<foucault-md-1> sexta-feira, 7 de Novembro de 2003
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-alfinetadas - diario de um leitor atento
3-3-1992
O MAU GÉNIO DE FOUCAULT
2/3/1992 - Acho que nunca ninguém leu, em português, o livro inteiro de Michel Foucault, «As Palavras e as Coisas», além do seu paciente e castigado tradutor, o poeta António Ramos Rosa, que realizou aí, aliás, um dos seus trabalhos de Hércules e uma das obras-primas da tradução portuguesa, bem merecedora do Nobel. Mas dizer-se que Foucault é para ler, que se lê relativamente bem, se não for por obrigação de exame ou por dever de PGA, não concordo. A minha capacidade média de leitor médio, atento, venerador e obrigado, permite-me afirmar que avanço dez páginas por dia e que ainda não consegui capá-lo todo, o malvado. O mesmo acontece com a sua «História da Sexualidade», na edição brasileira da Graal em três volumes. E com a sua «Histoire de la Folie à l'âge Classique». Significa que sou um leitor atento, venerador e obrigado mas a paciência tem limites e o Foucault será um génio mas de leitura intragável, quer Eduardo Lourenço o Magnífico concorde ou não. Fazendo-me ter pena de não ser analfabeto. Tão chato como esta folha onde lavro o meu desespero. Está bem: a sua biografia, feita por um jornalista francês, o [---] , recentemente editada por Livros do Brasil, vem finalmente dar um sentido à perplexidade. A gente vai curar-se na biografia dos arranhões que apanha na obra, antes que infectem. É pelo menos mais interessante saber alguns episódios da vida íntima do Foucault -- que a coscuvilhice do jornalista obviamente explora -- do que seguir-lhe a prosa tão pouco sedutora. Prosa que só pode percorrer-se à velocidade de cruzeiro, ou seja, as 10 páginas por dia, + coisa - coisa. ■