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O CASO CLÍNICO DE OLIVER SACKS
VIAGENS NO CÉREBRO
AOS CONFINS DO INACREDITÁVEL (**)
(**) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal diário «A Capital», na rubrica «Livros na Mão», em 16/10/1990
14/10/1990 - Disfarça bem, sob a aparência de um banal livro
de histórias, esta que será uma das obras mais importantes e de maiores
consequências (está «prenhe» delas...) que se tem publicado entre nós (*), desde
essa outra obra-chave sobre a Abjecção contemporânea que é «Limites para a
Medicina», nome português que a Sá da Costa deu ao «Nemésis Médical»
de Ivan Illich.
Verdadeiro «brain storming» sobre o cérebro humano, sobre a mais profunda e secreta angústia contemporânea - a crise das crises, causa e efeito do apocalipse petrolífero - este relato de um neurologista clínico ultrapassa de tal maneira as fronteiras da «science-fiction» que pode ser lido de vários ângulos, inclusive do avesso, que tem sempre matéria de sobra. E dá sempre pano para mangas. Neste breve espaço, tentarei, no mínimo de palavras, algumas dessas pistas, deixando muitas outras. Espero, no entanto, evidenciar até que ponto o livro do dr. Sacks é explosivo de incidências e consequências no maior debate «mental» do nosso tempo, debate que - será patológico? - se encontra completamente ausente dos «media» portugueses.
E é pena: porque a abjecção contemporânea é uma das motivações estéticas mais aliciantes, como prova este retumbante livro do dr. Oliver Sacks. Curiosamente, mais eloquente pelo que não diz mas subentende (a iatrogénese) do que por aquilo que explicita. Graças a esse poder de esconder o pior, todos vão querer ser seus pacientes. Só o ar patriarcal das sua barbas constitui lenitivo, sendo meio caminho andado para a terapia que - hélas! - a nova neurologia confessa cada vez mais difícil de encontrar. E aqui começa a grande história destas pequenas histórias de horror e suspense, face às quais Frankenstein parece uma menina de chapelinho vermelho.
O HORROR A CORES
Na perspectiva dos «media» a cores, a nova neurologia é verdadeiramente espectacular: é de antologia, por exemplo, o artigo de Sacks publicado pelo melhor diário português, mais uma das suas histórias clínicas mas que, desta vez, junta o útil ao agradável. «O caso do pintor que não via as cores» é naturalmente ilustrado e muito sugestivo, tal como outro artigo que aponta para outra ciência de ponta - a Neurofísica -, que já aí está, ainda a neuropsicologia não aqueceu o lugar, e que tem também o cérebro como centro das atenções dos especialistas. O assunto está na moda e o articulista pergunta: «O cérebro será mesmo um sistema físico?».
Questão metafísica esta, vem provar afinal que hoje tudo se decide à volta do cérebro e de quem melhor o manipular. A pletora de «descobertas» sobre o cérebro, o córtex, os lobos, até mesmo o labirinto e outras circunvoluções, arrisca-se a ser incluída pelo dr. Sacks na grande categoria dos «superavits» que normal e logicamente, como a outra face da moeda, se opõem aos «défices» neurais ( ou «deficits», como a editora insiste em tipografar, já de acordo com o acordo ortográfico de 1990).
Como o dr. Sacks mostra neste seu livro deslumbrante, nem só de faltas, carências e deficiências vivem as neuropatias periféricas. Há também, inversamente, os casos de excesso de informação neural, caracterizados por uma típica fúria que leva os doentes a desenhar tudo o que lhes passa pela cabeça... Resultam daqui obras interessantíssimas, de que o livro reproduz alguns exemplares.
TERAPÊUTICA, NICLES
Com a sua postura estético-anedótica face à doença - as neuropatias periféricas começam a constituir um autêntico flagelo contemporâneo - Oliver Sacks descontrai-se e descontrai-nos. Como diria um político ilustre, desdramatiza as neuropatias graves. É uma nova filosofia de vida perante a morte que ele inaugura. Uma saudável atitude frente à doença incurável. Os seus livros atingem a opinião pública, manipulam-na, preparam-na, e no seu consultório de Nova Iorque é previsível que ele só marque consulta daí a três, quatro, cinco meses. Sequelas da popularidade, que ele merece, pois, ao transmitir todo o colorido que tem, por exemplo, o caso de um doente - Jonnathan I - atingido por amnésia das cores, «acromatopsia», consegue deixar mais felizes os que ainda conseguem ver a cores a querida televisão, cientes do tesouro que afinal possuem e de que não se tinham apercebido antes do caso Jonnathan.
Sacks é assim o grande benemérito do nosso tempo: face à mais sombria das ameaças - o cérebro humano atingido no seu lobo esquerdo, mas principalmente no seu lobo direito, aquele que dá direito a percepcionar a imagem e a realidade das coisas - é claro que os casos clínicos que relata têm sempre algo de surrealista, que até para Breton era a visão do mundo não estereotipada nem maioritária.
Com toda esta popularidade e glória profissional à sua volta, corre apenas um risco - transformar-se ele próprio num caso clínico incurável, caso haja para aí algum sociólogo desembolado, tão arguto como ele, desejoso de compreender cientificamente o fenómeno: não só porque é que o número de neuropatias sensoriais sobe em flecha desde que a anestesia geral foi inventada e praticada, mas também como é que Sacks consegue escrever um livro sobre o efeito sem jamais referir a causa das causas que originam o incremento de tal fenómeno. Cairão as neuropatias do céu como as pestes medievais? Ou dever-se-ão apenas à sociedade traumática que temos e ao progresso da sinistralidade rodoviária?
