GATOS E FIALHO DE ALMEIDA:
UM REENCONTRO SEMPRE AMIGÁVEL
SÃO 5 TEXTOS (INÉDITOS E PUBLICADOS)
DE AFONSO CAUTELA
ESCRITOS EM DIVERSAS DATAS:
1956, 1957, 1959 E 1990
1-1<fialho-3> novo word em
2002-02-04 <diario de um leitor> - autores onde me li - os mortos da minha vida
FIALHO, MEU ALTER EGO
Porto, 1959
- [Repescado em 17/11/1990] - Irresistivelmente, lembrei-me de Fialho, do absurdo vivo de Fialho: o maior filho da Esperança, o maior bastardo do Desespero. Porquê? Porquê e como puderam coabitar, coexistir num só homem, tanta fé e tanta descrença?Pertencem a Fialho, que em Portugal foi um dos pioneiros da Profilaxia e talvez um dos primeiros, no mundo, a preconizar a Eugenia como ciência humana capital, a Fialho cuja tese revolucionária de formatura o impediu de adquirir o diploma de médico, - estas palavras que o definem como educador:
«Não contemos senão com o homem que educado e instruído purifique a civilização, fertilizando-a pelo trabalho, simplificando-a pela bondade, heroicisando-a pela força.»
Fialho, cuja preparação médica lhe tornou possível conceber um humanismo baseado na saúde e na beleza física, é tanto o higienista, reformador e moralista, como o mórbido descritor de uma sociedade que ele tinha de retratar mórbida e descaída. Protótipo do escritor decadentista, pugnou, no entanto, por um conceito equilibrado, racional, helénico, do homem.
O estudo que Almerindo Lessa lhe dedicou, ultrapassa o simples interesse literário ou clínico para nos fazer meditar no apóstolo da Profilaxia que foi Fialho de Almeida.
[Repesc em 17/11/1990]: A permanente tentação de voltar a Fialho, não só porque emergi dele, por reencarnação, exactamente nove meses depois da sua morte-suicídio, não só porque é um ficcionista provocante e exuberante, cada vez mais moderno, não só porque nunca cometeu a asneira de escrever romances, não só porque é um modelo antológico da Ambiguidade, mas porque teve algumas das mais fulgurantes intuições que hoje se podem ir verificando de Ecologia Humana, Holística e Profilaxia natural.
[Serão personalidades como Fialho tão grandes precursores e profetas como parecem, ou este Establishment de merda é que tem a grande propriedade de ser imobilista, conservador e reaccionário?
[Nesse caso, até eu, primo irmão do Fialho, poderei fazer figura de profeta e precursor, dada a lentidão com que, dentro da Engrenagem, o progresso avança. Dada a lentidão com que o Progresso progride!
[Ah! Os mitos progressistas dos progressistas de merda!]
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1-2<fialho-1> - diário de um leitor –notas de leitura – a fase literária – autores em que ele se leu – os mortos da minha vida – mais documentos no grande dossiê Aème «Os Mortos»
OS GÉNEROS E AS COSTAS ESTREITAS DE FIALHO
REVISÃO DO QUE DISSERAM(*)
(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado na revista «Quatro Ventos», nº12, de que não sei a data( 1956?). De certeza depois d’ A Planície e durante a vigência d’ A Planície.
Claramente uma defesa própria, a pretexto de defender Fialho. Nunca ocultei que me sinto honradíssimo por ter no meu primo direito Fialho de Almeida o meu mais notável ancestro. E nada ou pouco fiz (além de lê-lo) para honrar essa honra.
Creio que não há géneros literários nobres e géneros plebeus. O hábito não faz o monge; o monge é que dá valor ao hábito. Mas julgo ter sido esse o equívoco que regeu a maioria das interpretações dos que falaram de Fialho. Obra sem coesão, híbrida, de interesse transitório e não sei que mais : eis os adjectivos do baptismo para a memória de Fialho. «Andamos todos a justificar o nosso interesse por Fialho» - aventou um. «Os Gatos», a páginas tantas, cansam"-oficiou outro... Mas o cansaço é ocorrência demais subjectiva para basearmos nela um juízo e muito menos uma generalidade. Não há dúvida: Estes Gatos, a que só faltou um volume para serem de sete fôlegos, sete valentíssimos fôlegos, são para cansar o mais pintado. Tudo depende do gosto ou desgosto do sujeito por tais travessias ; há quem se emocione mais e canse menos nas vertentes de um: A Montanha Mágica. O cansaço é proporcional à capacidade da caixa torácica e, vamos lá, craniana . . .
O que nos cativa então em Fialho e o faz, em nosso entender, mais actual hoje do que no seu século ? Supomos que foi o ele ter dado, aos géneros considerados plebeus, a categoria de géneros nobres, e de uma página de jornal, por exemplo, destinada ao efémero, redigida sobre o joelho, ter extraído texto que continua mais vivo do que toda a ourivesaria do excelso Eugénio de Castro, por exemplo, seu contemporâneo, e a quem ele cantou das boas e das melhores. Para os nossos críticos, o Eugénio de Castro, por muitas baboseiras que tivesse escrito, é sempre o artista que escreveu em verso e, logo, - alto lá ! - atenção ao homem que tem de ser artista à força.
