AO MEU IRMÃO FRANZ KAFKA:

INÉDITOS E PUBLICADOS DE AFONSO CAUTELA

(1961, 1963, 1967, 1970 E 1971)

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1-5 <kafka-md-1-8> sexta-feira, 7 de Novembro de 2003

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<kafka-1> encontros imediatos - notas de leitura - profetas do absurdo

KAFKA EXEMPLAR ( *)

Há uma atitude política assumida por alguns escritores que à primeira vista se identifica com reacção ou anarquismo mas que não é uma nem outra.

A posição de Kafka, por exemplo. Profeta da política que iria desenrolar-se na Europa poucos anos depois da sua morte, n' O Processo, n’A Colónia Penitenciária, n' O Castelo, põe Kafka em evidência o absurdo da lei e nisto parece anarquista, mas com o absurdo da lei evidencia também o absurdo do homem que não pode viver sem leis, fora da sociedade, portanto.

Esta a sua verificação e com ela distancia-se até se separar , da posição anarquista clássica, que acredita no advento de uma sociedade sem leis (sociedade anárquica ou acrática). Duvidando deste advento, Kafka duvida da solução do homem pelo homem e situa-se, de um golpe, na posição de perplexidade ou negatividade trágica. Já não é anti-político como o anarquista, é para lá da política, das possibilidades humanas, da realização histórica.

Situa-se num terreno que diríamos metafisico ou religioso, porque reconhece não haver solução para o homem ao nível da história, mas imediatamente sai daquele outro domínio no momento em que afirma também o homem não ter solução a esse nível. Kafka também não crê numa solução metafísica ou religiosa.

Verdadeira percepção do absurdo e verdadeira percepção trágica da existência é esta inaceitabilidade radical quer das soluções políticas ao nível da história quer das soluções metafísicas ao nível de um Deus. Kafka crê que e homem nunca poderá realizar-se em liberdade, no que é de um derrotismo exemplar. Injusto porém será classificá-lo politicamente mistificador, porque ele não deseja e retrocesso do homem e da história para nenhum passado: com a lucidez do profeta, o que ele vê é o futuro, com a mesma lucidez com que vê o presente; para ele não há tempo, não há passado nem futuro, por isso não há política. Kafka não deseja que a história pare ou retrograde, o que vê (prevê) é o beco sem saída onde ela está ou para onde vai.

Tal visão ou previsão do mundo e da história poderá classificar-se de «pessimista» mas o termo também não tem significado relativamente ao posto de observação que é o de Kafka e o de outras vozes trágicas: Beckett, Fernando Pessoa ou Artaud não convidam à desistência, não conclamam os homens a nenhuma reacção, apenas observam, imparcialmente observam, implacavelmente observam.

A perplexidade de Kafka e de alguns solitários não tem apenas origem na meditação existencial. A mesma perplexidade é partilhada por escritores em cujos romances de antecipação, por exemplo, (Aldous Huxley, Orwell) se podem surpreender visões «pessimistas» e nada alentadoras do futuro. Mais por uma análise da história do que por um poder visionário ou de intuição profética, concluem estes outros autores que o homem na melhor das hipóteses caminha para o paraíso concentracionário onde assumirá, devidamente domesticado, controlado ou condicionado, a categoria de outra espécie zoológica.

Dizem alguns que estas visões «desesperadas» do futuro podem ter um papel salutar e revigorador da esperança, dando o alarme e fazendo com que os homens acordem a tempo de evitar a completa automatização (ou robotização ou alienação). Resta saber se a automatização depende da vontade de qualquer, ou de muitos, ou se, na menos má das hipóteses, contra uma minoria manifestamente acordada e alerta, a lógica da história não empurrará e homem inexoravelmente para a única saída: o beco sem saída.

