1-9 <cesariny-md-1-6> quinta-feira, 6 de Novembro de 2003

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1924-1964:

SURREALISMO-ABJECCIONISMO(*)

(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no suplemento literário do «Jornal de Notícias» (Porto), em 16/Maio/1963

Vieram à tona editorial, na última semana, três antologias que exprimem três tendências, correntes ou movimentos afins.

Uma, devida a Jorge Daun, na colecção «Best-Sellers», põe em português, versos e prosa de alguns «destacados representantes da «beat generation» , jovens da casa dos trinta que se reunem algures, em Nova Iorque, para tocar «jazz», drogar-se e angustiar-se.

Outra, apresenta em duvidosa tradução, os depoimentos dos «angry man», que parece não estarem muito satisfeitos com a história que por ali se vai escrevendo. Quase todos fazem profissão de fé existencialista, por oposição à forte e dominante corrente analítica da Grã Bretanha, pátria dos lógicos.

Finalmente e por ordem de entrada no mercado, 32 autores coleccionados carinhosamente por Mário Cesariny de Vasconcelos.

Por muito diferentes que sejam (e são-no), uma atitude comum nos escritores destes três conjuntos: a cólera ou revolta contra um estado de coisas indesejável. Provam eles que há motivos para o desespero em toda a parte. E que, de certo modo, o mal dos outros é ainda um consolo para o nosso. Provam também estes escritores e grupos de escritores, que uma família de espíritos, dispersa pelo mundo, ensaia uma saída do mundo, país, cidade e quarto onde os meteram. Os dilemas cada vez mais dilacerantes impostos a quem não pode escolher mas tem de escolher, criam esta reacção em cadeia que é, no plano do espírito, o equivalente simbólico da reacção em cadeia no domínio atómico.

Além deste ponto comum - o reconhecimento de e a revo1ta contra uma Doença, Queda, Crise ou Abjecção - outras constantes se surpreendem nos escritores e grupos de escritores aparecidos aquém e além-Atlântico. Outra constante que é, por exemplo, o fastio, a desconfiança destes poetas perante as realizações consideradas mágicas e máximas da técnica moderna: a energia nuclear, o cérebro electrónico, os foguetes interplanetários, e também perante as «maravilhas» da matemática ou do avanço das ciências experimentais.

Sabe-se que nada será possível fora da ciência, ou contra a ciência. Mas sabe-se também que a ciência nada mais poderá (terá direito a) ser do que serva do homem. Não se nega a ciência mas também não se lhe atribui papel mais importante que o de meio para que o homem se liberte, dominando-se e dominando a natureza. Se é isto que sempre esquecem os loucos da lógica e os bêbado da técnica, é essa a função bem prática dos poetas: criar 1iberdade.

Estas constantes, porém, não autorizam ninguém a confundir movimentos ou modos caracterizados de reagir perante a mesma Doença, Crise ou Abjecção. Podem aparentar-se pelo ponto de partida comum mas distinguem-se, pelas vias, negativas ou positivas, que a sua revolta segue. Sintomas da Decadência, como alguns pretendem, ou prenúncios de uma revolução sui-generis como outros sonham, não há dúvida é que estes movimentos caracterizam a nossa época e recortam-lhe o perfil neurótico. Afluentes de uma única e grande corrente oposta às correntes alienadoras e desintegradoras do homem, esta juventude (e as suas manifestações, aparentemente apenas literárias), é um acto com que tem de contar-se na inexorável cadeia dos factos que vão fazendo, «malgré» eles e nós, a História. Um acto que, pelo menos, importa conhecer e reconhecer ainda que seja para os insultar.

Beatnicks em Nova Iorque, angry man em Londres, surrealistas em Paris, abjeccionistas em Lisboa - o lugar não importa (embora às vezes importe), o que (também) importa é a universalidade de fenómeno. E saber que, na história mas contra a história, se veio fazendo a única literatura viva do nosso tempo. Todos os escritores e movimentos de escritores verdadeiramente vivazes (vivos), arrancam, marcam posição contra a história Isto quer dizer que fora da história não há literatura que resista., mas que também não resiste a literatura a favor da história . Uma e outra, oscilando entre «a propaganda» e a «frivolidade» , nas palavras de Camus, morreu com aquilo com que nasceu, ou nasceu morta (academicismos, académicos).

Sem isto, sem este sentido crítico ou sentido da crise, não haverá literatura. Sem isto, é que nunca se compreenderá nada, nem de poesia, nem de surrealismo, nem agora de abjeccionismo. ( Poeta, nesta acepção, será o crítico, o escritor que - faça versos, ensaios, novelas, romances ou dramas - tem o sentido crítico deste tempo e deste mundo. E o menos crítico de todos é talvez e quase sempre o que faz críticas...).

Em que possam diferir estes escritores e movimentos de escritores importa menos, por agora, do que aquilo que lhes é comum. Interessa assinalar é que se distinguem dos (e opõem aos) movimentos puramente estéticos ou formais que agitam, de vez em quando, a bocejante pasmaceira das nossas montras de novidades; têm sempre, estes outros, o ar de escola reunida, de lição aprendida de cor, de moda que se adopta e adapta, de fórmula que se repete.

