«O DEUS DAS MOSCAS»:

UM LIVRO E UM FILME

TEXTOS DE AC EM 1990 E 1991

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1-2 <golding-md-1-2> sexta-feira, 7 de Novembro de 2003

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1-1 < 90-08-09-ls> leituras do afonso  - <golding-1>

 

9-8-1990

 

LEITURAS DE VERÃO

NA HORA DA ABORDAGEM (**)

Sem questionar grandemente a tese defendida pela editora Difel, na nota de apresentação do romance «Abordagem», na qual se considera o autor, William Golding, «um dos maiores, se não o maior escritor inglês de todos os tempos», há que saber, no mínimo, que méritos o recomendarão ao leitor português, que tem agora uma longa jornada por mar à sua frente, com a trilogia de que a Difel já publicou dois volumes: «Ritos de Passagem» foi o primeiro, logo seguido desta «Abordagem».(*)

A referir, antes de mais, a superior qualidade da tradução, assinada por Daniel Gonçalves, um veterano destas lides que transformou a técnica de traduzir em arte de traduzir. De facto, se William Golding é inegavelmente um bom escritor (em) inglês, a verdade é que com o português vivo e colorido que Daniel Gonçalves nos dá, nomeadamente nos prodigiosos diálogos em que o romance é fértil, quase concordaríamos com a hipérbole da nota de apresentação.

Garantido, por outro lado, neste romance que eterniza uma viagem por mar, em veleiro pouco seguro e confortável, supostamente situado nos princípios do século XIX, é o «ambiente fechado», espécie de «huis clos» tão caro a certos autores modernos, onde paixões, emoções, sentimentos, rancores, ódios e etc,. parecem sempre estar prontos a explodir, tal e qual como numa panela de pressão sem apito...

Nesse aspecto, a figura do padre Colley, que comparece (e desaparece) no primeiro volume da trilogia - « Ritos de Passagem» - simboliza da forma humana e literariamente mais curiosa, toda esta galeria de gente apanhada por William Golding na «ratoeira». Afinal, e como se costuma dizer, a humanidade está toda no mesmo barco. E neste barco de William Golding não custa nada e perceber que está uma boa parte dessa humanidade, para sempre retratada, com impiedade, nas suas baixezas e vilanias, mas também em algumas das suas (raras) qualidades, virtudes e nobrezas.

Se Golding não é o maior escritor de todos os tempos, é pelo menos um escritor de contínua sedução, para nos queimar bom tempo à beira mar. Sem dúvida. Até porque mar é o que não falta nesta trilogia transoceânica. Encha-se de coragem, faça-se às ondas e meta-se à «abordagem». Ganha no mínimo uma fabulosa galeria de retratos humanos que o autor, impiedoso, tão bem lhe sabe descrever.

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(*) «Abordagem» e «Ritos de Passagem», de William Golding, Ed. Difel

(**) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «A Capital» - «Leituras de Verão» - em 9 de Agosto de 1990

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1-1 < 91-09-15-ls> leituras do afonso  <moscas>

 

15-9-1991

A memória filogenética da humanidade através de um bando de miúdos, condicionados por todos os conceitos e preconceitos de uma «civilização superior» como a si mesma se considera a sociedade britânica, («the best», diz-se a certa altura dos diálogos).

Mas também é uma história de edificação e proveito: como reaprender as mais elementares técnicas de sobrevivência e as mais elementares regras de organização social.

Nas entrelinhas, no entanto e entretanto, pode ler-se que os (pre)conceitos de outra sociedade, dita evoluída e civilizada, não servem para nada nesta outra, feita de elementares necessidades de sobrevivência, mas continuam a vir ao de cima, supérfluas e frívolas na sua inadequação à (nova) realidade vivida por aqueles rapazes.

No pressuposto do (mito do) paraíso que seria lendário existir numa ilha deserta, o primeiro medo surge com a serpente (que poderá ser apenas um fantasma na mente aterrorizada das crianças) e depois com a fera (o outro fantasma que conduzirá ao caos e à violência declarada o relativo equilíbrio que as necessidades comuns tinham criado na comunidade). O frágil equilíbrio rompe-se e os mais civilizados praticam a mais primária «selvajeria», de nada servindo àqueles rapazes os costumes bem educados trazidos da civilizada Inglaterra.

Matam para comer como qualquer selvagem, enquanto um avião a jacto, para eles inútil na sua velocidade supersónica, sobrevoa a ilha sem ver nela os náufragos abandonados. Apesar de estar em jogo a sobrevivência colectiva, os egoísmos sobrepõem-se ao bom-senso e ao senso comum, caindo as primeiras vítimas dos primeiros algozes.

Visão com certeza pessimista da natureza humana -- mas que alguns preferem considerar apenas «realista», «O Deus das Moscas» é uma realização relativamente falhada de Peter Brook, mas uma história que merecia ser contada e que ganha assim uma audiência mais vasta que merece.

Um caso de livro que deu filme mas onde o filme remete, irreversivelmente, para a necessidade de ler o livro. E, já agora, a trilogia do mesmo autor publicada em tradução portuguesa do Daniel Gonçalves. ■