1-3 <chardin-md-1-2> terça-feira, 11 de Novembro de 2003 <71-07-06-ls> leituras do afonso
+
<chardin-1> profetas do futuro - contemporâneos do futuro - clássicos do século XXI
A MULTIRRACIALIDADE NO PENSAMENTO
DE TEILHARD DE CHARDIN (*)
[(*) Este texto foi publicado no diário «Notícias da Beira» (Moçambique), na rubrica do autor intitulada «Notícias do Futuro», em 6/7/1971 ]
Algumas destas cartas (**) podem surpreender-nos por encontrarmos nelas
alguns dos preconceitos que, apesar de tudo, suporíamos que um espírito como o
do Padre Teilhard já não poderia ou deveria albergar. Apesar de tudo, teremos de
reconhecer que também Teilhard de Chardin não conseguiu, como qualquer outro
mortal e cristão, superar defeitos de mentalidade e vícios da formação cultural
recebida.
A menos que o coordenador destas cartas e seu destinatário, Claude Aragonnês, tenha feito piedosas alterações no texto original, para o deixar mais conforme com o ortodoxia (hipótese fundamentada pelas opiniões que o mesmo revela ao prefaciar o presente volume...), temos de reflectir, contrariadamente, sobre algumas limitações da óptica com que Teilhard observa outras raças, em chocante contraste com o universalismo humanista de tantas e tantas das suas visionárias afirmações ou das suas ideias-chave.
De facto, referências reveladoras de uma certa incompreensão dos povos extremo-orientais, fazem-nos acreditar que o cristianismo tinha ainda nele demasiado peso para que o budismo lhe pudesse aparecer na sua irradiante verdade original e na grandeza da sua religiosidade. Por ser tão grande - por ser quem é - é que no Padre Teilhard os preconceitos e as superstições da mentalidade cristã não só nos chocam muito mais, como nos confirmam de como são enraizadas e persistentes as estruturas herdadas de uma educação ortodoxa. Que estragos não terão feito esses preconceitos, em espíritos bem menos atreitos à tolerância e à caridade e ao humanismo, em mentalidades bem mais acanhadas que a do Padre Teilhard!
Só por um esforço de génio se compreende que, linhas após linhas, ele possa escrever coisas como esta, animadas novamente do ecumenismo que faz o alcance «revolucionário» da sua filosofia e da sua metafísica religiosas:
«Há, fora da Igreja, imensa quantidade de bondade e de beleza que certamente só se completarão em Cristo mas que, entretanto, existem e com as quais devemos simpatizar se quisermos ser plenamente cristãos e se pretendermos assimilá-las a Deus».
Há aqui, evidentemente, um cristocentrismo medular mas que nos soa já de maneira diferente. Aí, é mais o cristianismo que se alarga ao mundo e a todas as raças do mundo para as amar e receber, do que as outras raças e culturas que surgem como intrusas à pro- cura de um lugarzinho também à mão direita de Deus Pai, conceito este que tem inspirado toda a acção missionária entre os chamados povos «exóticos» ou «primitivos... Além de um cristocentrismo, existe nesta outra acção missionária, um europocentrismo ainda mais condenável.
Note-se, entretanto, como o Padre Pierre era sensível aos mundos estanques que são as diversas formações ou estruturas culturais, as mentalidades oriundas de núcleos institucionais ortodoxos como as Igrejas:
«Eu pensava no abismo que separa o mundo intelectual em que me encontrava e cuja língua compreendo, do mundo teológico e romano, cujo idioma também conheço. Depois de um primeiro choque à ideia de que este pudesse e devesse ser tão real como aquele».
Tais dúvidas e tal choque num espírito como o seu, só comprovam de como o «racismo» (entendido também como choque de religiões e não só de raças) é algo de muito arreigado no espírito ocidental, e de como nos é doloroso e difícil apartarmo-nos da cultura materna, e de como o trabalho de aculturação e a multiracialização da nossa filosofia é um trabalho de primeira instância, de absoluta prioridade, exigindo de nós as mais nobres energias intelectuais e morais e o mais apaixonado esforço de transplantação - ou, se quiserem, de adaptação, de humildade, de humana convivência e comunicação.
Hoje - e como nos lembrou sempre o Padre Teilhard - o grande problema é esse: o do Uno e do Múltiplo, como ele diria, o da policulturalidade ou da relatividade cultural, como nós diríamos. O «nacionalismo» terá de morrer a todos os níveis, mas o último a morrer, o mais difícil de exterminar das nossas mentes, mesmo esclarecidas e reeducadas, será com certeza o nacionalismo cultural, quer dizer, um europocentrismo que tem, desde Marco Polo, marcado das nódoas mais abjectas os países e povos do mundo onde tocou.
