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1-5 <cristo-md-1-4> quinta-feira, 6 de Novembro de 2003
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A MÁXIMA DO DIA
Na casa de meu pai existem muitas casas .
Cristo
<90-01-12-di> - diário de um idiota - 1-3 - <cristo-2-ls> sc
VENTOS DE LIBERDADE NA HISTÓRIA DO CRISTIANISMO (*)
AS "ESCRITURAS SECRETAS"
Questionar o cristianismo nas suas origens é também o que pretende a obra de Irina Sventsitskaia, agora editada pela editorial Caminho e intitulada " Os Primeiros Cristãos - Páginas de História".
"Veremos - afirma a autora no prefácio - que o cristianismo não era, ao contrário das afirmações dos teólogos, uma doutrina única e uma "igreja" única".
Trata-se, pois, de uma tese bastante polémica relativamente à "igreja universal (católica) ou ortodoxa" , para provar a qual a autora se baseia num aparelho crítico e erudito de grande envergadura, que vai dos "primeiros grupos cristãos nas províncias orientais do Império Romano" (...) "até à transformação do cristianismo em religião dominante de todo o Império, no século IV."
Mas é com as "escrituras secretas dos primeiros cristãos" que a obra de Irina Sventsitskaia ganha fôlego de narrativa dramática, descrevendo, em pormenor, " a luta de correntes no cristianismo do século II" ou as "lendas apócrifas sobre a infância de Jesus e as personagens evangélicas".
O mito da unidade "católica" (o famoso ecumenismo da Igreja) parece desfazer-se assim à luz de uma análise histórica exaustiva, como a que realiza Irina Sventsitskaia, pondo em questão alguns pontos dados como assentes no corpo da doutrina mas, principalmente, evidenciando as "inquisições" e "censuras" que, através dos séculos, o cristianismo praticou sobre os seus próprios textos, antes mesmo de o fazer com os textos dos outros...
"Ao analisar - escreve a autora - os livros cristãos não reconhecidos pela igreja, convencemo-nos de que nunca existiu uma doutrina cristã única e harmoniosa e de que os cristãos discutiram incessantemente uns com os outros, sobre questões da dogmática, da ética e do ritual, e mesmo sobre determinados "factos da biografia" de Jesus."
Fazendo um balanço das "questões mais importantes para os cristãos, em torno das quais existiam sérias divergências", a autora refere, antes de mais, a "figura do próprio fundador e da nova doutrina", "considerado por um grupos de cristãos como profeta, por outros como deus-homem, por outros ainda como Logos existente desde sempre."
Até certa altura da época pós-Cristo, os cristãos podiam ler tudo, "obras escritas nas mais diversas comunidades cristãs". Mas, como diz a autora, essa situação só existiu até à elaboração - pela Igreja ortodoxa vitoriosa - da lista dos livros "repudiados".
Durante três séculos, "o cristianismo deixou-se impregnar das mais variadas correntes: "essa tradição reflectia as opiniões, os interesses e as aspirações das diversas camadas da sociedade e absorvia traços do messianismo judaico, dos cultos orientais, particularmente egípcios e da filosofia idealista greco-romana."
Mas, decorridos três séculos, esta linha heterodoxa "mergulhou" e passa à clandestinidade; e "ao longo de toda e Idade Média, nos diversos movimentos religiosos a que a igreja chamou heréticos, desenvolveram-se ideias, expressas por grupos cristãos dos séculos II e III.
Mais " o estudo das escrituras a que a igreja chama secretas e falsas, mas que na realidade eram veneradas no princípio da nossa era por um considerável número de crentes cristãos, permite reconstituir a verdadeira história do cristianismo inicial e compreender como foram compostos os seus livros "sagrados".
ORTODOXIAS MORIBUNDAS
Inesperada e curiosamente (ou talvez não) a questão da "heresia" volta à ribalta do nosso tempo, que se caracteriza exactamente pelo desmoronar dos grandes impérios monolíticos baseados em dogmas e tabus intocáveis.
É um sinal de que a heterodoxia - o espírito da liberdade - está abrindo brecha na rocha granítica da ortodoxia: é um sinal não só de esperança e alegria mas também de que os historiadores não servem só para limpar o pó aos arquivos e móveis dos tempos idos.
O que é a heresia, porque surge e como se mobilizam as instituições para a combater, é o tema que para já pode ser retirado de obras tão interessantes e fascinantes como esta da historiadora soviética.
Resumindo o que não pode ser resumido, importa no entanto dizer que livros como este sobre "Os Primeiros Cristãos" se podem ler como o mais fascinante romance de aventuras, policial ou... de espionagem.
E, no fim de contas, com muito mais proveito e edificação dos nossos espíritos, que mostram às vezes uma excessiva tendência para se acomodar às visões estereotipadas , às histórias da Carochinha que as instituições e seus ideólogos nos contam como sendo a verdade dos factos e a evidência das realidades.
