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quarta-feira, 3 de Dezembro de 2003<bloy-md-ls-gl> merge de 3 files da série <bloy> ensaio ac de cinco estrelas sobre um livro e um autor de cinco estrelasquarta-feira, 18 de Dezembro de 2002
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<bloy-1> releituras mágicas - antecedentes da hipótese vibratória - pistas do maravilhoso
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EÃO BLOY:
LER O FUTURO COMO UM LIVRO
Texto inédito de 1962
Para explicar o problema do tempo e do espaço (o problema da História, portanto) de maneira «racional», a hipótese de Leão Bloy é semelhante, segundo Albert Béguin, à hipótese já sugerida por Santo Agostinho e Claudel (*) em Le Soulier de Satin.
Leia-se o que Albert Béguin escreve sobre essa hipótese: "A visão que Bloy teve da história, ordenada pela sua inteligência dos símbolos e tornada mais profunda por um extraordinário sentido do mistério da Comunicação dos Santos, ultrapassa de longe a ideia que Bossuet apresentou sobre a intervenção providencial nos assuntos deste mundo. E ultrapassa igualmente o sistema de Joseph de Maistre" (pg.30). "Podemos adiantar que a sua particular noção do sentido da história, muito mais do que em Maistre, Mosselly de Lorgues ou Blanc de Saind- Bonnet, deve as suas origens à Escritura e sobretudo à sua vida interior".
E agora as próprias palavras de Bloy, citadas por Béguin: "Os acontecimentos não são sucessivos mas contemporâneos, de uma maneira absoluta; contemporâneos e simultâneos, e é por tal razão que pode haver profetas. Os acontecimentos desenrolam-se sob os nossos olhos como uma tela imensa. Só a nossa visão é sucessiva."
Profeta é o que vê, não o que conhece. Profeta é o que vê, simultaneamente, passado, presente e futuro, o que vê a eternidade. Historiador o que vê sucessivamente, o que estuda os sucessos ou factos ou acontecimentos no tempo. Profeta é o que, colocado na eternidade, vê todo o tempo. Historiador é o que, colocado no tempo, vê apenas fragmentos do tempo: passado, presente e futuro, ou fragmentos desses fragmentos. Profeta é o vidente, historiador o que conhece. Profeta é o poeta, historiador o político. Profeta é a voz do absoluto, historiador o eco do relativo.
Para os profetas, tal como para os santos, tal como para o povo eleito, é necessário uma concepção menos restrita de os avaliar. Profetas não são apenas os que a tradição cristã indica. Santos não são só os que a teologia católica canoniza. Povo eleito não é o que acidentais condições históricas, de espaço e de tempo, circunscrevem.
O obsceno estuda os profetas, os santos, o povo eleito, mas surpreende tudo isso onde as ortodoxias limitadas nada viram. Estuda a mística ou religião cristã, por exemplo, mas também as místicas ou religiões de todos os tempos e lugares. Todos os movimentos deverão ser formas históricas de um único; todas as particularidades do tempo, aspectos da eternidade; todas as minúcias do espaço, aspectos do infinito. Assim como as metamorfoses de Cristo podem surgir nos mais inesperados momentos e lugares, assim é preciso estar atento a tudo o que forem afluentes da Grande Corrente.
É ainda, por exemplo, Alberto Béguin que explicita o entendimento do mal na mística de Bloy. Em face de um conceito providencialista da história, uma vez que a história pré-existe ao homem e que tudo já está escrito desde o princípio até à consumação dos séculos, onde o livre-arbítrio? Satanás (figura que tem ressurgido, ao mesmo tempo que Cristo, nos escritores modernos - e de momento apenas quero lembrar Claudel, Coccioli, Papini) será essa hipótese ou liberdade de fuga ao plano determinista do universo. Satanás é o que se revolta, em nome da liberdade, e quer modificar os planos de Deus. Satanás quer apagar a história escrita por Deus e escrever outra.
Eis que a demonologia é um dos afluentes para a determinação do movimento obsceno. Por outro lado, a tradição liberalizante de tantos movimentos políticos, com especial menção para o anarquismo, é outra fonte e outro rio. As sociedades secretas, o surrealismo, o existencialismo, o esoterismo, o fideísmo, o ocultismo, nada disto, nenhuma destas "disparatadas" e aparentemente disconformes ou contrárias correntes pode ser ignorada por uma visão obscena da história ou por uma exegese da história com base na descoberta dos seus fundamentos obscenos.
É mais clara, mais inteligível, digamos mais racional a visão da história que se apoia em postulados míticos do que a variada historiografia positivista. Suponhamos, na visão defendida por este ensaio, três ordens de realidade, qualquer delas com carácter mítico mas qualquer delas também com o seu reverso material, factual, histórico. São essas três ordens:
a) O mito do Apocalipse (atenção a S. João!), trave mestra, também da mística de Bloy, e que é o ponto unificador, digamos o núcleo de fogo da eternidade de onde o profeta vê o tempo.
