1-6 <hesse-md-1-4>sexta-feira, 7 de Novembro de 2003

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UM TEXTO DE AC SOBRE HERMAN HESS

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16-10-1990

Esta colectânea, compilada por Volker Michels, reúne pela primeira vez todos os contos de Hermann Hesse, desde «Os Dois Irmãos», seu primeiro trabalho em prosa, escrito aos 10 anos. Pequenas histórias cheias de mítico simbolismo, inserem-se no sentido mais genuíno do género narrativo «conto» como efabulação mágica e maravilhosa, a que é costume também chamar «prosa poética». Nestes contos encontra-se latente uma grande parte dos temas que seriam dominantes na obra de Hermann Hesse, prémio Nobel da Literatura em 1946. A experiência de unidade entre o homem e o universo, ou a busca de harmonia do indivíduo no seu confronto com o mundo, que o levariam às fontes da mística oriental, nomeadamente hindu, já se encontram patentes nestas narrativas breves mas, efectivamente e como o título indica, «maravilhosas».

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29-1-1992

UM PRECURSOR DA «NEW AGE»

Não há que enganar. Herman Hesse é um verdadeiro seguro de vida para quem goste de «contos maravilhosos»(*).

O prémio Nobel da Literatura em 1946, andou quase sempre nessa quinta dimensão da realidade e as suas narrativas, mesmo quando não se inspiram no folclore alemão ou suíço, falam de um mundo que, não coincidindo com o mundo das banalidades diurnas e quotidianas, é de todos. O mundo a que chamam, por isso, dos sonhos. Um toque autobiográfico emana de algumas destas narrativas, escritas em plena idade juvenil do futuro grande escritor de língua germânica. «Os Dois Irmãos», por exemplo, foi escrito aos 10 anos e encontra-se, a título de curiosidade, incluído nesta colectânea editada pela Difel. De Herman Hess, com muitos outros títulos já publicados em língua portuguesa, aguardam-se as obras completas.

Entretanto, convém recordar que, nascido na Alemanha em 1877, e cidadão suíço desde 1923, cedo abandonou os estudos de teologia e a carreira religiosa para que tinha sido encaminhado pelo pai e pelo avô, ambos pastores protestantes. Historiadores da literatura igualam-no a Thomas Mann e Franz Kafka. Traduzido em 35 idiomas, Herman Hess (1877-1919) é daqueles escritores que se tornou presença obrigatória em qualquer estante. E ainda não se falava de «new age».

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(*) «Contos Maravilhosos» -- Hermann Hesse -- Ed. Difel■

 

TRÊS TEXTOS DE TRÊS AUTORES

SOBRE HERMAN HESS

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quinta-feira, 6 de Junho de 2002

Que nos Indica a o Caminho

 

Por FERNANDO MAGALHÃES

Quarta-feira, 5 de Junho de 2002 ,  PÚBLICO

"Siddhartha" faz a narrativa da vida de Siddhartha, filho de brâmane, que um dia decidiu deixar tudo e partir em viagem, à descoberta de si mesmo, do mundo e do amor. O que descobriu poderá também o leitor descobrir. O livro, além do prazer da leitura de uma história bem contada, dá uma ajuda preciosa. Para ler de frente. Olhos nos olhos.

"Olhou de novo em seu redor, como se visse o mundo pela primeira vez. O mundo era belo, estranho e misterioso. Havia azul, amarelo e verde, havia céu e rio, havia florestas e montanhas, tudo belo, tudo misterioso e fascinante, e no meio de tudo estava ele, Siddhartha, o que despertara, a caminho de si mesmo". O excerto pertence a "Siddhartha", o livro que hoje é vendido com o PÚBLICO (jornal+livro= 5 euros), e é uma síntese luminosa do essencial do espírito e da letra budistas. Não foi escrito por nenhum yogi, nenhum monge, nenhum adepto atingido pelo "satori", mas por um alemão naturalizado suíço, o qual, que se saiba, não levitava, nem tinha por costume pronunciar a sílaba sagrada "aum".

Hermann Hesse (1877-1962) escreveu "Siddhartha" em 1922 e desde essa data o livro tornou-se uma espécie de compêndio de vida e manual de aprendizagem espiritual para muitos ocidentais que nele encontraram eco e caminho. Pode ser lido também como uma história, na exacta medida em que todas as vidas contam uma história. Siddhartha é um homem apenas um pouco mais disciplinado, um pouco mais inquieto do que cada um de nós. O seu amigo Govinda segue-o, seguindo um caminho paralelo. Sigamos na peugada de ambos. "Siddhartha", entre múltiplas virtudes, tem uma que convém guardar: é um livro que fala.

Isso aprendeu-o Hermann Hesse, fruto não só do contacto com a doutrina budista, mas também com a filosofia do Eterno Retorno expressa pelo filósofo idealista e seu compatriota, Friedrich Nietzsche, cujos livros também falam ("Assim falava Zaratustra" até fala demais...). Basicamente, o eterno retorno representa a negação do tempo e da afirmação de uma eterna instantaneidade à qual tem acesso apenas a consciência desperta. O Aleph de Jorge Luis Borges e o "satori" do budismo zen.

