1-1 <90-12-03-ls> - 7135 caracteres - 3 páginas - <cienciaa> - merge doc de 3 files wri de nome semelhante <ciencia> - «sofística e novo paradigma» - «a ideologia cientifista» «a neurose cientifista e o novo paradigma» -«o caos da ciência ordinária» - [ 4136 caracteres - <ciencia> <emcurso> <livros> ] - Margem Esquerda [ou] Alfinetadas - Diário de um Leitor Desatento

PIRUETAS DA CIÊNCIA

3/12/1990 - Com o livro «Caos» do senhor James Gleik, a ciência executa mais uma das suas piruetas, com a caução perpétua que ela própria se pode sempre atribuir. À ciência tudo é permitido, inclusive baralhar os dados que forneceu um dia antes e torna a dar - depois de baralhados - um dia depois.

O jornalista Jorge Pires, na revista «Ler» (Outono de 1990) atribui...à imprensa a expressão «Teoria do Caos» que ele próprio utiliza no comentário ao livro de Gleik que se intitula ...«Caos». A partir de discursos como estes que, evidentemente, nada têm de caóticos, a ciência mais uma vez vem insinuar no cérebro das multidões que está atenta e conseguiu fazer mais uma descoberta. Desta vez não descobriu a pólvora mas o Caos. E um batalhão de comentaristas científicos ocupa-se, preocupa-se com o repto.

Tranquilizai-vos, oh gentes vulgares: a ciência está atenta, é nossa mãe e decreta que, a partir de agora, o caos não foi criado por ela, mas é intrínseco à matéria. Que isso vá contrariar uma série de teorias da «história da ciência» não incomoda a ciência, não incomoda ninguém.

As teorias só são indiscutíveis enquanto, como dogmas, sirvam a qualquer igreja tecnológica para alimentar os lucros de uma indústria. A partir do momento em que uma teoria científica deixa de ser rentável, é substituída por outra. Ganham os «media» porque têm notícia e ganham os editores porque vendem mais uns quantos (exemplares) cientistas com a frenética exposição da nova teoria. No caso vertente, o Caos.

Ainda ninguém com dois dedos de testa conseguiu perceber o que é isso do Caos agora repentinamente descoberto - quando já se sabia, desde o princípio do Mundo, que ele existia. Assim como ainda ninguém conseguiu perceber o que é, onde está, de onde veio e para onde vai o «vírus mutante da sida».

Mas não importa. Com a ajuda dos «media», o Zé Leitor aceita tudo o que lhe vomitam e muito mais. Antes de se retirar de cena, a ciência diz que foi tudo invenção de jornalistas e que a ciência, no seu trono, não disse nada do que disse.

Espera-se o próximo livro do sr. Gleik, com a ajuda do sr. X, a denunciar os jornalistas como culpados de terem inventado a palavra «Caos». Mais: de serem eles - jornalistas - os responsáveis do Caos.♦♦♦