O MEU TRIBUTO A THEODORE ROSZACK:

INÉDITOS E PUBLICADOS DE AFONSO CAUTELA

(1971 E 1972)

1-13 <roszack-md-1-7> sexta-feira, 7 de Novembro de 2003

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<roszak-1> o movimento das ideias - releituras mágicas 

A CONTRA-CULTURA DE THEODORE ROSZAK

E ALLEN GINSBERG (*)

[(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no semanário «O Século Ilustrado» (Lisboa) , na rubrica semanal do autor intitulada «Futuro», em 27/3/1971, e no diário «Notícias da Beira» (Moçambique),20-3-1971, na rubrica do autor intitulada «Notícias do Futuro»]

[ 27-3-1971] - Em «Vers Une Contre-Culture» (1), Theodore Roszak - professor no California State College, de Harvard - esforça-se por analisar as causas e manifestações da «contestação» dos jovens, o que ele chama «dissidência» juvenil.

Na sua opinião, essa dissidência representa, mais do que preocupações políticas precisas, uma revolta confusa contra a tecnocracia que tende a asfixiar a sociedade.

Influências de homens como Herbert Marcuse, Allen Ginsberg, Alan Watts e Timothy Leary são lucidamente estudadas, assim como a sedução das drogas alucinogénicas e a experiência psicadélica, a atracção exercida sobre os jovens pelas doutrinas orientais como o budismo zen, a subversão política, etc..

A tecnocracia, o culto aberrante da ciência e da tecnologia, o mito da consciência objectiva, são bastante criticados neste requisitório que é também - e talvez acima de tudo - um elogio do homem, de quem eles ameaçam cada vez mais a liberdade e a alegria.

Entre a tecnocracia, geradora de alienações em cadeia e uma contracultura ainda balbuciante, chegou a hora de escolher e Theodore Roszak diz-nos, com lucidez e coragem, que escolheu.

Respondendo aos que criticam, nos «novos jovens», o carácter parasitário do seu comportamento, Theodore Roszak argumenta desta maneira clara:

«Porque terá a nossa economia da abundância automatizada necessidade do seu concurso, ela que corta, cada vez mais, o elo entre o trabalho e os salários, que sofre de um pauperismo devido não já à escassez mas a uma má distribuição de bens? Deste ponto de vista porque haveriam os jovens «hippies», que se puseram voluntariamente fora de ser mais parasitas do que os párias involuntários dos ghettos da miséria?»

Mas não fica por aqui a cortante argúcia de Theodore Roszak e as suas palavras são sempre desmistificadoras de todas as falsas imagens que a «sociedade do desperdício» tem dado de si mesma e, através dos «mass media» omnipotentes, dos novos jovens.

A propósito do aproveitamento comercial que a ganância mercantilista logo aproveitou fazer da lenda «hippy», cita ele o seguinte letreiro, numa loja de luxo londrina, onde se encontram fatos de «estilo chinês»: «Os pensamentos de Mao, versão «week-end»: elegantes flanelas azul-marinho, revolucionárias, botões de coiro, colarinho Mao. Preço: 25 libras.»

E pergunta Roszak: «Este género de brincadeira será porventura suficiente para negar a realidade de Mao Tsé Tung e a da «revolução cultural» chinesa? A vulgarização comercial é um dos fluxos endémicos da vida ocidental do século XX, como as moscas que, no Verão, se precipitam sobre os doces. »

Roszak conclui com esperança: «Não obstante as impostures e as farsas que ela engendra, uma nova cultura tende a nascer na nossa juventude e, se ela merece um esforço de atenção, não será apenas pela razão da imponência demográfica dos que a constituem.»

Apesar de tudo, foi largo o caminho que levou à explosão da contracultura. Primeiro, foram profetas e pequenas minorias a defender uma fé ainda frágil, periclitante, frente ao poder do sistema.

«O que um punhado de «beatnicks» - lembra Theodore Roszak - desbravou no tempo da juventude, de Allen Ginsberg tornou-se um estilo de vida para milhões de jovens estudantes.»

«Allen Ginsberg, que desempenhou e desempenha um papel capital no movimento dissidente da Nova Utopia, cantou a procura de Deus em muitos dos seus primeiros poemas, muito antes que ele próprio e seus pares tivessem descoberto o budismo zen e as tradições místicas do Extremo Oriente. Na sua poesia de fins dos anos 40, constata-se uma tendência para a experiência visionária que mostra já como a experiência da nova geração se não acomodaria nunca aos modelos da Velha Esquerda.

«Desde a origem, Ginsberg é um poeta da contestação, mas o seu protesto religa-se menos a Marx do que ao radicalismo extático (de êxtase) de William Blake, e a Hieronimus Boch, um dos grandes profetas da Contra-Cultura. Ginsberg fala mais de Apocalipse do que de revolução. Longe de ser uma excentricidade vanguardista, a concepção que Ginsberg se faz da poesia enquanto efusão oracular pode reclamar-se de uma genealogia que remonta aos profetas de Israel - e, provavelmente, mesmo ao chamanismo.

«Ele deixou, pelo menos, que as forças visionárias que o habitam transformassem toda a sua existência, fazendo dele um exemplo para a sua geração. De princípio, Ginsberg parecia destinado a ser o poeta da angústia em cólera, a elevar-se contra a dor do mundo, que ele e seus amigos tinham descoberto nos «bas-fonds», nos «ghettos» e nos hospitais psiquiátricos deste grande hospital que é a Sociedade. Mas no fundo do grito de sofrimento que se erguia desses lugares malditos, Ginsberg descobriu o que o Moloch tecnocrático queria acima de tudo enterrar vivo: as virtudes curativas da imaginação visionária.»

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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no semanário «O Século Ilustrado» (Lisboa) , na rubrica semanal do autor intitulada «Futuro», em 27/3/1971, e no diário «Notícias da Beira» (Moçambique), na rubrica do autor intitulada «Notícias do Futuro»
(1) «Vers Une Contre-Culture», de Theodore Roszak, Ed. Stock, Paris. 1970

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<química-1> - os dossiês do silêncio – files alimentares – esboços de ecologia humana 1971

 

UTOPIA OU MORTE

O EXEMPLO DOS HIPPIES (*)

"Ciência sem consciência é ruína da alma."

1971 - A revista Actuel, num artigo intitulado Utopia ou Morte, enuncia assim a dezena de agentes químicos que entram na fabricação do «pão nosso de cada dia»:

propianato de cálcio para conservar a farinha;

diacetato de sódio para retardar a maturação;

sulfato duplo de alumínio e de potássio para facilitar a acção da levedura artificial;

butil-hidroxi-anisol para evitar o oxidação;

citrato de mono-isopropilo para assegurar a conservação uma dezena de dias».

