< 91-08-26-ls> leituras do afonso - segunda-feira, 10 de Março de 2003-novo word - <cassand-ls>

26-8-1991

MARION VESTE

A PELE DE CASSANDRA

Marion Zimmer Bradley, a escritora norte-americana hoje com 61 anos, serve-se da grande história para escrever longos romances (como este(*) de quase seiscentas páginas, letra miúda) em defesa do «eterno feminino» que ela acredita existir na raça humana. Anda, portanto, tudo ao contrário, com os homens e a mania que estes têm de mandar.

Em «Presságio de Fogo», por exemplo, a denodada escritora vai a Troia, onde encontra o ambiente ou caldo cultural ideal, saturado de deuses, e nele, portanto, pode fazer conviver, mesmo na cama, não só os dois sexos, com a mulher sempre por cima, mas mulheres e deuses do Olimpo. Metendo-se na pele de Cassandra, a bela e atormentada princesa, Marion re-inventa quase toda a história de Tróia -- que alguns chegam a duvidar que tivesse existido -- sempre em louvor e em defesa da indiscutível superioridade feminina.

A Grécia clássica tem deuses que sobram para isto, e quem sabe se o monoteísmo não é uma invenção masculina para levar melhor a água aos interesses do macho imperador. A democracia teria nascido na Grécia e é bem capaz de ser uma invenção feminina, saída das águas numa concha à imagem e semelhança da deusa Vénus. A Grécia clássica tem matéria para alimentar romances como este de Marion Zimmer Bradley, de quem a Difel já publicara um outro ainda maior e mais famoso, «As Brumas de Avalon».

Até hoje, a autora escreveu meia centena de livros, cada vez com mais êxito. Até à publicação, em 1983, de «As Brumas de Avalon», um romance construído a partir do ponto de vista das mulheres na lenda do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda, a sua carreira literária abrangeu histórias para revistas de «western», de ficção científica e mistério, passando também pelo chamado romance gótico ou de terror. A sobrevivência imediata -- marido e filhos -- obrigou-a a adiar a sua verdadeira obra, que acabou por se revelar de uma grande originalidade, com «As Brumas» e este «Presságio de Fogo».

----

(*)«Presságio de Fogo», Marion Zimmer Bradley, Ed. Difel