<besant-1> antologia = peças do grande puzzle

PÁGINAS DE ANNIE W. BESANT

Do livro « A sabedoria Antiga – Exposição Sintética da Filosofia teosófica» , Tradução de Eugénio N. De Almeida , Livraria Clássica Editora, Lisboa,1921

Domingo, 26 de Maio de 2002 – Ainda estou para saber porque me meti a digitalizar no scan esta prosa pouco edificante de uma teósofa – Annie W. Besant – que, talvez repleta de boas intenções, contribuiu, com outros epígonos de Helena Petrovna Blavatsky, para que a Teosofia tivesse sido uma amálgama indistinta de nomenclaturas e doutrinas, quando exactamente se propunha a síntese de todas as religiões. O caos originado pelas traduções de traduções dos textos básicos considerados sagrados agrava a ilegibilidade desta autora e o seu fraco contributo para juntar mais algumas peças do grande puzzle.

Isto para já não falar do tom psicomoralista comum a todos os teósofos e que teria o seu climax em Krishnamurti.

Em todo o caso, aqui ficam, como peças desse puzzle, as páginas que meti no scan, talvez com uma única vantagem: na imensa torre de babel que é a «confusão das línguas» (patente em todos ou quase todos os teósofos ), resta-nos como única saída e única alternativa a linguagem vibratória de base molecular criada por Etienne Guillé. Bastaria isto para fazer de Guillé e da sua «linguagem vibratória» a única referência segura para caminhar no labirinto dos textos, dos livros e dos idiomas. E dos hieróglifos.

O CLÁSSICO DA PUREZA

A China, cuja civilização está actualmente reduzida a um estado fóssil, foi outrora povoada pelos Turanianos, quarta subdivisão da quarta Raça-Mãe, desta raça que habitou o continente desaparecido da Atlântida e que cobriu com suas ramificações a superficie do globo. Os Mongois, sétima e última subdivisão da mesma raça, vieram mais tarde reforçar a população desta região, de maneira que na China encontramos tradições de uma alta antiguidade, anteriores ao estabelecimento, na Índia, da quinta raça, a raça aryana.

No «Ching Ghang Ching» ou Clássico da Pureza, encontramos um fragmento de antiga Escritura, de singular beleza, onde se sente este espírito de calma e de paz, tão característico do ensinamento original».

No prefácio de sua tradução (The Sacred Books of the East, vol XL), M. Legge diz que este tratado é atribuído a Ko Yüan ou Hsúan, um Taoista da dinastia de Wu (222-227 depois de Jesus Christo). Contam que este sábio atingiu condição de Imortal, título com que é geralmente designado. Representam-no executando milagres, dado também à intemperança e muito excêntrico em seu modo de viver. Tendo um dia naufragado, surgiu do fundo das aguas sem que suas vestes estivessem molhadas e andou calmamente na superfície do mar.

Finalmente subiu ao Céu em pleno dia. Todas estas narrações podem ser atribuídas às invenções fantásticas de época ulterior .

Tais acções são frequentemente atribuídas aos Iniciados de diferentes graus, e não são necessariamente invenções fantásticas. Mas o que o próprio Ko Yüan diz com relação ao seu livro ainda mais nos interessará:

«Quando eu alcancei o verdadeiro Tao, eu tinha recitado este Ching (livro) dez mil vezes. Assim praticam os espíritos celestes, e este livro nunca foi comunicado aos sábios deste mundo inferior. Foi me dado pelo Chefe Divino do Hiva Oriental; este já o tinha recebido do Chefe Divino da Porta de Ouro; este último o recebera da Mãe Real do Ocidente ».

Ora, o título de « Chefe Divino da Porta de Ouro» era o do Iniciado que governava o império tolteca na Atlântida, e o emprego desse título parece indicar que o Clássico da Pureza foi levado da Atlântida para a China, quando os Turanianos se separaram dos Toltecas. Esta ideia é corroborada pelo conteúdo deste curto tratado, que tem como assunto o Tao —literalmente o caminho, nome que designa a Realidade Única na antiga religião turaniana e mongólica. Assim lemos:

« O Grande Tao não tem forma corpórea, mas foi Ele quem produziu, mantém e alimenta o Céu e a Terra.

O Grande Tao não tem paixões, mas é a causa das revoluções do Sol e da Lua. O Grande Tao não tem nome, mas é Ele quem mantém o crescimento e a conservação de todas as cousas.

Tal é o Deus manifestado como unidade. Em seguida intervém a dualidade.

«Ora Tao aparece sob duas formas, o Puro e o Impuro, e possui as duas condições de Movimento e Repouso. O Céu é puro e a terra é impura; o céu move-se, mas a terra está em repouso. O masculino é puro e o feminino impuro; o masculino move-se e o feminino está em repouso.

O radical (Pureza) desce e o produzido (Impureza) se espalha em todos os sentidos, e assim todas as cousas foram geradas.»

Esta passagem é particularmente interessante porque põe em evidencia os dois aspectos activo e receptivo da natureza, estabelecendo assim a distinção entre o Espírito gerador e a Matéria nutriente, distinção tão familiar em escritos posteriores.

No Tao Teh Ching o ensinamento tradicional com relação ao Não Manifestado e ao Manifestado, ressalta claramente:

O Tao que pode ser observado não é o Tao eterno e imutável. Quando elle não tem absolutamente nome, elle é Aquele que produziu o Céu e a Terra; quando possui nome, é a Mãe de todas as cousas . Sob estes dois aspectos, é idêntico realmente, mas à medida que se produz o desenvolvimento, recebe diferentes nomes.

