1-3 <dolci-md-1-4> quinta-feira, 6 de Novembro de 2003
<dolci-1> notas de leitura – deve ter sido publicado na secção «futuro» (si e/ou nb)
ÉTICA DE AMANHÃ
1970 - Breviário de alguns tensas fundamentais - violência e consciência,
pacifismo e resistência passiva, desobediência cívica e objecção de consciência
- este precioso volume (1) é também um tratado de ética aplicada, já que
historia e relata, desde os primitivos cristãos até aos nossos dias, os vários
exemplos e momentos em que a consciência humana assumiu as suas formas mais
nobres e perfeitas de actuação. Se o homem se define pela consciência, na
espiral da evolução, então são esses exemplos a casos que representam a
vanguarda de uma acção humanista.
O comportamento sui-generis de um opositor é, com efeito, dos fenómenos mais estranhos e difíceis de enquadrar, através da História. Tal como a espécie humana na escala filogenética - uma aberração da Natureza, segundo alguns autores, teria dado lugar ao advento da inteligência - o resistente moral aparece também a olhos profanos como uma aberração, um erro da Natureza. Já que nesta tudo é violência e luta.
E hoje que a violência - como se concluiu pela experiência de séculos - é o único caminho para determinados diferendos e becos-sem-(outra)-saída históricos, mais ainda. Hoje que a guerrilha de esquerda, por um lado, e o terrorismo das direitas, por outro, instituiu a necessidade inelutável da violência, inerente ao extremismo político, o pacifista - seja ele místico ou ateu, católico ou protestante, quaker ou adventista, personalista ou maometano, provo ou hippie, budista ou cristão, anarquista ou sem filiação política definida – vai para o campo das utopias que só a imaginação concebe e alimenta.
Mas por isso mesmo a realidade do objector de consciência nos surge mais nítida e a oportunidade de livros como este mais flagrante, mais óbvia: é que se trata de arquitectar, hoje, o modelo do homem futuro. Trata-se de criar para novos tempos uma nova axiologia, para um mundo novo um novo humanismo. E o resistente moral oferece não só esse modelo mas o mais violento desafio. A utopia de acabar com a violência física. Contra um absurdo só outro absurdo e para remédio de uma loucura (negativa) só outra loucura de sinal contrário.
A greve da fome de Danilo Dolci e Gandhi, ou o holocausto pelo fogo de monges budistas, e tantos outros exemplos de "loucura" narrados na presente obra, ilustram uma realidade futurizante; são hoje as excepções daquilo que um dia terá de ser regra. Humanismos temos nós muitos, no campo da especulação teórica, muitos e de várias cores. Mas humanismo prático, aplicado, actuante, de constante exemplificação, é o que se historia neste breve manual básico da não-violência: porque só na prática histórica, incarnando na praxis, os humanismos tomam feição
Desde Antígona e Maximiliano, passando por Tomas Morus e Jesus Cristo, - o que guerreia a guerra, o que opõe a razão de consciência às razões de Estado (o singular ao plural) tem sido alvo não só do repúdio público como do pasmo e da incredulidade. Há sempre uma fogueira acesa para cada negador das "grandes" razões: eis o facto incontroverso e a constante invariável deste livro, exclusivamente dedicado a historiar e a Interpretar a actuação violenta. Mais longa seria ainda a narrativa, se aos autores tivesse interessado antologiar, também, o pensamento não-violento de tantos e tantos outros a quem o decisivo dilema se colocou: Violência ou Consciência.
- - - - -
(1) Violência e Consciência, de Henri Fronsac, Marilène Clément, lie-Raymond Regamey, Col. "'Mundo Imediato" , Nº 2, Moraes Editores, Lisboa, 1970
+
1-2 <71-03-20-ls> leituras do afonso -
<dolci-2> notas de leitura - profetas do futuro - clássicos do século XXI
DANILO DOLCI:
«A REVOLUÇÃO NÃO VIOLENTA» (*)
[(*) Este texto de Afonso Cautela foi
publicado no semanário «O Século Ilustrado» (Lisboa), na rubrica do autor
intitulada «Futuro», em 20/3/1971]
São personalidades como Danilo Dolci que, a partir do caos e da violência desencadeada, fundam a Nova Ética que regulará, num futuro próximo, as relações humanas.
