1-2 < 90-07-07-ls> leituras do ac - quinta-feira, 10 de Abril de 2003- novo word 3838 caracteres - <burrough-ls>
LIVROS NA MÃO
7/Julho/1990
O FIM DA «GRANDE FARRA»
De que teriam morrido civilizações como a do Antigo Egipto? De fome ou fartura? De carência ou pletora?
Exercício de imaginação ( e boa ideia para aproveitar em narrativa de ficção) é, de facto, tentar saber como se deu o fim de alguns impérios que deixaram marca e a que ainda podemos recorrer lendo os destroços . O resto que resta da «grande farra».
Contrariando a analogia que automaticamente se tende a fazer com a civilização actual - morta pela poluição -, há necessidade de colocar mil e outras hipóteses igualmente verosímeis sobre a causa que pode ter levado civilizações inteiras a ruir como um castelo de cartas.
No livro «As Terras do Poente», William Burroughs imagina uma forma possível, entre várias, que levaram o Egipto ao estado de múmia... O facto de haver, em diversos pontos do globo, toponímias iguais ou semelhantes, terá induzido o escritor a pensar numa causa comum que contribuiu para dizimar sociedades inteiras, ontem homogéneas mas que hoje nos aparecem, sob a forma de extensos desertos, dispersas no espaço e distanciadas no tempo. É mesmo provável que estivessem ligadas por laços já hoje indetectáveis e que formassem então a mesma e única rede de inter-relações.
O tema da «contaminação orgânica» seria, no entanto, comum a todas essas «mortes». William Burroughs levanta, em «As Terras do Poente», a hipótese das centopeias gigantes, que, proliferando com tal força e velocidade, teriam comido tudo o que era ser humano. Ele retira dessa hipótese, como se calcula, surpreendentes ilacções romanescas. Tudo isto a partir de um topónimo que, existindo no território dos Estados Unidos, existia também no Egipto dos faraós e dos escribas.
Com a sua arte descritiva semelhante à lâmina afiada de um bisturi, William Burrouhgs não nos poupa a cenas-limite de verdadeiro horror, com as centopeias devorando seres humanos e a sairem, com suas cabeças agitadas e frenéticas, do corpo das vítimas...Qualquer produtor de filmes de horror estará, com certeza, atento, para aproveitar cenas tão garantidamente repugnantes. Tão gratificantes, como diria o Ministro da Alimentação.
Constante, nos quadros abjeccionistas de William Burroughs, é a exibição dos órgãos sexuais, expostos também à voracidade das bichas selváticas e a uma constante entropia que sugere a essência da malignidade, dos escombros e da morte. A ruína desta civilização. O fim da «grande farra».
Sob a aparência de um relato coloquial, Williams Burroughs descreve, em constante obsessão, a decadência, o apodrecimento, a decomposição «orgânica». Com tintas nada suaves, diga-se, antes com uma expressa a propositada violência visual. O que não pode deixar de fascinar, tarde ou cedo, um produtor de cinema.
CADA UM SEU PALADAR
O escritor de «As Terras do Poente» é perito em procurar exactamente aquilo que repugna ao paladar, à vista, enfim, aos cinco sentidos que ainda conseguem reagir, no amolecimento e embotamento generalizado que caracteriza a sociedade de consumo (ou do vómito? perguntará Burroughs), já bem longe das metas hedonistas que sonhou, dos prazeres que julgou gozar.
Nesse aspecto se diria que Burroughs baniu qualquer idealização romântica e que exagera ao seleccionar apenas o que é ostensivamente repugnante (aos cinco sentidos) e traumatizante à sensibilidade. Uma coisa parece certa: com esse inventário de horrores, o autor pretende traduzir a «grande farra» que é a sociedade de consumo moderna, grande farra que será a forma pela qual esta civilização irá perecer, e dar a alma ao criador, ungida de todos os sacramentos, tal como a egípcia pereceu, apesar de ser herdeira directa e dilecta dos deuses... Que fará esta, filogeneticamente herdeira do Macaco.
Pela boca morre o peixe
... e o Planeta do «fast-food» também. ♦