1-1- <71-08-05-di> domingo, 5 de Janeiro de 2003-scan

PROSPECTIVA

E «REVOLUÇÃO CULTURAL» (*)

5-8-1971

No nosso tempo de realizações e de esperanças, quando a via de libertação dos oprimidos ficou revelada e comprovada, pode, no entanto, o entusiasmo mesmo dessas partes de um êxito e de uma Revolução fazer esquecer a totalidade indispensável, necessária, também urgente da Revolução.

Prospectiva procura o método que sirva para a complexidade dos tempos modernos, que são já os futuros. O método que, valorizando e reconhecendo Che Guevara, Mao, Fidel, os revolucionários da acção e da prática, da guerrilha e do movimento de massas, valoriza e reconheça e integre os revolucionários da vida interior, do indivíduo do enriquecimento afectivo (isto é, humano).

Não negar tudo o que o nosso tempo pode ter conquistado para a Revolução, mas conseguir uma velocidade e simultaneidade de pensamento que, fazendo-nos atentos a um lado (a revolução tri-continental, p. ex) nos não faça esquecer e ridicularizar, ignorar ou hostilizar o outro (a revolução naturopática da Medicina, por ex ).

Prospectiva procura o método de novos métodos e, se a dialéctica nunca chegou a ser praticada como método de pensamento a Prospectiva procura efectivá-la. É necessário, é urgente, é indispensável.

Num fenómeno de ordem humana intervém factores diversos que é preciso coordenar na sua reciproca, múltipla, complexa simultaneidade, - quando ainda as nossas ferramentas de trabalho intelectual apenas nos permitem pensar a parte e não as partes "em sustentação recíproca". Por isso, ao mesmo tempo que reconhecemos a revolução, de Che, ignoramos a revolução de Louis Pauwels, Louis Armand ou Jean Fourastié, a crítica da tecnologia, a crítica das mitologias que se apresentam, mistificatoriamente em nome do Progresso, a crítica das ideias de Futuro que só servem interesses reaccionários do Presente.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, terá ficado inédito, entre os muitos que sobre prospectiva escrevi neste ano-charneira de 1971