O MEU HETERÓNIMO FERNANDO PESSOA:
DOIS TEXTOS DE AC EM 1958 e 1999
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1-2 <pessoa-md-1-4> sexta-feira, 7 de Novembro de 2003
INVESTIGADORES FAZEM NOVAS
DESCOBERTAS
PESSOA TODA-A-GENTE
O mais moderno dos poetas portugueses, o heterogéneo e heterodoxo Fernando Pessoa, incluído numa colecção de «clássicos»(*) é só por si uma indicação programática do que vale este autor, hoje no top da bolsa dos valores poéticos, literários e mesmo culturais.
Não se prevê crise ou «débacle» neste best-seller de fundo que é Pessoa, explorado pelos mais diversos investigadores e aproveitadores do génio criador. Que tudo isto aconteça a um português com pouco mais do que a quarta classe, não deixa de constituir um dos muitos enigmas construídos à volta de tão perturbante personalidade, num tempo em que não é ninguém nem tem direito a nada quem possua formação académica abaixo de doutor ou engenheiro. E talvez por isso é que ele, prevenido e calculista como era, inventou um Álvaro de Campos devidamente ilustrado com o título nobiliárquico de engenheiro.
É o caso do volume recentemente editado pela Estampa, que relança Álvaro de Campos sob o título de «Vida e Obras do Engenheiro», textos atribuídos a esse heterónimo pela investigadora Teresa Rita Lopes, que está com a mão na massa: quer dizer, vigia dia e noite a arca do poeta, agora entregue à guarda da Biblioteca Nacional. Teresa Rita Lopes responsabiliza-se por essa atribuição numa introdução de 40 páginas aos poemas redescobertos no célebre e inesgotável espólio.
Entretanto e pondo em alvoroço (ou desassossego) os que supunham já ter encontrado a versão definitiva do chamado «Livro do Desassossego», entra em cena, numa cuidada edição da Presença, com a subassinatura de Vicente Guedes e Bernardo Soares, um texto que se pretende definitivo e que deverá substituir-se ao que até agora circulou, nomeadamente em traduções estrangeiras, e que se fez best-seller em muitos países. Por esta nova fixação do texto responsabiliza-se Teresa Sobral da Cunha que, em 20 páginas de «Nota Prévia», justifica a sua tese.
Finalmente, Publicações Europa-América resolve incluir «Mensagem e outros poemas afins» na sua prestigiada colecção dos «Clássicos», onde Pessoa aparece ao lado de La Fontaine, Dickens, Lagerlof, Dostoievsky. O livro, cuja organização esteve a cargo de António Quadros, outro estudioso de Pessoa, inclui prosas doutrinais sobre a ideia de pátria e portugalidade, temas relacionados com a mensagem da «Mensagem». «Jogando» no seguro, ou seja, nos textos do Pessoa ele-próprio, definitivamente consagrados e «fixados» ainda em vida do poeta, ou, como é o caso da «Mensagem», publicados mesmo antes da sua morte, Europa América não evita a polémica, apenas a desvia para questões de fundo.
Regressando em romagem ao Chiado, onde quis visitar as novas ruínas, o Pessoa manga-de-alpaca terá perguntado, sentando-se a descansar junto ao bronze da Brasileira: «Que mais estará para me acontecer?»
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(*) «Mensagem e outros poemas afins», Fernando Pessoa, Organização e notas de António Quadros, Nº 11 da colecção «Clássicos», Publicações Europa-América
«Livro do Desassossego», Fernando Pessoa-Vicente Guedes/Bernardo Soares, Nota prévia e comentários de Teresa Sobral da Cunha, Editorial Presença
«Vida e Obras do Engenheiro», Álvaro de Campos, organização e notas de Teresa Rita Lopes, Editorial Estampa
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<pessoa-1> notas de leitura - revisão em 2002-02-04
NOTAS DE LEITURA(*)
(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado na revista «A COOPERAÇÃO» , revista mensal de panificação, 1958)
* CARTAS A FERNANDO PESSOA, de Mário de Sá-Carneiro, com prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, Edições Ática, Lisboa, 1958.