O que aconteceu há dez mil anos está a acontecer agora. O que foi sabido há dez mil anos pode ser sabido agora. O psicólogo Carl Gustav Jung punha a mesma questão noutros termos e falava de um estrato psíquico comum a todos os homens, em todas as épocas. Chamou Inconsciente (há quem prefira o termo "Ultraconsciente") Colectivo a esse reservatório de sapiência - e de loucura, caso o vaso transborde - onde estão inscritos os arquétipos do humano. Se, como diz Siddhartha, o caminho é do homem para si mesmo - e, como consequência, porque intimamente todos partilham de uma mesma matriz, de si mesmo para os outros - esse caminho terá que passar necessariamente pela navegação através desse mar desconhecido da mente. Há livros sobre a arte de navegar escritos assim. "Siddhartha" é um deles.

Hermann Hesse, um pacifista para quem a civilização ocidental estava amaldiçoada e cada indivíduo deveria demandar a sua natureza mais íntima, fez, aliás, psicanálise com um discípulo de Jung, no período de crise desencadeado pela eclosão da Primeira Grande Guerra. O contacto com as teorias de Jung (que, com Ronald Laing, haveriam de levar à antipsiquiatria, mas isso é outra história..), reorientou a sua vida e a sua escrita para obras como "Demian", "Peregrinação ao Oriente" e, principalmente, os clássicos "Siddhartha", "O Lobo das Estepes" e "Narciso e Goldmundo".

Buda está sentado em posição de lótus "dentro" do Inconsciente de Jung. É preciso matar Buda para ser Buda. A vida é contraditória. O livro "Siddhartha" também. Significa que está vivo

 

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quinta-feira, 6 de Junho de 2002

 

O Olhar de Um Budista Português Sobre o Livro

► Público, Quarta-feira, 5 de Junho de 2002

Há muitas e diversificadas maneiras de se ler "Siddhartha". Umas mais atentas e reverberantes do que outras. Paulo Borges, poeta, filósofo e professor, actual vice-presidente da União Budista Portuguesa e da Songtsen-Casa da Cultura do Tibete, já trilhava a sua própria estrada quando leu o livro. Terá, portanto, dele, uma visão mais distanciada. "Li o livro tardiamente, talvez há seis ou sete anos, quando já era budista há muito tempo. Sendo assim, o seu impacte foi porventura atenuado, porque o que de mais profundo encontro no livro já a vida e os meus mestres budistas mo tinham inspirado a descobrir em mim mesmo", diz o autor de dois livros sobre o modo de ser e estar português, "Do Finistérreo Pensar" e "Pensamento Atlântico, e que actualmente prepara a edição das obras de Agostinho da Silva, para a Âncora.

Paulo Borges olha com olhos multifacetados para Siddhartha, filho de nobres, que um dia abandonou o ter pelo ser. "Em Siddhartha, tal como em muitas obras de ocidentais sobre o budismo, há por um lado um certo desconhecimento da complexidade do Dharma do Buda, que assume aspectos bastante diversos conforme se fala do Pequeno Veículo, do Grande Veículo ou do Veículo de Diamante. E, por outro, há na obra, conforme fica bem nítido no diálogo entre Siddhartha e o Buda, a típica dificuldade do espírito individualista ocidental reconhecer que não há a mínima oposição entre seguir-se um mestre e ser-se obrigado a fazer o seu próprio caminho de auto-descoberta e auto-realização, superando a relação exterior entre mestre e discípulo", explica, reconhecendo embora que, "para além disto", Hermann Hesse, "não sendo propriamente um budista, não deixa de oferecer algumas das mais penetrantes visões do sentido da experiência budista".

Siddhartha aponta, segundo Paulo Borges, para "a superação de toda a moral". "A questão não está", diz, em "dever ser, isto ou aquilo, deste ou daquele modo, por esta ou aquela razão, mas antes ser, ser tudo, de todas as maneiras, sem nenhum porquê nem para quê, transcendendo mesmo a oposição conceptual entre ser e não ser". Unidade que o poeta português encontrara já "em Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa e Teixeira de Pascoaes, nos místicos de todas as religiões ou sem qualquer religião" e nele próprio, "ou seja, em tudo".

Se "Siddhartha" ecoará hoje nos corações dos jovens com a mesma força que ecoou sobretudo nas décadas de 60 e 70, eis uma questão, para Paulo Borges, "difícil de avaliar".

Se, por um lado, acentua que "há hoje um maior conformismo da juventude, encantada com a perspectiva do sucesso, do bem-estar material, dos prazeres fáceis e imediatos", por outro, torna-se-lhe claro que "quando o estado geral das consciências se torna tão medíocre como hoje acontece, há uma natural reacção de alguns indivíduos e grupos, que vão radicalizar a sua busca da verdade e da liberdade, a sua busca de quem realmente são". "É para esses, cujo número aumenta", conclui, "que Siddhartha, e sobretudo o mundo que para além dele se abre, têm muito a dizer".