Isto é apenas um caso, um exemplo, um facto. Há centenas de outros. Quando uma certa demagogia insiste em acusar o cigarro como o único responsável do cancro, as novíssimas gerações resolvem, através de uma imprensa «underground» e sem demagogia, denunciar a manobra e afirmam que não é só o cigarro mas tudo ou quase tudo o que a indústria descarrega sobre o indefeso animal que é o homem, tudo o que lhe injectam pela boca que era por onde antigamente morria o peixe mas é por onde morre hoje o animal que se julga mais espertinho e o mais dotado da Natureza: o animal racional, de homo sapiens autocognominado.

Sapiens? Não muito, convenhamos.

Resultado: perante esta e outras que tais, os jovens da nova utopia decidem a tempo e enquanto não imolaram o seu capital de saúde às benesses da civilização, decidem não entrar no jogo, não se servir do banquete, não ingressar na lógica e na engrenagem infernais do sistema estabelecido.

Como vivem e querem viver, decidem ficar à porta da abundância e preferem o que os senhores sisudos talvez venham a classificar de vagabundagem. Mas tentemos nós (menos sisudos e mais sensatos) compreender que espécie de vagabundagem é essa. No fundo, os errantes peregrinos da Nova Utopia foram, são e serão expelidos, à força, por uma civilização que, além de rajás, coca-cola, televisão e sexo enlatado, não tem mais grandes atractivos para oferecer ao neófito.

O que hoje fazem algumas minorias, terão amanhã que fazer as próprias maiorias, assoladas pela super-poluição, asfixiadas de congestionamento urbano, traumatizadas por uma engrenagem infernal, expulsas também por um habitat perfeitamente inabitável, por uma alimentação suicida, por toda uma indústria de agressão quotidiana que, de manhã à noite, nos injecta de cancros, de cardiovasculares, de morticínio nas estradas e outras alegres endemias para as quais nos virão dizer que há «remédio» em novas doses industriais de venenos químicos chamados drogo-fármacos, ou de uma moral tão venenosa como eles.

O MANIFESTO DE THEODORE ROSZAK

Se os «hippies» e outros grupos de jovens escolheram a marginalidade, não é tanto por preguiça e horror ao trabalho (acusação que essa tal venenosa moral lhes atira): foi a brilhante civilização do lixo e do luxo que os expulsou, como nesse livro-manifesto de Theodore Roszak de leitura fascinante e de imprescindível consulta, se demonstra.

Se os novos jovens preferem as comunidades rurais, é porque só aí é possível que os seus filhos e os filhos dos seus filhos não comecem a comer cancro logo de pequeninos. Só aí, em comunidade independente, fora dos grandes circuitos da produtividade à tout prix - onde a química é sempre usada para acelerar o crescimento, para conservar, para alindar, para embelezar e, claro, em última instância para cancerigenizar - a vida pode recomeçar.

Trata-se de começar a viver em new style» que é a única forma de não viver para a morte. Ou a escalada da tecnologia estaca na sua voracidade homicida (e não há sinais de que isso possa acontecer, pois todo o sistema estanque se caracteriza exactamente pela sua inércia ) ou as novas gerações decidem mesmo ir fazer «ingrícola» para bem longe.

Se este aspecto da nova agricultura para os novos tempos não veio a talhe da foice durante a recente Agro 71 - que nos dizem um notável acontecimento ao nível nacional - é caso para considerar que as novas gerações não foram, mais uma vez, suficientemente informadas sobre o mais importante, e iludidas na sua boa fé.

No fundo e para o futuro próximo, o problema de uma agricultura biológica é tão importante como o do subdesenvolvimento respectivos. E não digo mais importante, porque sobrepor a vida à matéria, a Ecologia à Economia, a moral à política, pode ainda escandalizar os que têm dos problemas a visão mecanicista herdada de um positivismo ainda vigente. De facto, abundância para a morte, para quê? Que o mesmo é dizer, parafraseando o célebre slogan renascentista - «ciência sem consciência é ruína da alma» , - quantidade sem qualidade é ruína do corpo. Logo, ruína total do homem.

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(*) Publicado no jornal «República» (Jornal de Crítica), 1971

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UTOPIA OU MORTE (*)

[«Notícias do Futuro», jornal «Notícias da Beira», Moçambique, 28-Julho-1971 ] - Particularmente sensíveis aos danos e malefícios de um sistema que não podem comparar com outro pior e anterior (pois só conheceram este), as novas gerações manifestam-se contra as aberrações de uma cultura tecnológica que, na febre de conquistar o mundo material, depreciou completamente o biológico e o afectivo.

Particularmente sensível à Ecologia e à Moral, a novíssima geração, que difere da imediatamente anterior (mais preocupada com a Economia e a Política), inicia a sua vida por uma atitude inevitavelmente crítica e revela a sua insatisfação, a sua revolta, a sua angústia a respeito de certos factos que já não escandalizam nem assustam os mais velhos.

A revista Actuel, que se publica mensalmente em França, que é um dos órgãos mundiais mais importantes da imprensa «underground» (ou «free press» conforme é conhecida nos Estados Unidos), que não se ocupa só de "free jazz" e de música pop, de fitas desenhadas e alucinógenos, de emancipação feminista e de revolução existencial, de «hippies» e de comunas, publica no seu último número (Julho/Agosto de 1971) (1) este «poema» que é uma quase anedota, sobre a composição do «pão» americano ( e o leitor já vai compreender porque metemos o pão entre aspas), progresso que os outros países, fatalmente, em vias de desenvolvimento têm tendência para imitar e já começaram mesmo a imitar.

A revista Actuel, num artigo intitulado Utopia ou Morte, enuncia assim a dezena de agentes químicos que entram na fabricação do «pão nosso de cada dia»: «propianato de cálcio para conservar a farinha; diacetato de sódio para retardar a maturação; sulfato duplo de alumínio e de potássio para facilitar a acção da levedura artificial; butol-hidroxi-anisol para evitar a oxidação; citrato de mono-isopropilo para assegurar a conservação uma dezena de dias».

Isto é apenas um caso, um exemplo, um facto. Há centenas de outros. Quando uma certa demagogia insiste em acusar o cigarro como o único responsável do cancro, as novíssimas gerações resolvem, através de uma imprensa «underground» e sem demagogia, denunciar a manobra e afirmam que não é só o cigarro mas tudo ou quase tudo o que a indústria descarrega sobre o indefeso animal que é o homem, tudo o que lhe injectam pela boca, que era por onde antigamente morria o peixe más é por onde morre hoje o animal que se julga mais espertinho e o mais dotado da Natureza: o animal racional de "homo sapiens" auto-cognominado. Sapiens? Não muito, convenhamos.

Resultado: perante esta e outras que tais, os jovens da nova utopia decidem a tempo e enquanto não imolaram o seu capital de saúde às benesses da civilização, decidem não entrar no jogo, não se servir do banquete, não ingressar na lógica e na engrenagem infernais do sistema estabelecido.

