causa dos autores, o que não será para admirar, mas até dos críticos, o que já nos deixa mais apreensivos.

Neste último género ganhou a literatura portuguesa uma obra-prima nas historietas de Irene Lisboa - «Uma Mão Cheia de Nada e Outra de Coisa Nenhuma». Não tem esse livro características líricas porque o lirismo é ainda uma fase (até à data da publicação deste livro) a mais adiantada fase do complexo da mitogonia infantil. Irene Lisboa superou essa fase, como superou muitas outras.

Diria que a poesia lírica, para atingir a plenitude de consequências, tem de desligar-se do egotismo a que anda umbilicalmente ligada; é um caminho, mas não constitui, em si, uma meta, tão só, digamos, um método, como se sabe da pedagogia, uma modalidade duma mais vasta e complexa rede: a metódica ou metodologia da infância recriada, conjunta a uma temática não da infância, caso particular e que é ainda, afinal, a fase lírica, pois utiliza uma temática (a do ego, quer infantil, quer adulto) de todo essencial no universo do poeta do sublime, que é Irene Lisboa, do Essencial, do Absoluto, apreendido no Relativo e no Imanente.

Falco morreu só, sem gestos de desalentos e para além do significado das palavras, mas libertou-se da lei da morte, como disse o nosso poeta maior, pelo encontro que marcou com a infância.

A. CÉSAMO

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(*) Com o pseudónimo A. Césamo, este texto de Afonso Cautela (Moura, Dezembro de 1955) foi publicado no suplemento literário do «Diário Ilustrado», em 24/1/1959 e na revista «A Cooperação», com o título « Irene Lisboa, Poeta do Sublime»

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TRISTE FADO DOS PRECURSORES

A SOLIDÃO DE IRENE LISBOA (*)

(*) Este texto de Afonso Cautela, dactilmanuscrito em folhas da redacção d ‘ «A Capital», só o posso datar recorrendo a duas referências: o ano de publicação do livro de Paula Morão e a secção de «livros na mão» que eu tinha n’ A Capital, para onde o artigo foi escrito mas onde obviamente não iria ser publicado com tantas referências às perestroikas... A perestroika no singular será uma terceira referência para a data.

Os escritores como Irene Lisboa, que morrem na solidão da sua própria originalidade criadora, têm razão para se sentir felizes quando (muitos anos após estarem a fazer tijolo) aparece uma Paula Morão que procede à pesquisa policial de tudo quanto o autor aguentou, sofreu, amou, pintou, desesperou, falou pró boneco, etc. - em resistência contra o Gulag da época ( todas as épocas têm o seu Gulag privativo, em estreita colaboração com as mais altas instâncias do ensino superior).

Mais vale tarde do que nunca e quando uma catedrática de Letras tem que escolher um tema para defender tese perante um júri de eminências, nada melhor do que ir aos mortos e enterrados mas que ainda estão vivos.

Força, pois, Paula Morão! Como dizia o Antonin Artaud "ceux qui vivent, vivent des morts". Imagino como Irene Lisboa se deverá sentir envergonhada , se conseguir ver de lá ( em qual cemitério ficou ela, que já não me lembro?) este magnífico trabalho sobre a sua "vida e escrita" que a editorial Presença lançou na colecção "Textos Universitários".

Como ela escrevia no agradecimento à homenagem que lhe foi prestada, em 1957, pelo quinzenário de Moura "A Planície" (1.4.1975), dirigido por Miguel Serrano, não compreendia que alguém pudesse " pagar em boa moeda, a moeda da simpatia" o seu "labor ingrato e silencioso, adivinhado..." de "falar, tentar falar por meio de uma pena tímida, reservada, para um mundo frio, esquivo, indiferente - um mundo de costas viradas."

No que ao terrorismo crítico-literário diz respeito, nunca como hoje o país esteve tão de "costas viradas" para os seus valores mais discretos e silenciosos, para os franco-atiradores da escrita. Quando certas perestroikas chegam, já os tiranos e suas vítimas estão a fazer tijolo, o que evita problemas aos actuais.

II

Mas isto é o contexto e nada tem a ver com o texto, altamente erudito, meritório e semiótico de Paula Morão - que leva à minúcia do escalpelo a análise da obra (mais do que a vida) de Irene Lisboa, quase toda esgotada no mercado.

A tal ponto essa minúcia é extenuante, que a bibliografia final (exaustiva) até cita o meu nome, devido a alguns dos artigos que publiquei, em 1957 e 1958, sobre Irene Lisboa. Deve-se, com certeza, esta insólita intromissão do meu nome em meio universitário, perfeitamente despropositada e contra todas as regras hierárquicas ao indiscreto Luís Amaro e a prestimosa colaboração que julgo ele ter prestado à trabalhosa tese de Paula Morão.

