1-2 < 57-06-15-ls> quarta-feira, 21 de Maio de 2003 – novo word <aquadros-1-ls> leituras do afonso
LIVRO DE FUNDO
A ANGÚSTIA DO NOSSO TEMPO
E A CRISE DA UNIVERSIDADE (*)
(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado em «Inventário», página do jornal «A Planície» que sucedeu a «Ângulo das Letras»,
15-6-1957«Nós entendemos de que esta posição de esperança é ridícula, mas... (A Planície, 15 / 8 / 56)
O lançamento da revista 57, microfone avançado do mais importante movimento cultural que a nossa história regista, depois da Renascença Portuguesa, coloca de novo na ordem do dia o último livro do director, António Quadros, a que nos não referimos quando da sua saída mas que é agora a ocasião de salientarmos como obra capital, obra de tese, fecunda pelas hipóteses de trabalho que reúne, pela crítica que desenvolve às instituições universitárias, livro de juventude intelectual e, ao mesmo tempo, de maturidade, abordagem corajosa da problemática fulcral da hora que passa, a que nem sequer falta um memorandum bibliográfico final, necessário ao estudioso do tema a que se reporta: A Angústia do Nosso Tempo e a Crise da Universidade, um dos que deveriam vir a constituir o texto da Faculdade Central de Cultura Superior que nele se propõe.
Neste triste mister de ler livros e dizer o que se leu, é-se solicitado por tanta obra medíocre, desatento por tanto «verbo de encher», que nos sentimos desconstrangidos e à vontade por dialogar agora com quem fala uma linguagem afim da nossa, aquela que raramente ouvimos e de que andamos a aprender os balbucios, definindo-se e ajudando a definir-nos, por discordância ou concordância, na utópica ideia de um programa a que chamámos Convívio.
É claro que um livro de António Quadros, escritor de missão que é e se considera, não nos «leva para dentro», como, para citar uma nossa experiência recente, Os Cadernos de Malte Brigge ; não conheço livro que nos chame mais para o nosso egolatrismo, que mais violentamente nos reclua, que com mais força nos empurre para uma solidão que tememos, que odiamos, mas a que Rilke, o inefável, nos arrasta.
Claro: há um respeito, mais do que respeito, paixão pelos mundos subterrâneos, absurdos, essenciais, os do Anjo da Morte, os de uma longa corte de Anjos Negros.
Mas, com força igual, nos solicita o Anjo da Vida, o da Esperança, o da Aurora, o das solidões povoadas, o de Rolland, o de Bertrand Russell, o de António Sérgio, o de António Quadros.
Demasiado real, todavia, é a nossa experiência do Absurdo, por demais e tantas vezes o temos visto assimilar-se com uma essência que supomos próxima ou idêntica da Verdade, para que não receemos os entusiasmos excessivos, as filosofias salvadoras, os messianismos tromba d'água, para que tenhamos de crer os caminhos da esperança mais reais ou verdadeiros que os do desespero.
Mas haja ou não haja razão, neste final de Maio de 57, o barómetro acusa bom tempo e, climaticamente, acreditamos em António Quadros, acreditamos em todos os que falam na fé, na certeza, na esperança de redenção social do homem.
Acreditamos, enfim, em Convívio. «Lirismo e psicologia têm os seus lugares» -escreve António Quadros. Mas se estivéssemos sós, nós, poetas, escritores, filósofos, artistas, homens, deveríamos baixar a cabeça e desistir de pensar, pois a dignidade do pensamento reside precisamente na transcenção, na fuga a este cárcere ensombrecido que é o eu.
No caso português, o lirismo não será uma fatalidade do nosso condicionalismo cultural ? Terá de considerar-se o lirismo uma doença estrutural ? Investigue-se a razão por que todos os dias aparecem «poetas líricos».
Poeta lírico é o homem que acorda, e o que pode o Jovem português, quando tantas ameaças o tolhem e espectralizam, fazer mais do que abrir os olhos e, de uma noite de séculos, acordar?
Mau grado a insatisfação que a tantos de nós provoca a onda lírica, teremos de continuar amarrados ao pélago inseguro mas ainda assim consentido do lirismo, do literatismo, do psicologismo, do subjectivismo. Como pode o jovem devotar-se aos grandes temas épicos de projecção futura, se o bloqueio, o assédio, só lhe criam e sobrepõem problemas e emblemas de inquietação?
Demasiado reais, esses problemas, para os meus irmãos do presente, para constituírem assim tão fantasmáticos entes do futuro. Congratulemo-nos que haja escritores para quem o menos importante de tudo seja a literatura. Mas lembremo-nos de que a literatura é ainda para muitos o único refúgio e a única vingança.
«Estamos no limiar de uma era sem precedentes na economia portuguesa», escreve António Quadros num artigo notável do Diário de Noticias, dia 9/5/57. A supremacia de uma pátria, contudo, como adverte António Quadros, não se baseia só no poderio económico mas também, acrescentamos nós, na equitativa distribuição das riquezas, pelo que me parece serem as teses de António Quadros completadas pelas de um cooperativista como António Sérgio; e na harmonia dos valores intelectuais.
Ora enquanto não descobrirmos essa nossa pedra filosofal, que é o cívico convívio de todos os intelectuais responsáveis, predipostos a uma empresa comum, não me parece que se consiga nada de estável nem de grandioso, entregue como está a nossa cultura às mãos de dúzias ou meias dúzias isoladas de homens que se hostilizam de grupo para grupo sem encontrarem, nunca mais, uma forma e uma plataforma de entendimento.
É neste futuro que acreditamos: quando todos os portugueses sintam que Portugal é a sua casa e, a maioria, não se veja obrigada a procurá-la em terras tantas vezes inóspitas, mas cujo acolhimento é talvez mais carinhoso. É preciso que nenhum português se sinta estrangeiro em sua própria terra. E só o movimento cultural que o conseguir dará corpo às profecias que o ano de 57 nos trás.
É esta também a profecia que nos achamos com o direito de buenadichar, como diria o Fialho.
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado em «Inventário», página do jornal «A Planície» que sucedeu a «Ângulo das Letras», 15-6-1957 ©