Como vivem e querem viver, decidem ficar à porta da abundância e preferem o que os senhores sisudos talvez venham a classificar de vagabundagem. Mas tentemos nós (menos sisudos e mais insensatos) compreender que espécie de vagabundagem é essa. No fundo os errantes peregrinos da nova utopia foram, são e serão expelidos

O que hoje fazem algumas minorias, terão amanhã de fazer as próprias maiorias, assoladas pela super-poluição, asfixiadas de congestionamento urbano, traumatizadas por uma engrenagem infernal, expulsas, também, por um habitat perfeitamente inabitável, por uma alimentação suicida, por toda uma indústria de agressão quotidiana que, de manhã à noite, nos injecta de cancros, de vasculares, de morticínio nas estradas e de outras alegres endemias para as quais depois nos virão dizer que há «remédio» em novas doses «industriais» de venenos químicos chamados drogo-fármacos, ou de uma moral tão venenosa como eles.

Se os «hippies» e outros grupos de jovens escolheram a marginalidade, não é tanto por preguiça e horror ao trabalho (acusação que essa tal venenosa moral lhes atira): foi a brilhante civilização do lixo e do luxo que os expulsou, como nesse livro-manifesto de Theodore Roszack (2) de leitura fascinante e de imprescindível consulta, se demonstra.

Se os novos jovens preferem as comunidades rurais, é porque só aí é ainda possível que os seus filhos e os filhos dos seus filhos não comecem a comer cancro logo de pequeninos. Só aí, em comunidade independente, fora dos grandes circuitos da produtividade à tout prix -- onde a química é sempre usada para acelerar o crescimento, para conservar, para alindar, para embelezar e, claro, em última instância para cancerigenizar - a vida pode recomeçar. Trata-se de começar a viver em «new style» que é a única forma de não viver para a morte. Ou a escalada da tecnologia estaca na sua voracidade homicida (e não há sinais de que isso possa acontecer, pois todo o sistema estanque se caracteriza exactamente pela sua inércia) ou as novas gerações decidem mesmo ir fazer «ingrícola» para bem longe.

Se este aspecto da nova agricultura para os novos tempos não veio a talhe da foice durante a recente Agro 71 - que nos dizem um notável acontecimento ao nível nacional - é caso para considerar que as novas gerações não foram, mais uma vez, suficientemente informadas sobre o mais importante, e iludidas na sua boa fé.

No fundo e para o futuro próximo, o problema de uma agricultura biológica é tão importante como o do subdesenvolvimento e desenvolvimento respectivos. E não digo mais importante, porque sobrepor a vida à matéria, a Ecologia à Economia, a moral à política, pode ainda escandalizar os que têm dos problemas a visão mecanicista herdada de um positivismo ainda vigente. De facto, abundância para a morte, para quê? Que o mesmo é dizer, parafraseando o célebre slogan renascentista - «ciência sem consciência é ruína da alma» - quantidade sem qualidade é ruína do corpo. Logo, ruína total do homem.

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(1) - Actuel, nova press, n.°1 10/11, Julho/Agosto de 1971, dirigida por Francois Bizot, Rue de Richelieu 60, Paris 2

(2) - Para uma Contra Cultura, de Theodore Roszack, Colecção Vector, n.° 9, Publicações Dom Quixote, Trad. de Jorge Rosa, Lisboa, 1971

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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado em «Notícias do Futuro», jornal «Notícias da Beira», Moçambique, 28-Julho-1971 e em «Futuro», «O Século Ilustrado», Lisboa, em 10-7-1971

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FREE-PRESS

E NOVA UTOPIA (*)

[«Diário do Alentejo» (Beja), na rubrica «Leituras do Acaso», em 24/Maio/ 1972 ] –

Talvez a Nova Cultura venha a dispensar a palavra escrita e impressa. Por enquanto ainda não.

A Imprensa « underground» cresceu de tal maneira durante os últimos dois anos, principalmente nos Estados Unidos, na Inglaterra e na França, que é hoje praticamente impossível tomar conhecimento de tudo que se publica sob essa designação, com maior ou menor propriedade e com maior ou menor tolerância das autoridades constituídas. Esta verdadeira explosão da «free-press» indica, pela sua importância quantitativa, que o movimento da Nova Utopia já não é um jogo de irresponsáveis ou uma voga que vai e volta, conforme os ventos e as oscilações de uma sociedade onde, mau grado uma e outra parte, se encontra inserida.

«Utopia ou Morte» é o slogan que serve de título ao artigo-manifesto que um dos últimos números da revista Actuel, um dos órgãos mais importantes da «free press» francesa, inseria , dedicando-se a efectuar um balanço das actividades que até agora se podem considerar integradas no movimento da Contra-cultura.

Não se trata de uma brincadeira qualquer, mas de uma séria posição solidamente alicerçada através dos anos e de alguns precursores, posição que só os irresponsáveis continuam a pretender ignorar.

«Para uma Contra-Cultura», o livro de Theodore Roszak onde se sistematizam os princípios e as constantes da Nova Utopia, o demonstra. E a edição portuguesa, saída há tempo, confirma o interesse crescente que, também entre nós, o assunto suscita. Aliás, à mesma editora se devem algumas obras que documentam aspectos e valores da nova mentalidade.

Na colecção «Dom Quixote», «O Futuro é dos jovens», «Droga-Inferno ou Paraíso», «Os Hippies-Quem os Conhece?» vieram na linha de um outro título - « Juventude e Contestação», - igualmente significativo.

Numa linha um pouco diversa mas afim desta, também os Cadernos do Século se têm preocupado em coligir temas «prospectivos»: «Alienação e Liberdade no Pensamento Contemporâneo», «Como Viveremos em 1980», «Juventude e Relações Humanas», «As Surpresas da Era Pós-Industrial» são alguns títulos aparecidos e neles se podem consultar textos de importância decisiva para um diagnóstico do mundo contemporâneo, mas também para a construção da Nova Utopia: não já o mundo imediato da política a curto prazo mas o mundo em mudança de uma metapolítica ou política planetária ainda pouco compreendida e aceite, política que já se adivinha, no entanto, a nascer dos conflitos e das contradições locais que hoje constituem o quotidiano internacional.

Entendem esses cadernos que a construção da Nova Utopia é um dever e que todos devemos participar nele, ainda que nos sintamos em minoria. O ímpeto torrencial de que o movimento «free press» vem possuído é a prova antecipada de que nada o poderá deter e de que, quando não possam pisar-se terrenos mais radicais, há sempre alguma coisa a fazer apontada para a frente que é a única maneira de não recuar.