Na ordem material, o núcleo atómico prefigurando a explosão atómica e toda a terra numa explosão única, é a ilustração material demasiado aliciante do mito para que lhe possamos fugir;
O mito do Apocalipse parece assim fundamentado pela própria marcha da técnica e dos poderes destruidores do homem por alguns homens.
b) Estes "alguns homens" fazem pensar num segundo mito - o do povo eleito - que se oporia, até aos confins do tempo, àquela minoria, a minoria da criação contra a minoria da destruição. Este povo eleito, estes filhos da luz (do fogo), opondo-se aos filhos da treva, tem sido, ao que me parece, mal interpretado pelos exegetas, pois não se trata dos judeus nem de nenhum povo organizado em "pátria" histórica. Povo, pátria ou país, só verdadeiramente se entenderá como a comunidade dos eleitos, dos marcados, dos escolhidos que, espalhados pelo tempo e pelo espaço, constituem membros do mesmo corpo, metamorfoses da mesma realidade, astros da mesma nebulosa.
Em termos de teologia católica, também este mito nos aparece claro, seguindo as ligações do mito do povo ungido ao mistério da "comunicação dos santos" e ao do "Corpo Místico"- qualquer deles, também, pontos vitais de Leão Bloy. Não se esqueça, porém, do que se disse atrás, sobre a necessidade de alargar o conceito de santo, profeta e povo eleito, para fora de todas as ortodoxias, inclusive a católica.
Em literatura, lembro apenas a citação frontal que Carlo Coccioli faz de Shakespeare, na portada do livro Fabrizio Lupo: a identificação entre o judeu - o povo ungido de Deus - e o herói do romance, consciente ou inconsciente em Coccioli, revela-se com todo o alcance dentro da perspectiva que aqui viemos esboçando.
Ainda em terreno mítico, lembre-se a fala de Aristóteles no Banquete do Platão, e verifique-se a identidade entre essa "forma", a de Carlo Coccioli, a do "corpo místico" e a do povo eleito, e se todas essas formas não poderão ser metamorfoses da mesma, única e irredutível verdade.
Se não for suficiente, procurem-se as páginas de Marcel Jean e Arpad Mezei sobre Jarry e a concepção sui generis que deste libertário nos apresentam, confirmando, simultaneamente, o mito do "povo eleito" e o do Apocalipse. Conjugando a história do mundo nos últimos anos, o desencadeamento das forças destrutivas e a causa digamos psicanalítica dessas forças que é a não sublimação ou recalcamento dos instintos sado-masoquistas do homem, obteremos três linhas confluentes: por um lado, a tendência homossexual colectiva conduz à agressividade e à destruição; por outro lado, a tendência homossexual individual conduz à impossibilidade procriadora (pois não há filhos de ligações entre membros da mesma raça - a dos "eleitos") e, portanto, a extinção, a destruição da espécie; por outro lado ainda, a hiper-intelectualização da cultura, obstruindo a consciência do complexo que domina a nossa época (para cada época há um complexo dominante e o de Édipo foi o que dominou na época antecedente à nossa , estando a nossa dominada pelo que Marcel e Arpad denominam as "erínias orestianas"), deixará que o recalcamento e reprezamento desse complexo origine uma força potencial da destruição de que a própria civilização que se hiperintelectualizou será vítima.
Lê-se no citado livro de Marcel Jean e Mezei:
"Assim pode-se compreender o fenómeno das guerras mundiais. Nós interpretamos psicologicamente estas guerras como consequências de uma mania da perseguição, de origem homosexual colectiva. Os sentimentos insuportáveis são projectados sobre os grupos exteriores, e as-sim adquirem um aspecto agressivo: os políticos da Alemanha hitleriana designando às suas massas objectos de agressão - as "democracias corrompidas e os "cães vermelhos comunistas". Duas vezes desencandeado em trinta anos, este ciclone destruidor centrado sobre um eu colectivo não parece de modo nenhum ter esgotado a sua violência, a polariza ainda milhões de indivíduos.
Resumindo a intercausalidade entre o mito do "povo eleito" e o mito do "Apocalipse", conclui-se pela negação dos messianismos políticos, substituindo-os por um único messianismo: o do «povo eleito", o do "povo obsceno». Este mito apoiado historicamente ainda pela dialéctica da história hegeliana "senhor-servo", o servo incarnando o homem obsceno e o senhor a lei, a disciplina, a moral, a regra, a autoridade, a força, a hierarquia, a instituição.
c) Por último, o mito do Advento. Que seria o Advento e o Messias desse Advento? Seria o homem que conseguisse ler na história aparente a história real, na história do tempo a história da eternidade, na história do relativo a história do absoluto. O homem que inteligiria tudo porque via em vez de conhecer. Do Génesis ao Apocalipse, esse homem teria a "ciência da excepção" (Charles Fort), a "filosofia da poesia" (Lautréamont), a "pata-física" (Jarry), a ciência que estuda o passado, o presente e o futuro simultaneamente, a ciência que prefacia os criadores e a criação dos criadores, a ciência que descobre os membros da raça eleita, na bruma dos séculos e na confusão do presente, sob as mais insuspeitadas máscaras, vestes, aparências.
