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NAS FRONTEIRAS DO POSSÍVEL

COM FRANÇOIS TRUFFAUT (*)

 

[ In «Notícias do Futuro», jornal «Notícias da Beira», Moçambique, 4-6-1971]

Na forma de relatório científico - conhecido apenas de especialistas e de alguns curiosos que se dedicam a estudar «extravagâncias» do comportamento humano, menos por espírito científico do que por mórbida bisbilhotice - a «criança selvagem» era apenas um acontecimento.

Quer dizer: não tinha forma conhecida para lá das abstracções informais de uma memória científica e não existia como aventura, drama, romance, ficção, existência. Em suma, não existia. Não era real.

O mérito de Truffaut e a sua intervenção de realizador começa, portanto, aí, antes de princípio. Desta vez se diria que no princípio foi o cinema e não o verbo. Truffaut vai descobrir o «acontecimento» através de vestígios (quase diríamos) arqueológicos, dispersos, incoerentes. Descobre-os, unifica-os, reconstrói e recria, «insufla-lhes o sopro de vida» que lhes faltava, para falar um pouco à maneira bíblica. Parte de um acontecimento sem forma para o inventar, o imaginar na sua forma real. Realiza realidade.

L'Enfant Sauvage ilustra de maneira apaixonante esta tese talvez discutível: todo e qualquer tratamento estético parte de um nada virtual, de um zero, de um ponto em branco no mapa. Começada a escrever a história, o real vai acontecendo: e a «criança selvagem» do relatório científico passa a obra de «ficção» mas de ficção realista do mais puro realismo.

E no entanto, a não ser o relatório em que o filme se baseia, tudo o mais ali é inventado - inventado no sentido de que nada foi filmado como um documentário sobre os acontecimentos que em 1803 ficaram conhecidos e compilados na Mémoire et Rapport sur Victor de L,'Aveyron, obra do senhor Jean Itard: cenários, personagens, ambientes, diálogos, desempenham função ambivalente: documental e documentária por um lado; romanesca, por outro.

Por essa ambivalência é que L'Enfant Sauvage me parece um filme de manufactura exemplar. Por ele - por ele filme, na sua totalidade indissociável de «fundo e forma» - fica demonstrado que um facto científico pode conter tanto interesse «romanesco» como a mais inverosímil das ficções e de que o melhor «romance de aventuras» é ainda o da «aventura humana» e de que não é preciso fugir do real ou menti-lo, falseá-lo, degradá-lo para estarmos em pleno domínio do fantástico. Se por fantástico designarmos aquilo que Le Matin des Magiciens designa e se por «aventura humana» entendermos principalmente o que Jacques Bergier, em livro recentíssimo, denomina por «fronteiras do possível».

Já que falei de O Despertar doa Mágicos e de Bergier (um dos seus dois autores), não vem a despropósito sugerir que se interprete L'Enfant Sauvage (entre outras interpretações possíveis, claro!...) à luz do «realismo fantástico».

Desde que a ciência (a para-ciência ou imaginação científica, frise-se, aquela que vai à frente dos códigos e das ortodoxias constituídas e que sofre quase sempre perseguições por ir à frente) entra na pesquisa do fundamental, a, realidade torna-se imediatamente fantástica e com uma carga romanesca que dispensa ficções. Que dispensa realismos e neo-realismos.

Jorge Luís Borges também pode vir para aqui chamado: pois não foi ele o pesquisador de um real histórico que com certeza existiu mas que tem de ser imaginado ou recriado, por faltarem relatos coetâneos ou porque os relatos que há têm lacunas de séculos que precisam de ser preenchidas?

O que transforma um seco e desinteressante (?) relatório científico numa obra «dramática» apaixonante, é precisamente esse carácter de fantástico que a realidade assume logo que saia dos quadros convencionais e convencionalizados por um conhecimento dito científico mas apenas estereotipado, esclerótico, vazio. A ciência - sublinhemos, a pesquisa científica - entendida como trabalho de imaginação, é tão fascinante (é mais fascinante que) como a própria ficção. Assim o demonstra L'Enfant Sauvage, de François Truffaut.

Se o real precisa de ser recriado - inventado - porque há-de o artista, e mormente o cineasta, com tão boa matéria-prima à mão, socorrer-se de imaginárias aventuras? Vá ele aos pontos-chave e às situações-limite do corportamento humano, viaje ele até às fronteiras do real, sem receio das alfândegas críticas que tudo proíbem, pesquise ele o que Arthur Clarke preconiza na sua segunda famosa lei -- «a única maneira de descobrir os limites do possível é a gente aventurar-se, um pouco para lá dele, no impossível» - e não precisa de «policial», de «suspense», de «western», de «espionagem», sequer de «ficção científica» e de toda a droga de pacotilha que a indústria das distracções manufactura, para emocionar multidões. Ele pode com L’Enfant Sauvage emocioná-las até às lágrimas...

O real é que é fascinante, pois claro, porque - para um pesquisador contemporâneo do futuro - está (quase tudo) por descobrir. Mas quem diz descobrir, diz imaginar, porque o conhecimento é imaginação.

Esta abertura às evidências de um «real fantástico» - que o surrealismo pôs de moda - veio a ser estrangulada por uma pretensão de legislar ou logificar também o «real imaginário», pretensão que viria a culminar com certa ala da escola estruturalista e da horda experimentalista. Se nesta escola filosófica há também os que se servem da ciência -- em sentido estrito de conhecimento adquirido, de cálculo e de análise - para espevitar a imaginação, mantendo portanto a prioridade hierárquica certa, outros há, os medíocres aproveitadores, epígonos e escoliastas que inverteram a dita prioridade e, pura e simplesmente, esmagam a imaginação sob o peso de qualquer eruditismo, patológico de maníaco.

Claro que com isso perde a poesia e perde o laboratório, pois se de ciências humanas falamos, é de imaginação científica que temos de falar.

L'Enfant Sauvage vem prová-lo. Um filme que supera o próprio relato de onde foi extraído e inspirado, parece-me bom augúrio para os que têm teimosamente defendido em matéria de ciências humanas, a prioridade acima indicada: imaginação acima de erudição.

Propriamente sobre o acontecimento - a criança selvagem - e sua pedagogia, era muito o que havia a especular e não cabe em crónica breve. Apenas registo uma das muitas lições extraíveis: o curioso mecanismo de regulação e auto-regulação que é a sensibilidade humana, a relojoaria subtil e finíssima das funções específicas da espécie homo sapiens, a alegria que explode desta exclamação, digna ainda de um adepto do realismo fantástico. «O homem, esse infinito!».

De facto, tudo em nós permanece potencialidade virtual, tudo está adormecido e por nascer. 80 por cento do cérebro, segundo Einstein, não é utilizado. Estamos por explorar, somos um continente a descobrir. A para-psicologia ainda há pouco era considerada charlatanice pelos casmurros da racionalismo de via reduzida. Em matéria de emancipação económica, mais de um terço da humanidade permanece em estádio pré-humano, quer dizer, adormecida, alienada, sub-desenvolvida.

Desenvolver, crescer, humanizar, eis três conceitos indissociáveis que constantemente acorrem enquanto vemos L'Enfant Sauvage, e inevitavelmente cotejamos esse caso arquetípico com o arquétipo mais vasto que é a espécie. Sim, a humanidade é ainda essa «criança selvagem», de seus treze anitos, à espera de um Jean Itard que a reeduque e de um Truffaut que universalize a sua mensagem.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, 5 estrelas e perfeitamente republicável on line sem receios, foi publicado com este título em «Notícias do Futuro», jornal «Notícias da Beira», Moçambique, 4-6-1971