Micro-movimentos, de facto, puramente locais ou regionais, pouco alcance têm além do que os seus cultores lhes querem atribuir, através de insistentes críticas dos mesmos sobre os mesmos e de copiosos artigos doutrinais. Exemplos destes micromovimentos, encontramo-los principalmente na pintura, mas aí com toda a justificação, pois as pesquisas formais são, em pintura, tudo ou quase tudo. Em literatura, porém, a novidade formal vem por acréscimo, resulta inevitavelmente de um excesso de riqueza criadora. Por isso, aí, os movimentos formais são sempre de superfície e resultam académicos, já que a revolução técnica ou formal em literatura, tem de ser sempre consequência de uma revolução nas estruturas da personalidade do escritor (em relação a si próprio, em relação aos outros).

É esta diferença que contribui para discernir uma unidade (não uniformidade) de fundo nos macro-movimentos acima indicados, ao mesmo tempo que os distingue e separa, em conjunto, dos micro-movimentos de alcance meramente estilístico ou técnico ou estético, tristes documentos de um academismo que teima em sobreviver sob disfarces modernistas. Retomam todos esses micromovimentos, uma tendência que todos os movimentos verdadeiramente modernos têm combatido. A miséria da literatura confundida com a política, foi com efeito um dos alvos da luta surrealista e continuaria sendo o de todos os movimentos directa ou indirectamente a ela aparentados, partindo do mesmo ponto e alvejando o mesmo alvo.

Por isso é que sobre Surrealismo-Abjeccionismo - título da antologia que Mário Cesariny vinha há anos organizando e a tipografia desorganizando - nem vale a pena falar. Se o que seja surrealismo não o aprenderam eles, os cronistas, ao longo de 40 anos, muito menos poderão entender o que seja abjeccionismo noutros quarenta. Diga-se apenas que o abjeccionismo poderá não ser muitas coisas, mas uma coisa há que nunca será: um movimento para agitar as artes, uma nova estética, uma receita para cozinhar romances ou poemas, quer dizer, uma forma mais ou menos mascarada, de colaboracionismo na Abjecção.

Um pouco para dizer quem vive, um pouco para dizer quem morre, um pouco para não ensinar imbecis e um pouco para indisciplinar almas à Fernando Pessoa, - medidas, todas elas, de largo alcance terapêutico e farmacêutico, higiénico e crítico, polémico e propedêutico - eis um pouco (um FRAGMENTO) do que tem sido a personalidade agente de Mário Cesariny, sal da sua Poesia, segredo da sua indecomponibilidade e um pouco (um FRAGMENTO) também do que pode ser esta antologia, - esta recolha de textos e documentos gráficos.

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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no suplemento literário do «Jornal de Notícias» (Porto), em 16/Maio/1963

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ALGUNS APONTAMENTOS

SOBRE SURREALISMO - AINDA (*)

 

[(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no suplemento literário do «Jornal de Notícias» (Porto) , em 22/6/1967]

15/Outubro/1966 - Inclui cartas, comunicados colectivos, esboços de manifestos, conferências, tábuas cronológicas, reproduções fotográficas, textos polémicos, etc., o volume que Mário Cesariny de Vasconcelos elaborou sob o título de "A Intervenção Surrealista" para a Editora Ulisseia.

Pelo título se poderia concluir que são surrealistas, na opinião do coordenador, quantos ali intervieram umas vezes por influxo da corrente francesa com esse nome, outras vezes sob a pressão de circunstâncias e acontecimentos, quase sempre no desejo de marcar posição em relação a coisas directamente circundantes, adjacentes. Mas que de todo esse heteróclito conjunto de documentos resulte uma unanimidade de propósitos, eis desde logo a questão que se põe, a pergunta que se faz.

Se é certo que cada surrealista entende à sua maneira os dados fundamentais de um movimento que André Breton codificou mas não limitou, é bem possível que a unanimidade tenha de ser substituída, neste e noutros casos, por uma variedade de intentos e de posições individuais que, apesar do grupo (formado, a formar-se ou a desfazer-se) não participaram de um propósito colectivo.

Se houve ou não houve tal propósito colectivo, quer dizer, se houve ou não houve surrealismo em Portugal, se as manifestações surtas com esse rótulo podem, de perto ou de longe, aparentar-se com as congéneres manifestações ocorridas em outros idiomas, seria porventura a pergunta que as pessoas interessadas fazem de há muito e que calculavam ir finalmente encontrar respondida no interventor livro de Cesariny.

No entanto, por agora, parece-me mais viável analisar a utilidade da colectânea independentemente de responder a tal pergunta (a que, diga-se já, o livro não responde) e de satisfazer ou não a princípios que, começando por não estar definidos em português, expostos e proclamados, acabam também por não ser da intenção explícita ou implícita do coordenador. Intencional ou não, o coordenador fez deste livro o seu definitivo testamento "em branco" e também, de passagem, o tribunal onde sova os acusados que lhe apetece e solta as iras recalcadas.