A Paz Branca foi a maior e mais persistente guerra travada à superfície do globo. E que o século XXI venha a ser o século do convívio entre as culturas, as raças, nações e povos - exterminados todos os preconceitos e tabus que são ainda a constante do século em que vivemos - eis o voto que com mais segurança podemos emitir, na peugada do Padre Teilhard. Se vencermos esse ancestral «pecado» da nossa condição, avançaremos e progrediremos tudo o que, em outros campos, tivermos regredido e retrocedido por culpa de uma tecnologia loucamente aplicada por políticas de loucura.
Sob todos estes pontos de vista, Cartas de Viagem é um dos volumes mais decepcionantes de Teilhard de Chardin. Mas, pensando melhor, não será por isso mesmo um dos mais representativos, um dos que melhor contribuem para os seus impenitentes admiradores - quase sempre apaixonados e tendenciosos, incapazes de compreender melhor o grande jesuíta por demasiado o amarem, sem crítica, sem distanciamento, sem critério e sem prospectiva - efectuarem um valioso balanço do seu pensamento.
- - - -
(*) Este texto foi publicado no diário «Notícias da Beira» (Moçambique), na rubrica do autor intitulada «Notícias do Futuro», em 6/7/1971
(**) Cartas de Viagem, Pierre Teilhard de Chardin, col. «Documentos Humanos», nº 25, Portugália Editora, Lisboa, 1909, Trad. de António Ramos Rosa.
+
1-3<71-07-13-ls> leituras do afonso
<chardin-2> profetas do futuro - clássicos do século XXI -
A MULTIRRACIALIDADE NO PENSAMENTO
DE TEILHARD DE CHARDIN - II (*)
[ (*) Este texto foi publicado no diário «Notícias da Beira» (Moçambique), na rubrica do autor «Notícias do Futuro», em 13/7/1971 ]
Permitindo-nos aquele (necessário) distanciamento que só uma certa
hostilidade provoca, Cartas de Viagem (**) elucidam-nos alguns aspectos
obscuros, ou menos conhecidos, de uma personalidade e de uma obra da qual, quase
sempre, se estudam apenas as etapas mais evoluídas e praticamente definitivas.
Escritas entre 1923 e 1939, essas cartas revelam-nos muitas das hesitações que ainda magoavam o espírito do grande sábio e o árduo caminho que ainda teria a percorrer para chegar às suas intuições mais originais.
Como as fraquezas de um grande homem nos ajudam de facto a compreender melhor a sua estatura! Talvez porque nos ensinem o esforço de auto-crítica e de auto-aperfeiçoamento que lhe foi imposto e necessário, para de estádios relativamente primários do pensamento evoluir até estádios que hoje muitos consideram próximo do genial.
As grandes sínteses de Chardin não foram «dádiva divina», sabemo-lo agora. Cartas de Viagem dizem-nos que Chardin era ainda, em 1923, um pobre homem ocidental, dominado pelos preconceitos que dominam outros tantos (milhões de) pobres homens ocidentais, enjaulados no seu europocentrismo sem horizontes, ainda não iluminados nem esclarecidos, numa fase ainda bastante recuada da espiral da evolução.
No entanto, neste mesmo volume, onde há observações rasando o mesquinho e o pueril, o preconceituoso e até o francamente racista, lemos coisas onde já está presente a dimensão visionária que dominaria, anos depois, o pensamento teilhardiano, como esta:
«Eu desejaria (...) exprimir a psicologia (esse misto de orgulho, de esperança, de decepção e de expectativa) do homem que já não se vê a si mesmo como francês ou chinês, mas como terrestre.»
Isto, em 1923, é o que ainda muito poucos sentem com o fervor de Chardin...
«Quanto mais avanço em idade, mais me sinto decidido a viver acima das preocupações políticas e nacionais, (...) e a expor abertamente o que penso, sem me preocupar com aquilo que os outros dizem ou disseram».
«(...) Tu sabes que, para mim, estas disposições nada têm de anti-cristão; pelo contrário. Considero-as como um apelo à manifestação insubstituível de um Cristo maior».
Lendo isto, que sentimos ser o genuíno Teilhard de Chardin, chegamos a perguntar-nos se aquilo a que chamámos leviandade, frivolidade ou preconceito não teriam sido afirmações constrangidas pelo receio de que o considerassem anti-cristão. Não as teria ele escrito sob uma ameaça de rigorosa censura e severa punição? Ou tê-las-ia escrito alguém por ele, alguém dos que podem ter-lhe (re) tocado os manuscritos?