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(*) Com o título «Kafka exemplar» este texto foi publicado no suplemento literário do «Jornal de Notícias», Porto, em 1963

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<kafka-2> releituras - ligar ao file wri <kafka> neste directório

FRANZ KAFKA :

O MEDO É A INFELICIDADE

Que fizeste com o dom do sexo? Desperdiçaste-lo, é o que dirão finalmente, nada mais. Mas tinha sido fácil aproveitá-lo. Francamente, uma ninharia, e uma ninharia que nem sequer é perceptível, provocou a decisão. Porque te assustas? Assim ocorreu com as maiores batalhas da história universal. As ninharias decidem as ninharias.

M. tem razão: O medo é a infelicidade, mas nem por isso é a coragem a felicidade, e sim a falta de medo: não a coragem, que às vezes ambiciona o que as forças não podem (no meu curso havia talvez dois judeus que tinham coragem, e os dois se deram um tiro ainda no colégio, ou pouco depois de receber-se), quer dizer, não a coragem, mas a falta de medo, tranquila, sempre alerta, capaz de suportar tudo. Não te obrigues a nada, mas não sejas infeliz porque não te obrigas ou porque tens que obrigar-te quando queres fazer algo. E se não te obrigas, não estejas todo o tempo desejando a possibilidade de fazê-lo.

Na realidade, não é sempre tão claro, ou talvez o seja, por exemplo: o sexo persegue-me, atormenta-me noite e dia; para satisfazê-lo teria que vencer o medo e a vergonha e talvez também a tristeza, mas por outro lado é indubitável que seria capaz de aproveitar sem medo nem tristeza nem vergonha uma oportunidade que se apresentasse rápida, próxima e voluntariamente; mas então devo deduzir do anterior esta lei; não se trata de vencer o medo, etc. (nem tão pouco jogar com a ideia de vencê-los), mas antes aproveitar as oportunidades (mas não queixar-me se não se apresentam).

É verdade que existe um termo médio entre a «acção» e a "oportunidade", quer dizer, a condução, a atracção da oportunidade, atitude que por desgraça adoptei sempre, não só nisto mas em tudo. Da "lei" não se deduz nada contra esta prática, ainda que essa "atracção" das oportunidades, especialmente quando faz uso de meios inadequados, se parece bastante ao "jogo com a ideia de vencer o medo, etc.", e não tem rastros dessa tranquila e sempre alerta falta de medo. Apesar de sua concomitância verbal, com a "lei", é algo detestável e deve ser evitado incondicionalmente. Em verdade, para evitá-lo necessitaria obrigar-me, e é assim que não chego nunca ao fim do assunto."

FRANZ KAFKA

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<kafka-3> quinta-feira, 13 de Junho de 2002

 

UM HOMEM

SEM QUALIDADES

Anos antes que Robert Musil escrevesse "O Homem sem Qualidades», foi ele próprio, autor e personagem, um «homem sem qualidades». A noção de escritor como artista, como entidade privilegiada ou eleita de deuses benignos, como indivíduo dotado de talentos excepcionais, virtudes acima da mediania, embora ainda hoje prevaleça em círculos geralmente bem informados, foi profundamente abalada pela vida e obra de Kafka, que se tornou conhecido por um lento processo, por uma difícil metamorfose de adaptação a um meio que o hostilizaria sempre e ainda hoje.

Porque ainda hoje Kafka é autor maldito e nada, nenhuma teoria da literatura ou da existência ou da política conseguiu reduzi-lo a fórmulas de segura e cómoda rentabilidade no mercado das ideias ou das ideologias. Kafka, apesar dos esforços editoriais e do carinho que o seu «odioso» amigo Max Brod pôs na compilacão dos manuscritos que ele desejava destruir, continua impenetrável ao consumo corrente e a uma compreensão de via reduzida. As obras completas, os prefácios, as bibliografias, as biografias, os estudos exegéticos, a vulgarização dos textos mais ou menos íntimos não chegam para definir e consagrar a personalidade maldita do autor de O Castelo, A Metamorfose, A Colónia Penitenciária, o Processo.