Aos absolvidos de tão temível cólera, subentende-se que Cesariny os considera de seu lado, não definitivamente surrealistas, talvez, mas inofensivos à causa. Do resto, não se salva ninguém; aos condenados que serviram de pano de fundo, de alvo e de pretexto para haver surrealismo "à moda de Lisboa", trata-os o insigne poeta com o sarcasmo, o desprezo, a auto-suficiência que em tal auto de fé se requeriam necessários mas que ele aplicaria com melhor justiça e proveito a outros sectores bem mais acres e culposos. A divisória estabelecida serve para um ajuste de contas quer com os surrealistas que nunca o foram, quer com os que estavam de fora e desejaram meter lá o bedelho ou a colherada crítica. A ver isto, "a gente que ainda estava à espera" e, entre essa gente a pessoa convidada a escrever sobre "A Intervenção Surrealista" deve pensar três vezes e, se nutre simpatias pelo surrealismo, evitar que o expurguem da confraria; se não nutre, preparar-se para uma saraivada em forma de comunicado colectivo.

Os surrealistas sabem, mas há mais alguém que também sabe: claro que houve aqui para toda a irreverência intelectual, um reconhecimento tardio, torpe ou ignorante; de tal se podem queixar não só os que Cesariny acolhe sob a sua asa protectora mas quantos não tiveram, porque não quiseram, patrono ou protector, traduzido ou não do francês. Que estamos no País mais anti-poético do Planeta, também me parece e têm razão as investidas que contra académicos e neo-académicos são historiadas, no volume. Que o poeta difícil ou impossivelmente porá pé em ramo verde nesta terra calcinada por academias que tão poderosas fortalezas erguerem, para seu uso e proveito, - também eles têm razão. Mas só os surrealistas? Só os que sob o rótulo Cesariny congrega? Só os que, não tendo outro lugar comum onde figurar, lhes valeu a amizade do autor de "Pena Capital" para passarem à história e à literatura?

Como, a não ser por favor, se justificariam hoje em letra de forma os destroços poéticos de H. R. Pereira e Pedro Oom, os mais contrários ao conceito surrealista da poesia como oficio da existência, como realização e acto absorventes, como extensão de responsabilidades a todos os instantes e recantos da vida?

Como a não ser por favor, se justificaria a inclusão do texto "Pelaguin", de Carlos Eurico da Costa, já que por intrínseca qualidade poética em nada se recomenda e muito menos como expressão polémica, crítica ou etc?

Esparsos rascunhos que estavam lá guardados na gaveta, não podem, só porque Cesariny os antologia, porque se incluem de chofre numa intervenção chamada surrealista, adquirir magicamente o mérito e representatividade que nunca tiveram nem teriam.

Inversamente, a ter de avaliar o mérito do surrealismo por tais amostras, onde iríamos cotar o surrealismo?

Pretexto para reunir algumas brincadeiras de alguns jovens que depois arranjaram mais que fazer e se marimbaram na poesia, não teria o Poeta Mário sido logrado no seu propósito e traído por excessiva boa fé?

Do surrealismo cada um abichou o que lhe apeteceu e calhava. Agora, incluído entre os ortodoxos, possivelmente até já nem se lembrava. A quem vier depois, (a quem "ainda estava à espera") e se queira servir do livro para instrução, escusado será repetir que pouco mais lhe acontece do que ver frases, abaixo-assinados, cartas pessoais (com os rancores sine que non), esboços de poemas, esboços de ideias, esboços de intenções, esboços de esboços, e uma tábua de datas a servir de memorando.

Nunca os surrealistas chefiados por Cesariny quiseram saber de quem os entendesse, embora os víssemos iradíssimos sempre que os não entendíamos. Nada adianta portanto ao esclarecimento (embora adiante muitíssimo à alegre confusão que a tantos agrada) do surrealismo ou de algo que esteja fora e além dele, o caderno de equívocos, ambiguidades, bocados de bocados de afirmações ( o fragmento do fragmento, tão famoso e que tanto serviu para desculpar consequências como inculpar causas), insinuações com aparência de profundas - eis a que se resume, em balanço afinal, "A Intervenção Surrealista".

Levemente irritante é a tendência do surrealismo ali compilado para não selectivar os alvos dos seus remoques. Indiscriminadamente se atiram ao péssimo e ao mau, sem se preocuparem em atingir os pontos-chave da Abjeccção e declarando-se lesionados quando alguém os chama pelos nomes. Com enorme berreiro, já não querem outra coisa, já não elegem outra luta. Bem podiam ter ocupado o seu (deles) tempo com coisas diferentes das zangas e zaragatas pessoais. E talvez ninguém fosse ao ponto de lhes pedir virtudes tão vulgares como um pouco de inteligência ou de compreensão crítica, se eles não tivessem, sempre aflitos, procurado uma tão decantada intervenção nos negócios da cidade e desejado fazer-se, a todo o transe, homens atentos à história, presentes na circunstância, íntegros e vertioais, antes quebrar que torcer, etc., etc.

