1-2 <bloch-md-1-2>quinta-feira, 6 de Novembro de 2003

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ERNST BLOCH:

NO INTERVALO DE LAVAR PRATOS, ESCREVIA...(*)

[(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no semanário «Mar Alto»( Figueira da Foz), na rubrica «Temas de Amanhã», em 23/5/1973 ]

Ernst Bloch é, segundo creio, um autor pouco conhecido mesmo de nome, entre as pessoas cultas do País. E não digo isto porque o conheça bem, e queira botar figura. Antes pelo contrário, várias tentativas de conseguir obras suas — em qualquer língua das mais faladas, nanja o alemão — seriam infrutíferas, e ainda hoje ando à busca de qualquer exemplar restante de antigas e esgotadas edições francesas.

Sendo a língua alemã pouco acessível aos nossos hábitos intelectuais, estando esgotadas as edições de algumas (poucas) obras suas, e não havendo acessível nenhuma edição de Bloch em língua espanhola (que eu saiba), e sendo ele também um autor totalmente desconhecido dos editores da língua inglesa, o que só abona o conhecido chauvinismo anglófilo, eis uma série de circunstâncias digamos editoriais que continuam a deixar inédito entre nós um autor que me parece, pelo que consegui cheirar, um fascinante teórico da utopia que nos interessa. Quer dizer, da nova utopia, ou, se se quiser, contra-cultura e cultura marginal.
Quando em 1967 lhe foi concedido o prémio da Paz dos livreiros alemães, algumas revistas de informação e cultura dedicaram-lhe evocações e a tanto se resume, pois, o conhecimento médio que teremos dele. Um pouco mais à frente, Bernd Celgart dedica-lhe valioso estudo num livro que teve por aqui azar e que saiu na Colecção «Perspectivas» da Presença.

Recorde-se, através dos elementos esparsos ao alcance, que Bloch é catedrático de Leipzig e nasceu em 8 do Julho de 1885. Estudante em várias universidades alemãs, foi, em Heidelberga, companheiro de Simmel e Lukaks. O seu primeiro livro, "Geist y Utopie», escreveu-o durante a 1 Guerra Mundial, retirado no rincão "mais escondido da Alemanha". Terminada a guerra, viveu dos seus artigos, viajando pelo mundo. Volta a Berlim dos anos vinte, onde teve muitos contactos com Brecht, Weill e Adorno.

Teve que fugir do nazismo, refugiando-se sucessivamente em Suíça, Paris, Praga e Estados Unidos. Aqui dedicou-se a lavar pratos, escrevendo, no intervalo dos detergentes, o que se pode considerar a sua obra capital "Das Prinzip der Hoffnung» ("O Princípio da Esperança», o tal título que andamos a ver se descobrimos nalgum alfarrábio da Esperança).

Interessado pela via socialista da República Democrática Alemã, Bloch recusa a oferta de uma cátedra na Universidade de Frankfurt e aceita a que se lhe faz da Universidade de Leipzig. No entanto, as condições de trabalho e as limitações à liberdade de expressão — "o aborrecimento monolítico da burocracia» —, desenganam-no profundamente. Alguns dos seus discípulos são perseguidos. E ao levantar-se o muro de Berlim, aproveita uma viagem à Alemanha Federal para não regressar a Leipzig, depois de ter escrito uma carta famosa ao presidente da Academia de Berlim Leste.

Desde então, vive e ensina em Tubingen, seminário que foi frequentado por muitas personalidades famosas da cultura alemã, entre as quais o fatídico Hegel.

Bloch, no entanto, não se limitou a ensinar e de Tubingen intervém com indomável energia na vida política alemã. É o único entre os grandes filósofos contemporâneos alemães que saudou com esperança o movimento juvenil. Uma das teses de Bloch é que o homem actual não é uma resposta capaz à problemática do mundo; daí o seu interesse pelos movimentos juvenis e por quanto possa pressupor uma proposta neo-utopia ou contra-cultural.

Actualmente, está reunindo em livro os milhares de artigos que foi escrevendo, para a Imprensa ou para a gaveta, ao longo dos anos...

Pelos sinais, será ou não Bloch uma personalidade exemplar a ver?

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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no semanário «Mar Alto» (Figueira da Foz), na rubrica «Temas de Amanhã», em 23/5/1973

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1885–1977, German Marxist philosopher. He taught at the Univ. of Leipzig (1918–33), drifting toward Marxist thought during the 1920s. He fled the Nazis after 1933, moving first to Switzerland and then to the United States. Bloch’s first major work, The Principle of Hope, which was published in German (3 vol., 1952–59; tr. 1960), emphasized the role of hope as a human drive. He returned to Leipzig in 1948, where he remained until conflict with Communist Party officials compelled him to defect to West Germany (1961). There, he taught at the Univ. of Tübingen.

The Columbia Encyclopedia, Sixth Edition. Copyright © 2001 Columbia University Press.

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