TEIXEIRA DE PASCOAES:
A MINHA SAUDADE DO MEU POETA
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\1-1 <pascoaes-md-1-2> quinta-feira, 6 de Novembro de 2003
1-2 < 90-07-12-ls> <pascoaes-1-ls> leituras do afonso
AMIGÁVEL POLÉMICA (*)
(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado, creio bem, no jornal «A Capital», «Leituras de Verão», com data de origem de 12-7-1990
Na prática do paradoxo, pelo menos, devemos reconhecer que o pensamento de Teixeira de Pascoaes é genuinamente português.
Armado em teorizador do saudosismo e da «renascença portuguesa», na revista «Águia» onde pontificava, Teixeira de Pascoaes quis conciliar o seu vezo de poeta impenitente com a vis de filósofo que nunca foi nem podia ser. E ainda hoje não sabemos se com algum resultado prático. Mas, de certeza, com uma imensa inocência!
Ao lermos os artigos que publicou n «A Águia», à volta de 1910, ainda sob a euforia da proclamação da República ( sem que ninguém em Portugal, à excepção de António Sérgio, soubesse o que isso era) , temos a imagem de um Pascoaes paradoxal, dividido entre as suas intuições geniais e a repetição monocórdica de alguns lugares-comuns nacionalistas, que já na época eram, com António Sardinha e outros integralistas, de pura importação.
António Sérgio, seu fraternal companheiro d «A Águia», se encarregaria de lho dizer, sem que, no entanto, o poeta, demasiado distraído, lhe desse muitos ouvidos, continuando a debitar lugares-comuns nacionalistas do pior integralismo, ao lado de intuições sobre a saudade, a tristeza, a alegria, a dor e a morte que, essas sim, permanecem guias de referência perfeitamente actuais e prospectivas.
Quando, por exemplo, Pascoaes preconiza o ensino da Higiene nas escolas, glosa o «mens sana in corpore sano», ou, inclusive, se faz eco de um vegetarianismo larvar, apenas antecipa o corporativismo salazarista no campo dos conceitos e da política da « qualidade de vida». E a coincidir com o que, nos anos 30, seria defendido em pleno por ideólogos do nazifascismo, como Goebbels.
Mas quando Pascoaes afirma o «pendor elegíaco» do português, o ser-não-ser, o estar-não-estar, o prender-desprender, o ficar-partir, o viajar-permanecer, enfim, os paradoxos vivos e ancestrais do fado português, da nossa contraditória e dramática condição, não só acerta em cheio no «pathos» mais profundo da alma portuguesa (ou daquilo que é dominante na alma portuguesa), como indica que, nesse campo, somos filhos dilectos e directos da dialéctica taoísta dos contrários complementares.
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(*) « A Saudade e o Saudosismo» , de Teixeira de Pascoaes, Ed. Círculo de Leitores
2350 caracteres
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1-1 < 58-09-08-ls> <pascoaes-2-ls> leituras do afonso
PASCOAES,
AVE METAFÍSICA (*)
(*) Este texto de Afonso Cautela terá sido publicado no quinzenário «A Planície» (Moura),
8-9-1958Metafísica, sim, porque essa actividade a que se têm devotado filósofos de pé curto , chamada metafísica, e que consiste em meter o universo num cano de esgoto com o nome de «sistema», de onde eles nem ninguém pode sair e que têm amordaçado os séculos e quem dos séculos tira de que se alimente – porque essa actividade piedosa, digo, embora se chame metafísica , é antes uma física do espírito.
Metafísica , sim, a poesia de Pascoaes. Uns dizem-no lírico, o que estabelece imediatamente confusão com os líricos de uso comum ; outros dizem-no trágico, o que leva a ver nele um poeta de antinomias, dilacerado entre extremos, quando ele foi a síntese das sínteses.
Poeta profético , iluminado, voz dos astros e do silêncio, Pascoaes é, com efeito, um metafísico: não porque o seja, mas em homenagem póstuma aos filólogos que se vêem , após ele, ameaçados de entrarem para sempre no museu das antiguidades interessantes. ■