TRÊS TEXTOS DE AFONSO CAUTELA
DE 1961 E 1974 :
O MEU TRIBUTO A ARNOLD TOYNBEE
veja fotos em :
http://www.firstworldwar.com/bio/toynbee.htm
1-3 <toynbee-md-1-3> sexta-feira, 7 de Novembro de 2003
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RECUAR UM PASSO
PARA AVANÇAR VINTE (*)
[In «Futuro», «O Século Ilustrado», Lisboa, 22-5-1971]
Supõem alguns que falar do futuro é (apenas) prever, até às últimas
consequências, o que vai ser esta civilização tecnológica (à qual por acaso
pertencemos e é uma entre muitas das civilizações possíveis) e que nenhuma
alternativa se apresenta, portanto, para substituir ou contrariar a lógica onde
estamos embarcados, a ordem a que devemos obediência, a estrutura de que somos
um mísero e intransponível parafuso. Como parafusos, nada nos pode tirar de onde
estamos e há que seguir, na engrenagem, até à consumação dos anos, e - dizem os
pessimistas - dos séculos.
Isto é acreditar que a Humanidade se resume à civilização tecnológica, a qual (afirma-se) dominará exclusivamente em todo o universo e por todos os séculos dos séculos vindouros. É acreditar também que nenhuma outra sociedade, diferente, surgiu ou surgirá e que se esta morrer às suas próprias mãos, tudo - através das galáxias - terminará com ela.
Diga-se, no entanto, que uma tal crença é, além de pretensiosa, um tanto ridícula e abusiva. Pois não só está provado que todas as civilizações são mortais (teoria, como se sabe, eruditamente demonstrada por Arnold Toynbee) como virão sempre outras substituir as que morrem (ou suicidam? ). E que, se tudo indica estar a civilização dita ocidental no estertor, a caminho de um apocalipse termonuclear ou de uma asfixia por contaminação da biosfera, ou da loucura colectiva pelo congestionamento de estímulos, dados e signos que bombardeiam as meninges, muito provavelmente e mesmo ao nosso lado já estará a nascer outra civilização para substituir a ilustre moribunda.
Por isso é que se alguns esperam um apocalipse, outros esperam também uma nova Utopia. Se muitos acreditam num Fim, também já há muitos que estão trabalhando para um novo Começo. Se há os que contestam e colocam em questão a civilização herdada, outros estão realizando a reviravolta pacífica para um outro padrão de existência, outro tipo de relações humanas, para uma cultura, enfim, radicalmente diversa da vigente que hoje vigora.
Ao criticar-se a cultura (a sociedade) tal como a temos, pressupõe-se uma contracultura: e avaliar o futuro é ver sempre ambas as faces da moeda. Nesse trabalho de contracorrente, os «descontentes da civilização» como lhes chamou Freud, desempenharam, ao longo dos anos, um papel de síntese e catálise. Houve sempre as ovelhas «ronhosas» que não quiseram ir no rebanho, as individualidades, rebeldes por definição, que preferiram o isolamento incómodo e pagaram geralmente com a insegurança, a doença, o hospital ou o cárcere o seu descontentamento, a sua discordância, a sua não integração participante nos grandes e confortáveis conjuntos.
Tudo indica que a lógica da civilização tecnológica não poderá deter-se, que irá até às suas últimas consequências, que se continuará a depredar e a esgotar a natureza até que esta contenha, matérias primas, fontes de energia e reservas de vida que forneçam as caldeiras da Produção que logo a seguir irão fornecer o consumo delirante.
Mas muitos são os sinais, também, de uma outra sociedade, coabitando com esta, nascida de grupos e movimentos juvenis, disposta a não gastar mais os recursos naturais, a restabelecer o equilíbrio perdido, regressando a um estádio só «aparentemente» primário da história, mas representando real e efectivamente, a mais avançada vanguarda dos que sabem prever para prover. (Prever é a atitude mais científica que há).
Se os excessos do consumo conduzem o presente a hipóteses de futuro bem pouco aliciantes, e várias ameaças estão pendentes sobre o pescoço da passiva Humanidade, é dialecticamente irreversível, imparável, a realidade nascente dos que se opõem à total destruição e pretendem, precisamente, preservar a civilização quando aparentemente a estão negando, contestando, contrariando, pelo regresso a fases ditas não civilizadas do comportamento.
O «regresso à natureza» (que as massas, aliás, já adoptaram em grande escala, pelo consumo de férias no campo e na praia, longe dos conglomerados urbanos), as comunidades rurais, os hábitos alimentares novamente frugais e simples, as relações humanas sem preconceitos e sem erotismo, uma simplificação dos actos vitais da existência e um quotidiano recuperado, são as características de uma juventude a quem o mundo urbano se tornou insuportável e intolerável e a quem o futuro está entregue mas que o recusa reconstruir da mesma e única maneira como até agora as gerações transactas o construíram.
E isto - embora se proclame o contrário - para «in extremis» evitar destruí-lo. Irremediavelmente.
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(*) Este texto de Afonso Cautela, 5 estrelas, foi publicado com este título na coluna «Futuro», «O Século Ilustrado», Lisboa, 22-5-1971
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TOYNBEE,
HISTORIADOR PROSPECTIVO (*)
[In «Notícias do Futuro», jornal «Notícias da Beira», Moçambique, 23-1-1971]
Erudito da história e crítico implacável do Ocidente - que considera o «Argui-Agressor» - Arnold Toynbee revela-se aos oitenta anos um homem do futuro como lúcido comentarista da actualidade mundial.