Não se trata de um teórico escrevendo (para os outros) a teoria que não pratica, predicando o que não vive. Da experiência com os outros arranca Danilo Dolci - e isso narra neste novo livro aparecido em português - «Inventar o Futuro» (1) - para dela nos descrever o essencial. A autobiografia torna-se assim a biografia de um grupo que, por autoridade moral, num trabalho de resistência passiva e de absoluta não violência, vai transformando o mundo na medida em que vai transformando nele, com ele e apesar dele as «almas». Esta palavra «alma» aceita-se em Danilo Dolci, porque a sua formação de cristão o permite e autoriza.
Convivendo com as crianças, ele descobre que nelas se reencontra o mundo na sua frescura e virgindade iniciais. Descobre que as crianças ensinam o adulto. Danilo Dolci aprende com elas, é um seu discípulo dilecto e é isso que nos vem contar em «Inventar o Futuro». A sua comunidade, na terra mártir da Sicília, irá servir de exemplo e de estímulo a outras, em outros lugares da Terra onde, como na Sicília, violência e fome são faces do mesmo rosto. Contando a sua experiência vivida, Danilo Dolci concorre para que seja o espírito a vencer a violência, na batalha travada.
A sua figura humilde de asceta, tal como Linus Pauling e Bertrand Russell, ergue-se de vez em quando para protestar contra os que lançam bombas H com «jets». Nunca deixa de dizer o que entende certo e justo, ainda quando isso lhe custe dissabores, às vezes a prisão e muitas vezes o insulto dos activistas de todos o sectores políticos.
Outra coisa que o revolta: o «desperdício» que caracteriza ainda o «modos vivendi» das nossas sociedades ditas de consumo. O melhor dos indivíduos - esse capital insubstituível - fica por aproveitar. O mundo continua a ter necessidade urgente de toda a energia humana e, no entanto, pela fome ou pela repressão, pela segregação ou pelo linchamento, continua a destruir-se o que de mais precioso, existe sobre a superfície da Terra: o «valor» humano, a sua capacidade de criação, o seu poder de construir, de imaginar, de pensar, a sua disponibilidade de amor e de justiça. Porque se destroi tanto, se tanto o mundo necessita para se salvar? - é a pergunta angustiada e constante deste «profeta da esperança desesperada».
Segundo Danilo Dolci, razão tinha um filósofo quando chamava «sociedade do desperdício» àquilo que outros, menos avisados, chamam «sociedade do consumo». De facto, civilização do lixo (e do luxo), em que as próprias faculdades humanas se dilapidam, e dissipam como embalagens perdidas, sem proveito para ninguém, nem sequer para os que, retirando proveito imediato dessa «exploração do homem pelo homem», virão em breve a ser prejudicados também como comparsas que são de uma sociedade planetária na globalidade do seu desenvolvimento.
Para Danilo Dolci, é tão importante a economia como a pedagogia. E nisso enfileira entre os profetas de uma revolução pacífica que pretende não excluir nada da sua esfera e das suas preocupações. Como Edgar Morin (com quem tem tantas afinidades de fundo), Dolci apela para uma antropolítica e pratica-a.
- - - -
(1) «Inventar o Futuro», de Danilo Dolci, trad. de Maria Irene Frias e Gouveia, Col. Mundo Imediato, Moraes Ed., Lisboa, 1971.
(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no semanário «O Século Ilustrado» (Lisboa), na rubrica do autor intitulada «Futuro», em 20/3/1971
+
1-2 < 71-03-06-ls> leituras do afonso - <dolci-3> profetas do futuro - notas de leitura -
LER DANILO DOLCI (*)
[(*) Este texto foi publicado no semanário « O Século Ilustrado» (Lisboa), na rubrica semanal do autor intitulada «Futuro», em 6/3/1971 ]
Apóstolo de um pacifismo que não desarma, Danilo Dolci vem, na linha de
Gandhi e de Luther King, dizer-nos neste livro (1), da urgência que há em pregar
a «boa palavra», pois, na medida em que se multiplicarem as acções de boa
vontade, diminuirá a violência (acredita ele).
Os críticos do pacifismo chamam a isto reformismo e terão possivelmente, (a sua) razão. Mas vistas bem as coisas, e relendo os seus livros, Danilo Dolci não opta por um reformismo. Ele apenas diz que, quer a revolução violenta se faça quer não, a revolução não violenta terá sempre de fazer-se. E para isso vai adiantando. Uma tal atitude exige uma permanente tensão entre o niilismo e a esperança, pondo à prova as energias e disponibilidades de cada um: nem um instante de «relaxing» ou desatenção, todos os minutos serão contados e não podemos depor (abdicar) a responsabilidade de existir como homens em nenhum deus, governo, partido ou providencialismo histórico. Nada substitui a desperta actividade do homem que resiste e age resistindo, como Danilo Dolci pratica e predica.