Alan Watts, Allen Ginsberg, Lenny Bruce, Abbie Hoffman, Paul Goodman, Gary Snyder, André Breton, Paul Nizan são alguns dos nomes que a revista Actuel considera imprescindíveis na antologia que organizou.

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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no «Diário do Alentejo» (Beja), na rubrica «Leituras do Acaso», em 24/Maio/ 1972. E também em «Futuro», «O Século Ilustrado», Lisboa, 28-8-71 e «Notícias do Futuro», «Notícias da Beira», Moçambique, 17-8-1971

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GENERALIZAR

A HERESIA (*)

 

[In «Notícias do Futuro», «Notícias da Beira», Moçambique, 9-10-1971 ]

Pode parecer grave contradição que, leccionando Theodore Roszak numa Universidade, ao mesmo tempo critique a cultura oficial

Mas será uma contradição o que de tal se aparenta?

O problema para os da contra-cultura, como já tentei dizer, não é o de rejeitar a ciência, a técnica e a tecnologia mas o seu carácter totalitário, não é o de assumir uma contestação crítica sem critério, devastadora, niilista. Devastadora, sim, de tudo o que signifique ditadura (mental e outras), racismo, colonização, opressão e repressão, exploração do homem pelo homem, abjecção, fascismo ordinário ou institucionalizado. Mas criteriosa, alvejando certo e não a torto e a direito, logo que se trate de abrir a ciência a tudo o que a ciência se deve abrir para não se negar e contradizer, grave, criminosamente.

Não é, tão pouco, a política que a contra-cultura rejeita, mas a política de quintal, fechada, totalitária, dogmática, imobilista, de via reduzida, oportunista. Idem para a filosofia, idem para a arte, idem para a literatura, idem para a Medicina, idem para tudo o que seja humanidade na sua (r)evolução para a super-humanidade.

Também Henri Lefèbvre ensina. E outros, alguns outros iríamos encontrando que, embora dentro das instituições da Arrogância, praticam a Tolerância e mantêm a sua independência de espírito, a sua liberdade de iniciativa, a sua imaginação em actividade, a sua crítica e auto-crítica em acção, a sua capacidade criadora, inovadora e revolucionária em movimento.

O mal não é o lugar onde se está mas deixarmo-nos dominar pelo lugar onde se está, negando previamente o dinamismo de que naturalmente somos dotados e negando, ao negar esse dinamismo, a possibilidade dialéctica de superação em que, através de todas as circunstâncias, das mais favoráveis às mais desfavoráveis, todo o homem, todo o indivíduo se encontra.

Não podemos fazer do nosso condicionalismo um alibi para as nossas tergiversações, incoerências, oportunismos, imobilismos. Para os nossos erros, sim, porque errar é do homem, porque errar é andar, progredir, viajar e por isso é sempre progresso, é sempre normal, é sempre lícito. Errar, sim, que é o contrário de parar e parar considerava Chardin o único «pecado»: fechar a porta ao infinito, travar a marcha da evolução, paralisar a espiral cósmica.

Se é próprio das instituições (escola, empresa, partido, igreja, academia, tertúlia, grupo, etc) o imobilismo, o deixarem-se amolecer e fecharem-se em si próprias, é próprio do homem que se pretende homem representar o movimento para a frente. Se é próprio das instituições a inércia, é próprio dos homens contrariar constante e dialecticamente essa inércia. Ainda que se corra (quase sempre!) o risco da heresia, do isolamento, da solidão.

Resultado, daqui, pois, não o negar niilista da ciência, da cultura, da política, da razão, da técnica a da tecnologia, mas um implícito convite à heresia (à difícil heresia), à heterodoxia (à difícil heterodoxia), à imaginação (à difícil imaginação), à hipótese futurizante dentro da ciência, da cultura, da política, da razão, da técnica e da tecnologia. Só cumpre o dever aquele que vai além desse dever. Porque cria. Porque impulsiona. Porque não deixa adormecer nem estagnar actividades, serviços, instituições.

A descoberta da heresia parece-me uma das mais importantes, senão a mais importante ocorrência cultural da década de 60, da nova cultura, descoberta popularizada pelo «slogan» «a imaginação no poder», a image-action. De facto, é o princípio da imaginação criadora generalizada a todos os campos da praxis humana. De facto, falar de contra-cultura é sinónimo de meta-política, de arte, de literatura de vanguarda, de medicina paralela. O sentido neo-utopista de superação na unidade, eis a grande heresia de todos os tempos mas que tem agora a particularidade de ter incarnado pela primeira vez na História, a partir de Maio de 1968. Uma velha novidade.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, breve nota de leitura, foi publicado em «Notícias do Futuro», «Notícias da Beira», Moçambique, 9-10-1971

 

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CARTA A URBANO TAVARES RODRIGUES

SOBRE A «CIVILIZAÇÃO»

QUE OS HIPPIES CONTESTAM

1

18-8-1971 - "O Falso Conflito da Sociologia e da Psicologia" se intitulava o artigo que Urbano Talares Rodrigues, na sua secção semanal Arco Voltaico , de O Século de Domingo publicava no passado dia 15 de Agosto de 1971.

Esse artigo serve de referência às considerações que aqui me permito deixar à consideração do amigo e camarada da Imprensa que é Urbano Tavares Rodrigues, e à crítica dos leitores, Pedindo, evidentemente, que o Urbano me desculpe esta intromissão e agradecendo, antecipadamente, a amizade com que ele sempre, em todas as circunstâncias, tem querido honrar-me.

Que Urbano Tavares Rodrigues seja um dos raros intelectuais portugueses a sentir e a viver por dentro - com paixão, com angústia - os problemas da contra-cultura e que seja ele um dos que, lendo Theodore Roszak, nos venha dar conta do que pensa desse livro e desse autor, até não admira. Porque ele é dos poucos a sentir e a pressentir aquilo que, amanhã, já será conhecido e reconhecido por muitos e muitos outros. Daí o desejo que esta carta contém de encetar um diálogo ao nível das ideias, um diálogo cívico e civilizado como é próprio e urgente entre portugueses. Gostaria que dois alentejanos dessem disso bom e proveitoso exemplo.

2

Como logo em título se faz notar, o conflito da sociologia e da psicologia é um "falso conflito".

Urbano Tavares Rodrigues acentua depois a sua ideia: "Antes de mais, tudo isto é antidialéctico. Nem o teatro total, nem o conhecimento abissal do ser estão em conflito com a consciência de classe." (...) "Onde de facto há oposição é entre a moral de acção da New Left e o marasmo narcótico das comunidades "beat-hip".

É sobre o "marasmo narcótico das comunidades beat-hip" que me permito apresentar a U.T.R. a minha primeira discordância.

A meu ver, o que há de "revolucionário" na actuação das comunidades "hippy" supera, em muito, o "marasmo narcótico" a que algumas (e não todas, sublinho) porventura se dedicam.

