<propos—0>=<propos-1>+<propos-2>+<propos-3>+<propos-4>- mein kampf 97 – diário de um consumidor de medicinas

O RENASCIMENTO DE HIPÓCRATES

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3/12/1997 - Mais do que nunca e contra todas as aparências em contrário, a verdade é que estamos a assistir a um verdadeiro «Renascimento de Hipócrates». As medicinas ecológicas, ditas também «naturais» ou «alternativas», estão na moda e já ninguém duvida de que elas existem: lembrar os precursores das medicinas naturais e o trabalho realizado pelos que, apoiados na tradição hipocrática, levaram por diante as ideias holísticas de saúde e de conservação da saúde (opostas às da doença e prorrogação da doença) é o mínimo que se pode desejar.

Há que dizer, enquanto é tempo, uma palavra de gratidão pelos que há mais tempo e com maior teimosia têm, contra ventos e marés, mantido a linha de rumo correcta em direcção ao futuro próximo da Nova Idade de Ouro:

Um dos nomes a quem temos de tirar o chapéu é Indíveri Colucci, falecido com 109 anos e figura paradigmática da Naturopatia portuguesa.

O outro nome é o de uma respeitável e venerável instituição, a quem o País deveria uma homenagem, se estivéssemos num país: a Sociedade Portuguesa de Naturologia, que vai nos seus 85 anos de idade.

3/12/1997 «Renascimento de Hipócrates» podia ser o título para compilar apontamentos de 30 anos, ainda arquivados, em defesa das medicinas ecológicas, ditas também «naturais» ou «alternativas».

Finalmente elas estão na moda e já ninguém duvida de que elas existem: mas lembrar os precursores das medicinas naturais e o trabalho realizado pelos que, apoiados na tradição hipocrática, levaram por diante as ideias holísticas de saúde e de conservação da saúde (opostas às da doença e prorrogação da doença) é o mínimo que se pode desejar.

Os textos que a seguir se apresentam, podem constituir o rascunho de um novo texto a realizar para a revista «Vida & Natureza», onde se abordem episódios do movimento naturopático português.

Os artigos que sugiro à revista «Vida & Natureza» podiam começar com uma reportagem na Clínica fundada por Indíveri Colucci, falecido com 109 anos e figura paradigmática da Naturopatia portuguesa. É tempo de começar a escrever a retrospectiva, pegando naqueles fios que ainda é possível detectar: o referido Instituto de Paço de Arcos é um desse fios, outro é a Sociedade Portuguesa de Naturopatia (com 82 anos) e um terceiro é o sobrinho de Collucci, médico Dr. Indíveri. São, podem ser testemunhos vivos de um passado que não deve deixar-se morrer.

<propos-2>

NATURA MEDICATRIX A BOTICA DA NOSSA FÉ

31/10/1997 - Do animado debate promovido, ontem à noite, pela Maria Elisa na RTP 1, e que mais uma vez deu lugar de excepção ao que devia ser rotina - o direito à saúde e à escolha individual do regime terapêutico - não ficou muita coisa que merecesse comentário. Nem sequer as intervenções paleolíticas do senhor que se dizia representante da ordem dos Médicos. Nos últimos tempos, os encarregados de opinião enviados pela Ordem a estas coisas televisivas, têm vindo, não há dúvida, a perder «speed» e nível. Aquilo que se ouviu, nem no tempo pré-histórico do Dr. Gentil Martins.

De modo que só nos resta fazer a pergunta crucial que devia ter sido feita e não foi:

Afinal, o que é que cura? E quanto custa curar?

Esta a pergunta que continua sem resposta desde tempos imemoriais, ou apenas com respostas provisórias chamadas teorias. Pelo menos na história da medicina europeia tem sido assim. De Hipócrates a Paracelso, de Mesmer a Pasteur, várias hipóteses de trabalho, várias teorias foram defendidas, umas postas à prova e comprovadas pela prática, outras postas à prova e por comprovar (embora se insista alegremente nelas).

Se houvesse um prémio para a teoria, que embora sem grandes provas na prática, tem sido um sucesso (!!!), deveríamos dar esse prémio à teoria microbiana do famoso Louis Pasteur. Por mais que eminências da ciência tenham vindo afirmar o óbvio - de que o terreno é tudo e o micróbio quase nada - a teoria microbiológica do senhor Pasteur (da qual ele duvidou já no fim da vida) continua imperante sem nada que se lhe compare.