A explicação deste escritor inexplicável encontra-se em parte, nos diários que Max Brod também compilou e se encarregou de expurgar com o mesmo zelo purificador com que o biografa no livro agora vertido em português correcto(**): a explicação da sua irredutibilidade sistemática, da sua inaceitabilidade radical, só nos diários transparece a toda a luz, ou antes, em toda a sua sombra. O mais lisonjeiro na biografia de Kafka e em especial nos seus diários, é a falta de heroicidade ou de romanesco do que lhe acontece: lisonjeiro para nós, leitores sem nada de importante, de clássico, talento ou excepcional, é ler as inibições, a timidez, as insónias e dores de cabeça, o temor do pai, o emprego, os exames, a diária alienação de um Kafka que hoje, por ironia do destino, é considerado um dos maiores génios de todos o tempos.

Uma sociedade, mesmo de exploradores, precisa de valores espirituais.

Aparentemente as obras completas (ou incompletas) de Franz Kafka e de quantos escreveram apesar de tudo, contra todos, servem de coluna espiritual dos povos e das culturas para exportação.

Mas ainda estão por vir os seus verdadeiros contemporâneos, os que totalmente libertos ou totalmente alienados hão-de identificar-se com o inferno de Kafka, o inferno que é, numa sociedade de exploradores e conquistadores, a existência de «um homem sem qualidades».

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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no semanário «Vida Mundial», em data indeterminada, talvez em 1967

(**) FRANZ KAFKA — Maz Brod — Estudo biográfico - Ed. Ulisseia, Lisboa, 1967 - Trad. Susana Schnitzer - Capa, Rocha de Sousa - Nº 38 da Col. «Documentos do Tempo Presente» - 275 pgs. - 45$00.

 

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<kafka -- ><ficcoes inventadas>

 

KAFKA VISTO

POR UM PSIQUIATRA PORTUGUÊS

TODOS OS CUIDADOS SÃO POUCOS

COM A VIDA ÍNTIMA DE KAFKA

(Tavira, 20/Setembro/1961) - Kafka foi celibatário, um incorrigível celibatário. «Sísifo também era solteiro» defende-se ele em determinado passo do seu Diário. E se a explicação desses misantropos está na sua misoginia, a de Kafka não teve outra origem. Não passou de um Misógino com medo às mulheres e sem coragem de se assumir; todos os casamentos se lhe frustraram e não há sinal de ligações femininas, regulares ou esporádicas, no seu «Diário» (1910-1923). A explicação dessa (de Kafka) e outras vozes do Fracasso (Fernando Pessoa, Sá Carneiro, Samuel Beckett) é sempre e apenas erótica, ou antes, a ausência de vida erótica. «Faz amor e acabam-se os problemas - eis a fórmula que na minha opinião de psiquiatra devia ser receitada a esses doentes, ensinada a todos os infelizes que se arrastam na vida sem saber o melhor que a vida tem. É a formula para Misantropos e outros desmancha-prazeres que não conseguem encontrar piada alguma neste mundo de dois sexos. Não se sabe, aliás, até onde foi Kafka nesse campo. O pudibundo do seu amigo Max Brod («odioso Max Brod» assim o classifica Georges Bataille) se alguma coisa houvesse, tê-la-ia retirado cuidadosamente, a avaliar pelo que declara no Posfácio aos «Diários» que compilou, datado de Telavive (de onde havia de ser?), 1950: «Omiti anotações que me pareciam demasiado íntimas».