A moral que Roszak defende, em nome dos "hippies", é a moral diferencialista - expressa também e a partir de premissas um pouco diversas por Henri-Lefèbvre no seu recente manifesto – um pouco em oposição ao "totalitarismo tecnocrático" como ele lhe chama.

 

A. crítica implícita em Roszak ( e nos "hippies" que adregam de intelectualizar aquilo que normalmente neles é mais e apenas prática) contesta o totalitarismo de uma civilização que faz desse totalitarismo a sua arma mais poderosa e mais mortífera. Que fecha (como diria Herbert Marcuse) o processo em ciclo vicioso. Que estabelece um circuito estanque. Que não deixa outras hipóteses nem saídas. Que não consente diferenças nem diferenciações. Que rasoira e uniformiza.

O que Roszak e os "hippies" (aquele por via intelectual, estes numa prática alheia a filosofias e excessivas mentalizações) contestam é o dirigismo como factor básico, universalmente aceite e indiscutido, de uma sociedade, o expansionismo ou imperialismo da febre produção-consumo, ainda que seja em nome do almejado desenvolvimento com que se pretende combater um inenarrável sub-desenvolvimento. Mas como diria Josué de Castro, o sub-desenvolvimento não é mais nem menos do que a outra face do desenvolvimento. E a sua autoridade na matéria parece incontestável pois, como se sabe, até a terminologia (desenvolvimento/subdesenvolvimento) é de sua autoria.

O totalitarismo dirigista daquilo que Roszak teima em chamar Tecnocracia, dá origem a um sem número de sofismas para se auto-justificar (e através dos "mass media" inserir subrepticiamente nas mentalidades até ser aceite como óbvia), sofismas que não foram os "hippies" evidentemente, os primeiros a analisar mas que foram talvez os primeiros a ter coragem de contestar. Pois contestar é muito mais do que criticar. Só se contesta, agindo, e os "hippies", mais do que os beatnicks, decidiram agir, dar o salto, efectivar a reviravolta, volvendo costas à sociedade do Coca Cola e do Chewing Gum. Safaram-se dali - eis tudo.

Os "hippies" são emigrantes da civilização totalitária e a guerra que se lhes move, provinda dos mais heterogéneos sectores políticos, é um pouco a mesma que se move contra outro tipo de inofensivas criaturas, as do "regresso à natureza" (naturistas ou vegetarianos, como são vulgarmente conhecidos), com os quais os "hippies" têm manifestado tantas e tão fundas afinidades. Só que a inabilidade intelectual e a falta de apetrechamento crítico (sofistico, talvez) de uns e outros, tem permitido que os funcionários do Sistema usem com eles da chacota que depois as massas igualmente adoptam.

3

Quando alguém, rara e medrosamente, se permite uma crítica não já aos blocos políticos - este ou aquele - mas a toda a civilização tecnocrática - a civilização do luxo e do lixo - um argumento há que o crítico-contestador já conhece de cor e que serve quase sempre para o silenciar.

"Criticar a Tecnocracia em bloco é atitude reaccionária" - afirma um dos tais sofismas que acima referi.

E surge a pergunta: - Naturalmente querias o regresso às cavernas, não?

Ora ninguém, nem os "hippies", nem os do "regresso à natureza", quer o regresso às cavernas. A campaínha de porta, o automóvel, a torradeira eléctrica, a máquina de lavar, o relógio, o telefone, a máquina de escrever, os livros que leio, o papel onde escrevo, a esferográfica ponta fina que me escreve as prosas - o pão nosso de cada dia, pois: - tudo me diz imediatamente que não posso regressar às cavernas, que necessito imenso da técnica e da tecnologia (devo-lhe tudo, devo-lhe a vida!). Sim, que seria de nós sem tanto conforto, tanta facilitação, tanta beleza, tanta-tanta?!

Frente, portanto, ao argumento-sofisma das cavernas, o crítico-contestador estremece de pânico e parece, automaticamente, liquidado.

Vamos ver, no entanto, onde reside o sofisma, porque sofisma há e bem gordo, nesta como noutras emergências da tal Tecnocracia, especialista, como afirma Roszak, em fabricá-los.

Sendo, como ficou dito, uma das características dominantes da Tecnocracia o totalitarismo do seu processo, não deixa ele lugar, como é obvio e lógico, a coexistências, nem a um cordial "cada um que se ajeite à sua maneira e conforme queira". Não: a tecnocracia tem a santa mania de salvar toda a gente e a isso depois chama política.

Se fabrica um transistor, atravessará montes e vales, mares e continentes, rios e florestas, atravessará o mundo e rebolar-se-á no cosmos se ainda aí mais mundos houver, para colocar o transistor. Ninguém terá o direito, em toda a galáxia, de dizer não ao transistor. Há uma entidade que substituiu de há muito o indivíduo ou animal humano: é o consumidor. E o consumidor, devidamente "tratado" par todos "os mass media", aceitará de ora avante tudo o que lhe metam pela boca abaixo.

Isto já de tal modo se tornou evidente, óbvio, efectivo, quotidiano, inevitável, indiscutível, implícito, - já de tal modo se lava o cérebro a toda a humanidade - que não passa pela cabeça de ninguém ser diferente e de que - até por casmurrice - se pode dizer não ao transistor. Embora diga sim à torradeira eléctrica ou reciprocamente.

Serve esta anedota para ilustrar o que pretendo dizer: o que grupos minoritários como os "hippies" reclamam é o direito de dizer não à torradeira e sim ao transistor, ou reciprocamente, ou nem uma coisa nem outra.

No fundo eles não contestam a civilização da técnica mas a tecnocracia que, como Roszak explica, é coisa um pouco diferente. No fundo, eles contestam o totalitarismo da civilização, o seu processo globalizante, a lógica infernal dos seus sofismas em cadeia, a engrenagem do sistema onde a vontade desaparece e o indivíduo é completamente esmagado, frito e triturado. Reduzido totalmente à categoria de consumidor, de homem objecto (ou homem abjecto, também e portanto).

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Não sabem os "hippies" nem eu sei, se a coexistência é possível: se é ou será possível que as minorias diferenciadas possam existir no meio da maioria massificada, amorfa. Se podem, ao menos à margem, viver e sobreviver.

É que mesmo à margem e como se tem visto, o Sistema não consente nas minorias que se autoirradiam. Como explica Roszak, o Sistema só consente nas minorias que expulsa e margina. As outras, além de lhe sujarem os tapetes e as praias, comprometerem reuniões elegantes e desafinar no coro-dos-supermercados-felicidade-a-domicílio-e-cabaz-do-natal, as minorias auto-marginadas são um remorso, um espinho, um enclave no bloco considerado uno e indivisível da santa sociedade do consumo-do-lixo.