1958
- Sá-Carneiro, que «só dava importância à obra», começa agora a ser estudado no contexto biográfico, para o qual estas Cartas a Fernando Pessoa constituem um valioso subsídio. Embora fale pouco de si e toda a sua preocupação incida nos versos que escreve e sobre que pede opiniões a Fernando Pessoa, alguma coisa se pode concluir desses tempos de Mário de Sá-Carneiro em Paris.Curioso é, porém, notar que nenhum sintoma transparecia ainda, nessa altura, da crise que o levaria ao suicídio. Só numa carta de 13 de Julho de 1913, talvez a mais importante deste conjunto, já pela extensão, já pelo acento dramático e desesperado, há o primeiro rebate que verdadeiramente se pode considerar um sintoma e um pressentimento: «Creia, meu querido Fernando Pessoa, perdamos por completo as ilusões: eu toco o fim — um fim embandeirado, mas em todo o caso um limite. Acabei já - acabei após a minha chegada aqui. Hoje sou o embalsamamento de mim próprio, (...) Ilusões de glória. «de espanto» já não existem em mim. Entusiasmos do que sou, tão pouco, porque de mais sei o que sou».
Fora isto, a sua única atenção vai para os versos que escreve e algumas cartas resumem-se a fastidiosas trocas de opiniões sobre as mesmas. Uma hipertrofia de outros problemas e preocupações, leva-nos a acreditar num poeta convicto do seu valor (mas desejoso de que lho confirmem a todo o momento), resolvido a criar e com um vasto programa de realizações à sua frente. Nada, mas nada, fará prever o desenlace trágico da sua vida, pois, nunca ou quase nunca fala do desejo de a ver abreviada (excepto na passagem já transcrita) e inutilizado o futuro.
Sá-Carneiro, nestas cartas, é um artista consciente da sua arte, devotadamente entregue ao seu culto. Vária vezes pede a Fernando Pessoa que deixe de ser o Crítico e que publique Poesia para passar a ser o Poeta, o Artista. Confrangia-o saber que o autor dos Paúis era apenas conhecido como crítico. E nisto revela-se sensível ao prestígio público, à glória na república das letras. Embora não se conheça a reacção de Fernando Pessoa perante esta insistência do seu amigo, fácil é concluir que pouco ou nada se preocupava Fernando Pessoa em substituir a fama de crítico pela de poeta, sabendo-se como deixou inédita a maior parte da sua obra de poeta. É este, entre outros, o sinal que ajuda a agigantar a biografia já gigantesca de Fernando Pessoa e a diminuir um tanto a de Sá-Carneiro... Que Pessoa também não era de modéstias, fingidas ou sentidas, Sá-Carneiro transcreve das suas cartas coisas como esta: «Afinal estou em crer que em plena altura, pelo menos quanto a sentimento artístico, há em Portugal só nós dois». E desculpava-se a seguir: «Você acha que tudo isto é de um orgulho indecente».
O valor humano e sociológico destas cartas fica, assim, muito diminuído. Nada ou quase nada nos autobiografam do poeta, mas apenas da sua poesia. O que fazia Sá-Carneiro em Paris, por exemplo, nunca o chegaremos a saber. O que pensava sobre a cultura do tempo, muito menos. E teríamos que admiti-lo como um círculo de interesses intelectuais muito limitado e muito medíocre, quase exclusivamente obsessionado pela sua «obra», não conhecendo nem admirando mais nenhuma além da sua e, por cortesia aflitiva, a de Fernando Pessoa. Mas será mesmo este o retrato moral e cultural de Sá-Carneiro? Não nos induzirão estas cartas em erro? Não teremos de esperar que muitas e muitas outras aproximações corrijam o que de exagerado ou deficiente nos é dado por esta?
(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado na revista «A COOPERAÇÃO» , revista mensal de panificação, 1958)
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http://www.casafernandopessoa.com/
http://www.cfh.ufsc.br/~magno/frames.html■