«É fácil prever que, com o tempo, se imporá, necessariamente, uma nova figura de médico social, ou melhor, a de um grupo pluriespecializado que saiba colaborar na formulação - dos diagnósticos e das terapias, com base, não em leis mais ou menos dogmáticas, mas em análises das diversas situações.»
Lendo estas palavras de Danilo Dolci, ocorrem-nos as que diriam os apóstolos do cooperativismo, das comunas «hippies», da animação de grupo e ocorre-nos até a disciplina «conventual» dos «kibbutz» que, como iniciativas da base, não dependem do topo para funcionar.
Ler Danilo Dolci é ficar com um desesperado desejo de «agir», de acreditar nos homens e na sua capacidade de mudar o mundo, de trabalhar pela fraternidade humana e por uma civilização da fraternidade, enfim, pelo progresso verdadeiro que, se pode ser feito com a ajuda das máquinas, não depende só nem essencialmente delas.
«Actualmente, cada um tem à disposição - em média - uma energia milhares de vezes superior à que existia há poucos séculos.»
Estas palavras de «Inventar o Futuro» podiam ler-se em «Le Matin des Magiciens» ou na filosofia esotérica de Gurdjieff. Tudo leva a tudo, quando é o ponto central que se procura e pretende, quando não é o princípio do mal - o da desintegração, da análise, da dispersão centrifugante, do «yin» - o vício que exclusivamente nos impulsiona. Há ressonâncias iniciáticas na «praxis» de Danilo Dolci. Por procurarem a unidade, quantos profetas viram a fogueira? Quantos suicidas de Lille ainda terão que surgir? Quantos monges budistas imolados pelo fogo?
Mas é aí, por eles e com eles que, segundo a via de Danilo Dolci, o futuro nasce e se implantam os fundamentos de uma nova ética, é aí que a Nova Utopia vai enraizando alicerces.
Hão-se chover sobre Danilo Dolci as mesmas críticas que choveram sobre René Cassin (Prémio Nobel da Paz), agora que uma comissão universitária dinamarquesa lhe conferiu o Prémio Sonning. Mas é da «condição pacifista» ver-se atacado por todos os sectores extremistas. Porque serve, sem o querer, todas as violências organizadas? Eis a grande questão a debater.
De resto, manter-se firme no meio de todos os ataques faz parte ainda da moral estóica que António Sérgio ensinava e que até antologiou para breviário dos lutadores não violentos: todos conhecem os belos textos de Marco Aurélio. O estóico coexistirá no pacifista, se quiser enfrentar a violência da crítica e a crítica da violência.
A notícia da atribuição do Prémio Sonning ao «socialista italiano» Danilo Dolci foi dada nestes termos, pela Reuter, aos jornais portugueses:
COPENHAGA, 10 - Uma comiss5o universitária dinamarquesa conferiu a noite passada o Prémio Sonning de 1971 ao reformador social italiano Danilo Dolci.
O prémio, de 125 000 coroas dinamarquesas, foi concedido a Dolci, de 46 anos, pela sua luta contra injustiças sociais na Sicília.
Comissões foram criadas na Grã-Bretanha, França, Alemanha Ocidental e Suécia para auxiliar Dolci na sua obra e 30 parlamentares suecos recomendaram Dolci para o Prémio Nobel da Paz de 1966.
O Prémio Sonning é conferido por uma comissão eleita pela Universidade de Copenhaga por serviços prestados à cultura europeia.
O prémio foi fundado pelo editor C. H. Sonning, que faleceu em 1937. Foi concedido pela primeira vez em 1950 ao primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, e, mais tarde, ao filósofo britânico Bertrand Russell, ao cientista dinamarquês Niels Bohr e ao actor britânico «sir» Laurence Olivier.
- - - - -
(1) «Inventar o Futuro» de Danilo Dolci, trad. de Maria Irene Frias e Gouveia, Col. «Mundo Imediato,» Morais Ed., Lisboa, 1971.
(*) Este texto foi publicado no semanário « O Século Ilustrado» (Lisboa), na rubrica semanal do autor intitulada «Futuro», em 6/3/1971 ■