A pretensão de dizer o que nunca foi dito com palavras que nunca foram escritas — preocupação central, ao que consegui perceber, dos diligentes textos redigidos por Cesariny - admite-se, creio eu, como toda a expressão ou voz poética, enquanto forma única de dizer o indizível, admite-se para usos e abusos de imaginação criadora, admite-se como disposição prévia convencionada para se enfrentarem as "vozes do silêncio" de que os poetas são os porta-vozes. Mas quando se trata de manifestar, de escrever textos para agir em concreto, de falar para intervir, - para defender dos fariseus o "dourado" património — entender-se-á porventura o uso da cifra hermética, da esotérica palavra e da iniciática visão para iniciados?

A avaliar pelas actividades surrealistas do Café Gelo, nada restaria a um poeta, além de cantar e desistir. Também da presente colectânea se não avista para a alternativa - poesia ou política - uma saída. E essa saída (seriam os surrealistas os primeiros e últimos a sabê-lo, se fossem de facto surrealistas) existe, pode ser compreendida dentro das limitações conhecidas. Ao surrealismo - segundo o que pode apurar-se destes confusos textos - nada

mais resta do que um resignado regresso a duvidosas fontes ocultistas. Aí pretende imitar a rábula dos que em França tentaram reatar tradições de épocas soterradas não apenas como curiosidade teórica mas como prática quotidiana.

Dentro da História que é a nossa, as mágicas desse estilo são não só impossíveis como suspeitas: a fuga à Abjecção por ignorância dela é uma forma mais ou menos triste de colaborar com ela e só uma via que a tome por termo de oposição constante - a via abjeccionista - deixa de .ser menos que utopia e mais que escapismo.

Da via abjeccionista, entretanto, está Cesariny decidido também a tomar o monopólio como se as palavras e o que elas significam pertencessem a pessoas ou grupos de pessoas! Palmar também o abjeccionismo (como fizeram para o surrealismo) com fins esotéricos, parece-me abusivo, tanto mais que a posição abjeccionista - uma vulgaríssima filosofia da História como qualquer outra - se distancia bastante dos optimismos surrealistas (jamais ceder ao cor-de-rosa seria o que de melhor nos ensinaram os "transfugas" do surrealismo).

Fiquem-se estes surrealistas, pois, já que teimam, a produzir textos "originais" para si mesmos, sem termos de ligação que os prendam à realidade histórica, à vulgaridade quotidiana; fiquem-se a imitar truques zénicos respondendo alhos a bogalhos e julgando assim que estão a intervir; fiquem-se nas pequenas manobras publicitárias; fiquem-se hipocritamente puristas num mundo corrompido, cinicamente convencidos de uma exclusividade poética, de um satanismo barato, de uma predestinação de iniciados; fiquem-se, enfim, a ruminar para si mesmo (à custa do surrealismo que pouco tem a ver com isso) enquanto o apodrecimento à sua volta não diminui nem aumenta; fiquem-se a escrever em cursivo pena de pato as belas palavras - Poesia, Liberdade, Amor; fiquem-se enfim com suas artes e letras. "A gente que ainda estava à espera" - finalmente - é que deixou definitivamente de estar à espera.
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no suplemento literário do «Jornal de Notícias» (Porto) , em 22/6/1967

 

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<cesariny-3> surrealismo & surrealistas - notas de leitura - publicados ac de 1963

 

CRÓNICA DO MAU TEMPO

SURREALISMO-ABJECCIONISMO-

UMA ANTOLOGIA DE INDESEJÁVEIS (*)

(*)Assinado por Henrique P. Ventura, pseudónimo de Afonso Cautela, este texto foi publicado no suplemento literário « Letras e Artes» do semanário «Notícias da Amadora», provavelmente no ano de 1963.

1963 - Entre autores e textos impublicáveis ou malditos, entre inéditos e edições do autor, Cesariny entendeu reunir, num feixe só, a documentação gráfica e literária suficiente, «de acordo com o propósito inicial».

Primeiro passo e primeiro volume de uma possível antologia de excluídos ou antologia do Obsceno, ninguém como Mário Cesariny de Vasconcelos para empreender a desintoxicação do ambiente. A sua obra, pelo oxigénio próprio, é das poucas, das raras que podem desviciar a viciada atmosfera. E não uso metáfora. O fenómeno é físico. Além de mágico, é físico. Surrealismo-Abjeccionismo, na tradição de Mário Cesariny e este na tradição a que Ernesto Sampaio chama «a única real tradição viva» (à página 68 da obra), usa de um vigor desusado, de uma força compulsória-explosiva notável. Primeiro o vácuo, depois a corrente de ar. E depois muitas constipações. Isto é, a acção físico-química da Poesia. Uma antologia de indesejáveis, esta, no indesejável tempo-imundo-nosso.

Os espíritos positivos não deixam de clamar, bem alto, para afogar o susto, que não acreditam em génios ignorados. Eu, que não sou espírito positivo, também não acredito. Mas do escrever ao publicar é que vai a diferença, o busílis, o abismo. O espinho cravado no sono das glórias constituídas. A posteridade prega cada parte!

De qualquer modo, a primeira vantagem vai ganha. Quem joga seguro, não perde tudo. Pode perder o melhor, mas não perde tudo. O inseguro, porém, tem encantos, tem até mais encanto. Ali, no silêncio, pode não estar nada mas (para o editor) pode estar a galinha dos ovos de oiro. É vê-los então (à dentada, à unhada, à facada) para saber quem leva os ovos sem matar a galinha, quem leva a galinha sem partir os ovos. Disto não se aperceberam os leitores, e fingem que não os críticos.

