1-3 - <schumach-3-ls> segunda-feira, 30 de Dezembro de 2002-scan

«SMALL IS BEAUTIFUL»

A LÓGICA ABSURDA DO CRESCIMENTO(*)

[revista «Come e Cala» , em 3 –12-1981 ] - As grandes concentrações urbanas, levando à fatalidade do monopólio, parecem ser uma componente imprescindível ao sistema imperial-monopolista, à esquerda, à direita e ao centro.

O sentido monopolista da história europeia nos últimos 150 anos explica:

- a tendência concentracionária das cidades;

- a mitificação da indústria fabril enquanto os campos e a agricultura se cobrem de desprezo.

O EXEMPLO MULTISSECULAR DAS CISTERNAS

No campo da água, essa tendência monopolista avassaladora compreende-se claramente através de exemplos brutalmente flagrantes: as cisternas, que foram, desde os árabes, um dos processos mais expeditos e ecológicos de armazenar água, insensivelmente (?) caindo em desuso à medida que a indústria consciencializava a sua própria ideologia de domínio e destruição.

A cisterna permitia a diversidade e a proliferação, portanto a independência e as alternativas individuais ao monopólio (no caso, o das Águas).

A cisterna poupava a água dos lençóis subterrâneos.

A cisterna foi acusada de não conservar a água em bom estado - que se deterioraria devido à falta de luminosidade - mas muitos sabiam que o «sistema veneziano» impedia esse inconveniente.

A cisterna passa à história.

E hoje, a sua versão moderna - a pequena barragem de terra batida - é igualmente omissa nos planos nacionais e regionais de desenvolvimento.

Já ouvimos um engenheiro acusar estas barragens de «criar muitos mosquitos», inconveniente ecológico de monta que evidentemente as desaconselha...

As pequenas e médias cisternas, tal como as pequenas e médias barragens, tal como as pequenas e médias cidades, tal como os pequenos e médios agricultores, comerciantes, produtores, não interessam ao sistema imperialista que sabe quanto ganha ao concentrar.

Nem que seja à custa da destruição ecológica da Terra.

Como provam as distâncias cada vez maiores - com furos artesianos cada vez mais fundos - a que se vai buscar a água para abastecer estômagos insaciáveis de cidades tentaculares como Lisboa, a lógica do Crescimento é absurda.

CRESCER CRESCER SEMPRE... COMO A RÃ DA FÁBULA

Ao falar da Fábrica Daupias - fiação de lã - a «Revista Universal Lisbonense» (14/Agosto/1851) tinha um bom exemplo para fazer o elogio da «indústria ao serviço da agricultura».

Embora a lã não venha propriamente da terra mas dos carneiros que nela pastam, era na época (1851) um exemplo da indústria que não arruina a terra mas fomenta um produto dela.

Uma indústria, aliás, que ainda hoje se mantém «simpática»: não só porque produz algo de essencial à vida humana - roupa - mas porque vai sendo também cada vez mais uma raridade em vias de extinção, face à invasora vulgaridade das fibras sintéticas.

Não deixa, porém, de ser claro que a «Revista Internacional Lisbonense» denunciava uma certa «má consciência da indústria relativamente ao campo, que os poderes públicos definitivamente tinham abandonado à sua sorte com a célebre pauta aduaneira de 1837, o princípio do fim, a data-chave, no crescente monopolismo da sociedade portuguesa, onde se enxertava a indústria como engrenagem que, século e meio depois, ainda procura devorar, como um cancro, todo o corpo social do País.

Lisboa foi, nesse corpo, o primeiro grande teste.

E quando em 1880 D. Fernando inaugurava a primeira estação elevatória de água a vapor - a dos Barbadinhos - era a consagração do monopólio, da concentração, das necessidades de um aglomerado cada vez mais exigente.

A água que desde os romanos era trazida de Belas-Carenque, a 30 Km da cidade, passava em 1880 a vir do Alviela (Olhos de Água) a 114 Km e em 1980 vem do Castelo do Bode, já a 200 Km.

Onde irá Lisboa, sempre a crescer, buscar a água daqui a outro século?

A 400 Km de distância, logaritmicamente, mas onde?

A BIPOLARIZAÇÃO EM 1865

As grandes opções do plano já se discutiam em 1865!

Num curioso artigo do «Archivo Pittoresco», Ignácio de Vilhena Barbosa dava conta dessa bipolarização que, um século depois, continua vigente e quase sem alterações.

Apenas com alguns fracassos no caminho percorrido por um dos contendores: pelo que ouvimos aos ideólogos representantes da indústria, ainda existe muita gente no campo, pelo que o objectivo estratégico lançado pela pauta aduaneira de 1831 - e respectiva política proteccionista - não terá conseguido os êxitos que pretendia na literal liquidação da produção agrícola.

Tratava-se - diz Ignácio de ViIhena Barbosa - «de designar a vida ou ocupação que convinha a Portugal».

E acrescenta o arguto cronista:

«Uns optavam pela indústria agrícola, dizendo que uma Nação, que a Providência colocara em um país tão fértil (...) devia ser, tinha obrigação de ser, essencialmente agrícola.»

«Outros, vendo que a indústria fabril era a feição mais proeminente deste século, prognosticando que ela seria em breve o mais poderoso elemento da civilização e a par disso crendo que as nossas ricas províncias ultramarinas não tardariam a constituir-se em grandes mercados de consumo para os produtos industriais da metrópole, opinaram em favor deste ramo da indústria.»

Era a bipolarização.

Era o monopolismo industrialista de vento em popa.

Era fazer de Lisboa o concentracionário fabril de manufacturas que as «colónias» depois sugariam em troca das matérias-primas que de lá viessem.

Era o sonho imperial típico de século XIX, mas típico ainda do século XX.

Porque o mesmo ou maior desprezo pela agricultura, pelo «primado da agricultura» se continua a ouvir e a perceber, através dos discursos mais ou menos inflamados da mesma ideologia.

A diversidade dos campos - pequenos e médios agricultores, pequenos e médios aglomerados - já se visionava nessa época como o principal obstáculo à massificação monopolista que assumia o nome do Progresso e, posteriormente, os de crescimento ou desenvolvimento.

Afonso Cautela

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(*) Este texto de Afonso Cautela, só muito remotamente inspirado em Schumacher mas que pode ficar incluído na série, foi publicado na revista «Come e Cala» , em 3 –12-1981☼☼☼