1-1 <ionesco-md-1> sexta-feira, 7 de Novembro de 2003

[24-8-1990]

IONESCO

O moralista imoral

Memórias de uma irreconciliação irremediável de Eugénio Ionesco com a existência, « A Busca Intermitente» (*)é um livro de impressionante e absorvente leitura. Por estranho que pareça no autor do teatro do absurdo e da crueldade, um livro apaixonante, o autoretrato a traço carregado daquele que tem sido um dos dramaturgos modernos mais representados, mais discutidos, mais polémicos mas, paradoxalmente, também, um dos mais esquecidos. O exílio da Roménia sua pátria, desde 1938, por motivos claramente políticos, não deixou de contribuir para esse ambíguo comportamento do meio literário e teatral relativamente à sua personalidade, erigida muitas vezes em bandeira para um e outro lado da barricada estalinista.

Quando alguém fala de si mesmo nem sempre fala do seu umbigo mas, como faz Ionesco, do que toca e sensibiliza muitas outras pessoas que «trabalham no mesmo comprimento de onda», pertencem à mesma família de sensibilidade, ao mesmo tipo psicológico... A visão tremendista e «pânica» de Ionesco, tantas vezes expressa nas suas peças de teatro como « O Rinoceronte», «A Cantora Careca», «As Cadeiras» ou «Como se desembaraçar dele» ( o texto dele que alguns preferem )aparece nestas confissões dominado por uma sinceridade avassaladora, torna-se companheiro também dos nosso dias e a sua voz uma voz familiar: «Dizer que há muito pouco tempo, há dezasseis meses, era ainda jovem e que caí psicologica e fisicamente na velhice!» exclama ele, acrescentando palavras ainda mais amargas para falar da companheira que aceita, ao seu lado, resignada, o destino de envelhecer: « Também a minha mulher envelheceu bruscamente, ao mesmo tempo que eu (...) Mas ela tem a generosidade que eu não tenho, aceita envelhecer, não se sente como eu infeliz por vivermos como velhos e entre velhos, como vivemos há cinco dias, cinco dias que me traumatizaram, que foram a revelação de uma odiosa, horrorosa, implacável verdade.

É esta «implacável verdade», sempre presente nas suas peças teatrais - sem quimeras, sem ilusões ideológicas, místicas ou religiosas - é esta lucidez radiográfica que transforma agora o lado menos teatral e mais íntimo da sua mensagem - o dia a dia de uma vida que se esgota - no espectáculo tragicómico por excelência. Ler «A Busca Intermitente» é assistir a esse patético espectáculo sem barreiras...

Com este seu livro de confissões e desabafos , dos mais cruéis que se têm escrito sobre o irrisório da vida, Ionesco é agora o único Actor em cena representando o seu próprio papel: o da sua própria vida, para a qual busca um sentido sem, evidentemente, jamais o ter encontrado.

Ainda uma citação das muitas que fazem «arder» estas páginas inesquecíveis: « Não sou tão bom como devia. Não sou bom. Não sou bom nem mau. O que eu sou é tímido, medricas. Sou vaidoso. Sei que sou vaidoso. Nem sequer soube ser moral... Moralista, sim, às vezes, um imoral moralista. Quis pedir perdão a toda a gente, às pessoas mais chegadas, ao mundo inteiro.»

Se a crítica científica, por um azar dos demónios, algum dia viesse a ter razão, textos e livros como este de Ionesco estariam proibidos de circular. Lagarto, lagarto. A arte bem pouca coisa é quando nos surge, como neste livro, a humanidade de um homem crucificado nas suas próprias confissões.

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(*) «A Busca Intermitente», de Eugénio Ionesco, Ed. Difel■