Em casos como este, a investigação historiográfica toca assim as fronteiras da imaginação, talvez porque a realidade e a verdade só nos possam ser devolvidas com o mínimo de "decência" através de um imenso esforço do espírito para afugentar os fantasmas da ideologia. Ideologia que, em nome da religião ou da ciência, as instituições levaram séculos a instilar e a difundir nos nossos cerebelos.
REGRESSO ÀS FONTES
Se a estas duas obras de tradução, juntarmos o original português de Moisés Espírito Sento, intitulado (???) (que em outra altura havemos de referir em mais pormenor), é inegável que a "tentação do Oriente" e o apelo da "heresia" que emana das fontes originais, se torna cada vez mais forte para os que, "contemporâneos do futuro", investigam com esse único objectivo o passado.
Ao compreendermos como esse passado está bulindo com as "infraestruturas" das nossas imensas e largas autoestradas, algo se vira no desespero contemporâneo e transmuta em seu contrário: é já a madrugada da grande, grande noite "obscurantista", a luz ao fundo do túnel (como dizia o outro), o acordar depois do pesadelo.
Vencida a virose da modernidade e das tecnoideologias, saber-se-á muito melhor que o progresso está no regresso à sabedoria das fontes originais (e orientais, portanto).
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado, provavelmente durante o ano de 1990, quando já teclava em computador, na «Crónica do Planeta Terra» do jornal «A Capital»
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CRISTO APRENDEU NA ÍNDIA(*)
[(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado na «Crónica do Planeta Terra», do jornal «A Capital», em data por identificar, vagamente próximo do ano de 1990]
A figura de Cristo continua a inquietar os homens, nomeadamente os investigadores do passado e/ ou contemporâneos do futuro. Quase dois mil anos decorridos, Cristo ainda não terminou o mandato, ainda não esgotou a missão perturbadora. O seu apelo não nos deixa em paz.
Curioso é que duas editoras de clara conotação com uma (1) ideologia de Esquerda, Caminho e Difusão Cultural, tenham publicado recentemente duas obras que fazem intensa luz sobre os aspectos heterodoxos de Cristo que a hierarquia e a ortodoxia católica mais têm escamoteado.
Que Cristo tivesse andado na Índia e aí tivesse feito a sua aprendizagem iniciática, não é um acidente de percurso e pormenor de somenos: é , pelo contrário, uma tese de tal modo subversiva dos esquemas vigentes na ecúmena católica que se torna, ao tocá-la, fogo.
No livro agora traduzido para a língua portuguesa e editado pela Difusão Cultural, Holger Kersten limitou-se a investigar e, se alguma vez pretende doutrinar, é com base em relevantes ou indiscutíveis factos históricos. Ao provar as fontes orientais da cultura cristã, o livro de Holger Kersten dá início a uma colecção, designada "Milénio", cujo nome é só por si um programa .
De facto, com este novo tipo de investigação historiográfica, trata-se não só de refazer a outra luz alguns mitos persistentes mas também de construir, com lucidez radiográfica e inteligência crítica, valores humanos e religiosos que os dois últimos séculos, de ferro, fogo e radioactividade, levaram ao paroxismo da destruição fanática, em nome da ciência, da tecnologia e do progresso.
Do Oriente vem a luz , afinal, e é para lá que temos de nos voltar. Saber que Cristo aprendeu na índia o que viria ensinar na Europa, vira do avesso quase toda a lenda que nos ainda tem sido pintada e o sentido da história como a entendemos.
OBRA E AUTOR
Ao longo de cinco anos de investigação rigorosa e profunda, de Israel e do Médio Oriente ao Afeganistão e à Índia, o autor recolheu dados e testemunhos impressionantes, pela possibilidade de serem provados cientificamente, sobre a vida de Jesus Cristo, chegando a conclusões tão extraordinárias como: Jesus adoptou os princípios do budismo; a Crucificação não lhe provocou a morte, que foi apenas aparente; ou ainda que, após a "ressurreição", Jesus viveu na Índia, encontrando-se o seu túmulo em Caxemira ...
Holger Kersten nasceu em 1951, em Magdeburgo, na República Democrática Alemã, tendo emigrado em 1962 para a Alemanha Federal. Entre 1973 e 1974 efectuou as suas primeiras viagens ao Oriente, visitando, em especial, a Turquia, o Irão e o Afeganistão. De 1974 a 1979 estudou teologia em Friburgo, partindo a seguir para a Índia com o objectivo de prosseguir as suas investigações. Iniciou em 1982 o seu trabalho como escritor e colaborador de várias publicações periódicas. Reside actualmente em Friburgo, na Alemanha Federal, onde esta obra teve já dez edições sucessivas.
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado na «Crónica do Planeta Terra», do jornal «A Capital», em data por identificar, vagamente próximo do ano de 1990
(1) "Jesus Viveu na Índia", de Holger Kersten, Difusão Cultural e "Os Primeiros Cristãos - Páginas de História", de Irina Sventsikaia, Editorial Caminho ■