Omitir anotações demasiado «íntimas» na compilação de um diário não se deve confundir com «censura prévia». Quando se trata de coisas tão desagradáveis (tanto mais desagradáveis quanto mais agradáveis) à moral corrente (que afinal decide sempre com a Igreja nestas encruzilhadas póstumas) de facto todos os cuidados são poucos

A filosofia ultra-niilista de Franz Kafka tem uma origem precisa indiscutível: a vida erótica frustrada, a sua falta de relações normais com mulheres e (não se sabe ao certo) a provável ausência de relações sexuais em geral. O «medo, a vergonha e a tristeza» impediram-no, possivelmente, de procurar esta última solução, que seria também a única saída para o Nada onde viveu e morreu. depois do Nada, só o Amor. E Kafka teve medo do sexo.

Mandam os bons costumes respeitar o biografado e não entrar em pormenores da sua vida erótica, quando há suspeitas de perversão. Se ele na obra nada deixou transparecer, deverá o biógrafo guardar religioso silêncio. Opondo a sociedade, ou os órgãos representantes da sociedade, uma interdição tão feroz, é possível que o biógrafo, ainda que queira, não encontra documentos nem vestígios comprovativos. Apenas indirectamente é possível saber o que houve, sem falar já do que o biografado tenha feito e escrito no sentido de despistar futuras e póstumas pesquisas, ou até de se despistar a si próprio.

Nos casos de abstinência sexual, aquilo a que o biógrafo de boa vontade poderá chamar «castidade» ou «sublimação dos instintos», o mais que se pode afirmar é que não constem dos hábitos do biografado relações sexuais, quer com o mesmo quer com o sexo oposto. Isto não autoriza nem desautoriza a suspeita de inversão, que pode ser aliás puramente psíquica. Se não consta que tivesse práticas homossexuais, sabe-se todavia que as relações com mulheres, ou não existiram ou se frustraram. Além disso, quantas formas há de desviar factos para o poço sem fundo de equívocos tais como «amizade fraterna», «companheirismo», «camaraderie» e mesmo «amor platónico».

Regra geral, o diagnóstico é muito reservado e cifra-se nestes termos vagos: o vazio da obra do escritor X dever-se-ia ao facto de não haver mulheres na sua vida... A sua desgraça foi não poder fornicar. O não poder com F, entende-se em dois sentidos: por incapacidade do Sujeito analisado e pelas proibições postas ao amor ilícito ( de ordem legal, moral, etc). Ele talvez pudesse amar, tinha era medo. A sua solidão talvez não tivesse uma origem patogénica, incurável, irremediável. Simplesmente, o medo à condenação pública, o medo de infringir a moral e encarar as represálias, a auto-censura instalada, o «refoulement» de tendências pecaminosas e impulsos vergonhosos, a má língua pública, podem muito, podem tudo.

Não há dúvida que há um paralelismo muito evidente entre a vida sexual frustrada de alguns escritores e a atmosfera de Fracasso que a sua obra respira. Kafka, Kierkegaard, Proust, Fernando Pessoa, Sá Carneiro são casos bem conhecidos de abstenção sexual e simultaneamente consciências de uma frustração na consciência contemporânea.

Para o escritor, o problema de práticas de inversão põe-se com a acuidade que não se pões a outros artistas e ao homem comum. Escritor é, por fatalidade, o que publica, o que se torna público. Terá que fazer uso da sua experiência humana no que escreve. E publicar, tornar público práticas e vestígios de práticas tão inconvenientes e tão odiadas pela sociedade normal, é cair em desgraça. Aqui principia todo o processo de «refoulement» observado pelo psicanalista, de autocensura aos impulsos do instinto e da vontade, e no caso de «cair no mal», a lista dos remorsos, receios, a preocupação de ocultar as práticas viciosas, ou de não reincidir nelas.