O mal dos reconhecimentos póstumos - como o próprio nome lapalissianamente indica - é que só chegam quando os que ajudaram a matar o escritor exumado também já estão, felizmente, a fazer tijolo. E não saímos disto. Ou seja: enquanto houver instituições a chulice continua. Matéria é o que não lhes falta.

A lista de escritores malditos e amaldiçoados que tenho aqui na gaveta, desde Maria Archer a Celeste Andrade, desde Patrícia Joyce a Luísa Dacosta ( e etc., etc.) daria pano para cem teses semióticas de futuros candidatos a críticos na revista "Colóquio". Posso fornecer o "software" a quem o solicitar, mesmo a júris de exame, e garanto que não meto vírus nenhum pelo meio.

Resumindo e concluindo: estou morto por saber quem, depois de morto, me irá exumar a obra. Que seja, ao menos, uma Paula Morão jovem, simpática e inteligente.

Ainda a propósito dos cucos que gostam de pôr os ovos no ninho da coruja, a propósito de precursores e do maldito destino que aqui atanaza os que têm a mania de chegar antes do tempo (para quando o momento chega serem devorados pelos vencedores do momento), não resisto a transcrever o que num artigo publicado há 30 anos (livra!) , no quinzenário "A Planície" , de Moura ( 15.8.1958) ousei preconizar relativamente a Irene Lisboa, como "profeta de vários caminhos" no tempo em que vários estalinismos mentais, sob o rótulo de neo-realismo ou sob o rótulo de presencismo, ou sob o rótulo Poesia 61, disputavam todo o espaço e oxigénio disponíveis (como hoje os da hoje, afinal).

III

[a partir daqui, este fragmento está também no file <irene-3]

Para "externizar" tudo o que existe oculto, irreal e desconhecido, Irene Lisboa não conhece meio termo: ou a Imaginação pura dos contarelos, ou o rigoroso descritivo das crónicas e novelas, onde sabe ser "terrivelmente mental", lúcida quando usa um instrumento de expressão cujos limites e defeitos sobejamente conhece, e intuitiva dos clarões, das vozes inefáveis, das íntimas e misteriosas comunicações, da última "ratio", da causa das causas, da realidade última nas sagas sublimes das suas historietas só na aparência infantis.

Um demónio inteligente a atormenta e é pela imaginação que o esconjura.

Em " Uma Mão Cheia de Nada", numa linguagem desataviada, isenta, pura , toca-se o espírito, reconquista-se o "lost paradise", a alma infantil, a comunhão com o Todo, panteísmo que é comum aos grandes poetas, ao Camões da Canção X como ao Pascoaes do Bailado, ao Alberto Caeiro do "Guardador de Rebanhos", como à Irene Lisboa - João Falco dos contarelos. E assim é profeta de vários caminhos: o da poesia em prosa; o testemunho como método-narrativo de amor à verdade, contra tudo o que, fantasioso, inteligente ou apenas frívolo, lhe diminui austeridade; a novela mental; o lugar predominante que na sua obra ocupa a solidão, proposta hoje à perplexidade de todos os homens dignos desse nome; a crítica impiedosa à sociedade que se "rearistocratiza" em face de uma humanidade subdesenvolvida económica e culturalmente; e sobre tudo isto uma vocação de educadora desviada, cortada, criminosamente morta, onde se pode dizer que começa e acaba o caso literário de Irene Lisboa:

"O passado morre. E como aquele morreu! Às pedradas de um cego , não só de um mas de muitos – de uns inconscientes. Eles não viam nada, não seriam mesmo capazes de descobrir a existência delicada do que ainda era frágil, uma promessa... Arruinar por brutalidade é o lema dois que aqui tomam o comando, nem que seja da mais fortuita jangada, da obra mais grosseira."

Aqui temos a chave que explica o azedume, a revolta, a angústia, a indiferença, o vento gelado que trespassa tantas e tantas páginas deste escritor amargo. Nunca a literatura substituiu a vocação frustrada, porque a literatura nada é em face de um destino total. Claparède, Mestre querido da escritora, ter-lhe-ia ensinado que a arte de educar vale por mil artes literárias. Perdemos uma grande alma de educadora; mas ganhámos um grande escritor da língua portuguesa.»

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A SOLIDÃO DE IRENE LISBOA

(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no «Diário do Alentejo», na minha coluna «Leituras de Acaso», 7/1/1972

Irene Lisboa morreu há 13 anos, em Novembro de 1958, tempo quase suficiente para os nomes literários em exercício não a temerem nunca mais. Reedita-se agora o livro «Solidão». Começa agora, 13 anos depois da morte, a vida de Irene Lisboa. Ao repetir-se uma vez mais um equívoco tão frequente entre nós, não é possível deixar em branco, uma vez mais, a inutilidade da crítica, contra a qual e apesar da qual os verdadeiros valores terão sempre de viver e sobreviver.