Para ele o «déficit da propriocepção» (Sherrington, 1890), por exemplo, deve-se às manias dietéticas que assolam o mercado contemporâneo de víveres. Com grande despacho de língua, arruma assim o assunto em «postscritum» (como a editora insiste em tipografar) à história da paciente Cristina e do seu «déficit» proprioceptivo:
«Soube pelo dr H.H. Schaumberg - escreve ele - que estão a aparecer em todo o mundo muitos pacientes com neuropatias sensoriais agudas. A maioria são maníacos da saúde ou têm uma dieta hipervitamínica, consumindo doses excessivas de vitamina B6 (pirodoxina).»
Cá está: Sacks descobriu a grande culpada disto tudo, a pirodoxina:
«Existem agora - informa ele - algumas centenas de homens e mulheres que não sentem o seu próprio corpo, embora a maioria, ao contrário de Cristina, tenha francas hipóteses de recuperação, logo que deixem de se envenenar com pirodoxina.»
O entusiasmo do Dr. Sacks ao descobrir o grande «bode expiatório», leva-o, inclusive, a esquecer que o caso de Cristina, por ele relatado, se manifesta exactamente no hospital, na véspera da operação, como o autor escreve à página 67 da edição portuguesa: «Deu entrada no hospital três dias antes da data prevista para a operação e foi posta a antibióticos.»
Tem a certeza, dr. Saks, que não havia pirodoxina misturada nos antibióticos? «Ainda mal saíra da operação - constata ele - tinha piorado. Era-lhe impossível manter-se de pé, não conseguia segurar nada nas mãos que «flutuavam».»
Há aqui uma escolha que o leitor atento tem que fazer: se o autor nos convida a ler nas entrelinhas as sua histórias «fantásticas» e é por isso que ele publica o livro, não faz muito sentido que deixemos de ler, também nas entrelinhas, passagens como aquela que transcrevi. Decifremos então, já que ele tanto gosta de enigmas.
Aliás, perante o regalo estético-literário destas histórias, a gente esquece, por exemplo, que a neuropsicologia, em princípio, deveria ser (também) uma terapia. Só que, embriagado pelas descobertas de investigador, o Dr. Sacks esquece praticamente a terapêutica que, ele o diz, é cada vez mais impossível para casos destes... A neuropsicologia aparece assim atacada de «amnésia aguda», o que - espero - não deverá ter carácter neurológico tão grave que leve a interná-la de urgência.
Mas se não há terapia, os pacientes interrogam-se para que existe afinal tal ciência e porque hão-de continuar a servir-lhe de cobaias?
Se Wittgenstein, por exemplo, cobaia eventualmente favorita do dr. Sacks, lesse o que este doutor novaiorquino escreve dele, ia ter um dos seus ataques de melancolia maníaco-depressiva e talvez não acabasse tão bem como acabou, suicidando-se.
Mas a gente esquece o fracasso terapêutico da neuropsicologia, face a tão delirantes histórias como as que este livro conta. Só há o risco de algum doente mais impaciente pedir ao dr. Sacks direitos de autor.
LOBOTOMIA PRÉ-FRONTAL
A nomenclatura usada pela nova e velha neurologia é outro dos encantos deste livro. São palavras lindíssimas e evocatórias: afasia, ataraxia, encefalite, acromatopsia, agnosis, dislexia, etc. Foi encontrado o estilista desta nova estética no autor deste livro. Onde falta, entre outras, a belíssima palavra que é «lobotomia».
Na lista dos eventos a esquecer (com uma providencial amnésia semelhante à do «marinheiro sem rumo», nome poético que ele dá ao seu paciente Jimmie G.) estaria, por exemplo, o prémio Nobel português, Egas Moniz, cuja «lobotomia pré-frontal» o autor injustamente não cita. Aliás, ele descarta a cirurgia cerebral da sua estratégia clínica, o que pode constituir outro dos mistérios que nos seduzem nestas histórias policiais e de espionagem aos confins do inacreditável...
Citando Buñuel, Witt, Nietszche, Freud, Thomas Mann, ele mostra não só a sua cultura humanista e literária, como cria um ambiente de familiaridade bastante profiláctico, longe da paranóia que é habitual em especialistas agarrados à gíria técnica. Enfrentando com grande dose de «fair-play» o fracasso terapêutico da nova neurologia (encurralada entre cirurgia e sequelas da cirurgia) ele aponta o caminho da «alma»- eureka! - como cura, quando o cérebro falha, bombardeado que continua a ser por uma engrenagem - o terror tecnoindustrial - que tem no cérebro humano o alvo predilecto das sua agressões sistemáticas.
O homem que confundia a mulher com um chapéu - símbolo supremo desta sociedade neocanibal - ainda tem afinal um refúgio: a alma, se por acaso não vier para aí algum neurologista desembolado dizer que nunca a viu na ponta do bisturi. Vá lá, o dr. Sacks não é mau de todo, merece absolvição e o seu caso tem cura possível: face à derrocada contemporânea do cérebro, ele (ainda) acredita na alma humana, como último reduto de cura, resistência e clandestinidade.
Viva o velho!
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(*) «O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu», de Oliver Sacks, tradução de Maria Vasconcelos Moreira, Colecção «Antropos», Editora Relógio de Água, Lisboa
(**) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal diário «A Capital», na rubrica «Livros na Mão», em 16/10/1990
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http://www.oliversacks.com/bio.html
http://www.andp.org/activities/sacks.htm
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