Mostra a história da literatura (que para estes serviços domésticos tem seu préstimo) que os vivos de hoje são os mortos de ontem. Também é verdade e a história ensina que os editores de hoje vivem (bem) à custa dos escritores sem editor de ontem. Mas que isto e aquilo, servindo de lição, não sirva contudo de consolo (para os que se calaram, foram obrigados a calar-se, e fizeram eles muito bem), nem de pretexto (para fundar uma Sociedade Portuguesa de Escritores) nem para alguém supor que compra a glória de amanhã ao preço da vil pobreza e do anonimato solitário de hoje. As coisas como estão até estão muito bem e não se deve falar dos que se calaram.

«Ceux qui vivent, vivent des morts», (Antonin Artaud). Que seria de nós sem a reserva da literatura maldita que os tempos abendiçoaram? Que seria do consumo externo e interno - que seria da nossa balança de pagamentos - sem o Fernando Pessoa e família? Que seria da família? E do Veiga, do Pedro Veiga? Mas principalmente o que será dos cronistas de hoje e das glórias em uso se algum Fernando Pessoa se lembrar de estar chocando por aí outra ninhada? - HENRIQUE P. VENTURA

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(*)Assinado por Henrique P. Ventura, pseudónimo de Afonso Cautela, este texto foi publicado no suplemento literário « Letras e Artes» do semanário «Notícias da Amadora», provavelmente no ano de 1963.

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<cesariny-4> surrealismo & surrealistas - notas de leitura

 

A ANTOLOGIA -

UM POEMA COLECTIVO (*)

(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no suplemento literário do semanário «Jornal do Fundão» - «Nova Literatura» - , coordenação de Artur Portela Filho, em 12/Maio/1963

Tavira,23 de Abril de 1963 - Perante esta antologia de Mário Cesariny - Surrealismo-Abjeccionismo - pode perguntar-se o que significa o traço entre um e outro ismo: se união, se desunião. Significará que se quis opor surrealismo e abjeccionismo ou uni-los? Pode perguntar-se também se abjeccionismo é uma forma particular de surreaIismo. Ou se é um «surrealismo evoluído». Ou se foi uma das heterodoxias a que a ortodoxia surrealista podia ter dado origem.

Pode perguntar-se ainda se abjeccionismo será outra palavra para aquilo que na «história da literatura» ficou conhecido por decadentismo. Pode perguntar-se finalmente se, entre um e outro ismo, outros sinais, além do traço de união, são possíveis; exemplificando,

Surrealismo = abjeccionismo?

Surrealismo < abjeccionismo?

Surrealismo > abjeccionismo?

Surrealismo + abjeccionismo ?

Estou em crer que Cesariny desejou isso mesmo: que se perguntem coisas. E que das perguntas outras perguntas surjam. E que as respostas sejam perguntas. Estou em crer, também, que as perguntas são as respostas...

A variante de Pedro Oom da citação (muito citada) de Breton, que abre a antologia, autoriza a ambiguidade, o ser e não ser, o dizer e desdizer ou contra-dizer, autoriza a dialéctica que, para não se negar se continua afirmando na negação e que para se continuar afirmando tem de continuar negando.

Este - o da Ambiguidade - é como já se deixa ver o campo exacto da Poesia, onde é permitido perguntar tudo mas onde a resposta só vem pelas vias de acesso que cada qual invente.

A resposta, qualquer resposta, não se dá, recebe-se. Não se aprende, sabe-se. Não se ensina, cria-se. O dado-resposta ou resposta-dado negam o movimento.

Responder será substituir o insubstituível. Responder será resignar-se, quem responde, a um estado de coisas susceptível de não ser esse mesmo estado logo a seguir.

Resignemo-nos a responder sabendo, com Heraclito, que a resposta não tem outro mérito que o de situar, para os outros, o insituável em si próprio e para si próprio. Sirvam as palavras de signo ou ponto fixo, provisório, para apontar, no movimento, o lugar onde é possível entrar no rio sem molhar os pés. Sirvam os ismos, quaisquer ismos, não para estabilizar o instável, situar o insituável, estatificar o dinâmico da Poesia mas, para lhe assinalar os possíveis grampos de abordagem (para a salvar de abordagens suspeitas, inclusive). E permitir que a Poesia desempenhe a «função social» que lhe é possível enquanto é tempo.

Caracterizada negativamente pelo que não é, não porque deseje afirmar (ou negar) qualquer coisa mas porque não deseja afirmar o que outros, de ‘largo alcance publicitário ‘e editorial, continuam gritando, a Poesia contida nesta antologia, apenas é, o que imediatamente a distingue de todas as que, a vários títulos, o não são. Não afirma nem nega nada - este conjunto de textos, desenhos e fotografias; mas, pelo facto de aparecer, afirma e nega algo a ela exterior.

Para uso exotérico, Mário Cesariny entendeu que devia usar a sigla mais mortífera, a que tem mostrado maior poder destruidor dos passarinhos (líricos ) e passarões (neo-realistas) que nos chilreiam de volta.