O crítico que conteste esse bloco está tramado e tanto mais tramado quanto não tem bloco político onde se integrar, ideologia e sistema em que se apoiar. É este o sentido moderno (pós Maio 58) da atitude anárquico-utópica e é este o sentido "progressivo" da história, pois dadas as barbaridades a que a Tecnocracia, em nome da civilização, está cometendo contra a civilização mesma - a Leste e a Oeste - barbaridades que alguns políticos denunciam sem conseguirem pôr-lhes freio - não se trata já de política mas de metapolítica, antropolítica (Edgar Morin) ou política planetária.

Eis, pois, porque já tive ocasião de afirmar que a política dos "hippies" é o arroz. Si há uma maneira hoje de ser político progressivo: contestando aquela parte da civilização que pretende matar a outra, aquela parte que é antes a tecnologia desenfreada dos monopólios metendo pela boca abaixo do consumidor todos os venenos que lhe dá na real gana. Com essa parte são os "civilizados" - não os "hippies" - que totalitariamente confundem toda a civilização. Portanto, nem os hippies, nem Roszak, nem eu, nem os do "regresso à natureza" querem o regresso às cavernas queremos, sim, o regresso à civilização. Quem faz a amálgama e depois se queixa dela, e nos culpa dela?

Roszak, no seu livro Para uma Contra-Cultura, deixa bem claro que apenas contesta a Tecnocracia e não a civilização enquanto civilização, com mais ou menos transistores e torradeiras. Apenas contesta aquilo em que a estratégia do consumo a todo o custo e a todo o preço monopolizou por completo todas as descobertas da ciência e todas os avanços da técnica.

Nada de confusões, pois: quem monopolizou para estragar a tal civilização que tanto prezam, não foram as minorias contestantes, que até têm provado passar muito bem sem torradeira, sem transistor, sem popó, e sem o resta da quinquilharia considerada indispensável ao "homem moderno" (mais importante da que isso tudo, é para eles terem (re) descoberto o amor e revolucionado a existência ou experiência amorosa). Os representantes da tecnocracia que é a arte de monopolizar a técnica e colocá-la exclusivamente ao serviço da exploração do homem pelo homem - é que fizeram tudo para estabelecer a confusão e se queixam agora dela. O costume. A Leste e A Oeste, meu caro amigo Urbano, o costume.

18-8-1971

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(*) Este texto de Afonso Cautela, que é suposto ter sido publicado, não tenho de momento o comprovativo de que foi e onde e quando: fica portanto com a data de produção, 18-8-1971

 

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RESPOSTA À RESPOSTA

DE URBANO TAVARES RODRIGUES (*)

[ 18-8-1971] - É possível que o entusiasmo posto no diálogo nos arraste muito para longe do que lhe deu origem - Theodore Roszak e o livro Para uma Contra-Cultura,- e do problema básico - "o falso conflito entre sociologia e psicologia" - problema expresso, aliás, no artigo de Urbano Tavares Rodrigues que nos serviu de porto de partida e de pretexto a esta troca epistolar.

Importava, afinal, saber se o conflito entre sociedade e indivíduo, colectividade e iniciativa, autoridade e liberdade, disciplina e imaginação, é um confluo em vias de extinguir-se com o advento de novas tipos de sociedade (de organização social) e se a passagem, no campo da economia, de uma estrutura capitalista para uma socialista, opera a necessária viragem, também, no campo das relações humanas: dos indivíduos entre si e do homem consigo mesmo.

A sua tese, Urbano, é de que sim: de que a viragem económica e social operou ou operará, mais cedo ou mais tarde, a viragem humana, psíquica, existencial, moral; a minha tese é de que (ainda) não: o económico e o social, mesmo nas sociedades e países que substituíram uma economia de exploração e consumo por uma economia de produção, devem ainda muito - mesmo que o tenham combatido - ao antigo statu quo cultural, para dele e dos seus vícios básicos se terem conseguido emancipar.

E o problema não é, tão pouco, o de por enquanto não terem atingido tal emancipação; tal como o Urbano diz na sua carta, "tudo isso é muito complexo quando se planifica com mais de 50% de analfabetos" e não sou eu a querer iludir tal complexidade, fazendo exigências a quem já tanto fez nos caminhos do (im)possível.

Não, meu amigo, o problema (bem mais grave) é que não estava implícita até há pouco (até 1968-Maio) nos programas revolucionários essa emancipação. Ninguém a prevê, projecta, deseja, idealiza ou reclama. Por isso a Contestação, por isso a linha internacional que a Contestação tem seguido em todo o mundo "desenvolvido", por isso Herbert Marcuse, Henri Lefèbvre, Roger Garaudy, Edgar Morin, o diferencialismo, o neo-trotskismo, etc

Quer dizer: a moral, a estética, a filosofia, enfim, toda a axiologia ou filosofia dos valores (incluindo aqui o critério da crítica) é subsidiária ainda de uma cultura que, além da sociedade de consumo, além da exploração do homem pelo homem, além da luta de classes, além da violência, da opressão e da tortura, além da alienação e corrupção das consciências, possui ainda muitas outras características tão odiosas como estas, mas que a crítica marxista não denuncia e que a revolução económica socialista não mudou nem - o que é pior - pensa mudar tão cedo. É que nem sequer fala nisso ou consente que se fale.

Trata-se, pois, de radicalizar a revolução, como diria Edgar Morin, e radicalizar a revolução é o que Theodore Roszak pretende com o manifesto do seu livro, é o que as minorias e comunidades out estão fazendo, é o que todos os grupos marginados (auto ou hetero-marginados) das sociedades organizadas pretendem, e já que as mesmas ditas sociedades organizadas, talvez porque o sejam, não fazem.

A crítica marxista ao capitalismo está longe de esgotar o saco da Abjecção que, herdada dos primores greco-helénicos, judaico-cristãos e etc se encontra infiltrada muito mais fundo.

O único defeito da crítica marxista é, afinal, ser ainda pouco exigente. Até onde ela denuncia os crimes da Abjecção, do Establishment, Roszak não discorda, nem as minorias da Dissidência, da Viragem, da Reviravolta tão pouco. Mas onde ela (crítica) estaciona, as minorias reclamam o direito à Contestação que é a crítica radicalizada, levada a outros campos além do económico e do político, preocupada também (mas não principalmente nem exclusivamente) com os aspectos humanos da revolução e não só com a propriedade dos meios de produção.

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Em relação a Roszak, no entanto, há que pôr de remissa uma identidade que não me parece correcta e na qual, confesso, também fui arrastado na minha carta para si, amigo Urbano: ele fala, no título do livro, em "contra-cultura", conceito que, como todos os conceitos, contém uma certa vastidão, e depois, lá dentro, no decorrer do ensaio, insiste desalmadamente (só) na Tecnocracia. Ora a Tecnocracia é uma parte - embora importante - mas apenas uma parte da total e totalitária Abjecção. A sociedade de consumo é uma parte - embora importante - mas apenas uma parte da mesma Abjecção. Oscilar constantemente entre dois conceitos de extensão diversa e identificá-los, fazer coincidir os seus contornos como se fossem conceitos iguais, eis o que, mesmo segundo a lógica de Aristóteles, resulta em sofisma. E confesso, Urbano, que também sofismei um tanto, nesse ponto e na minha carta anterior.