O que foi Fialho não o disseram os exegetas : um perdulário do próprio génio, que nunca puxou à pose. Nos tampos das mesas ou em pergaminho, Fialho teria sempre escrito, escrito mesmo com a faca ou a morte ao pescoço, invariável, necessária, fatalmente. É o que assombra em Fialho : o raio ecléctico não tanto dos géneros mas dos assuntos que cultivou. Nunca escolheu. Deu-se. Conforme vinham, assim os punha no fogo e lhes dava forma, tantas vezes inacabada, tantas vezes nem sequer revista.
O humoralismo de Fialho é, assim, o pior defeito de que o acusaram aqueles para quem o artista
a) Há-de revelar-se segundo os géneros canónicos; é assim que um desgraçadinho que ande a vida inteira a escorripichar versos de uma inspiração que nunca avezou para o género, se porá acima da para nós Poeta Fialho que nunca escreveu uma rima ;
b) Há-de ter um travão de pé e outro na cabeça para deter «os impulsos do temperamento»; daqui resulta que teríamos de excluir da história literária os que, por temperamento, revolucionaram excedendo as vias da normalidade e as linhas clássicas, que nos artistas menores nunca são menos nem mais do que puramente académicas.
É pena que o olho electrónico dos nossos intelectuais não tivesse perscrutado na sinceridade e, como corolário, na coragem, a virtude cardial de Fialho. Nada há na sua obra de calculismo ou aviso defensivo. Foi um coração que se expôs. Ora um coração que se expõe, sendo a primeira e última asneira que se devia e deve ainda hoje cometer, é também a única arma do homem livre. Aquilo que mais pode atemorizar a hipocrisia organizada é a desprevenção e a sinceridade de alguém. O que derrotou o Rei Nu, foi a gargalhada fresca e a tempo de uma criança.
É pena que, depois disto, não tenham conseguido sintonizar Fialho na linha dos grandes escritores demoníacos ou angelicais (os extremos tocam-se), na falange dos grandes espeleólogos da alma humana, entre os poetas malditos, de Michaux a Prévert, de Nietzsche a Kafka, de Rimbaud a Camus, de Dostoiewsky a Miller. Todos eles os nossos críticos conseguiram catalogar. Menos o pobre do Fialho, que aos seus olhos pouco passou de um escrevedor de anedotas, de um joalheiro da linguagem ( sobre joalharia e artes correlativas consulte-se o que Fialho disse das florais poesias simbolistas do Eugénio de Castro), de um panfletário que «armou ao efeito por via do galicismo», como ele próprio confessa. Triste gente esta que nunca consegue fazer milagres com os santos da casa. Que pena que os iconoclastas da nossa poesia mais vanguardista apenas consultem os derruidores de mitos lá de fora e não descubram este mesmo adiante dos nossos oxidados olhos de inveterados líteras.
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(*) Publicado na revista «Quatro Ventos», nº12, de que não sei a data( 1956?). De certeza depois d’ A Planície e durante a vigência d’ A Planície.
Claramente uma defesa própria, a pretexto de defender Fialho. Nunca ocultei que me sinto honradíssimo por ter no meu primo direito Fialho de Almeida o meu mais notável ancestro. E nada ou pouco fiz (além de lê-lo) para honrar essa honra.
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1-1-<fialho-2>
novo word em 2002-02-04 - os mortos da minha vida
OS NEOLOGISMOS EM FIALHO
3 EXEMPLOS
«Fugi de soldado. Não é crime nenhum. Vonce'cê tem irmãos? Saberá o que custa deixar com fome a nossa gente, para servir o rei que uma pessoa nem sabe que diabo é. Daí, foi uma pouca vergonha. Meu mano mais velho ainda estava na praça. Para livrarem um rico, lá de S. Miguel, mandaram-me apresentar a mim. Desertei. Que havia d'eu fazer. E por i ando. Em povoados não entro... nos montes cuidam que sou algum ladrão.»
Fialho de Almeida
«De feito, que sabem esses rapazolas aos vinte anos, com mesadas de família, cavaqueira amena nas repúblicas escolásticas da alta, tricanas prestes, paisagens remançosas, límpidos céus, horizontes musicais, e por toda a parte promessa de fortuna e silhuetas de salgueiros e monumentos históricos, que as baladas do rio melancolizam, as guitarras e as troças juvenescem dum evoé de vida imberbe - que sabem eles da grande vida martirizante dos que não podem voar por ter de pôr todos os dias a panela ao lume, e dos que tendo-se feito um nome, rebentam de martírio ignorado para o levarem intacto até ao frontespício d'um livro original?»