Surrealismo é a sigla. Serve simultaneamente de espantalho e ponto de referência. Não que o surrealismo caiba nos autores ali aparecidos, nem que os autores ali aparecidos, em conjunto ou de per si, caibam no surrealismo. É apenas ponto de convergência , de referência e de passagem (obrigatória) para uma aventura em que Cesariny se lançou, com ímpeto igual ao que o fez escrever poemas ou pintar quadros.

Digamos que Cesariny quis escrever, aqui, um poema colectivo, e, sem o querer, polémico. As obras incluídas não funcionam em si e por si, nem em função de um critério objectivo: incluem-se em função de um Poeta - Cesariny - e de um poema-espécie-de-colagem. Ímpeto crítico ou polémico, se o tem, estou em crer que não é intencional ou pelo menos é tão intencional como outros poemas seus. Outro fio ou intento unificador não descortino numa antologia de certo modo heterogénea e desconcertante - (para os críticos). Intento crítico quer dizer, evidentemente, intento de servir para fora, via exotérica; intento que a religue a outras realizações «congéneres» - com vista ao arrolamento pelos historiadores da literatura nas histórias da literatura...
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no suplemento literário do semanário «Jornal do Fundão» - «Nova Literatura» - , coordenação de Artur Portela Filho, em 12/Maio/1963

 

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1-1 <cesariny-5-ls> = leituras selectas - sc- «surrealismo & surrealistas» e «obituário ac»

 

SURREALISMO-ABJECCIONISMO

– UMA SESSÃO NA CASA DA IMPRENSA (*)

 

(*) Esta notícia foi publicada no semanário «Jornal de Letras e Artes», em 10/4/1963

 

Conforme já noticiámos, realizou-se uma sessão na Casa da Imprensa para apresentar a antologia «Surrealismo-Abjeccionismo, organizada pelo poeta Mário Cesariny de Vasconcelos e editada pela «Minotauro». A sessão destinava-se, ainda, a estabelecer um convívio, breve mas tão estreito quanto possível, entre o público e alguns dos autores incluídos na colectânea. Na sua maior parte, são autores com obra fragmentariamente publicada, cuja produção corresponde a uma posição incompatível com as classificações tácitas, visando antes uma realidade inesperada, capaz de suscitar novas tomadas de consciência.

No decorrer da sessão foram lidos alguns textos que constituíram, para um público jovem na sua maior parte, uma verdadeira surpresa, pelo carácter de violência de que se revestiam. Foi impressionante verificar a reacção desse público que de forma entusiástica aderiu aos t e x t o s apresentados. Mário Cesariny deu agora um pouco da claridade necessária para que se possa ao menos vislumbrar as linhas de força de uma expressão que, dentro dos limites marcados pela conspiração do silêncio, não tem deixado de procurar uma via de comunicação com o público.

À margem do vasto programa, traçado com método e lucidez por Cesariny, ficaram bem legíveis os pontos em que se processa o inevitável embate dos temperamentos que na colectânea se reunem, se-

parados por destinos diversos mas convergindo num ponto de revolta a todos comum.

Isto significa a verificação de um objectivo idêntico, aspecto em que Mário Cesariny abre, à literatura portuguesa actual, uma nova e audaciosa perspectiva. A sua irreverência perante o já catalogado e as delimitações anteriores, objectiva-se num acto de justiça, que assume ao mesmo tempo a importância de apelo a uma revisão de valores. Essa revisão abalará, fatalmente, a serenidade de muitas hierarquias que se foram instaurando de modo arbitrário e despótico. Ao traçar o quadro surrealismo - abjeccionismo, Cesariny repudia, por exclusão, muitas expressões artísticas e literárias que desfrutam de larga reputação, mas que carecem da força que mantém a permanente tensão, os antagonismos extremes que impedem a paralização do espírito de rebeldia da obra de arte.

Assim se define a terrível beleza interior da arte, quer dizer, a veemência que a conserva intacta, submetida a uma atitude de denúncia que. cada vez mais se avoluma. E a antologia «Surrealismo-Abjeccionismo» é um documento colectivo de carácter artístico. Só depois transparece o resultado ulterior que lhe está implícito.

Foram lidos textos de Afonso Cautela, Almada Negreiros, António José Forte, António Santiago Areal, Ernesto Sampaio, Irene Lisboa, Luís Pacheco, Manuel de Lima, Mário Cesariny de Vasconcelos e Virgílio Martinho.

A sessão terminou com a leitura de uma peça de Mário Cesariny, uma sátira na linha das obras do «Judeu», em termos de actualidade. O mesmo clima virulento de desumanização, personagens transformadas em títeres movidos por um fatalismo implacável, pouco compatível com as tentativas de redenção. Pelo menos com a redenção fácil inerente a um programa que se anteponha ao espírito da tragédia.

Estavam expostos na sala, além das fotografias dos autores incluídos, algumas das obras plásticas reproduzidas na antologia e certos textos elucidativos das posições surrealista e abjeccionista.. No intervalo, foram oferecidos ao público exemplares dos livros que constituem a colecção «A Antologia em 1958» .

