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<unideolª-10 ><leituras>*****A UNIDEOLOGIA VAI A TODAS, ESTÁ EM TODAS
A UNIDEOLOGIA É O POLVO
A UNIDEOLOGIA É INVENCÍVEL
Praia , 29/12/1991 - A unideologia não é capitalista mas retira do capitalismo toda a virulência (violência), todas as componentes do egoísmo, da inveja social, da luta darwiniana de classes, da conquista do lugar seguinte na rígida escala (escada) social. É o motor do consumo e de toda a produção capitalista.
A unideologia não é maçónica mas retira da maçonaria a aura entre secreta e discreta, os processos pretensamente ocultistas, e as ambiguidades daí decorrentes. Retira da maçonaria a aura de «mais forte» que tem sempre a organização clandestina ou semi-clandestina, tantas são as patifarias que lhe podem ser atribuídas sem delas ter que se atribuir a autioria.
Não é católica mas da igreja católica retira o beatismo e a catequese típicas, a inerente hipocrisia, (não) dizendo à frente, só sorrisos, a punhalada que se dá pelas costas. Não é jesuíta mas retirou dos jesuítas o pragmatismo da erudição, da ciência prática, da investigação em alfarrábios e infólios que só raros, como Umberto Eco, dominam.
Não é comunista mas retira do copmunismo a mestria, a magia da duplicidade, a arte de transformar a política em teatro, o requinte tecnológico das lavagens ao cérebro e, acima de tudo, o dom de fazer valer o que dá a alguém: a unideologia faz pagar, cêntimo a cêntimo, o que dá e toda a sociedade paga pelo minuto de «felicidade» que fornece a milhares de jovens e menos jovens.
A unideologia não aprova o crime gratuito mas justifica o crime necessário e embeleza-o, tem toda a produção fílmica, telefílmica e vídeofílmica para isso. Vd também a revista «Hola», mostra fabulosa da unideologia. Não incita ao crime mas não o evita. Crime por crime, há sempre, na rígida escala hierárquica da «organização», alguém que faça as tarefas de maior peso kármico. (E é aqui que a unideologia sofre a sua maior condenação moral -- nada contribui para aliviar a humanidade do seu peso kármico, antes pelo contrário).
A unideologia serve-se dos meios e personalidades mais qualificados (literatura, cinema, vídeo, televisão, fundamentalmente) para se infiltrar até à alma das almas dos leitores-telespectadores-consumidores. Nenhum filme e quase nenhum livro, hoje, fica fóra deste controle e é, deste ponto de vista, inocente. Como nenhuma imprensa o é. Como, por maioria de razão, nenhuma publicidade.
A unideologia sabe usar de uma técnica «selectiva» extremamente fina. Abundam prémios, exames, concursos, competições -- e não é por acaso que a década do esplendor da unideologia se vê preenchida por metas fantásticas: mercado único, Lisboa capital da Europa, Olimpíadas de Barcelona, Feira Universal de Sevilha, Mundial de 98 (?) [alguém que complete esta lista sempre incompleta do Frenesim e da Histeria].
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A instabilidade em geral e a angústia psíquica em particular é, sem dúvida, onde a unideologia joga com maior entusiasmo para ter nas mãos as almas e as pessoas. Quando não é promessa de grandes metas, é a ameaça de grandes catástrofes (o jornalista sabe, por exemplo, que tem de repetir a expressão «consequências imprevisíveis» até à saciedade).
A unideologia só mente nas questões de fundo -- mas mente por duplicidade de sentidos, que por vezes propositadamente confunde com «nonsense» poético o com dialéctica filosófica. Neste sentido, Agostinho da Silva e Miguel Esteves Cardoso são os dois filósofos portugueses da unideologia.
A unideologia não aparece opressiva à primeira vista, mas liberal, liberalizante. Até se pode opôr à moral católica, embora tenha atrás um banco da Opus Dei. A unideologia joga nos bombons crocantes, como na marca de luxo do automóvel de luxo, como no detergente, com nos brinquedos Chico, como na indústria Home Vídeo, como no clube do livro -- é tão vasta e tentacular a gama de interesses e negócios que bem se pode falar de «pluralismo liberal», desde que induza ao consumo -- e em saldo final ao consumo de consumos provocantes -- [tema que me ocupou muitas páginas nesse tempo remoto dos anos 70 -- segunda parte da década]
A duplicidade da unideologia fica bem exemplificada com a imensa carga de demagogia que ela pode retirar, nos meios de CS, dos medicamentos, essa dádiva benfazeja e que aperece sempre como desejada, sempre ao lado dos alimentos nas remessas de caridade para o Terceiro Mundo. Não há tema mais desgraçado, mais ingrato, mais maldito, mais subversivo, do que a Iatrogénese, o tal tema que me ocupou tantas páginas e lutas, antos recortes de jornais, tantos embevecidos artigos de denúncia. É impossível não pensar que muitos desses artigos fazem hoje parte de um dossier anexo à minha ficha, numa interpol secreta que a unideologia tenha como secreta polícia secreta. Seria preciso algo mais do que essa palavra mágica -- iatrogénese -- para a unideologia me olhar de esguelha, me gravar os telefonemas, e arremeçar contra mim todo o arsenal de ínvias perseguições!
É verdade: um dos atributos que caracteriza a unideologia é exactamente essa maneira hábil de destruir alguém, com subtileza, por insinuações indirectas, por teias de influências, por demorada projecção ao calor, etc., etc.. Acho que servi como alvo de modelo a uma técnica de perseguição e destruição sui-generis. Acho que, por ter procurado investigar os vários fios da unideologia, fui por ela contemplado com uma forma de destruição mais sofisticada.
[ Que faço eu aqui, se tudo aqui me expulsa daqui?]
A unideologia não promove, evidentemente, que as crianças tenham serpentes de estimação no quarto -- mas peluches macios. Promove a macieza do gato e Miguel Esteves Cardoso não poupou elogios às latas de «whiskas». Ninguém gosta do áspero, do viscoso! (A unideologia sabe de psicologia e principalmente sabe de BEHAVIOR -- a ciência-chave da unideologia.) É o óbvio ululante. E a unideologia não esquece as sensações mais óbvias, como não se esquece de promover o Doce, maldizendo o Amargo, o Salgado maldizendo o Ácido e o Picante maldizendo ...
Aí temos um bom exemplo onde a unideologia -- pelo behavior -- se instala em pleno (no) coração das pessoas, barricando tudo o que seja a dialéctica yin-yang (que prevê o convívio, o equilíbrio e a harmonia entre os 5 sabores!).
A unideologia, para lá da sua típica ambiguidade, é dualista e maniqueísta, evidentemente.☼☼☼