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[ 3565 caracteres - solta do «largo» ou secção «releituras» - secção «heresias & heresiarcas» ] – releituras – notas de leitura

A LITERATURA AVANÇA PELA HERESIA:

O EXEMPLO GENIAL DE KAFKA(*)

 

(*) Com o título «Kafka e a Torneira Romanesca», este texto foi publicado no «Diário do Alentejo» (Beja), na rubrica do autor intitulada «Margem Esquerda»

15/Novembro/1970 - A simplicidade das «grandes descobertas» explica, em parte, a inconsciência que o próprio Kafka teve do seu génio. Quem, de facto, poderia acreditar que, aproveitando essa evidência -- a linguagem onírica -- essa realidade tão óbvia e quotidiana -- o sonho --, limitando-se a transcrever os pesadelos nocturnos, estava a fazer uma «revolução literária»?

Só a desatenção, a frivolidade de uma cultura completamente cerrada à complexidade do real, à parte imersa do «iceberg», autosuficiente na sua tacanhez, pode explicar que tão pequenas descobertas sejam tão grandes revoluções. Kafka foi apenas, como Freud, um descobridor de evidências que séculos de dogmatismo racionalista, de sistemas metafísicos, de beatismos religiosos, tinham raivosamente ocultado ou menosprezado.

Por isso o autor de «O Castelo» tem muito menos a ver com a literatura-instituição (instituição ao serviço de outras e consabidas instituições) do que com aquela terra de ninguém onde se mexem os descontentes da civilização. A explicação da sua obra em termos estritamente literários, deixa tudo por explicar e os que o querem catalogar, não raro saem danadíssimos de impotência e raiva por não concretizarem a empresa.

Com Kafka pisamos o terreno seguro de uma recusa, fundamental à vanguarda do nosso tempo, radicalmente antiliteratura: a recusa à intriga e ao evento, no sentido diuturno em que todo o romanesco de consumo os usa. Escrever deixa de ser, com Kafka e a partir de Kafka, descrever os múltiplos eventos a que uma visão diurna (analítica) da realidade reduz essa realidade.

Com Kafka, entramos no mundo nocturno ou sintético do símbolo, do essencial, do mito. Em vez de «a senhora condessa saiu de casa às onze», Kafka conta-nos os seus pesadelos, que nem saíram de casa e muito menos às onze. Às aparências convencionadas de uma realidade diurna atomizada e desfeita e mesquinha, prefere a continuidade do seu rio interior. Em vez da análise, a síntese. Em vez do secundário, essencial, o que verdadeiramente importa.

A propósito de Kafka, refira-se como a vanguarda do «nouveau roman», reaccionário de origem, regressou em força ao analítico, ao diurno, à multiplicação das formas particulares, ao avulso, ao acessório, ao enumerativo, ao descritivo, ao evento e ao eventicismo, ignorando a via revolucionária encetada por Kafka, e fazendo retornar a literatura à «cochonnerie» que sempre foi.

Refira-se como da inflação analítica resulta a torrente diarreica de romances que o mercado da cultura ocidental comporta. Forma de obstrução, aliás, extremamente eficaz, até para efeitos de esterilização política, pois enquanto se lê uma «novela» de 500 páginas, não se lê «O Capital» e muito menos «Os Manuscritos da Juventude», as páginas mais subversivas de Karl Marx. Convém que o romance seja estimulado com prémios à produção.

O «nouveau roman» não só vai ao mercado, não só descreve todo o tipo de hortaliças que encontra no mercado, como acrescenta ainda o dobro das páginas a contar as diferentes «perspectivas» sob que os repolhos podem ser encarados. O perigo que corre o leitor é darem-lhe um romance de 400 páginas a contar os tipos de repolho que podem ser encontrados no mercado abastecedor. A descrição tipo inventário (que, segundo parece, já chegou ao cinema, em longas metragens que chegam a demorar dias a projectar) vem desatar uma torneira que parecia fechada desde Kafka.

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(*) Com o título «Kafka e a Torneira Romanesca», este texto foi publicado no «Diário do Alentejo» (Beja), na rubrica do autor intitulada «Margem Esquerda»

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http://planeta.clix.pt/letras/lit58.htm

http://baze.knih-pt.cz/lwww.dll?kfh~A=Kafka,Franz