Pode enunciar-se assim a fatídica regra da tradição portuguesa: por definição todo o escritor autêntico será aqui suprimido, por culpa em grande parte de uma crítica que, por definição e por sua vez, seria suprimida também se ousasse desempenhar com independência a sua função: separar o trigo do joio e apostar exactamente naqueles que o tempo vai escolher.

Entre tantas personalidades contemporâneas, Irene Lisboa envergonhava-se da sua modéstia e de não alinhar com os vencedores do momento. Cuidado, porém, porque ainda agora a «solidão» de Irene Lisboa pode incomodar muita gente; o seu isolamento pode fazer ainda sombra a muita celebridade publicitária; a sua irreverência pode comprometer ainda muitos autores e livros de capas envernizadas. Isolada, solitária e só há que recear ainda Irene Lisboa e a ferocidade que a sua «solidão» significa porque significa revolta e denúncia.

Contra o seu tempo e para lá do seu tempo, o livro «Solidão» excedia ontem as ópticas em uso; mas corre o risco de exceder também as de hoje. Há, pois, que reflectir com muita cautela sobre se 13 anos não representam por enquanto uma imerecida imortalidade. É bem possível que, no caso de Irene Lisboa, tenham de passar mais treze.

Se há os escreventes que trabalham para ajudar às correntes dominantes, os que redigem por medida e ao gosto das tertúlias respectivas, segundo as fórmulas e receitas por lá impostas, se há os que fazem da literatura um trampolim hierárquico qualquer, - há também estes outros, estes raros, estes poucos que, como Irene Lisboa, apesar dos muitos e de si próprios, não conseguem aderir, pôr-se de acordo, ir na corrente; por isso ficam à margem, o que evidentemente lhes custa o anonimato (agora) e um nome (depois).

Há, portanto, que tomar posição a partir o daqui; há que extremar campos e reafirmar que as coisas são o que são e não o que parecem, embora às vezes pareçam ser o que parecem; há portanto que ser polémico, não significando «polémica» a mania de contrariar, o prazer da recusa, mas uma estrita obrigação ética. Honestamente, há que reconhecer e concluir isto: cada um opta pelo que merece e vai para onde merece ir. Rejeitar uma literatura que goza de audiência unânime, não significa até negar a essa literatura o direito de existir; significa apenas que, por estrita obrigação, por estrita,

deontologia «profissional», se lhe disse «não»: significa, com esse «não», apostar na obra de que se «suspeita» desafiar o tempo, dizer o que ele irá ou não desdizer, saber enfim o que os críticos nunca sabem e contra o que eles dizem saber.

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UMA OBRA ASSIM DISTANTE :

AS NOVELAS E NOVELETAS DE IRENE LISBOA(*)

(*) Este texto de Afonso Cautela, provavelmente com outro título, terá sido publicado (se é que foi) no quinzenário de Moura «A Planície», 15/8/1958

 

«Mas a literatura está pela hora da morte! É um negócio. E eu não tenho capitalista... Não dou garantias; não agrado a gregos nem a troianos.» (Irene Lisboa)

Porque eu – é preciso que se saiba – sou capaz de rilhar a pedra de todos os sentimentos, o que quer dizer, de os digerir friamente. » (Irene Lisboa)

«Eu vejo a cândida, a manifesta miséria dos que pedem esmola, dos que vendem bolos em cestos, andam rotos ou mal calçados, esperam pacientemente nas bichas ao frio e à chuva, e ao mesmo tempo as multidões ansiosas de conforto, recolhendo-o, captando-o » (Irene Lisboa)

 

O horizonte visual destas novelas e noveletas não é largo nem variado. A autora, imparcialmente, descreve o que vê à sua volta. Analisa, a frio, o que se lhe oferece. Nunca toma calor por um caso, uma paisagem, um acontecimento. O mundo e o escritor caminham indiferentes, a tudo e entre si.

De página para página vincula-se a sensação de ausência, nada acontece, o que acontece é dito por palavras curtas, directas, duras, secas. No campo ou na cidade, as histórias seguem um nexo auto-biográfico evidente, como evidente é a linha monologal de quase todas, ocorridas dentro de casa, quase sempre a mesma, ou de uma janela da casa para a rua.

Mas se, esta ligação auto-biográfica pode fazer luz sobre uma obra tão estranha, tão difícil, por vezes de uma tensão horrível e de onde o próprio leitor se sente expelido, escorraçado, como se ali vivesse a solidão inexpugnável e ninguém houvesse o direito de a devassar, - também será de se explicar por si mesma, valorizar-se especificamente, reclamar uma fundamental autonomia.

