1-2<95-01-11-ie> <retro-3> <chave> - mein kampf 11/1/1995 - notícias da frente

EIS PARA MIM A ÚNICA DEFINIÇÃO DE ECOLOGIA

11/1/1995 - Tem razão o deputado e advogado Almeida Santos: se eu me tivesse dedicado à ecologia que ele advoga, outro galo me teria cantado. E outra fortuna iria deixar de herança à minha filha. Assim só lhe vou deixar uma estante cheia de papéis, muitos deles restos do que resta da «Frente Ecológica» e do Movimento Ecológico Português, mais tarde abarbatado, por assalto à mão armada, pelo partido verde que o PCP resolveu produzir em noite de lua cheia. Quiçá, talvez estivesse de galo, no poleiro de S. Bento, a mandar vir contra Cavaco, ou a mandar vir contra Macário Correia, e sempre, sempre ao lado do povo que é representado pelo partido da CDU, «Os Verdes». Ou pelo CDS, tanto faz, agora que o discurso de Monteiro é igual ao do Cunhal e o do Cunhal igual ao do Monteiro.

Tem razão Almeida Santos em desaconselhar a menores de 18 anos como eu, a «deep ecology» ou ecologia profunda, isso a que chama fundamentalistas, os quais, como está cientificamente demonstrado, tanto têm contribuído, tal como os reformistas, para deixar tudo na mesma.

Lá nisso tem razão: todos os ambientalistas, mais radicais ou mais reformistas, mais protestatários ou mais conformistas, todos têm concorrido para deixar tudo na mesma: porque é esse o seu papel higiénico no processo histórico, e porque, enquanto a lógica do sistema actuar, é óbvio que nada muda nunca um cagagésimo de milímetro.

Tem razão, dr. Santos, muita razão, e se eu lhe tivesse dado ouvidos, em 1965, quando enveredei pelas ínvias veredas do ecologismo radical, a que chamei «eco-realismo» ou «realismo ecológico», com todos os democratas à perna, - e ainda não tinha nascido a ninhada do Miguel Esteves Cardoso - se eu lhe tivesse aceitado os maternais conselhos, não teria sido o falhanço rotundo que foi a minha vida, a minha carreira, a minha profissão, as minhas edições «Frente Ecológica», o meu jornal «Frente Ecológica», a minha biblioteca «Frente Ecológica». Teria tirado um curso bastante superior como qualquer pessoa normal e ambiciosa, teria arrancado ao Poder um naco de poder que hoje estaria roendo - e lambendo-me - e hoje não estaria para aqui atirado aos bichos, sem carreira, sem futuro, sem passado, sem felicidade, sem livro de cheques, sem ordenado de deputado, sem sequer a paz de alma que dá a gente ter-se acolitado no regaço dos poderosos.

Se eu tivesse ido para a Universidade de Almada tirar o curso de engenheiro do Ambiente e aprendesse como se fazem estudos de impacto ambiental, escusava hoje de andar nestas ruas da amargura em que me consumo e peno, todo eu tremores e temores de vir para aí um ecologista nova vaga, ainda mais retinto do que o Dr. santos, a dar-me tau tau no toutiço, ou a mandar-me fechar os botões da braguilha.

Ah! Como eu fui estúpido em não lhe dar ouvidos, em não ter ido procurá-lo à saída da Assembleia da República, em não ter seguido à risca os relatórios do Macário Correia sobre os perigos do tabagismo, logo coadjuvado por Beja Santos, que também é anti-tabagista primário, as ironias geniais do genial ecologista Miguel Esteves Cardoso, a tecnocracia competente do Delgado Domingos, o reservadorismo dos parques do Fernando Pessoa, ou, quiçá, os aninhadores de abutres da Quercus, que sucedeu em força à Helena Vaz da Silva, que, a fazer excursões, ganhou o direito a entrar, de pescoço erguido e rabo alçado, no Parlamento Europeu. Mas houve alguém - pergunto eu - que à conta da Cultura não tivesse conseguido a sua quota de Poder, neste trânsito de 20 anos que deram para tudo menos para reduzir a miséria e dar casas decentes a quem delas precisa?

Eu pergunto se o modelo de desenvolvimento em 1945, não é o modelo de 1955, de 1965, de 1975, de 1985, de 1995 e se não está tudo - com gritos de amor ao ambiente e ao património, e cursos nas Universidades Novas e discursos nas presidências abertas - a defender o mesmíssimo modelo que defende - com a sua pronúncia tão correcta como um faval - o Mira Amaral, o Ferreira do Amaral, o primo do primo do Amaral, o Veiga Simão, o Álvaro Barreto, o próprio Valente de Oliveira que fala em «small is beautifull» com um cinismo enorme, mesmo o Paulo Portas, que tem a suprema característica de, na sua enciclopédica análise política, não ter tido ainda a oportunidade de pronunciar a palavra oracular que todos esperamos sobre modelos de desenvolvimento. Ele - recorde-se - teve o supremo privilégio de ser considerado, à força, um homem de esquerda pelo Mário Castrim, que por isso mesmo e por ser de esquerda está muito bem onde está. Aliás, a palavra desenvolvimento já leva no bojo tudo o que tem a levar, poluições inclusive, depredação do ambiente inclusive, desperdícios e voragens inclusive, corrupções & Corrupções inclusive, entropias e parlapatices inclusive, canalhices e moderadas vozes de moderados moderadores de debates com o Miguel Sousa Tavares, a fingir-se indignado, à perna.

Tem razão o Dr. Almeida Santos. O paraíso do poder está-me vedado e tudo porque não quis acatar os seus cautelosos conselhos. Por isso e enquanto respirar pelas saídas lamelibrânquicas de que me foi dotando este regime democrático, irei pesquisando papéis antigos, onde falei do sistema que vive de ir matando os ecossistemas. Já tinha desistido, já tinha enfiado a merda da papelada ecologista no buraco da escada, mas agora, que a Eugénia me vem visitar para me fazer perguntas sobre a «Frente Ecológica», não só vou vestir camisa branca lavada como reteclar páginas de um diário, onde pus os fundamentos do meu fundamentalismo, já que criminoso e cúmplice de criminosos é que nunca conseguiram fazer de mim. Estes files <retro> darão acolhida a que tais textos de pouca monta, que têm o grande defeito de chamar criminosos aos criminosos.