No fundo, o processo totalitário da sociedade de consumo e da tecnocracia já ela o aprendera antes de ser tecnocracia e sociedade de consumo. A Abjecção radica mais fundo e por isso disse que a Contra-Abjecção ou Contra-Cultura deverá radicalizar-se para atingir a totalidade do processo.

Nomeando constantemente a Contra-Cultura com a palavra Tecnocracia, Roszak deixa de fora quase todo o problema dos valores. E a verdade é que os "emigrantes da civilização totalitária" não fogem só à Tecnocracia e suas sequelas (industriocracia, burocracia, aristocracia, etc..), à sociedade de consumo e seus vícios, seus crimes. Fogem também e por exemplo (um entre muitos) àquela suprema hipocrisia - demagogia que ameaça eternizar-se - que é a antinomia entre sociedade e indivíduo, que é o conflito entre teoria e prática.

Eu sei, Urbano, que a dialéctica o pretende também: mas permito-me duvidar seriamente que a dialéctica tenha conseguido ser até agora (salvo algumas excepções) algo mais do que uma teoria mais, e tenha conseguido muitas vezes ou apenas algumas obviar a essas e outras antinomias. No fundo e enquanto não radicalizarmos a Viragem, o homem da Abjecção europocêntrica sofrerá sempre de divórcio entre teoria e prática, entre sociologia e psicologia, contradição esta que, por sua vez, irá originar muitas outras sub-contradições, e seja qual for o sistema económico implantado.

3

Outro vector bastante omisso em Theodore Roszak é o sistema hierárquico em que o poder se organiza para não deixar de ser poder. Se é verdade que os melhores dos mestres nos têm assegurado que se marcha para o desaparecimento do Estado, os ''hippies"' ainda não viram isso e por isso dizem "good bye, bye" e nem sequer levam bagagem. Nem saudades.

4

Não vou alongar a enumeração dos vectores culturais que definem a Abjecção, muito para lá do político e do económico, mas a verdade é que estes - o político e o económico - estão longe de esgotar a totalidade do problema humano.

Os "hippies" podem ser acusados de tudo, menos de reaccionários. Porque o mais importante neles, é o mais importante de uma revolução seja ela de caixa alta ou baixa., e quer nos dêem ou não com a matraca por dizermos isto: o que eles exemplificam, acima de tudo, é a total revolta contra o total totalitarismo; é o direito à heterodoxia, à heresia, à variabilidade e diversidade de caminhos humanos; o que eles exemplificam - e nesse aspecto o seu contributo é não só único e insubstituível como o mais importante dos próximos tempos futuros - é o direito aos desenvolvimentos paralelos; o que eles personificam é o anti-racismo a todos os níveis e em todos os campos (incluindo o racismo marialva e machista, o racismo da beleza física em que não há nenhum romancista da Abjecção que não se tenha esparrelado de barriga).

Porque a Abjecção se caracteriza sempre, e exactamente, pela uniformidade dogmática, pela rasoira burocratizante, pelo uni-linearismo de oportunidades, pelo racismo expresso ou latente nas relações humanas, pelo fascismo de esquerda e de direita.

Existe sub-desenvolvimento, porque a pilhagem, a pirataria e a colonização europeia não deixou que, por todo o mundo, os grupos, povos, passes, idiomas, culturas tivessem todos o seu próprio desenvolvimento e que houvesse por isso vários desenvolvimentos simultâneos. Ainda hoje sofremos da pecha totalitária mesmo quando nos dizemos tolerantes, progressivos, humanistas: ainda hoje queremos decretar um modelo único de desenvolvimento para todos os povos e lugares, sob o império da chamada ciência.

O diferencialismo de Henri Lefèbvre demonstra bem porque ele teria de ser um dissidente do partido, um marxista heterodoxo, um herege do Sistema. O diferencialismo opõe-se frontalmente a uma concepção de socialismo que, herda ainda da Abjecção anterior o vício da uniformidade exclusivista.

A Nova Utopia é, além de radicalista, diferencialista e reclama que a noção de paralelismo, relatividade e simultaneidade se estenda a tudo, se universalize. Aí, sim, no seu anti-totalitarismo a Utopia é ...totalitarista.

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Queria agora comentar mais uma afirmação de Urbano Tavares Rodrigues, na sua carta de resposta á minha primeira: "convenhamos em que não podemos, em que não poderemos todos nós ser contemplativos, ser criaturas de amor."

Mas é exactamente isso, amigo Urbano, o que diz o diferencialismo, Roszak, os hippies, eu e quem mais ande por aqui: tal e qual, não podemos ser todos contemplativos, como não podemos (nem devemos) ser todos homens de acção; mas isso equivale exactamente a afirmar que cada um desempenha, na espiral cósmica da evolução, o seu papel e a outro não devem obrigá-lo; isso equivale ainda a dizer que, se há quem se ocupe de política e economia, nem todos devem ficar obrigados a ocupar-se de política e de economia (este um dos motivos claríssimos porque me ocupo de antropologia, moral, ecologia, revolução humana, relações humanas, etc. exactamente porque me parece haver já muita e boa gente ocupada em tudo menos nisso: em produção e produtividade, por exemplo, menos em como fazer a revolução das relações humanas).

Nem mais nem menos do que diz, amigo Urbano, é o que diz o diferencialismo: o nosso vício mais comum é, quando adoptamos uma filosofia, uma crença, uma certeza, querer impô-la urbi et orbi, espalhá-la, torná-la comum a toda a gente, impô-la. È o vício do proselitismo, é a outra face do racismo, da intolerância e da violência, é o outro vector da Abjecção que muitos responsáveis se furtam de ver e criticar, por comodismo ou conveniência de ocasião, por oportunismo, enfim.

Nenhum utopista - nem Roszak, nem os ''hippies'', nem eu - quer impor nada a ninguém. Os fanáticos prosélitos disto e daquilo é que parecem querer. E com que fúria, às vezes. E com que sanha! E com que valentíssimas matracas! Quem fala de diferencialismo, de anti-racismo, de tolerância, de desenvolvimentos paralelos, de imaginação, de heresia e de heterodoxia, tem que aprender (se ainda não aprendeu) a perder esse vicio básico de moldar todo o mundo à imagem e semelhança do seu grupo, clã ou partido. De outra coisa não se ocupa a Nova Utopia de Edgar Morin, de Henri Lefèbvre, de Teilhard de Chardin, de Allan Watts, de Allen Ginsberg, de Norman Brown, etc, etc

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Importante, ainda, para situarmos a nossa polémica num contexto mais vasto que a oriente e nos oriente, é sublinhar isto: Theodore Roszak não aparece por geração espontânea, nem a sua Contra-Cultura surge agora, pela primeira vez, a propósito dos "hippies".