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(*) Esta notícia foi publicada no semanário «Jornal de Letras e Artes», em 10/4/1963

 

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1-4 < 58-10-05-ls> <cesariny-6-s&s>

COLECÇÃO «A ANTOLOGIA EM 1958»:

(*) Este texto de Afonso Cautela terá ficado inédito ou foi publicado algures, a saber onde. Tem, pelo menos, uma data de origem: 5-Outubro-1958

Pertence a António Maria Lisboa o melhor manifesto surrealista sobre surrealismo, havido em Portugal . Ali se compendia o verdadeiro estatuto do bom surrealista. E como regra de vida , não conheço outra mais tirânica onde se fale tanto de liberdade, repetida e em caixa alta, bem como o amor, que ali é sempre múltiplo (quando não é único) e de várias pernas, creio que altas também.

Na exposição, intervalam-se fugas para o imaginário, o que não pode nem deve faltar no ritual do bom sacerdote surrealista, em plena missa (Erro Próprio é uma conferência-manifesto).

Como os mitos crescem à proporção que decresce o invólucro físico que os sustém, a morte de António Maria Lisboa abriu o ciclo mítico. E assim, o André Breton português, em vida, se transmuda no Rimbaud português, depois de morto.

Exumam-se os inéditos e os renitentes prestam-lhe culto póstumo. De cócoras, admiramos o mito desincarnado. Mas é que admiramos mesmo. À parte os «à-partes» de magia negra, em Erro Próprio deparamos com a austeridade que só os iluminados possuem. A nossa costela irracionalista não deixa de se sentir apoiada quando lê um bom surrealista, como é o caso sem discussão de António Maria Lisboa.

Revela-se, é certo, como em todos os sacerdócios, uma aceitação incrítica da fé regulamentar e, tratando-se de uma religião (eles não querem que lhe chamem religião) não teríamos nada que falar em CRÍTICA, se tal como aqui a grafamos, em caixa alta, António Maria Lisboa a não tivesse grafado também (e julgamos a versão presente conforme com a edição original):

«Criticar , eis a nossa função positiva. A crítica, para nós, é a acção agressiva dum indivíduo que se opõe e contrapõe a outro. Quaisquer espécies de considerações compreensivas e elogiativas não podem ser consideradas como tal. Criticar pressupõe não o gostar ou desgostar , (...) mas não aceitar e impor (...).»

Valha-nos Santo André (Bréton) nesta aflitiva conjuntura, pois já que «quaisquer espécies de considerações compreensivas e elogiativas não podem ser consideradas como tal», como «crítica» - António Maria Lisboa nos impõe («não aceitar e impor» diz ele) um modo crítico único de falar dele (e deles) , modo, portanto, que nem crítico é. Nem sequer nos é permitida a satisfação de urdir «considerações compreensivas» sobre si (e os outros) , nós que tanto gostamos de compreender e admirar, quando o caso é para tanto. Tudo isto, claro, em nome da tal liberdade que ali, no manifesto, se grafa também de coturnos altos.

Há, como se vê, nas falas surrealistas uma constante sobreposição de contrários, um ser e não ser ao mesmo tempo, que foi a grande faca de dois gumes com que eles se entretiveram a cortar manteiga no Verão... Não vamos prestar-nos ao jogo, à esgrima. Queremos apenas registar, citando o texto mais autorizado da nossa literatura surrealista, aquele passo que pode originar mais equívocos dos que já são constitucionalmente próprios de um tal género de dialéctica.

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De uma outra conformação é O Senhor Cágado e o Menino, sem intuitos de catequese e apenas auto-biográficos, o que fica bem nestas cavalarias, a mais altas se não devendo abalançar os cavaleiros. Ali se vê o arquétipo de auto-biografia surrealista e que, como tal, nos não parece de seguir, para evitar o pânico e o acrescente de mais alguns cágados de má catadura ao jardim zoológico nacional, tão rico já de espécies exóticas. Neste Cágado, mostra A.M.L., dentro das contradições vertebrais inerentes (inerente ao Cágado, entenda-se) uma rigorosa coerência de métodos , de pensamento e de conduta.

Deixou companheiros, mas não creio que venha a deixar discípulos . Nem mesmo os que lhe disputam os inéditos à dentada. É o que nos faz desconfiar a reprodução quase simultânea do texto sobre Jarry, no livro em epígrafe e de que vimos falando e nas Folhas de Poesia Nº 3.

Desejaríamos só e por amor a estas rigorosas coisas surrealistas que um outro (ou ambos) dos editores nos informasse de qual é a versão legítima, já que se verificam variantes notáveis de uma para outra das impressões do mesmo (cremos que o mesmo) texto. Na sucessão de números naturais ali aparecida , por exemplo, qual será a verdadeira e a apócrifa: a que repete o 6 ou a que o dá singelo? Precisamos de assentar nestas altas matemáticas, para rigoroso desanuviamento da crítica e para respeito da memória dos mortos. Amen.

Para desespero dos surrealistas ortodoxos, o pensamento parece encaminhar-se (a menos que a destruição nuclear o desencaminhe por uma vez, para sempre, ainda bem e felizmente) até à terceira força, síntese das antinomias que acenderam guerra entre 1900 e 1950 e da qual guerra a batalha entre racionalistas e irracionalistas não foi a menos brava.