De facto, chega a parecer incrível que um espírito como o de Teilhard se deixasse cair em tão flagrantes contradições, quase em anos e páginas consecutivos.
Haverá aqui um mistério Chardin a decifrar por seus futuros exegetas? Ou os que tiveram acesso às fontes (aos manuscritos), tê-las-iam deturpado e corrompido definitiva e irremediavelmente, quem sabe se com a piedosa intenção de livrar de maiores dissabores o irrequieto Padre Pierre?
Deixo o desafio aos «paleontologistas» do Padre Teilhard de Chardin.
Mas - por outro lado - não serão essas mesmas e consecutivas contradições que nos dão a verdadeira estatura humana (logo dialéctica) de Teilhard, a sua estrutural honestidade, a sua sinceridade sem limites? A sua grandeza não advirá exactamente de ter sabido ir de um extremo a outro, de um a outro termo das antinomias, que ele se sentia capaz de superar mas nas quais inevitavelmente se enredava enquanto delas se não libertava?
Se como cristão lhe era interdito e difícil encontrar, compreender as outras formas de religiosidade e cultura, não-cristã, não será exactamente maior o mérito de ter vislumbrado o «aggiornamento», o «diálogo», a compreensão e o ecumenismo?
Não será miopia supor que houve mão ímpia (embora piedosa, no intuito de proteger o autor de Le Milieu Divin...) a (re) tocar-lhe, a torcer-lhe os escritos manuscritos? Não serão, mesmo assim, com suas limitações e, apesar delas, com elas, contra elas, cheios de intuições de génio, de visionarismo messiânico, de originalidade teórica e metafísica, edificando o máximo da síntese e de universalismo que é possível a um pensamento de formação científica, logo analítica e particularista?
Esta - a tensão entre os extremos, o querer abarcar o sim e o não, o pró e o contra, o cristão e o não-cristão - não será a característica de Teilhard e de todo o espírito para quem nada do que é humano lhe pode ser indiferente?
Ao criticá-lo, ao admirá-lo com certa perspectivação crítica, ao evidenciar fraquezas e limitações e incoerências (?), compreendo (contraditoriamente) melhor o seu tamanho de pensador que constantemente superou tudo o que o limitava e se superou a si próprio.
Digna do melhor iniciado Zen, é esta sua frase:
«O pão era bom para o nosso corpo, antes de conhecermos as leis químicas da assimilação».
Ter contactos com culturas estranhas, exógenas, não basta para mudar de mentalidade e manifestar capacidade (ecuménica) de compreensão e adesão a outras «humanidades». Desde Marco Polo, vários foram os europeus que tocaram o Extremo-Oriente, mas sempre de um ponto de vista a priori viciado: comerciante, pirata, explorador, missionário, colonialista, militar, caçador, etc.. Não se pode dizer que nenhum deles tenha contribuído grandemente para o ecumenismo e para combater a tradicional xenofobia do europeu perante o asiático, o chauvinismo europocêntrico, cristocêntrico e, quando Deus consentia, greco-romanocêntrico...
Chauvinismo que Teilhard de Chardin não aceitava, em determinada altura da sua evolução, parece assente se lermos o que escreve a propósito da independência da Índia:
«Eles (os indianos) querem a todo o preço a independência completa, com o risco de perecerem. Os ingleses dão de rédeas o mais que podem, mas não largam; suponho que eles têm razão. Quanto mais viajo no estrangeiro, mais temo que Genebra (de que sou, no fundo, partidário) numerosos católicos liberais e, mais particularmente, os meus confrades «missiólogos» cometam o grave erro de admitir, contra todos os ensinamentos da biologia, a igualdade das raças. Universalismo não é democracia (igual a igualitarismo).»
Estranha e paradoxal afirmação para quem escreve, nestas mesmas Cartas de Viagem, entre tantas dezenas do outras, inequivocamente anti-racistas, frases como esta:
«Se em si mesma, a exploração do espaço e do passado é um esforço no vazio, se o único verdadeiro conhecimento das coisas reside na previsão e na construção do Futuro gradualmente realizado pela vida - que melhor ocasião posso desejar para me iniciar e associar à edificação do Futuro, do que ir perder-me (...) na massa em fermentação dos povos da Ásia?»
- - - - -
(*) Este texto foi publicado no diário «Notícias da Beira» (Moçambique), na rubrica do autor «Notícias do Futuro», em 13/7/1971
(**) Cartas de Viagem, Pierre Teilhard de Chardin, Col. «Documentos Humanos», nº 25, Portugália Editora, Lisboa, 1969, Trad. de António Ramos Rosa■