"Siddhartha" é, em suma, para Borges, um romance para ser lido por "olhos que olhem e olhos que vejam. Olhos que considerem Siddhartha como um personagem literário, criado por Hermann Hesse, ou que o vejam como a possibilidade mais funda de cada um de nós. Olhos que identifiquem Siddhartha como alguém ou, pelo contrário, como o vê Govinda no final da obra, como todas as coisas, na unidade do seu eterno fluir dinâmico e múltiplo. Olhos adormecidos ou despertos".

Quando escreveu "Siddhartha", Hermann Hesse tinha um desejo.

Olhou de novo em seu redor, como se visse o mundo pela primeira vez. O mundo era belo, estranho e misterioso. Havia azul, amarelo e verde, havia céu e rio, havia florestas e montanhas, tudo belo, tudo misterioso e fascinante, e no meio de tudo estava o leitor, o que despertara, a caminho de si mesmo.

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► Público, quinta-feira, 6 de Junho de 2002

 

 

Richard Strauss

 

Poemas de Herman Hesse

e de

Joseph von Eichendorff

 

Frühling

Primavera

In dämmrigen Grüften

Träumte ich lang

von deinen Bäumen und blauen Lüften,

von deinem Duft und Vogelsang.

Nun liegst du erschlosen

in Gleiss und Zier,

von Licht übergossen

wie ein Wunder vor mir.

Du kennst mich wieder,

Du lockst mich zart,

es zittert durch all meine Glieder

deine selige Gegenwart!

 

Em túmulos crepusculares

Sonhei longamente

Com as tuas árvores, os teus céus azuis

O teu perfume e o teu canto

Agora aqui estás

Envolta em brilho e glória

Banhada em luz,

Como um milagre diante de mim

Reconheces-me

E atrais-me docemente;

E os membros tremem-me

Com a tua presença bem-aventurada.

*

September

Setembro

Der Garten tauert,

Kühl sinkt in die Blumen der Regen.

Der Sommer schauert

still seinem Ende entgegen.

Golde tropft Blatt um Blatt

nieder vom hohen Akazienbaum

Sommer lächelt erstaunt und matt

in den sterbenden Gartentraum.

Lange noch bei den Rosen

bleit er sehnt, stehn sich nach Ruh.

Langsam tut er die grossen

müdgewordnen Augen zu.

 

O jardim está de luto,

A chuva fria penetra nas flores.

O Verão estremece calmamente

Aproximando-se do seu fim.

As folhas douradas caem uma a uma

Do alto da acácia.

O Verão sorri, surpreendido e cansado,

No sonho moribundo do jardim.

Detém-se ainda longamente junto às rosas,

Procurando o repouso.

Lentamente vai cerrando

Os seus (grandes) olhos fatigados.

*

Beim Schlafengehen

Ao Adormecer

Nun der Tag mich müd gemacht,

soll mein sehnliches Verlangen

freundlich die gestirnte Nacht

Wie ein müdes Kind empfangen.

Hände lasst von allen Tun,

Stirn vergiss du alles Denken,

alle meine Sinne nun

Wollen sich in Schlummer senken.

Und die Seele unbewacht,

will in freien Flügen schweben,

um im Zauberkreis der Nacht

tief und tausendfach zu leben.

 

Agora que a jornada me fatigou,

O meu desejo ardente

Receberá com amizade a noite estrelada

Como uma criança fatigada.

Mãos, abandonai todo o trabalho,

Fronte, esquece todos os pensamentos,

Agora todos os meus sentidos

Querem mergulhar no sono.

E a minha alma, livre de vigilância,

Quer pairar com asas livres,

Para no círculo mágico da noite

Viver mil vezes profundamente.

*

Im Abendrot

Ao Pôr-do-Sol

Wir sind durch Not und Freude

gegangen Hand in Hand;

vom Wandern ruhen wir

nun überm stillen Land.

Rings sich die Täler neigen,

es dunkelt schon die Luft,

zwei Lerchen nur noch steigen

nachträumend in den Duft.

Tritt her und lass sie schwirren.

bald ist es Schlafenszeit,

dass wir uns nicht verirren

in dieser Einsamkeit.

O weiter, stiller Friede!

So tief im Abendrot,

Wie sind wir wandermüde!

ist dies etwa der Tod?

 

Através de penas e de alegrias

Caminhámos de mão dada,

Agora repousamos os dois da viagem

Nesta terra sossegada.

Em torno de nós os vales inclinam-se,

O céu escurece já,

Só duas cotovias se elevam,

Sonhadoras, no ar perfumado.

Aproxima-te e deixa-as esvoaçar,

Em breve será hora de dormir,

Não vamos nós perder-nos

Nesta solidão!

Ó paz ampla e tranquila,

Tão profunda ao pôr-do-sol!

Como nós estamos cansados da viagem!

Será isto talvez a morte?

Tradução: Rui Vieira Nery■