Além disto, os poetas, cansados do imaginário e dos amorosos amando na última estrela da Galáxia, e porque incarnam a liberdade , não consentem no «afastamento imediato da chamada vida prática», não querem renunciar a viver todas as experiências, no mundo e fora dele, aqui morrer, em vida, e, depois, de morte certa e macaca. Dispensam-se de obedecer a esta que foi uma das muito rígidas disciplinas impostas pelo papado surrealista, como nova «internacional».

É de Henri Lefèbvre a paráfrase (cito de memória) : «Poetas do Mundo, uni-vos», num ensaio que é simultaneamente a apologia da «vida quotidiana» e o processo quase mortal a que submeteu o surrealismo.

Lê-se no Erro Próprio, manifesto de António Maria Lisboa:

« (...) pedia aos que assistem a esta conferência a máxima preparação : quer pelo recolhimento, quer por leituras lentas (...) quer, ainda, pelo afastamento imediato da chamada vida prática; »

Nessa e em muitas outras exigências, o surrealismo mostrou pouco respeito por tudo quanto se dizia respeitar: o amor que não existe fora da vida quotidiana, de que é mesmo o motor e a razão; a liberdade, que perde imanência e, portanto, conteúdo, fora do mundo quotidiano dos homens quotidianos, onde diariamente se deve perder e diariamente se tem de reconquistar; a crítica , que não admite outro plano que não seja o do humano concreto e perde todo o sentido fora da esfera das relações sociais; a individualidade, coarctada no surrealismo por um formulário de normas apertadas, tão apertadas que ser adepto do Grupo Surrealista, em certa altura, foi equivalente de excomungação prévia ou eminente.

Nos que mantiveram fidelidade ao templo, a obra traz sempre o aspecto de membro destacado de um corpo central, o corpo místico do surrealismo ortodoxo, apostólico e bretoniano... E na igreja se reúnem todos os surrealistas do mundo. Mário Cesariny devia, por isso, e graças a uma individualidade que o distinguia à légua, como herege no seio da pia congregação, ter sido excomungado da igreja surrealista nacional. E só não foi por não se poder excomungar a si próprio...

Eis como parece haver alguma utilidade de encarar estes mitos maiores e menores propostos à circulação pelo autor. No referido manifesto de A.M.L. , já eles se anunciavam:

«Impossibilidades editoriais trouxeram até hoje (Dezembro de 1949) por publicar «Algumas Entidades Míticas Propostas à Circulação » de que foi autor Mário Cesariny de Vasconcelos e (que) consiste num jogo de Cabala Fonética com o qual se pretende uma cada vez maior assimilação do irracional.»

Quase dez anos corridos, as impossibilidades transformaram-se em possibilidades editoriais e o livro vem a público . Seguindo à risca a palavra de A.M.L. , transcreve-se ainda:

«Muito para além da chamada Obra de Arte , e tanto para além, a Cabala Fonética abriu, entre nós, o caminho que se pretende – pois nos concretiza e dispersa, nos arruina e constroi (...).

Nos «arruina» , diz. Mas logo acrescenta , no contraponto tão característico da Religião da Ambiguidade: «e constrói». Vá lá o diabo saber se afinal arruina ou se afinal constrói.

Vistos a frio e sem hóstia, estes mitos parecem-nos um importante (mas imprudente , como deixar as cuecas a corar ao sol, na varanda) parcela da Obra (eles não querem que se chame Obra) de Cesariny, já que desmontam a máquina surrealista e o seu processo estilístico.

É, digamos, a gramática surrealista, o que põe à mostra a morfologia e a sintaxe do animal, e nem só a fonética como queria A.M.L.. O ponto da crítica em que nos coloca é, portanto, o filológico, e para filologias preferimos as de Aristóteles, cujo enterro já não precisa de fazer-se, porque está feito há muito.

Permita-se-me citar um epigrama feliz: o dos assassinos, decomposição morfológica de assassinos e que é francamente uma coisa com graça. Todo o livro, aliás, se assinala como um sintoma de saúde, um fortíssimo abanão na nossa arqueologia literária, uma refrescante cerveja para as horas escaldantes do pântano. Com experiências destas, nada continua (nada se «constrói»); mas tudo pode começar (tudo se «arruina») . Que mais não seja o despertar do dragão , neste país ocidental do Ocidente e que é saber rir, a tempo, e sobre os devidos e supra-ditos objectos de sala.

Faro (ou Ferreira,?), 5 de Outubro (República) de 1958

P.S.: Tal como foi escrito no verbo iluminado de António Maria Lisboa : «Quaisquer espécies de considerações elogiativas não podem ser consideradas como crítica .» Como crítico, esforçámo-nos por obedecer ao mandato e não damos o direito aos autores de se melindrarem porque os não elogiámos mais. Tudo o resto e adstritas confusões com personagens do mundo real , é pura coincidência.

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(*) Este texto de Afonso Cautela terá ficado inédito ou foi publicado algures, a saber onde. Tem, pelo menos, uma data de origem: 5-Outubro-1958 ■