para foto e site condizente, ligue já a:

 

http://www.johnmitchell.org/whitman.htm

 

http://www.whitmanarchive.org/

 

***

 

                           7424 bytes <whitman>

 

AS TELECOMUNICAÇÕES

 

GLOSA DE WALT WHITMAN

POR AFONSO CAUTELA

 

--., 16/8/1964

 

É pelo alfabeto universal

da universal humilhação que os homens comunicam

O rosto exangue os músculos contraídos

e arquejante o tronco

os olhos distantes e sem brilho

é assim que os homens comunicam

os homens da Fúria e das algemas

com o instinto ou a Inteligência

com o sangue ou com a Voz

pelo silêncio e no silêncio

no fundo da Terra e do fundo da Terra

inevitavelmente é pela Dor Universal

que os homens comunicam

os homens que desenham o futuro sem serem designers

e abrem crateras extintas de lava sem serem bazukas

a céu aberto

os homens comunicam para o mundo

de Oceano a Oceano e de pólo a pólo

de continente a continente

de mar a mar e de beijo a beijo

de céu a céu

na linha fina e bem demarcada do horizonte

Nada importa saber

além de que os rios correm para o mar

e os homens para a Liberdade

os homens que hão-de nascer outra vez

para nascerem finalmente

e refazer a soma errada

e acertar contas e pedir contas

ao deus intriguista e burguês

ao deus-mãozinhas de Fome

ao deus-fingimento

ao deus-aldrabão

ao deus-egoísta e mole e vero filho da Puta (*)

ao deus-bacalhau de azeite e vinagre

os homens hão-de nascer outra vez

para nascerem finalmente

É urgente

Homens das pontes e das avenidas suburbanas

homens da construção civil e naval

homens dos poemas de-pedra-e-cal

de cimento e aço e vidro e telha

Homens das orações que são guindastes

homens que do amor são enxadas puras e naturais

homens mendigos de ternura

e que molestam o automóvel de luxo

no cruzamento das grandes artérias

homens do outro bairro

homens dos altos fornos do Aço e do Carvão

tão necessários

homens de pulsos e olhar firme

de reflexos rápidos ao desandar de uma viga

homens mais perfeitos do que máquinas

homens que sonham alto a Revolução mas que nunca a farão

e falam baixo nas tipografias sem ventilação

homens do sangue que são barcos no meio da noite

no meio da eternidade

apitando no imenso nevoeiro que entretanto se formou

homens irmãos por tanta ternura que não foi gasta

por tanto beijo que não foi dado

por tanto abraço que a alienação frustrou

homens do nosso desespero e portanto da Esperança

que o nosso rosto acarinha

homens que vão nos meu ouvidos e me escutam

na minha boca que em silêncio fala

nas minhas mãos

homens de uma tristeza violenta e vulnerável

homens dos grandes camiões nocturnos

dos autocarros fatídicos da cidade fatídica

na rotina inquebrável na rotina estéril

homens das oficinas rudimentares

homens do pão e dos sapatos

das pequenas alegrias diárias de toda a gente

homens servos e fidalgos na servidão

homens livres e libérrimos na servidão

homens de Castro e Grimau, de Lorca e Martin du Gard

do Porto Rico e da Colômbia

da Argentina e do Sara

homens das caves das casas onde se come à semana

homens que dão de comer ao gordo e ao magro

por salários de Fome

Homens dos estaleiros que são gigantes de aço

homens dos calcetamentos nocturnos

até às cinco da madrugada

quando o último eléctrico se tresmalha na cidade

homens dos ferry boats e dos transatlânticos

mas na casa das máquinas

movendo volantes maravilhosos como poetas

rodas dentadas que são a fraternidade horária

e heróica movendo-se já nas suas mãos

em todos os fusos do mapa

e puxando âncoras de ferro junto ao coração

Homens que transformam como deus

a flor em pão

a uva em vinho

e a flor e o pão e a uva e o vinho em Alma

dos operários em construção (Vinícius)

homens dóceis que passeiam à noite a sua ganga encardida

a sua solidão de Luz e Oiro escondida

vigias intermináveis da Paz

do Amor

Homens das guerras imbecis

soldados absurdos das guerras absurdas

das guerras sempre civis

Homens tecelões de sonhos e Algodão em rama

e Linho e Cânhamo

Homens atrás dos balcões do berço à morte

dia-e-noite dia-e-noite dia-e-noite

homens ínfimos das latrinas e urinóis

onde comem e dormitam

onde sonham a vida e a morte

homens das caves suburbanas da história

Heróis

Homens emigrantes para onde houver quem os compre

em saldo

homens de lancheira breve

das refeições frias na taberna

homens jovens sem idade

que transportam pesos superiores ao seu

Homens sem escola nem universidade

homens sem domingo ou que têm o domingo

mais melancólico e mais amargo da cidade

homens que hão-de nascer outra vez

e voltar à terra que arrotearam

para repor no lugar um mundo errado

Pelo analfabeto universal da universal humilhação

é que os homens comunicam

e sofrem

porque o sofrimento são os homens espiando

as asneiras de deus

sofrimento é pôr outra vez o andaime e construir

pedra a pedra a Casa derrubada

Um poema é a história escrita

com os olhos da Ternura e as mãos da Violência

num pano roxo de sofrimento

Comunicação dos Santos

ou Comunicação dos homens?

----

(*) Você me desculpe, Murilo (*), mas o deus de você para não ser pura bobagem é uma merda e apesar dele eu gosto de você e o amo como irmão dos irmãos operários deste Mundo

---

(*) Murilo Mendes, claro

-., 16/Agosto/1964