<reciclag > os dossiês do silêncio
ADIAR A DEMOCRACIA
[ 8/2/1991] - Levar às últimas consequências uma política de reciclagem sistemática e de reaproveitamento dos desperdícios e detritos, fazendo com todos os materiais do lixo e da poluição o que em Portugal apenas foi feito, de forma unilateral e demagógica, com vidros e vidrões, é não só a pedra angular de uma política ecológica mas também, e consequentemente, a demonstração de uma vontade política para democratizar a democracia.
Uma política de reciclagem, com efeito, ao inverter, fundamentalmente, os pressupostos de desperdício em que assenta a estranha economia que temos, tenderá, a médio e longo prazo, a inverter (a subverter) os fundamentos em que assenta essa economia. Por isso se lhe chamou a «revolução pacífica».
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Na reciclagem assenta qualquer política de diversificação energética, antes mesmo de estar em vigor uma estratégia que fomente e desenvolva todas as formas renováveis de energia e de tecnologias leves. Na perspectiva do realismo ecológico, o «lixo» é a primeira e grande fonte energética de um país. No caso particular do «lixo orgânico», a produção de biogás a partir de excrementos animais assume a dimensão de um símbolo e de um ex-libris para qualquer política verdadeiramente ecológica, e portanto democrática, que nada tem a ver com a demagogia reformista da antipoluição.
Sinais de que a democracia portuguesa não avançou na sua democratização, são os vários projectos de energias limpas e tecnologias leves que foram silenciados, abandonados, caídos no esquecimento, por vezes cínico, dos serviços. Em vez de uma política de fomento das alternativas ecológicas, assistiu-se a uma estratégia do embuste, metendo na gaveta os poucos projectos de investigação e desenvolvimento de energias renováveis, que primeiro estiveram em «stand by» na Direcção Geral de Energia e depois no LNETI, onde se afundaram de vez. Projectos-piloto abandonados, sob as alegações mais ridículas, foram as unidades de biogás instaladas no Instituto Superior de Agronomia e no Jardim Zoológico de Lisboa.
Quando a EDP diz que vai «descentralizar» a produção energética, porque electrifica «remotas aldeias do nosso país», é pura demagogia, porque nunca foi descentralizar e muito menos diversificar o alargamento de um «centralismo energético», por mais ramificações e tentáculos que tenha. Descentralizar e diversificar é outra coisa: dar autonomia e autosuficiência de produção energética a indivíduos, comunidades e países através das tecnologias apropriadas que o ecologismo defende. O resto é demagogia e bastante feia, diga-se de passagem.
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[Cooperativismo e moral energética] Por estranho que pareça, em 18 anos de democracia não foi ainda criada uma cadeira de «cooperativismo» nas escolas de qualquer grau de ensino. E se essa omissão se verificou com uma das «tecnologias apropriadas» que, apesar de tudo, teve um clima de maior aceitação do que qualquer outra, é de concluir a pouca ou nenhuma atenção que foi dada às tecnologias apropriadas menos conhecidas e com menos tradições e experiência no terreno.
O cooperativismo, enquanto técnica de «self government» como António Sérgio preconizava e pela qual tanto batalhou, conflui, sem dúvida, no grande rio das preocupações ecológicas e, portanto, na construção de uma sociedade mais livre e democrática. Com todos os riscos e erros de um movimento que o Poder raramente tolera ou ajuda, é isso que torna o cooperativismo um irmão privilegiado da convivialidade ecologista, uma nova prática para educandos e educadores: dir-se-á que pode haver cooperativas fazendo agricultura química, assim como há cooperativas fazendo agricultura biológica, e que a ecologia não é condição sine qua non do cooperativismo.
Mas o cooperativismo é, pelo menos, condição facilitante de práticas agrícolas (mais) ecológicas, menos inviáveis ou mesmo impensáveis no seio de uma agricultura estruturada no sector capitalista, privado ou do Estado. Como todas as práticas de self-government democrático, o cooperativismo não obriga mas facilita e estimula as práticas coerentes de autosuficiência que são as práticas ecológicas. A estrutura associativa do tipo cooperativo encaminhará, a médio e longo prazo, para soluções ecológicas a lógica das explorações, se nelas se mantiver a escala humana. Todas as realizações de dimensão humana como o cooperativismo, conduzem tarde ou cedo a soluções ecológicas, ou de racionalização energética global, e foi principalmente esta dimensão humanista, esta função educativa o que atraiu António Sérgio para o movimento.
Ao cooperativismo agrícola, nomeadamente, abre-se um campo infinito de potencialidades, por enquanto ignoradas, quanto ao reaproveitamento metódico dos desperdícios e detritos orgânicos. A produção de biogás por excrementos de pocilgas e vacarias é um exemplo que se deverá divulgar até ao infinito. Mas dezenas de outros reaproveitamentos apontam para uma economia energética de escala humana. A reciclagem de materiais e desperdícios é a economia energética por excelência, a definição de actividade ecológica. Quando se procura o máximo de benefício no mínimo de desperdício, quando não se transforma o lucro (e portanto o desperdício, e portanto a poluição) em motor da economia, a reciclagem resulta uma técnica ou solução ecológica. Uma tecnologia apropriada por excelência.
Entre os silêncios e silenciamentos que, em 18 anos, mais contribuíram para atrasar a democracia económica e a democracia real no nosso país, deverá citar-se o que foi exercido sobre o biogás em particular e sobre todas as acções de reciclagem em geral. Ora desenvolver as tecnologias apropriadas é desenvolver a democracia e por isso a essas tecnologias se chamou também «tecnologias democráticas».
Os poucos sinais que apareceram no sentido de dar força e vigência às tecnologias democráticas, apagaram-se e nunca mais ninguém ouviu falar deles. O projecto para uma unidade de biogás, anunciado em 1978, no Montijo, principal centro de abate de suínos do País, com toneladas de matéria-prima - que de outra forma, sob a forma de poluição, transforma este concelho no mais poluído do país, é exemplo do muito que podia e devia ser feito para a democratização real e profunda do regime, mas que a rotina do deixa andar e dos interesses criados logo jogou no caixote do esquecimento e das coisas eternamente adiadas.
Mas adiar as tecnologias ecológicas, democráticas e apropriadas é adiar a democracia.☼☺