para foto e site condizente, ligue já a:
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AS TELECOMUNICAÇÕES
GLOSA DE WALT WHITMAN
POR AFONSO CAUTELA
--., 16/8/1964
É pelo alfabeto universal
da universal humilhação que os homens comunicam
O rosto exangue os músculos contraídos
e arquejante o tronco
os olhos distantes e sem brilho
é assim que os homens comunicam
os homens da Fúria e das algemas
com o instinto ou a Inteligência
com o sangue ou com a Voz
pelo silêncio e no silêncio
no fundo da Terra e do fundo da Terra
inevitavelmente é pela Dor Universal
que os homens comunicam
os homens que desenham o futuro sem serem designers
e abrem crateras extintas de lava sem serem bazukas
a céu aberto
os homens comunicam para o mundo
de Oceano a Oceano e de pólo a pólo
de continente a continente
de mar a mar e de beijo a beijo
de céu a céu
na linha fina e bem demarcada do horizonte
Nada importa saber
além de que os rios correm para o mar
e os homens para a Liberdade
os homens que hão-de nascer outra vez
para nascerem finalmente
e refazer a soma errada
e acertar contas e pedir contas
ao deus intriguista e burguês
ao deus-mãozinhas de Fome
ao deus-fingimento
ao deus-aldrabão
ao deus-egoísta e mole e vero filho da Puta (*)
ao deus-bacalhau de azeite e vinagre
os homens hão-de nascer outra vez
para nascerem finalmente
É urgente
Homens das pontes e das avenidas suburbanas
homens da construção civil e naval
homens dos poemas de-pedra-e-cal
de cimento e aço e vidro e telha
Homens das orações que são guindastes
homens que do amor são enxadas puras e naturais
homens mendigos de ternura
e que molestam o automóvel de luxo
no cruzamento das grandes artérias
homens do outro bairro
homens dos altos fornos do Aço e do Carvão
tão necessários
homens de pulsos e olhar firme
de reflexos rápidos ao desandar de uma viga
homens mais perfeitos do que máquinas
homens que sonham alto a Revolução mas que nunca a farão
e falam baixo nas tipografias sem ventilação
homens do sangue que são barcos no meio da noite
no meio da eternidade
apitando no imenso nevoeiro que entretanto se formou
homens irmãos por tanta ternura que não foi gasta
por tanto beijo que não foi dado
por tanto abraço que a alienação frustrou
homens do nosso desespero e portanto da Esperança
que o nosso rosto acarinha
homens que vão nos meu ouvidos e me escutam
na minha boca que em silêncio fala
nas minhas mãos
homens de uma tristeza violenta e vulnerável
homens dos grandes camiões nocturnos
dos autocarros fatídicos da cidade fatídica
na rotina inquebrável na rotina estéril
homens das oficinas rudimentares
homens do pão e dos sapatos
das pequenas alegrias diárias de toda a gente
homens servos e fidalgos na servidão
homens livres e libérrimos na servidão
homens de Castro e Grimau, de Lorca e Martin du Gard
do Porto Rico e da Colômbia
da Argentina e do Sara
homens das caves das casas onde se come à semana
homens que dão de comer ao gordo e ao magro
por salários de Fome
Homens dos estaleiros que são gigantes de aço
homens dos calcetamentos nocturnos
até às cinco da madrugada
quando o último eléctrico se tresmalha na cidade
homens dos ferry boats e dos transatlânticos
mas na casa das máquinas
movendo volantes maravilhosos como poetas
rodas dentadas que são a fraternidade horária
e heróica movendo-se já nas suas mãos
em todos os fusos do mapa
e puxando âncoras de ferro junto ao coração
Homens que transformam como deus
a flor em pão
a uva em vinho
e a flor e o pão e a uva e o vinho em Alma
dos operários em construção (Vinícius)
homens dóceis que passeiam à noite a sua ganga encardida
a sua solidão de Luz e Oiro escondida
vigias intermináveis da Paz
do Amor
Homens das guerras imbecis
soldados absurdos das guerras absurdas
das guerras sempre civis
Homens tecelões de sonhos e Algodão em rama
e Linho e Cânhamo
Homens atrás dos balcões do berço à morte
dia-e-noite dia-e-noite dia-e-noite
homens ínfimos das latrinas e urinóis
onde comem e dormitam
onde sonham a vida e a morte
homens das caves suburbanas da história
Heróis
Homens emigrantes para onde houver quem os compre
em saldo
homens de lancheira breve
das refeições frias na taberna
homens jovens sem idade
que transportam pesos superiores ao seu
Homens sem escola nem universidade
homens sem domingo ou que têm o domingo
mais melancólico e mais amargo da cidade
homens que hão-de nascer outra vez
e voltar à terra que arrotearam
para repor no lugar um mundo errado
Pelo analfabeto universal da universal humilhação
é que os homens comunicam
e sofrem
porque o sofrimento são os homens espiando
as asneiras de deus
sofrimento é pôr outra vez o andaime e construir
pedra a pedra a Casa derrubada
Um poema é a história escrita
com os olhos da Ternura e as mãos da Violência
num pano roxo de sofrimento
Comunicação dos Santos
ou Comunicação dos homens?
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(*) Você me desculpe, Murilo (*), mas o deus de você para não ser pura bobagem é uma merda e apesar dele eu gosto de você e o amo como irmão dos irmãos operários deste Mundo
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(*) Murilo Mendes, claro
-., 16/Agosto/1964