Numa obra assim distante, fria, impenetrável, se a não inunda o sentimento também a ironia lá não entra. E o enigma cresce, uma perpétua, aterradora indiferença, uma atroz comiseração de alguém que pode falar dos homens e da vida com a impassibilidade de um deus ou que, com a impassibilidade dos gelos eternos, o conhece de perto e o trata por tu.

Raramente, porém, se encontrará em Irene Lisboa o mais leve indício de inquietação religiosa, de problemática transcendente ou de mistério metafísico. Será ascética, a sua prosa, mas nada tem de mística. Nem mística, nem lírica, nem crítica, nem épica, nem dramática. nada, nenhuma classificação lhe serve. É ela, apenas ela, única, solitária, impassível - sempre ela. Ela e a dor de um ser singular no mundo plural, de um ser único numa sociedade colectivizada. A dor de ser livre.

Um escritor como Irene Lisboa é o fora da lei, a excepção à regra, o indivíduo que rema contra a maré, o que, implícita ou explicitamente, combate a sociedade, é o indivíduo sempre indivíduo que, ainda numa sociedade corrupta, se mantém íntegro e igual.

O escritor é tanto mais útil socialmente quanto mais poderosa for a sua individualidade.

Sendo sempre igual a si mesma mas diferente de todos, Irene Lisboa nunca cede à fantasia o quinhão da objectividade. A fantasia como a inteligência paralisam a corrente do real e é aos seus mais profundos movimentos que ela deve fidelidade. "Somos terrivelmente mentais", exclama. E porque é "terrivelmente mental" até a descrição de um fio de baba dá origem a um monólogo onde acodem questões de ordem moral, intelectual, estética e metafísica. N’ Um Fio de Baba ou n' O Limão, na crónica ou na novela, na novela ou no contarelo é sempre a ontologia, o nómeno de que os fenómenos nos dão a enganadora aparência, a essência intransponível por palavras o que Irene Lisboa procura:

"Acabo de descrever isto, não é verdade? Pois honestamente reconheço que pinto mal, que não mostro".

Por isso a sua corajosa recusa à novela comum, à intriga romanesca, à ficção arbitrária ainda que verosímil.

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[a partir daqui, este fragmento está também no file <irene-3]

Para "externizar" tudo o que existe oculto, irreal e desconhecido, Irene Lisboa não conhece meio termo: ou a Imaginação pura dos contarelos, ou o rigoroso descritivo das crónicas e novelas, onde sabe ser "terrivelmente mental", lúcida quando usa um instrumento de expressão cujos limites e defeitos sobejamente conhece, e intuitiva dos clarões, das vozes inefáveis, das íntimas e misteriosas comunicações, da última "ratio", da causa das causas, da realidade última nas sagas sublimes das suas historietas só na aparência infantis.

Um demónio inteligente a atormenta e é pela imaginação que o esconjura.

Em " Uma Mão Cheia de Nada", numa linguagem desataviada, isenta, pura , toca-se o espírito, reconquista-se o "lost paradise", a alma infantil, a comunhão com o Todo, panteísmo que é comum aos grandes poetas, ao Camões da Canção X como ao Pascoaes do Bailado, ao Alberto Caeiro do "Guardador de Rebanhos", como à Irene Lisboa - João Falco dos contarelos. E assim é profeta de vários caminhos: o da poesia em prosa; o testemunho como método-narrativo de amor à verdade, contra tudo o que, fantasioso, inteligente ou apenas frívolo, lhe diminui austeridade; a novela mental; o lugar predominante que na sua obra ocupa a solidão, proposta hoje à perplexidade de todos os homens dignos desse nome; a crítica impiedosa à sociedade que se "rearistocratiza" em face de uma humanidade subdesenvolvida económica e culturalmente; e sobre tudo isto uma vocação de educadora desviada, cortada, criminosamente morta, onde se pode dizer que começa e acaba o caso literário de Irene Lisboa:

"O passado morre. E como aquele morreu! Às pedradas de um cego , não só de um mas de muitos – de uns inconscientes. Eles não viam nada, não seriam mesmo capazes de descobrir a existência delicada do que ainda era frágil, uma promessa... Arruinar por brutalidade é o lema dois que aqui tomam o comando, nem que seja da mais fortuita jangada, da obra mais grosseira."

Aqui temos a chave que explica o azedume, a revolta, a angústia, a indiferença, o vento gelado que trespassa tantas e tantas páginas deste escritor amargo. Nunca a literatura substituiu a vocação frustrada, porque a literatura nada é em face de um destino total. Claparède, Mestre querido da escritora, ter-lhe-ia ensinado que a arte de educar vale por mil artes literárias. Perdemos uma grande alma de educadora; mas ganhámos um grande escritor da língua portuguesa.»■