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Lisboa, 29/12/1991 - A unideologia não é capitalista mas retira do capitalismo toda a virulência (violência), todas as componentes do egoísmo, da inveja social, da luta darwiniana de classes, da conquista do lugar seguinte na rígida escala (escada) social. É o motor do consumo e de toda a produção capitalista.
A unideologia não é maçónica mas retira da maçonaria a aura entre secreta e discreta, os processos pretensamente ocultistas, e as ambiguidades daí decorrentes. Retira da maçonaria a aura de «mais forte» que tem sempre a organização clandestina ou semi-clandestina.
Não é católica mas da igreja católica retira o beatismo e a catequese típicas, a inerente hipocrisia, (não) dizendo à frente, só sorrisos, a punhalada que se dá pelas costas. Não é jesuíta mas retirou dos jesuítas o pragmatismo da erudição, da ciência prática, da investigação em alfarrábios e infólios que só raros, como Umberto Eco, dominam.
Não é comunista mas retira do comunismo a mestria, a magia da duplicidade, a arte de transformar a política em teatro, o requinte tecnológico das lavagens ao cérebro e, acima de tudo, o dom de fazer valer o que dá a alguém: a unideologia faz pagar, cêntimo a cêntimo, o que dá e toda a sociedade paga pelo minuto de «felicidade» que fornece a milhares de jovens e menos jovens.
A unideologia serve-se dos meios e personalidades mais qualificados (literatura, cinema, vídeo, televisão, fundamentalmente) para se infiltrar até à alma das almas dos leitores-telespectadores-consumidores. Nenhum filme e quase nenhum livro, hoje, fica fora deste controle e é, deste ponto de vista, inocente. Como nenhuma imprensa o é. Como, por maioria de razão, nenhuma publicidade.
A unideologia sabe usar de uma técnica «selectiva» extremamente fina. Abundam prémios, exames, concursos, competições -- e não é por acaso que a década do esplendor da unideologia se vê preenchida por metas fantásticas: mercado único, Lisboa capital da Europa, Olimpíadas de Barcelona, Feira Universal de Sevilha, Mundial de 98 (?) [alguém que complete esta lista sempre incompleta do Frenesim e da Histeria].
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A instabilidade em geral e a angústia psíquica em particular é, sem dúvida, onde a unideologia joga com maior entusiasmo para ter nas mãos as almas e as pessoas. Quando não é promessa de grandes metas, é a ameaça de grandes catástrofes (o jornalista sabe, por exemplo, que tem de repetir a expressão «consequências imprevisíveis» até à saciedade).
A unideologia só mente nas questões de fundo -- mas mente por duplicidade de sentidos, que por vezes propositadamente confunde com «nonsense» poético o com dialéctica filosófica.
A unideologia não aparece opressiva à primeira vista, mas liberal, liberalizante.
A unideologia joga nos bombons crocantes, como na marca de luxo do automóvel de luxo, como no detergente, com nos brinquedos , como na indústria Home Vídeo, como no clube do livro -- é tão vasta e tentacular a gama de interesses e negócios que bem se pode falar de «pluralismo liberal», desde que induza ao consumo -- e em saldo final ao consumo de consumos provocantes
A duplicidade da unideologia fica bem exemplificada com a imensa carga de demagogia que ela pode retirar, nos meios de CS, dos medicamentos, essa dádiva benfazeja e que aparece sempre como desejada, sempre ao lado dos alimentos nas remessas de caridade para o Terceiro Mundo. Não há tema mais desgraçado, mais ingrato, mais maldito, mais subversivo, do que a Iatrogénese.
É verdade: um dos atributos que caracteriza a unideologia é exactamente essa maneira hábil de destruir alguém, com subtileza, por insinuações indirectas, por teias de influências, por demorada projecção ao calor, etc., etc..
A unideologia não promove, evidentemente, que as crianças tenham serpentes de estimação no quarto -- mas peluches macios. Promove a macieza do gato . Ninguém gosta do áspero, do viscoso! (A unideologia sabe de psicologia e principalmente sabe de behavior -- a ciência-chave da unideologia.) É o óbvio ululante. E a unideologia não esquece as sensações mais óbvias, como não se esquece de promover o Doce, maldizendo o Amargo, o Salgado maldizendo o Ácido e o Picante maldizendo ...
Aí temos um bom exemplo onde a unideologia -- pelo behavior -- se instala em pleno (no) coração das pessoas, barricando tudo o que seja a dialéctica yin-yang (que prevê o convívio, o equilíbrio e a harmonia entre os 5 sabores!).
A unideologia, para lá da sua típica ambiguidade, é dualista e maniqueísta, evidentemente.☼☼☼☼