Escreve as suas memórias e o facto de ter surgido, há pouco, a edição brasileira (1), com o título «Experiências», justifica um breve comentário ao pensamento desse homem que, católico por opção religiosa, não tem deixado de marcar, analisando o presente, posição visionária e profética da maior lucidez
Arnold Toynbee é uma das personalidades menos conformistas da sociedade actual, à qual aplica as suas chaves históricas: «as civilizações nascem, crescem e morrem» é uma das suas famosas teses; ou «um desafio produz uma resposta falhada, a qual suscita outra tentativa que conduz a um novo desafio e assim se continua até à dissolução».
Certo de que «a civilização não é um organismo mas um produto de vontades», Arnold Toynbee sustenta a razão dos refugiados palestinianos e dos países árabes frente a Israel, manifesta-se a favor dos povos colonizados, defende uma mudança radical da condição feminina, repudia a guerra do Vietname, apoia a juventude, «os filhos que recusam seguir os pais no caminho do conforto» e, num famoso artigo do «New York Times», explicou que "os Estados Unidos são a nação mais perigo" do mundo e que preferia estar dominado pela U. R. S. S. do que pelos Estados Unidos.
Para um católico confesso e historiador de remotas antiguidades, não deixa de ser notável o espírito prospectivo e crítico destas teses.
No entanto, quando em 1961 era lançada em tradução portuguesa do prof. Vieira de Almeida, a obra «Um Estudo de História», precisava-se de bastante ousadia para considerar e apoiar no famoso historiador inglês um pensamento de base progressista e prospectivamente.
É que muitos não esqueciam o facto de ter sido Ortega y Gasset, o seu introdutor em Espanha e de ter sido ele, Toynbee, quem serviu para justificar as teorias de «Rebelión de las Masas». Mas esquecia-se de que Toynbee não era culpado desse aproveitamento e de que, em vez de estagnar ou regredir, o seu espírito se manteve atento e, mais do que atento, extremamente sensível a todas as transformações do mundo actual.
(1) Experiências, de Arnold Toynbee, Trad. de Francisco M. Guimarães, - Editora Vozes limitada, Petrópolis, RJ, 1970.
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(*) Este texto de Afonso Cautela, breve nota de leitura, foi publicado em «Notícias do Futuro», jornal «Notícias da Beira», Moçambique, 23-1-1971
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«UM ESTUDO DE HISTÓRIA» (*)
OBRA DO PROF. ARNOLD TOYNBEE
AGORA EM TRADUÇÃO PORTUGUESA
DO PROF. VIEIRA DE ALMEIDA
[(**) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no suplemento literário do «Jornal de Notícias», Porto, em «Opiniões da Semana» , em 17-9-1964 ]
Perante Arnold Toynbee, o leitor avisado poderá distinguir planos e, se aproveitar os factos que ele tão bem conhece e conta, pode com prudência ignorar os valores quer ele, cristão e católico, não deixa de insinuar por dever de ofício e de consciência.
Para empreender uma viagem tão longa através da história, aliás, só uma fé sólida e apoiada em pressupostos transcendentes, só uma fé inabalável e à prova de argumentos humanos, permite não desistir a meio e levar de vencida tão torturante empresa. Por outro lado, que um conhecimento tão largo e profundo da «obra divina permita alimentar a fé de que Toynbee não abdica, eis o paradoxo, eis o enigma, mas que não vem ao caso tratar aqui e que talvez não seja sequer prudente sugerir.
O contacto e conflito entre as culturas ocupa o primeiro lugar no método e na investigação de Toynbee. Ele crê que as culturas, como os indivíduos, além de mortais, sofrem das características dos mortais; nascem, vivem e morrem; chocam-se, agridem-se e destroem-se.
Toynbee insere-se num movimento que tenciona mobilizar as melhores intenções para promover e conduzir em todas as latitudes, uma reciprocidade cultural mais justa. Mas sanados que estejam (estarão algum dia?) os conflitos de ordem primária ou económica entre As várias parcelas do globo, não mais haverá, como acreditam alguns, culturas agressoras e culturas agredidas, umas que se submetem e outras que são submetidas?
Fora da sua estrita especialidade – historiador – importa saber que o trabalho e o pensamento de Arnold Toynbee representa um contributo importante para o esclarecimento de muitos problemas básicos contemporâneos e matéria aproveitável para progressos práticos.
Partindo do pressupostos distintos (talvez antagónicos) , o alcance e consequências de duas teorias podem, na realidade, equivaler-se e convergir. Toynbee parece ter chegado a conclusões que outros, de formação ideológica diversa, não hesitariam em subscrever.
Movendo-se no campo das ideias gerais, a história para Toynbee faz-se de factos concretos, de inumeráveis factos concretos com os quais convive de perto e à vontade e ninguém, a esse respeito, ousará negar-lhe informação sobre-humana. Quem, como ele, pode sozinho, tratar por tu a história de ontem e de hoje, tem direito à nossa atenção, ainda que não se perfilhem os seus postulados filosóficos, as suas crenças, os seus valores, a sua fé e a sua teleologia apocalíptica.
É de salientar ainda que esta obra foi traduzida e prefaciada pelo saudoso prof. Vieira de Almeida, que de forma excepcional cumpriu bem a tarefa que lhe foi confiada. O seu prefácio, esclarecido e lúcido, demarca os pontos fundamentais do pensamento de Toynbee, ao mesmo tempo que interpreta os métodos de investigação e as linhas de força em que assentam e se estruturam os principais objectivos desta conhecida obra do ilustre professor Arnold Toynbee.
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(*) «Um Estudo de História», de Arnold Toynbee - Editora Ulisseia – Lisboa, 1964
(**) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no suplemento literário do «Jornal de Notícias», Porto, em «Opiniões da Semana» , em 17-9-1964 ■