Em termos profanos, seria o crítico dos críticos, o ultra-ensaísta, o historiador que conseguisse ser filósofo da história e o filósofo da história que conseguisse ser profeta da história, lendo, a partir de todos os sinais do obsceno que a história ainda desvela, a corrente subterrânea, a Grande Corrente, o Rio Proibido, toda a história como se se tratasse de um livro finalmente aberto.
Este mito do Advento é apoiado pelos avanços da ciência microfísica, pelo indeterminismo que, pela primeira vez, debate a questão de a ciência enfrentar a excepção. É útil ainda uma última religação de termos aparentemente longínquos, ao falar de excepção e ciência da excepção. Lembre-se o que Wilde, a esse respeito, pensava de Cristo. Lembre-se o que foi para Leão Bloy o problema da identidade ou individualidade, surto aparentemente insólito e de raiz demoníaca na planificação divina. Lembre-se também o que representa a individualidade ou princípio da individualização no campo da criação denominada artística". E lembre-se o papel do indivíduo em correntes de tendência anarquizante.
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(*) Pela importância que neste texto se atribui à obra de um escritor católico - Carlo Coccioli - não é despropositado citar o romance Le Jeu, deste autor, visão desse mesmo providencialismo.
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1-1 - <bloy-3-ls> quarta-feira, 18 de Dezembro de 2002-scan
LEON BLOY:
LER A HISTÓRIA
COMO UM LIVRO ABERTO(*)
As profecias clássicas imaginam o "fim dos tempos" de acordo com os dados ao alcance na época e com o conhecimento do Mundo que têm os profetas.
Poucas vezes, até 1945, poderia conceber-se coisa diferente de cataclismos, tremores de terra, batalhas, pestes, vulcões em erupção, - pois era o que História fornecera até então aos observadores, ainda que visionários.
Ainda não rebentara a bomba de Hiroxima, ainda a denúncia ecológica não viera demonstrar com o "fim do Mundo" tanto como o "fim dos tempos" estava e está ao alcance dos homens.
Até 1945, as catástrofes eram parciais, à excepção das que a ciência de oitocentos prognosticava: embate de planetas com a terra ou semelhantes hipóteses. E daí que pouco crédito se desse às profecias bíblicas do Apocalipse. Ninguém acreditava que um Mundo tão grande, composto de tão vastos continentes e oceanos, com tantas super-cidades, com tantos biliões de habitantes, houvesse poder capaz de destruir tão vasto e sólido conjunto.
A denúncia ecológica provou que sim, que a destruição .do Globo não só é possível como já começou. A única novidade é que à escala humana, o Apocalipse não acontece num dia. É um processo lento como o escorrer de lava ou de glaciar pela montanha.
À excepção desse ponto - a «lentidão» aliás, mesmo assim, relativa - a ecologia vem dar razão à profecia, torná-la real.
Como conta Albert Béguin em relação às profecias de Leon Bloy "todos encolhiam os ombros perante essa solitária voz e era respondido que os seus "sonhos" não tinham cabidela num século razoável, onde semelhante demência não possuía a menor probabilidade de se desencadear. Essa segurança não era, aos olhos dele, senão mais um sinal, ainda mais grave do que os outros, que lhe vinha confirmar a sua expectativa de desastre."
Leon Bloy está entre os profetas profanos do Apocalipse que só começaram a ter razão depois de 1945. Mas com ele estão outros, muitas vezes catalogados na história da filosofia, da literatura, da poesia, confundidos com líteras ou autores de palavras.
Em Leon Bloy, a filosofia da História é uma filosofia das Profecias. Só o que vem depois dá sentido ao que é agora e foi antes. A profecia ilumina a História, que se pode então ler como um livro aberto.
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(*) Este texto de Afonso Cautela, de que literalmente perdi a data, deverá ter sido publicado na série de «O Século Ilustrado», «Futuro» . Liga-se a dois files <bloy-1> e <bloy-2> , textos de Afonso Cautela sobre Bloy mas inéditos
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<bloy-2>
BIBLIOTECA DO GATO
PISTAS DO MARAVILHOSO
Livros ainda existentes relacionados com o texto «Leão Bloy: Ler o Futuro como um livro»
Albert Béguin - Leão Bloy - Místico da Dor - Trad. Nuno Bragança - Ed. Morais - Lisboa - 1961
Anton Bohm - Satã no Mundo Actual - Trad. Manuela Pinto dos Santos - Ed. Tavares Martins - Porto - 1960
Carlo Coccioli - Fabrizio Lupo - Trad. Louis Bonalumi - Ed. La Table Ronde - Paris - 1952
Charles Fort - El Libro de los Condenados - Ed. Petronio - Barcelona - 1976
Marcel Jean e Arpad Mezei - Genèse de la Pensée Moderne - Col. Dirigida por Maurice Nadeau - Ed. Corrêa - Partis - 1950
Oscar Wilde - De Profundis - Trad. Cabral do Nascimento - Ed. Portugália - Lisboa - Junho de 1962 ■