Ele, Roszak, é apenas um dos mais recentes elos de uma imensa Corrente (ou contra-Corrente) , Contra-Cultura tem havido desde que, num país chamado Hélade, surgiu com o nome de Logos algo que logo se tentou impor a todo o mundo e a toda a gente como único modelo, como "sangrenta" ditadura.

A partir daí, todas as polémicas são apenas sub-polémicas da Grande Polémica. E a nossa também, talvez, amigo Urbano. A partir daí, tudo quanto se opusesse ao Logos seria rotulado (e com que violência!) com nomes de irracionalismo, obscurantismo, ciências ocultas, falsas ciências, magia, alquimia, religião, mito, etc, etc.

Como se vê, a polémica vem de longe e passa pelos trágicos gregos, pelos filósofos pré-socráticos, por Sade, por Frederico Nietzsche, por Lautréamont, pelo Alfred Jarry da patafísica, passa pelos alquimistas e magos, pela kabballah, passa por Giordano Bruno e Galileo, passa por Mestre Eckardt, pelos românticos alemães, passa pelo hermetismo egípcio, até passa pelos existencialistas, pelos socialistas utópicos, por Platão, Campanella e Tomás Morus, por André Breton e os surrealistas, pelo realismo fantástico de Louis Pauwels e Jacques Bergier, pelos "beatnicks", os mais directos e próximos antepassados dos "hippies".

Afinal, vista a esta luz, nem a (nossa) polémica tem nada de novo, nem de estranho, nem de complexo. Trata-se apenas de confrontar duas posições em confronto desde que existe Cultura e, portanto, como seu termo dialéctico inevitável, Contra-Cultura.

Sempre a cultura de padrão A tem segregado o seu próprio anti-veneno, normalmente chamado crítica, mas a que agora, rigorosamente, deve chamar-se Contestação, desde que os analistas todos do padrão A resolveram, mais uma vez, anexar a palavra crítica e adoptá-la a conceitos que com ela não coincidem nem tem nada a ver.

E a Contestação só pretende banir a ditadura (cultura) do Logos A, em que temos vivido (???), hoje agravada de outras ditaduras: industriocracia, tecnocracia, burocracia, mediocracia (a ditadura dos mass media), quatro apenas e para exemplo.

Daqui não nos devemos, pois, afastar. O conflito entre sociologia e psicologia, como todos os conflitos ou antinomias, não devia existir mas existe, desde que a ditadura da Razão A os instaurou, abrindo a brecha, inaugurando o reino do Anti- determinando o processo de ruptura, dilaceramento, dualismo, drama e contradição que caracteriza a comédia bufa da chamada civilização, que caracteriza o imperialismo da Razão A na sua luta de domínio de tudo o que bole, vive e existe sobre o Universo.

O que Roszak, os "hippies" e algumas minorias mais com eles (incluindo nestas minorias os poetas e profetas e visionários e contemporâneos do futuro de todos os tempos e lugares) pretendem não é uma Contra-Cultura mas várias contra-culturas, não é lutar contra a Ciência mas abrir a Ciência a todas as ciências, experiências, humanidades e realidades possíveis do impossível (nesta démarche, acompanham-nos hoje homens de ciência entre os mais ilustres, Linus Pauling, Wilhelm Reich, Isaac Asimov, Arthur Clark, Charles Foucault, Lévy Strauss, Jean Fourastié e, de uma maneira geral, os mais inteligentes, sensíveis, inventivos dos filósofos da Prospectiva ou dos escritores da science-fiction).

Que o império da uniformidade dê lugar ao da Multiformidade e o do absolutismo ao do relativismo (Einstein).

Que a rasoira dê lugar à diferença, a massa ao indivíduo, o trabalho em cadeia ao trabalho criador, a rotina à iniciativa, a razão A à imaginação (que não é, afinal, outra coisa, e como o demonstra Jorge Luis Borges, do que a razão de outras razões, passadas, presentes e futuras, no globo terrestre ou através das galáxias).

Sempre que a Ciência A epiteta de anti-científico o que escapa à sua ditadura ou se opõe à sua (dela) ditadura, está a cometer o sofisma mais divulgado e arreigado da pequena história europeia do europocentrismo. Está a mentir, está a produzir demagogia, está a cometer o crime dos crimes que é travar o ímpeto humano e progressivo para a Utopia. Está a ser, em suma, obscurantista, embora o truque consista exactamente em acusar de obscurantista o que se opõe ao seu obscurantismo.

Essa mentira surge hoje bastante clara, quando uns senhores, em nome do experimentalismo, do estruturalismo ou do raio que os parta, nos martelam a paciência e nos pretendem travar o ímpeto para a imaginação, aos gritos de "ciência, ciência, ciência", a nós, utopistas, que, sem gritos histéricos, sem atitudes emocionais e dramáticas, temos sempre e toda a vida, através dos séculos, adoptado a única atitude científica, racional, tolerante, aberta e progressiva: a que parte de um princípio de tolerância e convivência (anti-racista, anti-segregacionista), onde todas as razões, culturas, individualidades, ciências (ocultas e desocultas) religiões, raças, artes, idiomas, vozes, etnias, experiências têm, terão lugar e devem ter assento logo que o processo descolonizador se acelere e os desenvolvimentos paralelos dêem lugar ao desenvolvimento A que, através da história, produziu o aviltante, abjecto, criminoso fenómeno do subdesenvolvimento: pilhagem, pirataria, escravatura, comércio, exploração do homem pelo homem, extermínio de culturas, genocídios, etnocídios e homicídios, eis o que nos ensina uma breve filosofia da história ou filosofia desta civilização que pretendeu impor-se a todas as civilizações como se única fosse e o umbigo do universo.

Contra o umbigo do Universo é que está Roszak, os "hippies", eu e mais quem queira alinhar na Nova Utopia. Para que o Reino da Necessidade dê lugar ao da liberdade, para que desapareça não só o conflito entre sociologia e psicologia mas todos os conflitos, guerras civis, violências, crimes, torturas da Abjecção, que o vício básico do Logos imperialista instaurou sobre o planeta Terra, parcela diminuta e provinciana de um Cosmos por descobrir.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, na sequência do que teclei em <roszak-6> , não sei se foi publicado, quando, como e onde: continua a levar a data em que foi produzido . Uma coisa é certa e quase constante, o ano de 1971 foi, para o sr. Afonso Cautela, o ano das grandes e maiores e melhores intuições...■