1-2 - 4100caracteres<calao> <literatu> <manifest>[grelha aberta] terça-feira, 3 de Dezembro de 2002
CALÃO E LINGUAGEM POÉTICA
CALÃO E VANGUARDA LITERÁRIA
OS MECANISMOS E DISPOSITIVOS DA IMAGINAÇÃO
14/Junho/1970 - A cada grupo sociocultural (e até a cada estrato ou classe) corresponde uma linguagem ou estrutura linguística.
O calão usado por certos escritores, como James Farrell, é uma das grandes descobertas (poéticas) feitas pela literatura de vanguarda, a pop-literatura que não deve confundir-se com as vanguardas elitistas de experimentalismos, novos romances e que tais. Enfim, com os muitos neo-academicismos de que está cheio o campo da chamada e alegada Modernidade literária.
Assim como a criança, o louco, o toxicodependente ( do café à cocaína, do uísque à lactomania, do [---]) têm as suas estruturas linguísticas próprias, os seus uni-versos ou uni-dades culturais, também o «lumpen-proletariat» pode ter a sua.
«Linguagem de caserna» se costuma dizer do calão próprio do soldado. Mas quem diz o soldado, diz o criminoso, o desportista, o drogado, qualquer dos comportamentos que pouco ou nada tenham a ver com o discurso dominante.
Allen Ginsberg, ao citar escritores de quem se sente mais influenciado, refere Jean Genet e o seu poder de usar o calão como forma literária.
James Farrel teria sido, na obra [---], um dos primeiros americanos a explorar o grande campo «pop» do calão e a força literária de raiz que dele se extrai.
Pelo calão, compreendemos como a experiência literária é indesligável de uma experiência existencial, humana, socio-cultural (se se quiser usar o calão sociológico corrente...). E não é por acaso que os grandes escritores do Obsceno (da estética do Obsceno), tenham sido também os de mais dura experiência nos bas-fonds da sociedade próspera e confortável, nos subterrâneos do consumo e da sociedade consumista.
Henry Miller, Jean Genet, Violette Leduc, Albertine Sarrasin, Carlo Emidio Gada, James Baldwin, Pier Paolo Pasolini, Caryl Chessmann, Jerzy Kosinski, William Burroughs, vieram quase todos do cano de esgoto.
Pelo calão se sabe também como o conceito de Obsceno (de estética do Obsceno) anda tão perto do máximo de originalidade, de imaginação e de criação poéticas, do mínimo de ênfase e estrato cultural.
Calão é uma variante da linguagem poética e pode colocar-se ao lado de outros mecanismos que accionam e fomentam a imaginação: colagem, discurso automático, humor, associação a distância, experiência alucinogénica, etc.
Através do calão, o escritor como que vomita tudo quanto a sociedade lhe impõe de convencional, através dos estratos ditos morais, cultos, superiores, elegantes, decentes. Vomita o Bem, o Belo e o Bom.
Recorde-se o que significa para Georges Bataille este corpo-a-corpo do escritor com o Mal e o que ele entendia da literatura e o que a literatura deveria, em essência, ser (embora utilitariamente possa ser muitas outras coisas): o tal corpo-a-corpo com a Heresia. O calão é uma das linguagens da Heresia.
Reivindicando uma literatura malcriada, está-se a bolir com os estratos de vencidos, de humilhados e ofendidos -- o Quarto Mundo do «underground» -- que não têm maneiras nem palavras polidas, que não têm mesmo palavras (já se falou no «silêncio do subdesenvolvimento» através de três filmes recentes: «A Ilha Nua», de Kaneto Shindo, «Vidas Secas» de ---------e «Remparts d'Argile» de Bertuccelli), indivíduos e povos que não têm maneiras educadas, morais, decentes, elegantes da classe possidente, a classe que empurra para o esgoto os detritos humanos que vai subproduzindo, a classe que aferrolha os indesejáveis em guetos da periferia, a classe que enche os cárceres e os hospitais com as vítimas que vai fazendo.
É triste ver como, em certo sentido, certo neo-realismo não fez mais do que linguajar à pipas, à fina, à classe dominante.
Exemplos portugueses de «literatura malcriada» há poucos mas ainda há alguns: Fialho de Almeida, Raul de Carvalho, António José da Silva, Gil Vicente, Camilo, Luís Pacheco, Virgílio Martinho, Cesariny, Gomes Leal, Afonso Cautela (UFFFFFFFFFFF!).
14/Junho/1970♠