Resumindo: isto é para nós um Mysterio (i. i., 2, 4)»

Os que estudam a Cabbala lembrar-se-ão do um dos Nomes Divinos, « O Mysterio Occulto».

- Mais longe lemos:

«Houve alguma cousa de infinito e de perfeito vindo à existencia antes do céu e da terra. E como isto era tranquilo e sem forma, solitário e inalteravel, extendendo-se por tudo e sem risco de se extinguir! Isto pode ser considerado como a Mãe de todas as cousas. Disto eu ignoro o nome e o designo pelo termo Tao. Fazendo um esforço para dar-lhe um nome eu o chamo O Grande. Mas Isto passa como um fluxo contínuo. E ao passar, isto se affasta. E tendo se afastado. Isto volta (xxx 1-3)».

É extremamente interessante achar aquie esta noção da efusão e da reabsorpção da Vida Única, noção que nos é tão familiar na literatura indú. O versículo seguinte também nos parece familiar:

«Todas as cousas que estão sob o Céu saíram d’Àquele considerado como existente. Esta mesma Esta mesma existência saiu d’Aquele considerado como não existente. (XL, 2)».

Para que um Universo possa existir, o Não Manifestado deve produzir o Único, donde procedem a Dualidade e a Trindade

« O Tao produziu um; um produziu Dois; Dois produzirá três; três produzirá todas as coisas. Todas as coisas têm atrás de si a Obscuridade (donde elas saem) e caminham para alcançar a Luz (na qual elas se banham) enquanto elas são mantidas em harmonia pelo Sopro do Vácuo. (XLII, I) ».

O Sopro do Espaço seria melhor tradução. Tendo tudo saído do Aquele, Aquele existe em tudo.

O Grande Tao penetra todas as cousas. Encontramo-lo tanto à esquerda como à envolve todas as cousas como uma roupagem, mas não tem a pretensão de as dominar. Ele pode ser encontrado nas mais pequenas cousas. Todas as cousas voltam sua raiz e desaparecem, sem saber que é Ele que preside à sua volta. Ele pode ser encontrado nas maiores cousas (XXXIV)».

Chwang-ze (quarto século antes J. C.) em sua exposição dos ensinamentos antigos, faz alusão às Inteligências espirituais que procedem de Tao:

«Ele tem em si mesmo sua raiz e sua causa de existência. Antes que houvesse céu e terra, em tempos remotos, Ele existia com toda a segurança. D’Ele provem a misteriosa existência de Deus (Livro VI, 1ª parte, Sect. )».

Segue-se uma lista de nomes destas Inteligências. Mas o papel preponderante que representam seres na religião chinesa é de tal maneira conhecido que se torna inútil multiplicar as citações sobre tal assunto.

O homem é considerado como uma trindade, o taoísmo reconhecendo nele o espírito, a inteligência, o corpo. Esta divisão aparece claramente no Clássico da Pureza, quando ele diz que o homem deve libertar-se do desejo para atingir a união com o único:

«Ora, o espírito do homem ama a pureza, mas é perturbado por seu pensamento. O pensamento do homem ama a tranquilidade, mas seus desejos o arrastam. Se ele sempre pudesse evitar seus desejos, seu pensamento tornar-se-ia tranquilo.

Que ele purifique seu pensamento e seu espírito tornar-se-á puro. A razão pela qual os homens são incapazes de atingir este estado, é que seu pensamento não está perfeitamente puro e seus desejos não foram afastados. Se o homem consegue despedir seus desejos, ao contemplar interiormente seu pensamento, este não existe mais em si mesmo; ao considerar exteriormente seu corpo, este não existe mais para si mesmo; e quando volta, seus olhares para longe, para as cousas de, nada há mais de comum entre ele e elas . »

Em seguida, após a enumeração das etapas do caminho que conduz interiormente para o «estado de perfeita tranqui1idade», ele pergunta:

«... Como poderá nascer algum desejo, neste estado de repouso que se possui, alheio ao lugar que se ocupa? E quando nenhum desejo mais se manifesta, então nascem a calma real e o verdadeiro repouso. Esta calma real torna-se uma qualidade constante e se opõe às coisas exteriores. Na verdade, esta qualidade real e constante mantém em seu poder a natureza. Nesta constante tranquilidade se encontram a pureza e o repouso verdadeiros. Quem possui esta absoluta pureza entra gradualmente (na inspiração) do verdadeiro Tao».

As palavras «inspiração do» acrescentadas pelo tradutor, tendem antes a velar o sentido do que em esclarecê-lo. Porque penetrar no Tao está inteiramente de acordo com a ideia expressa e com as outras escrituras sagradas.

O Taoísmo insiste muito no aniquilamento do desejo. Um comentador do Clássico da Pureza observa que a compreensão do Tao depende da pureza absoluta e que:

« ... a aquisição desta pureza absoluta depende inteiramente da abdicação do desejo, vibrante lição prática que ressalta deste tratado».

O Tao Teh Ching diz:

"Nós devemos nos achar sempre sem desejos, se quisermos sondar o mistério profundo. Mas se o desejo domina em nós, não veremos senão a orla exterior.» (I., 3)