Olhando à nossa volta, compreende-se o porquê de tanto sucesso.

Por isso a terapêutica - que uns consideram arte, outros ciência e outros... indústria - continua problemática, submetida a constantes revisões de doutrina.

Se o que cura é a Natureza - como sempre têm dito todos os sistemas de medicina através dos milénios, nomeadamente o de Hipócrates, fundador da medicina europeia - então a resposta fica dada de uma vez por todas, venham as teorias que vierem para nos distrair.

Por isso o charlatanismo invade os hábitos e, tenha ou não razão, é lá que o abandonado consumidor se refugia, à míngua de melhores resultados.

O facto de a ciência médica nunca ter conclusões seguras, anunciando há séculos que a grande descoberta da grande cura está para breve... - isso não impede que as pessoas estejam doentes, cada vez mais doentes, e continuem sofrendo.

A dor humana não fica à espera dos relatórios que saem dos gabinetes, das academias, dos laboratórios, após laboriosa e demorada gestação.

Não admira, portanto, o fenómeno de massas que se observa, a fuga desordenada de multidões em direcção àquilo que lhes cheira a milagre, panaceia, conforto ou cura.

Há que compreender as razões desta fuga para o charlatanismo, antes de julgar e condenar.

Alguns órgãos mediáticos são expeditos a julgar, a condenar e a exibir na praça pública os casos de charlatanismo popular, jamais dando relevo igual a outro charlatanismo que se rotula e desde que se rotule de «científico».

O padre Lourenço Fontes, em Vilar de Perdizes, com a desculpa da etnografia, tem dados bons argumentos à medicina, até porque os jornais e telejornais logo se apressam a chamar àquele encontro de bruxos e curandeiros um «congresso de medicinas alternativas» (!!!!). Por ignorância ou deliberada má fé, a verdade é que a cena se repete todos os anos, com alguém a rir-se muito nos bastidores.

As pessoas fogem para a bruxa e o curandeiro, porque não encontram resposta na grande e conspecta ciência. (Que, diga-se entre parêntesis e em abono da verdade, nem uma constipação sabe curar.)

As pessoas fogem para o bruxo, porque nos lugares do fim do mundo onde habitam, não chegam médicos que para benfeitores de certeza eles não foram nascidos.

À margem da medicina oficial, hão-de sempre proliferar os charlatães, enquanto as medicinas naturais, não ortodoxas, a que alguns chamam paralelas e outros diferentes - e outros ainda heréticas - não ocuparem, de jure, o lugar que de facto lhes pertence.

Para lá de ser um direito humano fundamental - consignado na Constituição da República Portuguesa, imagine-se! - o direito de escolha é também um dever: porque todos nós temos, mais do que o direito, o dever de tratar da nossa saúde:

1 - Tratar da nossa saúde é um dever e chama-se Holística (englobando as chamadas terapias naturais)

2 - Tratar da doença é um direito que fica caríssimo ao Estado (a nós todos) e chama-se segurança-social-sempre -em-estado-de-sítio-a-ameaçar-bancarrota.

O direito à existência das terapias diferentes e o direito de cada um - paciente, doente, consumidor, beneficiário, contribuinte, eleitor... - gastar da botica em que tenha mais fé, é de facto o óbvio ululante.

Mas quantos séculos, bom deus, para que o óbvio possa vencer?

<propos-3>

LEMBRANÇA DE COLUCCI ( 1879-1988)

Seja qual for a crítica que se possa ou deva fazer hoje ao método terapêutico e aos princípios neo-hipocráticos de Indíveri Colucci, nascido em 8 de Dezembro de 1879 e falecido em 1988, com 109 anos de idade, todos teremos que reconhecer quanto lhe deve a medicina natural portuguesa.

Ele não foi o pioneiro mas foi o que mais batalhou - mais anos e com mais força - a favor do grande princípio hipocrático de que a natureza é que cura.

Não foi o pioneiro e o precursor, mas foi aquele que lutou, durante décadas, contra o obscurantismo dos que o acusavam de obscurantista e charlatão. A Ordem dos Médicos instaurou-lhe mais de 10 processos por charlatanismo e nem um só conseguiu ganhar.

A defendê-lo, Colucci tinha os milhares de doentes que curou ao longo dos anos.

Lembrá-lo e estudar-lhe a obra (ainda válida em muitos e variados aspectos) é o mínimo que se pode esperar da actual classe terapêutica.