Fialho de Almeida
«Quando recordo a minha própria história de escolar desprotegido, quando deito a minha bênção à corajosa agonia que eu tive de sustentar, anos e anos, através de amarguras sem conta, entre o egoísmo de todos e o rancor da maior parte, primeiro que viesse a topar assim na vida, uma estrada sem encruzilhada de bestas feras, dessa escriciante evocação vêm tantas mágoas, que o meu desejo fora espargir o que no coração me resta de bondade, pelas desfalências dos incapazes de lutar, como eu lutei.»
Fialho de Almeida
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1-1<fialho-4>
novo word em 2002-02-04 - 882 caracteres - notas de leitura - os mortos da minha
vida
FIALHO DE ALMEIDA
UM MODERNO DE AMANHÃ
29/9/1990
- Talvez ainda não tivesse começado a carreira de Fialho de Almeida.A propósito de uma reedição das suas obras, empreendida pela Clássica, o esquecimento a que este visionário português tem sido mais ou menos votado talvez comece a ser corrigido.
[A mobilização e exploração de recursos humanos também deverá abranger este problema nacional: a reabilitação dos autores esquecidos ou menosprezados.]
[Promover a releitura de muitos dos nossos clássicos do moderno é obra não só de justiça mas de perspectiva criadora.
Os que são e continuam vivos, os que mesmo ainda não começaram a viver na sua verdadeira dimensão, eis uma das tarefas de enriquecimento humano a que, em nome da prospectiva, nos devemos e podemos consagrar.]■
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1-1 <fialho-5> scan do artigo em 2002-02-04 - notas de leitura - autores em que se leu - os mortos da minha vida
FIALHO ENTRE OS LÍTERAS(*)
(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado, com as iniciais A.C.no jornal «Dom Quixote» , Évora, Maio/1957 )
Maio/1957
- Os estudiosos de Fialho não viram na contradição central da sua personalidade a mais coerente e consequente das atitudes que um espírito, movido por um tão ardente amor do humano, unicamente podia ter. Pois não será ao seu exasperado sentido de justiça que se devem tantas e tan-tas das injustiças por ele praticadas., sempre por amor da Maior Justiça? Não se deverão, à sua sinceridade, os desabrimentos de que, talvez tarde, se arrependeria, não porque se arrependesse do que não deveria ter dito mas porque sabia, com saber amargo de experiência feito, de que os olhos vulgares nunca interpretam como ímpeto generoso de justiça o que para eles só tem explicação pelo infra-racional?O rancor, o que foi em Fialho se não a nostalgia de um viver simples e franciscano? E o que representa o profissionalismo das letras, se não o horror à literatura, se não a literatura. encarada como um meio, uma arma, um escalpelo e nunca - como é hoje moda - um fim? Não explicará (em vez de desmentir) a sua iconoclastia, o sarcasmo, a irreverência, a violenta perseguição de certas constantes e queima de pergaminhos, talvez criando outros mitos e outros pergaminhos, - a alma diamantina, o mar de ternura, o humilde entre os humildes que Fialho foi?
Haverá nisto contradição? E se há, não será uma contradição imanente a todos os espíritos do quilate do de Fialho? Não, não é paradoxal a atitude daquele que prega o amor e, impiedosamente, profere as palavras mais cruéis que literatura alguma jamais registou. Não é sem pequenas injustiças, sem pequenos bibelôs atirados ao chão, que se constrói a Maior Justiça. As páginas que Fialho dedicou ao estatuário de Sousa Martins definem o seu «paradoxo»: ao mesmo tempo que reduz a pó o pobre e miserando ser que se atrevera a esculpir a figura daquele que Fialho idolatrava, ( com uma veemência que só a sua alma pujante, dominadora e fascinada podia possuir) exalta a figura do médico a um ponto a que só um santo, ou um herói tenha sido alcandorado por um panegirista. À grande, imensa necessidade de amar e admirar, corresponde, em Fialho, necessidade igual, não de odiar, porque em espíritos como o dele admiração e repúdio fundem-se afinal num mesmo fogo de amor, amor acima do humano, amor místico talvez, mas de colocar, a pontapé se preciso for, nos seus lugares, todos os profanadores dos lugares santos, das coisas puras.
Julgo que bastaria o seu exemplo de coragem, de entrega absoluta, de absoluto repúdio de honras e graças, mercês e honorários, a sua sinceridade pueril e apaixonada, desprevenida e máscula, o fogo destruidor que a ele também consumia, antes e muito mais do que àqueles que incendiava, julgo que bastava a sua rara, singular, única atitude de homem tão livre como responsável, a sua altivez para com os poderosos, a sua humildade para com os humildes, a sua capacidade de extremos, abraçando na mesma roda impérios e flores, o seu amor dos abismos, para contarmos nele, sem criteriozinhos estéticos, um grande poeta da nossa língua, um grande humanista da nossa religião, uma grande marca, marca de fogo, de Exemplaridade Humana.
(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado, com as iniciais A.C., no jornal «Dom Quixote» , Évora, Maio/1957 ) ■
liguem ao projecto vercial para mais fotos de fialho :
http://web.ipn.pt/literatura/fialho.htm