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AS ANÁLISES

E A AUTORIDADE DA TECNO-ESTRUTURA

22/8/1987 (in «A Capital» ) - Se se quer provar a presença de anti-corpos da sida no sangue do indefeso cidadão, o laboratório analisa e prova.

Se se quer provar a presença de medicamentos no sangue de um ciclista na Volta a Portugal em bicicleta, o laboratório analisa e prova.

Se se quer provar que a água de uma praia está bactereologicamente mais poluída de coliformes fecais do que outra do lado, o laboratório analisa e prova.

Em qualquer dos casos, no controle e prevenção da sida, no controle anti-doping ou no controle sanitário das águas ribeirinhas do Tejo, a análise é omnipotente, omnisciente, omnipresente, atributos, todos eles, de natureza divina.

Com efeito, a análise é Deus (mais um) e os laboratórios são igrejas.

O controle exercido pelos medianeiros - sacerdotes - é ele também omnipotente, omnisciente, omnividente.

Não admite outra autoridade, nem outra lei, nem outro juízo. A prova laboratorial não precisa de contra-prova porque vem da tecnologia, que é infalível, porque vem de organismos ditos científicos, que nunca se enganam.

O deus da medição (irmão gémeo do cálculo) tomou, de facto, conta da sociedade dita civilizada e ninguém pode nada contra essa autoridade sem rosto chamada Número.

As análises controlam mas ninguém controla as análises. «O estado sou eu» - pode dizer qualquer corpo de analistas que possua aquela arma.

Os laboratórios e quem os possui , agem como juízes soberanos onde o réu fica à partida pulverizado, reduzido a zero.

O caso do ciclista Marco Chagas, tricampeão da Volta a Portugal, não é assim um simples acidente de percurso, mas um caso exemplar que levanta um problema de fundo: a legitimidade ou ilegitimidade moral de um método que hoje se generalizou  nas sociedades-máquina que adoram o deus-número, o deus-cálculo, o deus-medição.

Se uma celebridade no mundo do ciclismo fica, apesar de celebridade, reduzida ao silêncio de uma condenação forçada, sem apelo de segunda instância e por mais que proteste a sua inocência aos órgãos de comunicação social que o entrevistam, o que acontecerá a centenas, milhares de cidadãos anónimos sujeitos à ditadura das análises falíveis mas consideradas infalíveis pelo sistema que as instaura no chamado «consenso dos cemitérios», quer dizer, sem vozes de oposição ou protesto?

É evidente que emerge aqui uma questão que deveria interessar os analistas (políticos) da nossa praça.

Tal como está e através do mecanismo chamado análise, o sistema tem maneira de julgar, controlar e decidir sobre o cidadão analisado, sem que o cidadão (testado) tenha qualquer direito de provar a sua inocência (caso exista) ou até a sua culpa (se também existe).

Quanto aos cidadãos portadores de anti-corpos do chamado vírus, o fenómeno poderá vir a ter uma extensão numérica maior do que o doping no ciclismo, ocorrência sazonal só de ano a ano de volta.

Mas o que está em causa é a tecno-estrutura que deixámos instalar, a título benemérito (defesa da saúde, por exemplo), a que nos submetemos passivamente e que, em nome do progresso, será mais um mecanismo de opressão num quadro de opressões interligadas como vasos comunicantes.

Em qualquer dos casos, o que está em causa é a tecno-estrutura (a medida, a análise, o laboratório, o cálculo,. o número) que usa o cidadão como objecto, dele faz um número (eventualmente a abater com a marca infamante de qualquer rótulo que a análise «provou») e sobre ele decide com poderes discricionários.

Análise bactereológica das águas, análise química da urina, análise de anti-corpos no sangue, a tecno-estrutura é autoridade absoluta e reina absolutamente, tem a primeira e última palavra, é tribunal de última instância.

Ainda não estamos no Gulag mas é assim, com tecnoestruturas bem deificadas (enquanto se reifica ou coisifica o ser humano) , tornadas deuses absolutos, que os Gulags se constroem.

Como Gabriel Marcel alertava, no seu ensaio «Les Hommes Contre L'Humain»

A Hitler só faltou, para que a tecnocracia posteriormente o absolvesse, instalar laboratórios de análises onde as SS provassem (sem hipótese ou possibilidade de contra-prova) que tinham 5% de sangue judeu, todos os encarcerados dos campos de concentração de Auschwitz, Buchenwald, Treblinka, etc.

À falta de deuses (talvez porque fosse matando quantos tinha) a sociedade civilizada ergue o ídolo da tecno-estrutura.

Com uma particularidade ultra-moderna: a música de órgão é fornecida por inspirados computadores.