Dialogar com os livros que ele deixou, ampliar-lhe as hipóteses de trabalho, submeter a sua doutrina à prática, prolongar, de maneira criadora, o sistema por ele preconizado - é a melhor homenagem a prestar-lhe.

Nos últimos anos de vida, empenhou-se em transformar o Instituto de Paço de Arcos, em uma escola de medicinas alternativas. O projecto fora apresentado ao ministro da saúde de então: uma escola, um hospital e uma clínica.

Colucci pensou que, em Portugal, um bom projecto e uma boa intenção, bastariam para vingar. Onde ele se foi meter. Aquilo de que qualquer governo de bom senso se poderia orgulhar, sofreu todos os boicotes possíveis e nunca foi avante.

Aos historiadores da nossa história oculta era interessante vir a indagar porquê. Ou melhor: quem impediu que o projecto se viabilizasse, se havia tudo o que era preciso, além de um bom projecto: casa, dinheiro e um legado excepcional, o método colucciano.

Vendo debates pré-históricos como o que Maria Elisa promoveu na RTP, em 30 de Outubro de 1997, interrogamo-nos sobre o triste destino de viver neste país, talvez aquele onde mais cedo e com mais força as medicinas naturais floresceram.

A mediocridade exibida em toda a linha de tão útil como inútil debate, faz pensar no destino inquietante que os grandes homens, os grandes criadores, os heróis de consciência e de acção, têm neste rectângulo esquisito chamado Portugal.

Provavelmente estará um novo Colucci entre os ilustres convidados daquela noite: Helena Vaz da Silva, eurodeputada; Joaquim Mendes Teixeira, um inteligente gestor de uma firma de produtos naturais; João Nunes Abreu, enviado especial à Patagónia; Deolinda Fernandes, directora da Escola Superior de Medicina Tradicional Chinesa ; Pedro Choi, que gosta de ser chamado ao telefone mas por Pedro Choy, com ypsilon; Borges de Sousa, Machado Cândido e Hélio Pereira, personalidades muito activas do meio médico-naturopático português.

Afinal as medicinas naturais já não comem criancinhas ao pequeno almoço, ou será - deuses! - que ainda comem?

Enquanto não temos a resposta para tão inquietante dúvida, prestemos homenagem a Indíveri Colucci lembrando alguns dos seus pensamentos sobre os princípios que toda a vida o orientaram.

«Enquanto a Alopatia se dedica ao sintoma, sem nunca se preocupar com a causa das doenças, guia-se sempre pela ideia de tratar a doença e não o doente, nós tratamos o doente e não a doença, preocupamo-nos sempre com as causas.»

«A forma como a Alopatia trata é justamente a causa fundamental do aumento considerável dos doentes crónicos.

«Todo o doente que vem aqui ao Instituto é (com raras excepções) doente crónico. Uma história de 15, 20 anos com medicação química até um estado de miséria.»

«O mérito do nosso tratamento é que excluímos rigorosamente toda e qualquer medicação química. Nunca receitei um simples purgante. Aos próprios produtos dietéticos industrializados não damos importância, porque nos alimentos naturais encontramos tudo o que precisamos.»

«É corrente, numa grande percentagem da população, quer entre médicos quer entre pessoas cultas, haver conceitos errados sobre Medicina Natural. De que são práticas espiritistas, tudo com uma base não científica.

«É uma ignorância que já não se justifica, principalmente entre os médicos. Se a Medicina Natural já foi empirista, hoje não é.»

«A Medicina Natural assenta em bases que a Medicina Oficial utiliza, reconhece e valoriza. A começar na Dietética, especialização dentro da própria Medicina.

«Uma outra base comum são os agentes físicos, especialidade também reconhecida pela Medicina Oficial.»

«A que vem a acusação de empirismo? A não ser que a Medicina Oficial também seja um nadinha empirista...»

«A Medicina Natural não pode substituir a Medicina de Urgência. Medicina de Urgência tem uma função, Medicina Natural tem outra. Ambas indispensáveis.»

«Se esta terapêutica natural se generalizasse, já viu o que seria das farmácias?»

Depois de ler esses pensamentos de Indíveri Colucci, compreendemos, afinal, perfeitamente a razão pela qual o projecto de uma escola de medicinas naturais por ele defendido, nunca chegou a concretizar-se.